Eu uso máscaras a todo o momento e nesta época de isolamento social tenho refletido sobre como será quando a pandemia acabar. Sim, quando tudo voltar ao “normal” porque acredito que as coisas irão se organizar novamente, mas não sei se posso dizer que tudo será como antes. Agora me escondo sob as máscaras de proteção, de pano, de feltro ou de acrílico. Feias ou bonitas, sustentáveis ou decoradas. Se eu quiser posso não sorrir que poucos perceberão, também posso desdenhar de algumas opiniões já que não verão a minha boca se contraindo. Aos mais sensíveis, meus olhos revelarão minhas expressões mais íntimas, aos demais, a máscara física me encobrirá. Entro nesta primeira segunda-feira de maio na oitava semana de isolamento e por aqui muitas máscaras caíram, outras começam a ruir. Sinto que as energias que atuavam fortemente para evitar que determinadas emoções e comportamentos emergissem tem se exaurido, porque tem faltado espaço para me esconder. E junto do cansaço as máscaras também caem. Está difícil não demonstrar medo, irritação, discordância, pânico, desanimo. E, sinceramente, isto tem me feito tão bem! Parece que tenho tirado uma tonelada de peso das minhas costas, esvaziando minha mochila cheia de “máscaras” desnecessárias. Que delicia poder extravasar e demonstrar, além de não conseguir esconder, agora temos a desculpa de que são os efeitos da “quarentena”, e que tudo e todos estão perdoados. De qualquer forma, é bom demais, poder mostrar um pouco de quem eu sou de verdade, sem precisar fingir, enganar, atuar, sorrir! Mas, é claro que nem tudo são flores porque tenho inúmeros defeitos e sentimentos não aceitos em nossa sociedade e quando os expresso me sinto frágil, fraca, vulnerável (ainda não sei entender muito bem minha vulnerabilidade) e sinto que ninguém mais vai me amar. Já aprendi com a mente racional que se trata da minha criança interior ferida e rejeitada que ainda pede por ser amada, aceita e reconhecida. Porém, nestas horas de conflito interno, meu coração ainda não aprendeu a acolher esta pequena na sua totalidade e ainda tenho um longo percurso a limpar nesta jornada de cuidar da “Ana Banana” (nome carinhoso da minha criança interior!) que chora e se debate na “estrada”…
Tenho passado muito tempo sozinha com minha filha de três anos, pois meu marido trabalha na área da saúde e intensificou seus plantões neste momento. Esta “imersão em educação” me fez passar por muitos espaços. Primeiro, por um desespero avassalador por achar que eu não conseguiria sobreviver, nem descansar, nem dar conta das atividades de casa e do trabalho. Um terror em pensar que estaria com minha filha 24 horas por dia e desesperada por não conseguir estar presente e estabelecer uma conexão saudável entre nós. Depois, com o passar do tempo, fomos acessando outros espaços em que fui incluindo a menina nas atividades e buscando algumas frações de tempo para mim. É querida leitora, se você é mãe me entende e sabe que expectativas altas causam frustração, aprendi a valorizar cada instante em que posso me cuidar e me ver, no meio do dia para não explodir “tanto”. E está sendo tão aterrorizante ver que, ao mínimo sinal de minha raiva, minha filha já percebe que vou me descontrolar. Sim ela parece uma “antena captadora de emoções” que sente a minha mudança de comportamento, acho que até antes de mim. Penso que na realidade é e sempre foi assim com as crianças, acredito que elas são muito sensíveis e a sua percepção é inexplicável aos céticos, no entanto, agora tenho tido tempo e oportunidade de ver com os olhos do coração. Bom, digo aterrorizante porque imagino como será após voltarmos para a nossa rotina “normal”. Quando o isolamento acabar com que máscara eu vou? Como irei me esconder? E será possível me encobrir depois de tanta revelação? E a pergunta que acho mais importante: Eu quero mesmo me esconder? Se foi tão bom me revelar, quem me amar vai permanecer! E os pequenos, eles não vão embora nunca, eles estão ali firmes, prontos para nos apoiar e nos amparar. Logo nós, adultos, cujo papel é cuidar e proteger. Minha filha sente minha dor e de imediato ela diz que me ama e que me adora, é como um abraço bem forte que ela me dá, ela sabe como me acolher, como cuidar da minha dor, coisa que nem eu sei fazer direito ainda.
Eu acredito que um mundo melhor está por vir. Penso que estamos vivendo um marco histórico e que ninguém sairá ileso, ainda que não seja contaminado pelo tal vírus. Nossa estrutura interna e externa se alterará de formas ainda não vivenciadas. Até pouco tempo eu acreditava que era preciso viver “papeis” na vida e que estes personagens nos permitiam sobreviver aos eventos diários. A maternidade e isolamento me mostram e me revelam a cada dia que as máscaras são desnecessárias, eu sinto que ao me desmascarar eu me mostro e que me mostrando eu me vejo e que somente aí eu tenho a oportunidade de me ressignificar. Hoje, acredito na “cara limpa”, no coração vivo, nos sentimentos à flor da pele e ao me enxergar sem filtro, vejo muita dor, raiva, imperfeição, mas vejo também muita força para renovar, mudar, agir. Assim, quando a quarentena acabar de máscara é que eu não vou sair!
SOBRE A AUTORA:
Ana Blasi, Mãe da Flávia, Participante da Turma 9 do Zum Zum de Mães e apaixonada por educação e conexão.
IG @blasi_ana
E-mail: [email protected]
A quarentena e toda a complexidade que estamos vivendo no mundo devido à pandemia, chegou inesperadamente e tirou o chão de todos.
Eu que há dois anos optei por não ver os noticiários por absorver demais as notícias ruins, só tive dimensão do que estava acontecendo quando a escola da minha filha suspendeu as aulas.
Meu marido e eu trabalhamos juntos e nosso horário era cronometrado com o da escola da nossa filha, tínhamos tudo sob controle. Não ter escola pra ela, para nós podermos trabalhar normalmente, foi o primeiro gatilho pra mim.
Fiquei aflita e dividida entre o desejo de cuidar dela de perto num momento como esse, ao mesmo tempo em que me afastei do trabalho, cheia de preocupações pois desempenho uma função de confiança e meu trabalho não teve opção de ficar em home office.
Naturalmente, não ter o controle sobre os acontecimentos me deixou angustiada, com a mente agitada, pensando em mil possibilidades negativas diferentes. Como em geral são os pensamentos que geram as emoções, consequentemente meu campo emocional sofreu um grande impacto, trazendo à tona as mais diversas emoções negativas, como o medo, insegurança, tristeza. Quando todo planejamento se torna ilusório, nossa mente fica perdida e isso reflete nas nossas emoções.
Percebo que na minha vida o medo é a emoção mais predominante, e sempre que ele vem sinto-o em meu corpo todo, ele começa no meu plexo solar, que é a região da barriga e estômago, traz uma onda de mal estar físico generalizado e uma angústia se instala em meu peito.
Quanto mais angustiada eu fico mais pensamentos negativos eu produzo, e quanto mais pensamentos negativos mais angústia. Esse é o ciclo do medo no meu corpo.
Essas sensações que experimento em meu corpo dizem algo sobre mim, esse contexto inesperado que traz esse medo, me faz reviver sensações físicas e emocionais que eu já vivi antes, possivelmente na infância, e de certa forma elas vêm para serem olhadas e integradas. Se ignoro a mensagem que há por trás desse medo, por exemplo, perco uma grande oportunidade de me conhecer melhor, de saber sobre o que sinto, de conhecer meu corpo e quem sou de verdade além dessas sensações. Perco uma grande oportunidade de cura através do autoconhecimento.
Mas sinto que no momento em que estou com meu corpo nesse colapso nervoso, primeiramente preciso sair desse estado, distraindo minha mente, trocando esses pensamentos por pensamentos mais positivos, movimentando meu corpo, mudando minha mente do lugar ilusório do passado ou futuro, e trazendo para o presente.
Tenho me sentido assim por diversas vezes durante essa quarentena, precisando lidar com minha mente o tempo todo, e por muitos momentos quando me dou conta já perdi o controle dela e meu corpo está paralisado no estado que descrevi acima. Às vezes, melhora rápido, às vezes fica um dia todo ou até mais em meu corpo… como tenho dito: dias bons, dias ruins. Ainda bem que nós, mães, pais, estamos acostumados com essa realidade na maternagem, de certa forma nos ajuda a lidar.
Quando nossa mente está preocupada com o que há de vir, está atuando no futuro, fora do presente, que é o único momento que realmente existe. Porém, estamos tão treinados a viver no futuro que pelo automatismo do nosso inconsciente não conseguimos sair de lá tão facilmente quando nos deparamos com algo que tira nosso controle e planejamento, e que desperta pensamentos e emoções negativas em nós, como é o caso do momento que estamos vivendo.
Desde cedo nos ensinaram que temos que pensar no nosso futuro, em ser “alguém na vida”, e não trago isso de forma negativa. Só quero chamar a atenção para as convenções que nos ensinaram desde sempre a focar no futuro, que colocamos nossa felicidade nele, nossa realização, nossa paz. Porém, só temos o presente, e num momento como esse podemos olhar pra isso com mais consciência e rever alguns conceitos. Estou tentando fazer isso.
Mas creio que o medo do futuro seja inevitável, e por mais que tentemos evitar, os pensamentos fatalistas estão vindo. As crises emocionais estão vindo. O medo de morrer, de perder alguém que amamos, nossos filhos, nossos pais… Sabemos que muitos já perderam e estão sofrendo seu luto nesse momento, estão lidando com a morte e seus mistérios.
Eu tenho lidado com o medo da morte diariamente, me questionado por que vim pra esse mundo, o que estou fazendo aqui, qual o propósito disso tudo, por que dói tanto perder um ente amado ou somente pensar nessa possibilidade, por que a morte é esse grande enigma e nos assombra tanto. E tudo que eu sei é que não tenho nenhuma resposta exata pra nenhuma dessas perguntas.
Como eu disse acima, não existe resposta exata para a maioria dessas perguntas existenciais, não existe fórmula mágica para lidar com nossa mente, nem com nossas emoções.
Entendo que o medo do futuro e da morte são reflexo da falta de confiança, de fé no que vem depois. Quando penso que a natureza é farta e sábia e não deixará faltar o necessário para que eu sobreviva, eu fico em paz. Quando penso que mesmo depois que eu morrer, eu continuarei vivendo, eu fico em paz. Quando penso que antes de ser minha, a minha filha é filha de Deus, e eu fui apenas um canal pra que ela estivesse aqui, eu fico em paz. Quando penso que se minha filha morrer antes de mim, isso já estava acordado entre nós antes de virmos pra cá, eu fico em paz. Quando penso que não há separação, pois somos todos parte de um Todo, e de certa forma sempre estaremos juntos, eu fico em paz. Quando penso que existe uma Inteligência cuidando de tudo que não podemos entender, eu fico em paz. Quando penso que essa mesma Inteligência, que pra mim é Deus, está comigo, eu fico em paz.
A dor muitas vezes é inevitável, mas se tivermos paz pra lidar com ela, tenho certeza que será mais leve. Por isso que em minhas orações eu não peço pra entender, eu peço para ter paz para aceitar aquilo que não posso entender, e assim eu sigo.
A forma que eu encontrei de ficar bem foi estruturando essas crenças na minha mente, e confiando no mistério da vida. Funciona em boa parte do tempo, nas outras estou vivendo os emaranhamentos da falta de confiança, que geram os estados que citei, afinal sou humana e a vida não é uma linha reta.
Se posso te dizer algo é que encontre as crenças que te tragam paz, assim como eu encontrei as minhas. Na hora do colapso nervoso, o que me traz para o presente é pedir um abraço apertado pro marido ou pra filha, rezar e chorar no chuveiro, meditar, respirar, respirar, respirar, rezar antes de dormir, alongar, mudar o pensamento, encontrar um lugar interno de paz, um lugar que amo estar e pra onde posso ir quando eu quiser e precisar. Brincar com minha filha com conexão, fazer uma comida gostosa com atenção plena, comer algo que gosto, organizar a casa com atenção plena, colocar uma música que eu amo e sei a letra e cantar junto bem alto, dançar. Esses dias tirei da prateleira um CD da Ana Carolina e cantei todas as músicas a plenos pulmões… eu tinha me esquecido de como amava fazer isso, e me fez tão bem! Me tirou de um estado deprimido que estava fazia dias.
Nessa quarentena, assim como na vida, encontre aquilo que te nutre, te faz bem, te ajude a voltar para o aqui agora, te ajude a ter confiança na vida e no que vem depois, te enche de paz mesmo quando fora tudo é guerra. Eu também estou nessa busca com você, e sei que isso se estenderá enquanto respirarmos, pois isso é a vida!
SOBRE A AUTORA:
NATALIA CAMILA DA SILVA
33 anos, mãe da Olívia de 4 anos, Participante da Turma 5 do Zum Zum de Mães, Funcionária Pública, Gestora de Recursos Humanos, adepta do Sagrado Feminino. Escreve para elaborar suas emoções, só de escrever se sente mais leve e mais inteira.
IG: @natycamila87
O momento em que estamos é certamente muito desafiador e porque não apavorante. Não temos dúvida de que este vírus o tal do COVID-19 ameaça a saúde pública e devemos nos preparar para passar por ele com o mínimo de efeitos negativos.
Porém, neste emaranhado de informações, textos, vídeos de aulas, depoimentos e relatórios médicos me pergunto sobre a importância que damos as coisas somente quando elas tomam grandes proporções, quando a mídia nos força a acompanhar toda esta situação, e quando sentimos medo real de algo que possa afetar a nossa família. Mas, como lidamos com isso junto às crianças? Como e quando falamos sobre o medo que sentimos com e para elas?
Observo como lido com isso e penso em maneiras de auxiliar a minha filha a trabalhar este sentimento tão pouco falado. NÃO NOS PERMITIMOS SENTIR MEDO. Sempre pensei que o medo me tornaria fraca e frágil, suscetível a tudo, achava que sentir medo me colocaria numa posição de vítima a ser salva.
Neste contexto, compramos todo o álcool gel do mercado, não andamos de ônibus, não vamos a festas e tomamos outras medidas protetivas, mas não falamos sobre o medo que estamos TODOS sentindo. E claro, é muito importante que façamos tudo isso a fim de auxiliar a saúde do coletivo a se recuperar. Mas estamos nomeando tudo isso para os nossos pequenos? Ou estamos somente fazendo um “experimento” sobre como eles devem lavar as mãos? Explicamos sobre o vírus, mas falamos pra eles que também estamos com medo?
Estamos seguindo todo o protocolo de cuidados e achamos que assim sairemos ilesos, nos colocamos numa posição de defesa e falamos que não fazemos parte de um grupo de risco então está tudo bem? Mas está tudo bem mesmo? Porque deixamos de falar sobre o que sentimos para eles, sendo que eles já estão sentindo tudo isso e isso (sentir e não saber do que se trata!) os deixa bem mais angustiados!
Sinto ainda que nos colocamos numa postura defensiva onde não nos deixamos expressar este medo real, temos medo de sentir medo e tudo fica embolado. Sabe, moro numa cidade rural há uns 20 km de distancia do trabalho que fica numa cidade mais movimentada.
Quando estou em casa, no meu bairro, a vida tem seguindo normalmente e o medo não é tão forte, aí eu até relaxo, muitas vezes esquecendo deste assunto mundial. Quando volto ao trabalho, tudo muda, e a minha calma se esvai, começo a conversar com as pessoas e saber das notícias, dos relatos, então meu coração vai disparando, vou ficando ansiosa e sinto este medo: o medo de entrar em pânico e de não dar conta de sustentar e tranquilizar a minha filha.
Volto pra casa e tento “fingir” que nada está acontecendo, mas não temos como fugir do que está em nosso corpo, pois o medo vai dando sinais e escapando quando não percebemos, isso se não nos apropriamos dele.
Ontem fui lavar as mãozinhas de minha filha porque tinha brincado com tinta. Subimos no banquinho perto da pia e aproveitei a situação para explicar sobre a importância de lavar as mãos neste momento já que temos aí pelo ar, um bichinho, chamado vírus que passa de um pro outro pelas nossas mãozinhas e boquinha.
Neste momento, senti um friozinho na barriga pois os olhinhos dela foram ficando estáticos, brilhantes e vi que ela estava sentindo medo, ela estava projetando a minha angústia, o meu pânico e eu fui ficando insegura em falar sobre este assunto.
Mudei de tema, lavei as mãos dela e fomos comer. Depois deste episódio fiquei pensando em como movimentar em mim o medo para que eu possa ser porto seguro e permitir que ela também o sinta com segurança e que este “amigo medo” seja nomeado e colocado em seu devido lugar.
Enfim, esta reflexão me fez perceber que não tenho como amparar a minha filha se não permitir que ela sinta aquilo que seu corpo está manifestando, assim como eu me permito sentir. Ser exemplo e educar por exemplo, é ser o mais autentica possível, é estar conectada com o meu eu essencial, é sentir e expressar. E estes movimentos, muitas vezes sutis, são partes do nosso coração e não da nossa mente. Sejamos, portanto, porto seguro, onde nossos filhos possam navegar neste mar de emoções que nos envolvem e aprendem a cada dia a transitar como ondas, pelo oceano da vida!
Sobre a AUTORA:
Ana Blasi, Mãe da Flávia, Participante da Turma 9 do Zum Zum de Mães e apaixonada por educação e conexão
@blasi_ana
Em tempos de agrotóxico, quero falar das abelhas, em tempos de certezas absolutas sobre a maternidade, quero falar de um curso de mães que se chama “Zum Zum de Mães”.
A colheita chega a nossa mesa como num passe de mágicas, ninguém vê o percurso do alimento da terra até o estômago, aquilo que acontece entre o início e o fim.
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” já dizia o poeta, e a pergunta que não quer calar é: como identificarmos as pedras nos nossos caminhos?
O agrotóxico, por exemplo, não foi criado como pedra, mas sim para acabar com as pragas, mas será que não se tornou pedra a partir do momento que está acabando também com as abelhas, rainhas da polinização, responsáveis pela manutenção da flora, com suas folhas e frutos? Será que estamos a usar o Maquiavel, onde os fins justificam os meios?
Eis uma pedra no meio do caminho da sociedade contemporânea: O DESCARTE DO VELHO PELO NOVO, do idoso pelo jovem, da sabedoria milenar pela teoria atual, da abelha ou meios de polinização natural pelo agrotóxico, do instinto materno pelas certezas da maternidade.
ACUMULAMOS e acumulamos LIXO =aquilo que vem DE FORA, e de outro lado, DESCARTAMOS O ESSENCIAL=aquilo que vem DE DENTRO.
As armaduras desse novo mundo têm nos colocado de costas para nós mesmos. É como se criássemos uma casca grossa em torno do nosso corpo, até que chegará um dia em que essa casca alcançará os nossos olhos e não nos enxergaremos mais nem no espelho.
Em extinção está a busca pela simplicidade, pelos motivos que nos conduzem a continuarmos nesta caminhada terrestre, apesar das pedras no meio do caminho, em extinção estão pessoas que olhem para a nossa essência por trás da tal armadura, mas eu conheci uma pessoa assim.
Essa pessoa é a professora Clarissa Yakiara, que ministra um curso de mães que leva o símbolo de uma abelha, não por acaso, e se chama “Zum Zum de Mães”.
Entrei no curso quando o João tinha seis meses, com a ideia de receber um manual para ser mãe, mas quando saí do curso percebi que esse manual não existe, ou melhor, que ele até existe, mas não está lá fora, está aqui dentro, na conexão única e pessoal que eu estabeleço a cada dia com o meu filho.
O zunido da abelha me resgata até hoje à minha natureza interna e o “Zum Zum” me faz lembrar a cada manhã de que é preciso alimentar não só o meu corpo, mas também a minha alma e a do meu filho.
Depois do curso, pude ver que por baixo de toda armadura há um ser humano e onde tem ser humano tem sentimento, e onde tem sentimento pode haver alguma necessidade não atendida.
Antes do curso, as situações da maternidade pareciam meramente matemática: doente= remédio, vomitou= comida fez mal, frio=cobertor, chilique= não tem motivo, vontade exagerada por algo específico: vontade exagerada por algo específico.
Só que não, como diz a moçada. Não é simples assim, diz a professora Clarissa Yakiara.
Hoje quando o João fica doente ou vomita, não olho apenas para FORA, a comida, a doença, mas principalmente para DENTRO: será que ele tem me mostrado algo que o incomoda? Será que ele está com dificuldade de conviver com alguma emoção e o seu corpinho está falando?
Recentemente ele deu um chilique de cinema e demonstrou uma vontade exagerada por um chocolate, logo após a despedida da minha mãe que mora longe, antes eu enxergaria somente o desejo exagerado e ponto, agora, consigo ver uma vontade interposta, um desejo camuflado: estava triste porque a vovó foi embora (o desejo exagerado era pela sua volta), e eu o abracei, tanto e tanto, acolhi a saudade já anunciada, e em pouco tempo ele não tocou mais no assunto do chocolate.
Hoje estou grávida do meu segundo filho, e o João anda expressando os seus sentimentos por linguagens variadas, o meu desafio maior tem sido desvendá-las.
Abro a janela, e inspiro profundamente a minha essência, posso ouvir o zunido das abelhas cuidando de mim e do meu entorno, olho fixo num ponto e vejo: no meio do caminho tem uma pedra, tem uma pedra no meio do caminho. Expiro confiança nesta travessia, na certeza de que a janela deve permanecer aberta para deixar o sol entrar.
SOBRE A AUTORA:
Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.
@ligiafreitasescritora
Querida leitora! Sei que estão sendo dias difíceis, sinto a sua dor revelada no íntimo do meu coração, suas angústias, seus medos, as incertezas do futuro e do mundo. Neste momento, muitas de nós temos sentido um vazio, uma tristeza ao final da tarde, uma sensação de que não nos reconhecemos mais em nós. Temos tantos afazeres e está tudo tão diferente, um cansaço que não é nosso nos possui e não nos reconhecemos em nossa eficiência aparente. A realidade está tão mudada, estamos em casa por mais tempo e com a nossa família. Pelos nossos olhos as cores são outras, as flores tem outro perfume, a lua outro brilho, o sol outro calor. Quando olhamos as estrelas vemos mais do que luzes no céu, vemos a escuridão lá fora refletindo as trevas que nosso ser revela… E quanta impaciência e amor transbordando. Num momento somos uma luz infindável de cuidado e zelo, noutro não suportamos estar em contato com aqueles que amamos. Não sabemos o que fazer como agir, o que dizer. Não conseguimos falar, nem gritar, nem chorar. Queremos sair correndo, mas não sabemos para onde e se podemos ir. Parece que ninguém nos escuta, nos vê, nos entende, não temos com quem conversar. Nos falta um abraço caloroso, um ombro amigo, compreensão, carinho, contato, tato.
Estas palavras te relembram ago? É, querida leitora, estou falando da quarentena! Mas poderia ser a descrição dos nossos puerpérios, aquele momento em que mergulhamos em nossa sombra mais profunda ou aquela bem visível. Aquele instante em que temos vontade de chorar “sem motivo”, de ficar quietinha em nosso canto, e que, por muitas vezes, não temos nem vontade de levantar da cama. Mas agora estamos em quarentena e esta contenção que mais parece uma imersão em nosso lar, com nossos filhos, companheiros e com o nosso ser real, pode e traz muitos sentimentos do passado e o puerpério revivido (para mim) tem sido muito desafiador.
Durante o meu puerpério vivi e revivi muitas dores. Deveria ser o instante mais belo de minha vida, e realmente foi já que minha filha amada veio ao mundo, porém com muitas dificuldades e angústias. Tivemos um parto de risco, uma cesárea não programada na qual sofremos violência obstétrica onde minha filha quase não sobreviveu. Muitos medos foram gerados e reativados neste parto, o medo que minha mãe sentiu em minha gravidez (ela não saia de casa por medo de doenças) o medo que minha avó materna sentiu (ela foi mãe solteira e muito jovem criou minha mãe sozinha entre muito preconceito)! Sem falar em todos os outros medos que surgiram no exato momento em que peguei minha filha nos braços… Senti medo de não conseguir amamentar, de não saber dar banho ou cuidar de um serzinho tão frágil e dependente de mim. Senti medo de ser julgada por sentir tantos medos, por me sentir insegura, aflita, incapaz. Logo eu que era tão informada, tão resolvida, tão instruída, tão inteligente, tão segura (só que aparentemente!). O que aconteceu comigo pode ser muito semelhante com o que você sentiu após o nascimento de seus filhos, isso porque muitas de nós não fomos educadas e não fomos instruídas a cuidar de nossas emoções de maneira segura e livre. Somos frutos de uma geração reprimida emocionalmente, e de uma sociedade “treinada” para fazer da maternidade tudo menos um o caminho de transformação e crescimento. Ao sabermos de nossa gravidez pensamos em muitas coisas materiais que temos que resolver e comprar: o quarto, os móveis, o enxoval, tudo isso é muito importante e valoroso, mas (para mim) não é mais o essencial. Desta forma, não pensamos sobre como ficará o nosso coração após o parto. Não sei o seu, mas o meu se espatifou sendo que ainda hoje, após quase quatro anos ainda tento juntar seus pedacinhos. Somente quando reconheci meu processo de resgate e de sombra é que aceitei a minha realidade, podendo, de fato, sentir aquela prometida alegria em estar com minha filha. Entretanto, o meu puerpério continua, porque ele não tem data certa para terminar, não é um período estabelecido por médicos, ou livros. É um período que somente a mulher/mãe sabe, pois ela é que o está vivendo, e somente ela saberá o seu tempo quando ele terminar. E nesta quarentena, querida leitora, percebi que ainda estou puérpera e que minha “quarentena” está chegando ao fim!
Enfim, a quarentena está aí e esta é a nossa condição atual, gostemos ou não. Como em muitas outras situações de nossas vidas. Sinto que, para nós mães, muitos cenários dos nossos puerpérios estão sendo reproduzidos, porque as crianças estão em casa, estamos com a demanda do lar sob nossa responsabilidade e, em geral, nossos companheiros estão trabalhando fora ou em casa. É evidente que este modelo não é regra geral, temos muitos companheiros assumindo as atividades do lar e os cuidados dos filhos, bem como muitas mães trabalhando fora ou em casa! Em verdade, me refiro aquele sentimento de descontato (acho que este termo nem existe!) com o mundo, com pessoas, com adultos, aquele momento de imersão, em casa, mergulhadas nos cuidados do bebê e do lar, naquele reencontro com o nosso lado feminino cuidador, acolhedor, muitas vezes ferido. Aquele momento em que não saímos, nem para ir à padaria ou na farmácia e que não temos mais aquela referência de nós mesmas. Tudo muito semelhante ao nosso momento atual. Enfim, leitora querida, te convido a reviver seu puerpério, a sentir “aquela” sombra de novo, aquele nó na garganta, aquela sede de chorar até as lágrimas acabarem. Mas agora vamos falar, expressar, chorar acompanhadas, pedir colo (ainda que virtual!). Honremos a nossa quarentena interior, o nosso momento de reconexão, de acolhimento de nossas emoções. Com certeza, nada será como antes, tudo irá se transformar, como num puerpério, ninguém sairá ileso, igual, intacto! Ninguém passará por esta contenção sem se olhar, ainda que bem pouquinho, lá no fundinho de sua alma! Honremos a nossa quarentena e sairemos dela modificadas, transformadas, revividas, regeneradas, reconectadas, fortalecidas!
Sobre a AUTORA:
Ana Blasi, Mãe da Flávia, Participante da Turma 9 do Zum Zum de Mães e apaixonada por educação e conexão
@blasi_ana
Em tempos sombrios de pandemia mundial do codiv 19 muitas coisas mudam, se desestruturam. E, diante do caos desta situação, eu te faço um convite ousado: vamos refletir mais profundamente sobre isso?
Claro, sei que a vida mudou radicalmente, as demandas aumentaram e está tudo uma loucura! Afinal, o medo bate à porta, a casa e as crianças pedem atenção e o chefe não quer saber de diminuir a produtividade por conta das demandas do lar! Neste cenário, tudo ficou em suspenso e por mais que as pessoas queiram fingir que nada está acontecendo, está todo mundo sem saber de onde o perigo virá e onde é que tudo isso vai dar!
Desta forma, ficamos ativados no medo, cheios de ansiedade e beirando ataques de pânico. Isto porque, o grande convite deste vírus é mostrar para a humanidade que nosso controle sobre as coisas é ilusório! Por maior que seja nossa ganância e prepotência, somos filhos da natureza e, ainda que seja somente uma criatura microscópica, ela ainda pode, de repente, destruir tudo ao que, ilusoriamente, nos apegamos!
Mas, calma! Este artigo é para dar um fôlego das más notícias e trazer palavras de reflexão para que usemos este momento em nosso favor! Vamos começar pelo mais importante?!
Vale deixar claro que as crianças NÃO precisam assistir TV ou mesmo outras telas com notícias sensacionalistas, disseminando o pânico de forma ainda pior que o vírus! Desta maneira, vale a pena usar o autocontrole para tentar conversar com as crianças, reforçando a importância da quarentena para nos protegermos de uma “gripe muito forte”. Neste ponto, vale frisar que estou apenas adaptando o que está acontecendo a algo que as crianças possam compreender, ao menos, é assim que estou trabalhando com minha filha de quase 4 anos.
Outro ponto a ser ressaltado é que as crianças NÃO precisam ser distraídas de forma aleatória, sentindo que queremos nos livrar dela de qualquer forma. Claro, eu sei que nem sempre estamos emocionalmente disponíveis para lidar com nossos filhos. Neste período de quarentena, este desafio é ainda maior dada a restrição de contatos e a necessidade de ficar dentro de casa! Mas, é fato, as crianças NÃO precisam se sentir um estorvo em nossas vidas, aquele ser que sempre atrapalha o trabalho da mamãe ou do papai. Ou seja, acredito que todos nós temos memórias de rejeição e inadequação e elas doem bastante, que tal tentarmos trabalhar a necessidade de concentração de uma forma mais leve?!
Sob este prisma do que as crianças NÃO precisam, vale lembrar que elas não têm capacidade emocional para entender a seriedade da situação. Por isso, é importante que nós adultos cuidemos dos hábitos de higiene das crianças, da casa e trabalhemos isso com elas de forma lúdica e gentil! Claro, neste cenário de pânico, encontrar esta paciência parece algo ilusório, mas agora vamos cuidar dos adultos!
Neste momento de pane é preciso colocar a máscara de oxigênio para raciocinar com calma, estratégia e muita paciência! Por isso, o que pais e mães NÃO precisam é ficar enterrados nos noticiários, contabilizando contaminações e óbitos! Afinal, ficar mergulhado nas tragédias não vai proteger sua família, nem amenizar os desastres lá fora! Mas, certamente, vai esgotar toda a sua energia e paciência com algo que, simplesmente, está fora de nosso controle! Portanto, foque no que realmente está sob o seu domínio, foque no que é possível fazer dentro de sua casa e com as pessoas que ama!
Desta maneira, outra coisa que mães e pais NÃO precisam é ficar com o rosto colado em redes sociais, disseminando o pânico através de fake news. Ou mesmo encaminhando e compartilhando piadas de mau gosto por conta de um senso de humor duvidoso! Além de ser tóxico para si mesmo e para o mundo, já bastante poluído, isso é outra coisa que rouba sua energia num momento em que ela é vital para sua sanidade mental e emocional!
Outro item que mães e pais também NÃO precisam é se preocupar com milhões de atividades didáticas para fazer em casa! De forma muito inusitada, li a mensagem de uma mãe com medo de não mandar o filho para a escola e isso atrapalhar o seu processo de alfabetização! Meu Deus, em que ponto do caminho pegamos o atalho errado? Afinal, será tão importante o desenvolvimento intelectual que dispense outros cuidados? Quanta necessidade de entulhar as crianças de conhecimentos, tantas vezes, desnecessários e inúteis na vida prática!
Para além das fake news, do pânico pela escassez e morte, do medo da doença, o convite é para olharmos para nossa vida, nossas escolhas e sonhos! Por isso, te convido a assistir o vídeo Carta do COVID19 para a Humanidade
O momento pede sim reclusão e leveza, bem como criatividade e disponibilidade emocional. Assim, o convite é para reavaliarmos nossa trajetória, nossos valores e, principalmente, nossa família. Isto significa, na minha ótica, reavaliarmos a forma como estamos cuidando de nós mesmos e das pessoas que amamos!
Sabe aquele ano sabático que muita gente gostaria de tirar e não consegue? Que tal encarar a quarentena como um período para reavaliar a vida, destralhar aquela gaveta, rever a educação dos filhos, encontrar tempo para repensar a relação com o marido. Ah, e mais importante ainda, que tal rever como estamos lidando com a gente mesmo? Estamos nos impondo muitas obrigações ou ainda encontramos espaço para o prazer, aquele simples e genuíno como de um bebê que está descobrindo o sabor de uma fruta?
A partir desta perspectiva, a quarentena pode ser produtivamente aproveitada para rever nossas relações conosco e com quem amamos! Todos nós precisamos de uma pausa e que tal aproveitar este momento para vibrar na suficiência!? Ou seja, desfrutar o que temos no momento ao invés de lamentar o que perdemos ou ter ansiedade pelo que virá depois disso? A vida é aqui e agora!
Neste momento tão delicado, portanto, ouso dizer que todos nós precisamos: PARAR! E não é como nas férias em que usamos o tempo para nos distrair! Esta sociedade tecnológica já nos distrai demais! Por isso, o convite é realmente para PARAR, SE AQUIETAR e dar uma chance para o coração falar! Há quanto tempo perdemos este contato com o coração ou esta conexão profunda!?
Este é um momento que pede Fé, seja ela em qual forma se manifestar! Por isso, todos nós precisamos nutrir dentro de nós este sentido em algo maior, mais profundo do que o piloto automático cotidiano! Então, o momento pede SENTIDO, rituais de fé, de celebração da vida, de autocuidado e cuidado com o outro! Desta forma, é preciso voltar a olhar para a vida com coragem, ou seja, a partir do coração!
Portanto, TODOS nós precisamos lembrar que “tudo passa!” e este momento um dia será lembrado como um marco. Que seja um marco de um momento em que a Terra parou e as pessoas reavaliaram as rotas de sua vida, suas ações e como tudo se transformou! Desta maneira, o momento pede amor, nutrição emocional interna, da família, da casa… Paradoxalmente, através do isolamento temos a oportunidade de olhar para o que verdadeiramente importa em nossa vida e como temos tratado tudo isso!
Certamente, é o momento para fortalecer vínculos emocionais e lembrar que as crianças estão descobrindo o mundo e isso pode e deve ser muito divertido! Então, relaxe do politicamente e didaticamente correto e encontre uma forma de se divertir com as crianças na quarentena!
Cada vez mais me convenço de que a melhor forma de cuidar do outro é através do exemplo e do transbordamento! Assim, cada vez que cuidamos de nós mesmos com amor, compaixão e responsabilidade, estamos despertando nos outros este mesmo potencial! Por isso, neste momento de quarentena aproveite para descobrir como cuidar melhor de si mesmo e das pessoas que você ama!
Ao cuidarmos de nossa saúde por amor ao invés de medo, plantamos a semente de uma cura planetária! Afinal, neste momento temos a oportunidade de perceber, através de um vírus, como estamos próximos e vulneráveis. Ou seja, independentemente de classe social, de poder, de cargo, TODOS SOMOS UM neste momento!
Assim como estamos unidos no medo, no pânico diante da morte, temos a oportunidade de nos unir pelo amor! E, esta união começa dentro de casa, na família, no autocuidado e no cuidado com quem amamos! Que unidos possamos transmutar e curar dentro de nós tudo o que criou a realidade que estamos vivendo neste momento!
Luz, Paz e Bem a todos! Gratidão pela leitura! Namastê! _/\_
SOBRE A AUTORA
Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social,
mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE!
Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda e siga no instagram gm_conexaoprofunda
Falar sobre gerações anteriores à minha me pareceu um pouco ousado a princípio, pois como falar daquilo que não vivi sem ser arrogante e sem julgamentos. Porém falo das percepções que precisei elaborar dentro de mim mesma para poder entender minha própria vida e história, a forma como fui criada, a forma como meu companheiro foi criado, e o quanto isso impacta na nossa relação e na criação da nossa filha.
Quando comecei a trilhar o caminho do autoconhecimento e remexer nas feridas infantis, a entender como cenas do meu passado haviam me impactado e como elas foram determinantes em alguns comportamentos “negativos” que eu apresentava, como outras tantas experiências da minha primeira infância ajudaram a formar minha personalidade e os aspectos destrutivos dela, a primeira reação foi me colocar num lugar de vítima e de muita raiva.
Quando eu fui entendendo que algumas das fortes emoções “negativas” e medos que a maternidade trouxe à tona vinham dores da minha criança interior ferida desencadeadas por choros contidos, frustrações não validadas, falas marcantes dos meus cuidadores, falta de acolhimento nos momentos de medo e solidão segundo as minhas expectativas, baixa autoestima na infância e adolescência, foi impossível não julgar meus pais, alguns professores e outras figuras que fizeram parte desse período da minha vida.
Já os culpei por tudo de ruim que estava me acontecendo naquela fase, por não terem “me dado aquilo que eu precisava”, posteriormente me culpei por tê-los julgado, por sentir raiva, por sentir pena, por me sentir melhor, e hoje, entendo que o julgamento é natural quando entendemos todo o mecanismo de formação da personalidade e como nossa psique é moldada e impactada pela forma como fomos criados.
Entendi que a culpa, essa estrutura que a meu ver tem um papel importante inicialmente, não podemos negá-la pois ela também faz parte do processo, o que não podemos é nos fixar nela. Porém tanto culpar nossos pais, como posteriormente nos culparmos por culpá-los é instintivo. Isso aconteceu comigo, porém eu percebo que quanto mais consciência fui tomando dos meus processos, mais fui entendendo que nem meus pais nem ninguém tinham culpa de nada, mas inconscientemente eu transferia essa culpa para mim mesma.
Hoje vejo essa culpa ao mesmo tempo como uma defesa e uma resistência à mudança, porque mudar dói. E tudo bem culpar e sentir culpa, se você estiver nessa fase do caminho, prossiga, ela pertence e te garanto que vai passar. Não reprimindo a culpa, podemos transpô-la com consciência.
Nas minhas buscas terapêuticas, descobri, por exemplo, que o choro da minha filha me incomodava por causa do choro e raiva reprimidos na minha infância, não só porque meus pais podem ter “calado” meu choro e explosões de raiva algumas vezes, usando falas pré-estabelecidas que a sociedade da época consideravam certas, e ainda hoje muitas pessoas consideram apesar de todas as pesquisas científicas que já provaram o contrário. Não sou melhor do que ninguém e nem estou isenta, também carreguei essas crenças e falas comigo, e já usei com minha filha, falas como: “engole o choro”, “isso não é choro, é manha”, “vou te dar motivo pra chorar”, “chorar é feio”, “não pode ter raiva da mamãe-papai”, “Papai do céu não gosta de criança que chora”, “ninguém gosta de criança que chora”, “sentir raiva dos pais é pecado”, e por aí vai.
Atualmente, é fácil acessar informações científicas e entender no nível consciente e mental que deixar a criança chorar e se deixar levar pela energia da raiva faz bem pra ela, ajuda a limpar o “lixo emocional”, e é o ideal para ela crescer mais conectada com os próprios sentimentos e desenvolver inteligência emocional. Que acolher o choro da criança refletirá na sua saúde emocional quando ela for adulta, a fará entender que o sofrimento e a frustração fazem parte da vida, mas que ela nunca precisará sofrer sozinha pois pode contar com o apoio dos pais, da família, redes de apoio, criando assim resiliência ao sofrimento. Que deixar uma criança colocar toda sua raiva pra fora e ir ajudando ela a se acalmar, a ensina sobre autorregulação e autocontrole. Até aí, ok!
Mas se tem algo que demorei pra entender é que quando a criança tem uma explosão emocional de qualquer nível, nos fazendo acessar nossas próprias emoções feridas, não há conceito teórico científico que possa ser aplicado se o nosso emocional estiver abalado. Não há ferramenta de disciplina positiva que funcione se a criança estiver nos espelhando em nossos próprios conflitos emocionais e não nos dermos conta, a única ferramenta que resolverá será analisar e sanar a origem do conflito em nós para limpar do nosso campo o que é nosso, e podermos olhar genuinamente pra emoção da criança no momento presente e acolhê-la.
Para mim está provado, por minha experiência, que uma coisa está intimamente ligada a outra, pois quando o comportamento desafiador da minha filha traz sensações em mim como raiva, revolta, medo, dor, sei que não sinto tudo isso por causa do comportamento em si, mas sim em razão de emoções minhas que aquele comportamento dela desperta em mim, trazendo algo meu, e não dela. Quando ela tem um momento de explosão, e eu não consigo encarar sem levar pro lado pessoal, sem pensar coisas como “eu não aguento isso”, “ela quer me enlouquecer”, “chora por nada, ou chora por tudo”, (eu já pensei todas elas e às vezes ainda penso), quando levo pra esse lado, sei que ali alguma ferida minha foi acessada e geralmente as falas usamos são as mesmas que usaram conosco na infância.
Conforme fui olhando pra esses sentimentos que eram despertados, e de certa forma fui integrando-os à medida que me policiava e me acolhia quando esses sentimentos vinham, os mesmos comportamentos de antes não incomodavam mais, eram apenas algo que eu lidava com tranquilidade. Devagar, quando ela chora, e eu estou bem comigo mesma, eu trago pra mente que ela é apenas uma criança, e que o choro é uma expressão emocional que a ajuda a se sentir melhor quando passa, e que aquilo não é pessoal. Não sou técnica no assunto, nem quero provar nada, pois esse trabalho já tem sido feito pelos especialistas da área, mas toda essa dinâmica eu aprendi nos meus estudos pessoais e terapias, pode ser explicada com uma pesquisa específica na internet e em muitos livros. Eu mesma, leio muitos livros sobre maternidade, autoconhecimento, relações humanas, psicologia do desenvolvimento, primeira infância.
Quando eu era criança, vejo que muitas vezes o choro era encarado como sinônimo de vulnerabilidade, “manha”, fraqueza, falta de controle sobre a criança, falta de “pulso firme”. Portanto, os pais que não educavam seus filhos seguindo esse princípio, eram considerados como fracos, “maus pais”. Ao pedir para pararmos de chorar, nossos pais acreditavam estar nos dando a melhor educação, e assim também foi com eles quando eram crianças, e assim sucessivamente. Se voltarmos um pouco no tempo, teremos acesso à informações que desconsideravam totalmente a infância e o querer da criança praticamente não existia.
O que pra mim foi inicialmente visto como falta de empatia pelo meu choro na infância, com o tempo pude compreender que meus pais estavam tentando me dar o melhor. O choro foi o exemplo que quis trazer pois foi e ainda é algo que “pega” muito pra mim no meu maternar, que já pude melhorar bastante, hoje consigo acolher mais a minha filha nesses momentos de choro e raiva, geralmente com mais eficácia quando estou mais tranquila e mais nutrida emocionalmente.
Mas quando estou vivendo minhas próprias crises, tendo meus picos emocionais, como no período pré menstrual que fico mais sensível, haja paciência e empatia pra acolher o choro, a vontade é de calar e não acolher, sou sincera em dizer que em muitos momentos desses toda teoria vai pro brejo. Nem sempre estaremos bem para não misturar as coisas e levar pro lado pessoal, é um trabalho de formiguinha, dia a dia. Um dia será melhor, o outro menos, e assim caminhamos comemorando as pequenas vitórias e driblando a culpa que possa surgir nos momentos difíceis. Até porque a busca não é pela perfeição, acredito que mostrar uma falsa perfeição para nossos filhos fará com que eles cobrem de si mesmos a mesma perfeição e sofrerão por nunca alcançá-la, pois nunca seremos perfeitos nessa vida.
Por isso que acho que mesmo com toda informação que temos, não vamos acertar sempre, e ainda assim, não somos melhores que nossos pais, pois a informação não basta, a informação sem o autoconhecimento e a nossa reeducação é ineficaz e ilusória. Não há educação sem autoeducação. Claro que muitos adultos viveram em famílias disfuncionais, e talvez não concordem com o que estou trazendo, pois sei que tive o privilégio de ter uma família estruturada e amorosa.
Vejo que meus pais fizeram o que eles podiam com a consciência que tinham e repetindo a criação que tiveram, que hoje não me permito usar adjetivo nenhum para qualquer que seja o tipo de criação em questão. Acho que tudo precisa evoluir, e se está evoluindo está tudo certo. Não tem nada de errado, nem antes nem agora. Eles nos deram o que receberam. Fizeram o melhor que puderam, e por mais difícil que seja, pois sei que fácil não é, além de qualquer falta que tivemos, eles nos deram o dom maior da vida, que vinda deles e com as informações e apoio profissional que temos hoje podemos fazer melhor da vida que recebemos deles.
Acredito que mesmo nas famílias desestruturadas tudo se trata de uma grande repetição onde ninguém é culpado e ninguém é vítima, todos escolhemos a família que precisávamos, para um propósito maior. Acreditar nisso me trouxe paz. Não quero impor minhas crenças neste texto, só acho que precisamos encontrar uma crença que nos faça sentir paz, se nosso coração sente que aquilo é verdade, e se acalma naquela crença, com certeza pra ele é verdade, e isso que importa.
A verdade é que cada pessoa lida como pode com suas feridas e traumas, inconsciente ou conscientemente dá apenas o que recebeu na criação dos seus filhos, essa máxima vale para as gerações anteriores também.
Nesse momento gostaria de direcionar esse olhar empático para geração dos meus pais, que é a geração que diante de tantas informações e estudos novos sobre criação de filhos, por muitas vezes se sente incompreendida, não validada, que quando veem como hoje aderimos a tantas mudanças, informações diferentes e novas na forma de criar e educar nossos filhos, se sentem até mesmo ofendida, podendo sentir que se concordarem com tudo isso que estamos optando estariam assumindo o próprio fracasso.
Não há certo ou errado, há evolução. Há informações que podem colaborar com maior saúde física e emocional para as próximas gerações, mudanças alimentares, mudanças de atitude. Mas ainda assim, cada um só consegue aplicar aquilo que sua estrutura emocional permite, e tudo bem! Como disse antes, temos que evoluir, rápido ou devagar, aos poucos e a vida toda, pela nossa própria cura, e pela cura dos ancestrais e descendentes, pois com certeza nossa cura é a deles.
A minha mãe não teve carreira, nunca foi assalariada, criou cinco filhos de idades próximas com marido trabalhando em outra cidade em alguns momentos, com rede de apoio familiar limitada a como podiam ajudar. Com tanta demanda física, emocional, doméstica, dificuldades financeiras, fez o melhor que pôde com a estrutura que tinha, e hoje tenho consciência que me deu exatamente o que eu precisava pra ser quem sou, tive as experiências que definiram meus valores e aprendizados atuais e me fizeram ser quem eu sou.
Quando era cultural ter vários filhos, hoje eu com apenas uma filha tive tantas questões emocionais que muitas vezes me colocaram em desespero e pânico, imagino ela com cinco e tendo que lidar com tudo ao mesmo tempo… Eu tive ajuda profissional para lidar com minhas questões, ela não teve. Hoje é tão fácil ter acesso a terapias on line e presenciais com valores acessíveis, ainda bem que existem muitos profissionais disponíveis no mercado, e hoje existem terapias excelentes específicas para mães com rede de apoio, como o Zum Zum de Mães, que expandiu minha mente, me ajuda e ajudou demais.
Por tantas vezes me senti impotente diante de todas as coisas que tenho que lidar fora à maternidade, estar disponível emocionalmente e ainda assim ter que trabalhar fora, cuidar da casa, das roupas, proporcionar uma alimentação balanceada pra minha família, por tantas vezes tenho a sensação de estar caindo num poço sem fundo… Mais uma vez, imagino como foi pra minha mãe com cinco filhos e mesmo não trabalhando fora, como ela deve ter se sentido impotente em tantos momentos, achando que ia enlouquecer com tantas responsabilidades, e isso me faz sentir empatia pelos momentos em que ela explodiu comigo e meus irmãos, e mais do que isso, empatia genuína por ela.
Só pude entender e ter mais empatia pela minha mãe quando me tornei mãe. Antes, por melhor filha que eu fosse eu não poderia ter entendido tudo que a maternidade traz para nossa vida, sem sermos avisados, levando nossa identidade e o que entendíamos como vida antes dela, muitas vezes adiando nossos sonhos, projetos, desejos, nossa própria liberdade. Vejo que muitas mulheres passam a vida tentando resgatar quem eram e não conseguem, e para as gerações anteriores era mais difícil ainda por tantas questões sociais ligados ao patriarcado, a falta de liberdade financeira, a falta de voz e olhar sobre essas questões.
Se hoje é mais fácil pra nós, é porque as gerações que nos antecederam abriram os caminhos e doaram suas vidas para que fosse mais fácil para nós, tanto para vivermos quanto para criarmos nossos filhos nesse momento que estamos. Eles sacrificaram sua liberdade para nos dar a liberdade que temos hoje. Somos privilegiados.
Volto a falar, quem viveu em famílias disfuncionais talvez discorde do que trago aqui, mas o dom maior eles nos deram: a vida!!!
Chega de julgamentos e comparações pelas diferenças de antes e agora, antes havia uma informação, hoje há outras mais embasadas cientificamente, mas não por isso melhores ou piores, apenas encaro pelo lado de que junto com a humanidade, os conhecimentos evoluíram e mesmo que os conhecimentos sejam bons, se nos colocamos num lugar de saber mais que nossos ancestrais, seremos arrogantes e não gratos ao que foi da forma que foi, e isso gera sofrimento. Aceitar tudo como foi nos traz paz!!!! Mas não é de repente que conseguimos, é um longo e doloroso processo que requer muita coragem, mas que precisa começar em algum momento.
Da mesma forma que chamo a atenção para nossa geração ter mais empatia pelas anteriores, também apelo que essas gerações que vieram antes tenham empatia por nós, pois quando optamos em fazer diferente baseados em estudos e informações que hoje temos acesso, não o fazemos para descreditar tudo que vocês fizeram de diferente de nós e muito menos para ofendê-los, o fazemos pensando em fazer o melhor para nossos filhos, assim como vocês também fizeram tudo que puderam para dar o melhor que puderam para nós.
Persistir nessas discussões é uma luta sem vencedores, eu honro tudo aquilo que recebi da forma que foi, e agradeço a todos meus ancestrais por absolutamente tudo. Peço a benção deles para que eu possa agir diferente deles na minha forma de maternar e de viver a minha vida com mais consciência e leveza. Que assim seja!
SOBRE A AUTORA:
NATALIA CAMILA DA SILVA: 32 anos, mãe da Olívia de 3 anos, Participante da Turma 5 do Zum Zum de Mães, Funcionária Pública, Gestora de Recursos Humanos, adepta do Sagrado Feminino. Escreve para elaborar suas emoções, só de escrever se sente mais leve e mais inteira.
IG: natycamila87
O Negócio desfeito, o plano mal feito,
O horário perdido, o livro não lido,
A louça acumulada, a proposta negada, a palavra entalada,
O jantar enlatado, o saldo,
A palavra mal dita, uma frase confusa e muito comprida,
Minha eterna tagarelice desmedida.
Cai a noite calada, o coração de repente dispara,
Lá estou eu de novo atravessando a sala
Dai me vem à cabeça, travestida de reflexão,
A auto punição:
“Quem você pensa que é? Não devia ter feito isso…
Já para seu quarto pensar!
Não devia ter dito aquilo…
Não quero nem te olhar!
Sonhos muito grandes para alguém pequena como você!
Não tinha como ser diferente, completamente sem noção,
Ainda diz que tem intuição!
Você não está vendo? O universo está te dizendo não!
Quem mandou desobedecer, que ideia louca é essa de ser você?
Quem falou que aos seus próprios caprichos deve ceder?”
Muito fácil cair na armadilha da mente treinada à base de castigo e punição
E você? Para onde vai quando comete “uma má ação”?
Vai para o castigo? Vai ajoelhar no milho?
Eu ia sim, sim senhora, sim senhor!
Mas agora estou treinando no sentido anti-horário,
Em alta velocidade, no caminho contrário
Reescrevendo o antiquado.
Assumindo a direção, desprogramando o velho padrão.
Os olhares alheios já não me impedem de tentar
Os comentários externos já não me fazem parar
Se posicionem agora para me ver passar
Sem pedir licença ou permissão à ninguém, já estou pronta para voar!
Já não me serve mais essa máscara de boa menina
Que quando erra é diminuída
Já não me cabe mais a personagem de Madalena arrependida.
Sou auto responsável pelo meu sucesso e progresso
E escolho fazer com respeito e afeto
Assim como busco atuar com minha filha
Faço também com minha criança interna pequetita:
“Vem cá comigo, pouse seus cachinhos bem no meio do meu abraço
Me conte sem medo o que aconteceu, confie em nosso laço.
Com atenção vou te escutar,
A sua dor, sua aflição vou validar
Juntas vamos traçar um plano para consertar, resolver, melhorar…
Estou aqui com você e pode apostar
Da próxima vez vamos acertar
Escute a voz da razão que escapa do meu coração
É uma bela oportunidade essa a de errar!
E quero muito ir com você para onde esse caminho nos levar.”
Sobre a AUTORA:
Vivian Pessoa, Mãe da Ive de 3 anos, Geóloga, Participante da turma 5 do Zum Zum de mães, Educadora Parental pela Positive Discipline Association.
@viviancpessoa
Quando tive minha filha eu já estava junto com meu companheiro há cerca de 12 anos, ele foi meu primeiro namorado, chegamos a ficar um período separados, e depois retomamos o relacionamento que perdura até agora, quase 15 anos.
Sempre tivemos um relacionamento respeitoso, compartilhamos alguns hobbies e paixões em comum como pela literatura, história, música, escrever. Quando fomos morar juntos, curtimos bastante a vida do nosso modo, gostávamos de estar entre casais amigos, e o que realmente nos definia era nosso amor a “nosso cantinho”, nossa solidão, lendo, cozinhando, vendo filmes, séries, vivendo no nosso mundinho particular. Que saudade desse tempo!
De certa forma, mesmo tendo coisas em comum, cada um também tinha seus próprios hobbies e manias, ele sempre dedicou seu tempo livre a sua revista, site e música, e eu aproveitava meu tempo vago pra cuidar da minha aparência física, pra ler livros e minhas revistas de moda e decoração, eu amava ficar vendo a nova tendência ou cor da moda.
Assim era nossa vida, nada nos abalava, vivíamos na “nossa bolha”, curtíamos nossa privacidade, nossa solidão por opção, éramos jovens pouco ambiciosos, muito acomodados na zona de conforto de um relacionamento tranquilo.
Na minha opinião, sempre existe entre o casal aquele que se interessa primeiro, e aquele que se deixa interessar. O que se interessa sempre vai “amar mais” que o outro. No nosso caso, foi meu companheiro que se interessou, e eu acabei gostando da forma como ele me tratava, me agradava, me elogiava mesmo quando estava desarrumada, me enchia de presentes.
Não foi paixão avassaladora nem amor à primeira vista de comédia romântica. Com o passar do tempo, a recíproca de sentimentos foi verdadeira de ambas as partes, vivemos muitos bons momentos juntos e felizes. Não era a relação idealizada perfeita, uma relação estável e real, eu tinha um companheiro que me respeitava e mimava, estava feliz assim.
Mas como nada é perfeito, também tivemos uma fase do nosso namoro que por ciúme e traição acabamos nos separando, o ciúme não justifica a traição, acredito que numa relação ambos são responsáveis. Por tanto tempo juntos, e o carinho um pelo outro, acabamos retomando com mais consciência de que um não era dono do outro, que a confiança era a sustentação de qualquer relacionamento.
Quando resolvemos morar juntos, foi justamente como uma decisão para acabar com a distância que já havia desgastado nosso relacionamento de tantas formas. Resolvemos fazer um teste que acabou dando certo. Estando juntos na mesma casa, restabelecemos a nossa confiança, e voltamos a viver em harmonia.
Minhas brigas com ele eram sempre sobre coisas banais, era sobre o tênis jogado na sala, sobre eu “ter de pedir” para fazer alguma demanda da casa, e ele às vezes me falar que no tempo dele faria. Eu não conseguia respeitar o tempo dele, pois essa atitude me tirava do meu lugar de controle, e eu autossuficiente como era, muitas vezes resolvia fazer tudo sozinha pra ter o controle de tudo na hora que eu queria, e claro, reclamar dele depois.
Eu reclamava entre amigas dessas posturas, falando mal dos homens, do quanto eles eram mimados, folgados e acomodados, apesar do meu parceiro ser muito ativo e não ser nem metade disso, uma vez ou outra que ele não fazia algo ou quando eu achava que não tinha feito “bem feito”, eu me sentia injustiçada. Pensava que a divisão tinha de ser igualitária, e a vida acabava se tornando uma competição. Quem fazia mais, era melhor que o outro, e quem fazia menos, era pior. Claro, que muitas vezes, eu me achava superior. Hoje vejo o quanto isso dizia mais de crenças limitantes minhas relacionadas aos homens como herança do patriarcado, do que da real atuação do meu companheiro.
Então, nossa filha nasceu, e os direitos iguais entre homens e mulheres que já falava alto pra mim, gritou, e a balança que na minha cabeça tinha que sempre estar equilibrada, senti que “pendeu totalmente pro meu lado”. Além das demandas da casa e comida que por muitas vezes eu assumia para ter o controle, ou seguindo os padrões da minha criação de que mulher que arruma a casa e cozinha, e o homem provê financeiramente e descansa, mas dentro de uma estrutura onde a mulher não trabalhava fora porque dentro da estrutura do nosso relacionamento onde os dois trabalhavam fora, ter um bebê dependente de mim vinte quatro horas por dia, me tirou o chão. Antes, eu dava conta sozinha, e ficava na minha superioridade, reclamava de vez em quando, mas não tinha maiores conflitos no relacionamento, e ia tocando. Mas com a chegada daquele bebê, tudo mudou. Eu não dava mais conta.
No começo, eu não tinha mesmo condições físicas de fazer nada, sou grata por ter contado com a ajuda da minha mãe, algumas vezes da minha sogra, e meu companheiro fazia o que ele podia, da forma que podia.
Depois que fui me recuperando, a “autossuficiente em mim” começou a reclamar que as coisas da casa feitas por ele, não estavam bem feitas, procurava motivos pra brigar.
Até o fato do bebê só se acalmar comigo – a mãe, eu achava equivocadamente que era porque meu companheiro não “assumia seu papel de pai”, por isso nossa filha queria ficar comigo o tempo todo, me sufocando. Como eu mencionei no meu texto anterior, eu nunca tinha ouvido falar sobre puerpério, sobre fusão emocional, exterogestação, sobre a criança se perceber nos primeiros meses de vida como uma extensão da mãe e continuar a espelhando emocionalmente por alguns anos a seguir. O que me restou, foi achar culpados pra tanta bagunça emocional, e obviamente que acabou respingando sobre a pessoa mais próxima, meu parceiro.
É claro que ele tem os defeitos dele, assim como eu tenho os meus, mas o filtro pelo qual eu o julgava era poluído de emoções embaralhadas, falta de informação, falta de autocuidado, falta de empatia, crenças limitantes de gêneros, crenças equivocadas de uma revolução feminista que pedia direitos trabalhistas iguais, e não direitos iguais dentro de uma estrutura familiar. Porque não, homem e mulher nunca poderão ser iguais dentro de uma família, o feminino abrange coisas que o masculino não, e vice-versa, e entender isso e me reconciliar com meu feminino dentro da minha família também está fazendo parte dos meus processos internos. Eu só consegui enxergar as coisas como elas realmente eram, e não como eu as imaginava, após terapias, o mínimo de autocuidado, e estudar muito. Muitos livros foram de grande valia nesse processo, eles sempre foram meus companheiros de viagem, e se tornaram meus grandes conselheiros.
A demanda só aumentava, trabalhar fora, fazer jornada dupla, e ainda lidar com a culpa de toda essa situação ficou pesado demais. Eu me culpava, e culpava meu companheiro por todo o caos que estávamos vivendo. Quando minha filha completou perto de um ano, eu comecei a pensar que já que eu tinha que “cuidar de tudo sozinha”, que melhor fosse a separação. Que aí sim, eu faria tudo sozinha, do meu jeito, e assumiria o peso de realmente estar sozinha com um bebê, porque esse era o sentimento confuso que eu apresentava em relação ao meu companheiro. Também começou a passar pela minha cabeça pensamentos de que eu merecia uma relação de contos de fada quando a minha nunca tinha sido, e agora então, estava péssima.
Esse é o momento do texto de esclarecer que a realidade não era assim como eu pensava e como descrevi acima, que eram essas as minhas percepções equivocadas, ego-ístas, minhas projeções decorrentes da minha profunda angústia puerperal, meu reforço às minhas crenças infantis de que eu tinha que fazer tudo sozinha, que eu tinha que dar conta de tudo sozinha… depois descobri também se tratar de uma espécie de depressão pós-parto.
O clima de tensão entre nós só piorava a cada dia, a presença de um já irritava o outro, eu ficava com raiva dele quando ele estava dirigindo e fazia qualquer comentário sobre o trânsito, impulsivamente corrigia quase tudo que ele falava ou fazia com nossa filha, e brigávamos na frente dela. Minha falta de autoconsciência era tanta que isso pra mim se tornou o normal, achava que minha filha tinha que se acostumar com as brigas, afinal o senso comum nos dizia para não poupar nossos filhos pois a vida é dura, deixar que aprendessem desde cedo, e quem não consegue ver a sua própria bússola interna segue o senso comum, que diz daquilo que fazemos sem questionar o porquê. Mas claro que não me sentia feliz com isso.
Então descobri e comecei a estudar sobre educação não violenta, sobre criação com apego, e minha cabeça ferveu mais ainda, a culpa aumentou e os desentendimentos com meu companheiro, pois queria aplicar aquelas premissas na criação da nossa filha à risca, e queria impor para ele que lesse mais a respeito e fizesse igual. Ledo engano o meu… achar que aplicaria uma educação não violenta, quando o clima da minha casa era de uma total violência, ainda que sutil, entre meu companheiro e eu.
O estopim foi quando a minha filha teve pneumonia, e um dos significados dessa doença segundo a psicologia é falha na comunicação associada ao medo da morte. Sobre o medo da morte, abordarei oportunamente em outro texto, pois foi algo muito impactante pra mim.
Sobre a comunicação, eu e meu companheiro não conseguíamos trocar uma palavra sem brigar, e nossa pequena absorvendo tudo isso. Creio que nossos filhos não adoecem por acaso, e que cada doença traz um aprendizado específico para nós pais. O meu especificamente, foi um chamado para olhar pra mim mesma e toda essa situação.
Depois que ela adoeceu gravemente que pela primeira vez consegui enxergar que nós precisávamos de ajuda profissional. Foi quando fizemos osteopatia pediátrica na nossa filha, e começamos um tratamento de Microfisioterapia com ela e comigo, que se estendeu a toda família, e que nos ajudou imensamente a ter mais consciência do que estava acontecendo.
Me encontrei também com um Programa de Alinhamento do Feminino e Masculino Internos, com a Clarissa Yakiara, que me trouxe tantos insights, tantos “tapas na cara”, e me fez tirar a máscara da autossuficiente e superior dentro de um relacionamento. Enxergando que tudo, ou quase tudo, se tratava de projeção minha sobre meu companheiro, vendo que aquilo que me incomodava nele, também dizia sobre mim.
Que as posturas que eu criticava dele, eu também as tinha, em menor ou maior grau. Muitas em maior grau, e eu não enxergava. Que somente assumindo a postura de autorresponsabilidade e co-responsabilidade pela relação estar no patamar que estava, assumindo a minha contribuição e minha parcela de culpa pelo relacionamento ir de mal à pior, algo poderia mudar.
Sem ajuda profissional, acho que eu não teria conseguido continuar no relacionamento, ou se tivesse continuado estaria vivendo num verdadeiro campo de batalha. Atualmente, eu e meu companheiro estamos nos refazendo enquanto casal, estamos enxergando mais um ao outro, e isso aumentou a empatia e o respeito na nossa família.
A primeira coisa que me fez mudar dentro da relação foi a minha auto-percepção, assumir meus erros com autorresponsabilidade, sem querer justificar minhas atitudes erradas em razão das atitudes erradas do outro, reconhecer que eu também tinha culpa da relação decadente que estava inserida.
Que da mesma forma que eu contribuía para a relação estar indo mal, eu podia contribuir para ela melhorar. Não com grandes gestos e nem rapidamente, mas com pequenas atitudes diárias, por exemplo “mordendo a língua” para evitar uma briga e engolindo o orgulho em prol da harmonia daquele momento. É claro que não é fácil, nem simples, mas se não começamos nunca, nunca melhora.
Fui desconstruindo as minhas crenças em relação a rotina da casa e alimentação, de que existe jeito certo pra arrumar isso ou aquilo, que a casa tem que estar arrumada sempre, que temos que comer brócolis todos os dias, que o único doce da criança tem que ser a uva passa religiosamente até os três anos, pois sempre que saia dessa linha era razão de briga e sofrimento pra mim.
Quebrei o paradigma de que tinha que dar conta de tudo e que meu companheiro era obrigado a me ajudar nessa missão e dividir as tarefas comigo matematicamente em todo o tempo, e a rigidez da rotina e da relação foi se suavizando. Percebi, por exemplo, que eu competia com ele em relação a descansar, eu ficava com raiva dele quando ele descansava enquanto eu estava acordada e fazendo as coisas que “tinham que ser feitas”, mas na verdade eu vi que não se tratava de quem descansava mais, e sim do quanto “eu não me permitia descansar”. E projetava nele essa raiva, que era muito mais de mim do que dele.
Abandonei a minha crença do relacionamento de contos de fadas, e passei a fazer força pra enxergar as coisas boas que sempre foram tantas na minha relação, as qualidades do meu companheiro que sempre prevaleceram sobre os defeitos, enxergar nele com olhos menos julgadores a pessoa de bem, que sempre me respeitou, me tratou com carinho, zelou pelo meu bem estar e de nossa família, o pai incrível que ele sempre se esforçou e se esforça pra ser.
Essa ilusão de relacionamento perfeito tem que cair por terra pra começarmos a olhar pro relacionamento real, possível, entre dois seres humanos falhos que dão o seu melhor pra fazer algo dar certo. Continuamos tendo problema, mas parei de criar falsas expectativas. Dessa forma, consigo olhar pro ser humano ao meu lado, que também está ali lidando com as dores dele e dando o que ele tem pra dar. Dessa forma, consigo exercitar a empatia.
Acima de tudo, eu tive que olhar pra mulher em mim além da mãe e da esposa, pra toda vida que deixei pra trás, e devagar fui me permitindo fazer programas sozinha, passei a frequentar um grupo de sagrado feminino mensalmente que me ajuda a olhar pra essa mulher. E o mais difícil, sem culpa. Acho que esse me permitir viver de novo sem culpa foi o que mais me reconectou a mim mesma, e ajudou a me reconectar com meu companheiro. Senti na pele, que se conectar com o outro quando estamos desconectados de nós mesmos não dá certo, essa conta não bate nunca!
Como não doer em nós quando o companheiro sai pra jogar bola com os amigos, se não nos permitimos fazer nada por nós mesmas sem ficar se remoendo por nosso filho que ficou “sozinho” com o pai e comeu pizza no jantar? Como saber se há vida de casal após a maternidade, se nos achamos tão egoisticamente essenciais na vida dos filhos ao ponto de não podermos sair pra jantar sozinhos uma vez e deixar o filho com alguém de confiança?
É verdade que a chegada dos filhos coloca uma relação em xeque, é nesse momento que descobrimos se realmente queremos estar com aquela pessoa ou não, pois a demanda emocional e mudança na estrutura da nossa vida toda e da família, coloca tudo de pernas pro ar.
Acredito que ir ou permanecer é amar, amamos o quanto podemos, e da forma que podemos. E isso requer uma escolha. Sem escolha não há liberdade.
Se escolhemos ir é uma forma de amar a nós mesmos e ao outro, pois ficar sem disponibilidade de mudar é uma prisão de inocentes. Ir demanda coragem e é um processo que não se desenha da noite pro dia.
Ficar é uma forma de reconhecer a nós mesmos no outro, e isso também é amor. Também é necessária muita coragem e decisão firme para olhar para o outro como uma oportunidade de mudança, para resgatar e refazer uma relação pós filhos. Mas eu tenho conseguido diariamente, e digo que é possível sim, mesmo que em alguns dias eu não consiga, lembro da minha decisão de escolher ficar, e sigo. Pra mim tem sido uma experiência desafiadora e gratificante, que tem valido muito a pena!
NATALIA CAMILA DA SILVA
32 anos, mãe da Olívia de 3 anos, Participante da Turma 5 do Zum Zum de Mães, Funcionária Pública, Gestora de Recursos Humanos, adepta do Sagrado Feminino. Escreve para elaborar suas emoções, só de escrever se sente mais leve e mais inteira.
IG: natycamila87
Estes dias tive um insight poderoso para o meu momento: confiar é não se desesperar quando as coisas saem diferente do planejado! Recentemente, tenho observado de perto minha necessidade de controle, minha raiva crescente quando as coisas fogem do planejado e, com crianças, isto sempre acontece! Ou seja, a gente dificilmente consegue sair na hora que queríamos, com a roupa que gostaríamos e, no fim, estamos sempre diferentes do que tínhamos imaginado e… Uau, quando finalmente conseguimos sair, agradecemos pelo feito!
No momento, minha filha tem três anos e simplesmente empaca em alguns pontos. Ou seja, às vezes ela cisma com a roupa, com o sapato, com a bolsa ou com o brinquedo que quer levar. Por vezes, parece uma necessidade de ser do contra. Contudo, em outros momentos parece uma miniatura minha nos meus momentos de insegurança, conferindo se peguei tudo, se posso melhorar algum aspecto… Ah, este meu perfeccionismo que tanto me atrapalha e que quando vejo refletido nela me irrita tanto. Aliás, quando vejo nela percebo o quanto me atrapalha viver e desfrutar os momentos com maior leveza!
E, quando o assunto é viagem, então! Nossa, eu viro uma máquina de planejar diferentes cenários e necessidades que precisam ser satisfeitas ou contempladas de algum modo!
Certa vez, escutei esta metáfora e ela nunca mais me saiu da mente porque inúmeras vezes me pego neste movimento! Isto é, ao invés de DESFRUTAR o pudim, me permitindo sentir todo sabor delicioso que me traz, eu observo o que está faltando, o que poderia estar melhor. Desta forma, estrago o momento, o pudim e me condeno a buscar uma idealização de perfeição que simplesmente não existe!
Vale ressaltar que esta característica minha já foi mapeada há tempos, mas percebo que há um vício sociocultural de procurar o que está errado. Por exemplo, quando você se olha no espelho o que suas vozes internas te dizem? Quais são mais fortes? Ou então, quando você arruma seu filho para uma festa ou um momento importante para você, o que pensa? Ah, por que ele quer usar duas peças estampadas? Nossa, já comprei um sapato mais novo, mas ele insiste em usar este surrado?!
De fato, temos vozes internas que nos insuflam olhar exatamente para o buraco do pudim. Afinal, vivemos numa sociedade do consumo que nos estimula constantemente a querer comprar algo para tapar este “buraco” do pudim. Desta forma, nos esquecemos que é o buraco que traz a forma do pudim e que ao invés de algo a ser preenchido, poderia ser algo a ser contemplado!
Neste sentido, é preciso reconhecer que o perfeccionismo é uma meta impossível e que, errar e lidar com o que falta, é tão importante quanto aprendermos a desfrutar o que já temos!
Nos últimos meses, me propus a refletir intensamente sobre suficiência e como ela reflete na minha vida e na vida que eu quero viver! Inclusive, fiz esta reflexão também sobre merecimento em muitos de meus artigos do Conexão Profunda. O resultado têm sido uma busca muito intensa de significado e propósito com reflexões muito potentes e curativas no sentido de perceber que é preciso construir novas sinapses (caminhos cerebrais).
Isto porque, nosso cérebro constrói caminhos para “facilitar nossos processos!” Mas, às vezes, estes caminhos nos fazem viver no automático em direções que não gostaríamos de estar seguindo. Por exemplo, esta tendência perfeccionista que me faz querer controlar as coisas, prever possíveis erros e planejar tudo antecipadamente.
Deste modo, reconheço que meu perfil garante trabalhos bem executados, uma dedicação com a qualidade do que eu entrego. Contudo, me demanda tempo, certo sofrimento por conta da ansiedade e me atrapalha DESFRUTAR das coisas com leveza. E a solução para isso é buscar a suficiência das coisas, dos momentos, da minha própria capacidade de fazer as coisas.
Inclusive, percebo que vivemos tão estressados e ansiosos tentando corresponder às expectativas, julgamentos e valores de escassez. Em outras palavras, quanto tempo passamos nos sacrificando pelo futuro ao invés de simplesmente desfrutarmos o presente em sua inteireza?
Desde que o universo materno começou a fazer parte do meu mundo, conheci a frase popular: “Quando nasce uma mãe, nasce uma culpa!” E, apesar de achar muito aprisionadora esta frase, por vezes me pego neste movimento de me sentir culpada, errada ou insuficiente!
Vale ressaltar que o controle, o planejamento e esta parte excessivamente mental sempre estiveram muito presentes na minha forma de lidar com o mundo. Entretanto, agora percebo mais profundamente como este vício mental, por vezes, me atrapalha encontrar satisfação com as escolhas que faço, com as decisões que tomo.
Por isso, acredito que na vida mais complexa com família, ter clareza do que realmente importa faz uma diferença enorme! Então, estou buscando refletir e observar que é possível construir novas sinapses, um caminho que passe pelo equilíbrio e pela suficiência. Desta forma, tenho aprendido que é preciso ceder e parar de buscar o ideal, mas ficar feliz com o feito. Ou seja, é preciso DESFRUTAR O CAMINHO ao invés de focar na meta, no ideal e perfeito (inexistentes).
“Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”. Antonio Machado
Neste processo de encontrar a suficiência, percebi a necessidade de parar de brigar comigo mesma pela perfeição! Em algum ponto eu entendia que não buscar o perfeccionismo era fazer as coisas de forma desleixada. Contudo, o livro da Brené Brown A Coragem de Ser Imperfeito me trouxe outra perspectiva sobre o assunto:
Para alguns, o perfeccionismo pode surgir apenas quando estão se sentindo particularmente vulneráveis. Para outros, o perfeccionismo é compulsivo, crônico e debilitante – ele parece um vício.
Independentemente de nos encaixarmos num ou noutro tipo, se quisermos estar livres do perfeccionismo, precisamos fazer a longa travessia do “O que as pessoas vão pensar?” para o “Eu sou o bastante”. Essa jornada começa com resiliência à vergonha, amor-próprio e aceitação. Para assumir a verdade sobre quem somos, de onde viemos, em que acreditamos e sobre a natureza imperfeita de nossa vida, precisamos estar dispostos a pegar leve nas cobranças e apreciar a beleza de nossas falhas e imperfeições; precisamos ser mais amorosos e receptivos com nós mesmos e com os outros; e precisamos conversar conosco da mesma maneira com que conversamos com alguém que amamos. (p. 98)
De antemão, peço perdão pela longa citação, mas considerei importante e valiosa as palavras literais da autora! Nesta passagem existem inúmeros aspectos que estou refletindo e trabalhando em meus artigos. Todavia, aqui gostaria de registrar a importância de encontrar suficiência em nosso relacionamento conosco para transbordar isso para nossos filhos e para o nosso Universo.
Muitas vezes, eu me sinto num palco sem tempo para pausas e elas me fazem falta! Atualmente, sou mãe em tempo integral e estou sendo observada o tempo todo! Isto me faz não ter espaço para exercitar lados meus que eu sei que não são “exemplares” para minha filha! Ou seja, eu quero gritar, xingar, chutar a porta e chorar sem precisar dar satisfação quando estou passando pelo perrengue. Mas a situação que tenho no momento é pedalar para a bicicleta não cair e isto implica precisar lidar comigo e com minha filha ao mesmo tempo.
Por vezes, meu marido que está trabalhando em casa, me socorre. Em outros momentos, eu mesma preciso recolher os cacos de mim e explicar para minha filha coisas que nem eu mesma consigo entender sobre mim em alguns momentos!
Agora, ela já entendeu que às vezes eu só preciso chorar e ela sussurra na porta: “espira, mamãe!” Ou seja, respira, rs! Outras vezes que eu me descontrolo e grito, ela me diz: “Calma, eu te ajudo!” E, mais recentemente ela me olhou num destes momentos e me disse: “Você quer um abraço?” Nestas horas, o meu descontrole passa e eu nem entendo como entrei naquele estado.
Entretanto, também já vivi episódios dela perceber minha irritação e rir repetindo o comportamento que estava me irritando. Ah, como às vezes é difícil SER o que a gente quer VER no mundo, como diria o Gandhi!
Às vezes me lembro do filme “Efeito borboleta” e penso que mesmo se eu desenhasse o script do jeito que minha mente martela ser o melhor, minha vida não seria tão perfeita como eu idealizo! Ou seja, o pudim precisa do buraco no meio para ser pudim! Provavelmente, minha filha precisa presenciar alguns momentos de descontroles meus para se inspirar a lidar com as próprias emoções!
Vale ressaltar que nossa educação, nossa sociedade e cultura nos estimulou a jogar a “sujeira” para baixo do tapete e fingir que ela nunca aconteceu! Aliás, as redes sociais é onde mais percebo esta tendência! Agora, eu me pego num trabalho de olhar toda a “sujeira escondida ” dentro de mim para ir aprendendo com ela. Isto quer dizer, ir reconhecendo minhas sombras, me vulnerabilizando e desconstruindo pilares que já não fazem mais sentido na minha história!
“O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros” Jung
Gratidão pela leitura! Namastê! _/\_
SOBRE A AUTORA
Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE!
Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda e siga no instagram gm_conexaoprofunda
-Alô, é da Organização Mundial da Saúde? Que história é essa de que crianças de dois a seis anos não podem ficar mais de uma hora na frente da televisão, de celular ou tablet? Querem acabar com a nossa salvação?
-Filho, fique quieto, não consigo ouvir o telefone, Meu Deus, você quebrou um copo? Vamos para outro lugar, depois eu limpo isso, vem.
Só eu com o celular na mão, eletrônicos desligados, por isso essa criatividade a todo vapor.
Ele sobe na cama do escritório e pega o meu globo terrestre no colo, gira-o com os dedinhos, toca o mundo com a palma das mãos, coloca o dedo indicador em Paris e ri para mim, eu respondo que é longe, enquanto ouço uma música chata tocar ao telefone, parece que a atendente não gostou da minha reclamação.
Ele encana com o Hemisfério Norte, vejo-o conversando com o globo, eu respondo que lá tem urso polar. Ele imita um urso gigante e começa a me fazer cócegas nas pernas e diz que o urso quer comida, pulando pulando igual a um canguru.
-Organização Mundial da Saúde, boa tarde.
Não consigo responder alô, estou concentrada em dar risadas e a nova atendente deve achar que está falando com uma louca varrida do outro lado da linha, mal sabe ela que morro de cócegas nas pernas e que tem um urso no meu escritório arranhando-me e implorando por comida.
Eu sei, esse tal urso está utilizando suas artimanhas para ver a luz dos olhos meus se encontrarem com a luz dos olhos seus, e isso eu só consigo fazer longe do celular, mas mal sabe ele que o assunto é extrema importância para a sua galáxia.
-Boa tarde Eduarda, desculpa, estava passando por uma situação delicada de pernas, quer dizer, uma situação delicada apenas, ou melhor, apenas engraçada. Bom, vou direto ao ponto, para não ser transferida novamente para outra atendente: Por que essa regra da OMS de apenas uma hora de uso de telas para crianças de três anos? Por quê? Sabe que nós mães usamos o chicote da culpa diariamente e vêm vocês agora por mais essa dívida na nossa conta?
-Minha senhora, é apenas uma orientação, não precisa cumprir à risca. Não temos o manual da educação, cada pai faz aquilo que é melhor para sua família, queremos apenas chamar a atenção dos pais para algumas questões, veja: vocês pais não deixam o filho sair na rua sozinho, dirigir, usar arma, mas dão acesso livre ao celular que é o maior esgoto a céu aberto do mundo, com conteúdo de pornografia, automutilamento, suicídio, crimes, etc.
-Entendo, até aí eu concordo, nem criança nem adolescente pode ter acesso livre ao celular.
-Hoje, está em alta, crianças assistirem a outras crianças brincando, há pais que acham que o seu filho está brincando porque está vendo outra criança brincar, mas na verdade, esse é o auge da passividade, da dormência dos sentidos, é a morte da criatividade, da capacidade de ser criança, do desejo de brincar com as próprias pernas e mãos.
-Mas todos nós assistíamos à tv quando éramos pequenos, Eduarda.
-Minha senhora, mas não assim, hoje em dia há também propagandas camufladas, um incentivo de consumo exagerado, as crianças se tornam produtos vendendo produtos e nossos filhos se tornam bonecos de olhos estalados e hipnotizados, sem qualquer discernimento.
Olho para o meu filho com o mundo nas mãos, cheio de ideias na cabeça, no momento imitando um avião para buscar outro urso polar no hemisfério norte, e tento mais uma pergunta à atendente, a meu favor, digo que a tv ajuda a desenvolver a fala.
-Não, não, minha senhora a fala se desenvolve pela interação social, a tela não reage, se a criança conversa não há qualquer comportamento corporal em resposta àquela ação. Há estudos que dizem que as sinapses cerebrais de uma pessoa conectada a um estímulo tóxico de tela são semelhantes a um usuário de droga; deixe seu filho no celular por meia hora, mudando e mudando com os dedinhos os mais variados programas, depois tente tirar dele o celular para ver se ele não se comportará como um bicho, um “addicted”.
-Verdade, isso já aconteceu comigo.
-Sem contar a enorme frustração que a criança se depara com a vida ao perceber que não consegue mudar as coisas com um simples toque dos dedinhos na tela da vida. Uma pergunta: a senhora dá chocolate, sorvete em excesso para o seu filho?
-Claro que não (eu repondo categoricamente, porque cuido bem da alimentação dele).
-Pois é, o açúcar é um aditivo também, e por que é mais fácil de visualizar do que as telas?
-Verdade, Eduarda.
-Senhora, esse mundo virtual está matando nossos jovens, a depressão infanto-juvenil tem aumentado e o uso do celular em demasia tem alarmado esse quadro, porque não se aceita mais a sensação de frustração, a interação com pessoas diferentes, cria-se uma bolha na palma das mãos.
-Então quer dizer que toda criança que usa telas será depressiva?
-Não estou dizendo isso, minha senhora. As pessoas adoram um determinismo, se fulano fez isso será assim, se sicrano fez aquilo será assado, ninguém é apenas uma coisa e ponto, somos uma interação com o meio, com as pessoas, com tudo ao nosso redor, e o que há de mais importante na criação de um filho é a PRESENÇA, que não tem nada a ver com dar PRESENTE, a presença que eu digo não vem necessariamente da quantidade de tempo, vem do amor, do acolhimento, da empatia, da conexão real dos pais com a criança, essa é a melhor sinapse cerebral (ela diz rindo) já estudada pelos especialistas, é a salvação não só para a família, mas também para essa maldita humanidade que vive mergulhada no ódio, pode acreditar.
-Acredito. Digo com a voz embargada, querendo convidar a tal atendente Eduarda para uma palestra lá em casa, no condomínio, na vizinha, na escola e sinto um aperto no coração, tão grande, tão grande, que coloco o celular no chão, sem perceber que a deixei falando sozinha, para me tornar um mico leão dourado e fazer a luz dos olhos meus se casar com a luz dos olhos do meu amado urso polar.
-Alô, alô, senhora, senhora, vou entender esse silêncio como uma resposta: a senhora se desconectou para se conectar. A Organização Mundial da Saúde agradece a sua ligação, tenha uma boa conexão.
SOBRE A AUTORA:
Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.
@ligiafreitasescritora
Eu sempre quis ser mãe, minha gravidez foi com o homem que eu queria, na idade que eu queria com 28 anos, e minha gestação foi uma maravilha, não tive enjôo nenhum, nenhum episódio traumático que pudesse afetar a mim e a minha bebê, tive o parto normal, que foi possível como eu idealizava, e pra mim até então tudo era perfeito… até o desespero bater na minha porta no quinto dia em que chegamos em casa porque eu não conseguia amamentar, fui parar no hospital no sétimo dia com a minha filha em casa com um quadro de estresse agudo, e ouvia pelos cantos minha mãe falando com meu pai que achava que eu estava com depressão pós parto. Minha maternidade perfeita ruiu.
Vim a saber depois que esse quadro de stress fazia parte de algo que eu nunca tinha ouvido falar que se chamava puerpério, que um dos nomes para o stress pós parto era também baby blues. E esse foi só o começo do meu encontro com o que mais de um ano depois eu ouviria a denominação “sombras”, por meio da Clarissa Yakiara, e posteriormente lendo o livro da Laura Gutman “A maternidade e o encontro com a própria sombra”.
Meu sentimento era de total desolação, de impotência, até mesmo de raiva daquele bebê que não mamava, que se acalmava no colo de outras pessoas, mas no meu chorava. Claro, eu não conseguia transmitir segurança pra ela (muito menos pra mim mesma), por isso ela chorava comigo, vim a entender todo esse mecanismo tempos depois, lendo alguns textos sobre maternidade, pós parto, nos perfis nas redes sociais que tratavam do assunto. Não fazia nada sem antes pesquisar a hashtag no instagram, fiquei tão perdida e refém, e ao mesmo tempo me sentia amparada por aquelas postagens nas redes, e hoje vejo que esses perfis acabaram se tornando de certa forma uma rede de apoio para mim num momento de insegurança sem fim. Desenvolvi um medo de tudo, absolutamente tudo.
O medo sempre foi uma emoção predominante em minha vida, e quando me tornei mãe todos os medos se potencializaram. Consequentemente, minha filha teve cólicas até o quinto mês, na introdução alimentar ela simplesmente não comia, voltei da licença maternidade e ela não aceitava outro leite senão o materno, a ida a escolinha com 10 meses foi um desafio enorme porque ela demorou a se adaptar e eu precisava trabalhar, e isso só fazia aumentar minha insegurança e minha sensação de culpa e de incapacidade.
Através de um grupo de whatts app conheci algumas mães que se tornaram uma rede de apoio muito importante para mim, as quais sou muito grata, que depois por indicação de uma delas cheguei ao Zum Zum de Mães, e então pude me aprofundar nos temas sobre maternidade que muitas vezes eu via nas redes sociais, de certa forma acabavam me ajudando muito, porém muitas vezes eu não sabia o que fazer com aquelas informações. Por vezes me sentia culpada por não conseguir aplicar aqueles princípios novos na minha vida, algumas vezes me sentia com raiva das pessoas da família que pensavam diferente de tudo aquilo que fui absorvendo como certo pra criação da minha filha, que fazia sentido pra mim, mas me colocava num lugar de pouca empatia com quem pensava diferente. Quando olho pra trás, vejo o quanto foi solitário estar nesse lugar.
Minha experiência no Zum Zum de Mães começou em um momento em que eu culpava o mundo por todo meu sofrimento com a maternidade, culpava meu passado, culpava meu marido, e nossa relação ia de mal a pior, eu sempre achando segundo a minha percepção limitada naquele momento que ele não assumia seu papel de pai, e por isso eu me sentia com o peso do mundo nas costas.
Então com o Zum Zum de Mães eu fui entrando num processo de autoconhecimento que mudou minha história como mãe, que aos poucos foi desfazendo em mim o meu papel de vítima das circunstâncias e das pessoas, entendi que minha filha era um espelho fiel do meu interior, das minhas emoções reprimidas, das minhas “sombras”, daquilo que era oculto à minha consciência e que eu já não acessava desde a infância, mas que com a maternidade aflorou de maneira assustadora, e ao mesmo tempo, como uma grande oportunidade de ressignificação e cura.
Meu primeiro sentimento quando fui entendendo que minha filha era em um dos seus aspectos um espelho do meu interior, foi de muito culpabilização. Sentia culpa por cada vez que ela adoeceu, e entrei numa busca frenética de querer “resolver minhas questões” pra que ela não adoecesse mais, e ela vivia doentinha, e cada vez que ela adoecia minha culpa aumentava porque eu pensava que eu estava fazendo minha filha sofrer por minha causa, e queria que aquela dor fosse pra mim.
Mas hoje entendo que aquela dor era muito mais minha do que dela, e que ela nesse amor compassivo que os filhos tem pelos pais, escolhia adoecer pra dividir comigo essa dor, e tentar minimizá-la, além de me convidar a olhar pro meu interior negligenciado. Quão linda é toda essa dinâmica, eu não consigo descrever!
Ainda hoje tenho momentos de me culpar, de me sentir péssima por ela adoecer, aliás, em todas minhas buscas interiores vejo que existem em mim traumas relacionados a doenças, por isso que me afeta quando minha filha adoece, remexe muitas coisas dentro de mim.
Porém, aos poucos tenho conseguido mudar em mim a forma de encarar as minhas sombras espelhadas na minha pequena, e hoje meu sentimento é de imensa gratidão a ela por me mostrar uma chance de autocura, uma segunda chance de reviver aquilo que doeu em minha criança interior, e que hoje ao re-olhar pro que doeu posso dar novo significado enquanto adulta. Ressignificar a percepção da dor de “castigo” para “estar à serviço”, de crescimento pessoal e espiritual é libertador e belo ao mesmo tempo. Não é da noite para o dia que se muda essa chave dentro de si, é algo diário e constante. É um processo intenso, que não é fácil, mas que mudando de pensamento devagar, no dia-a-dia, vão se desenhando novas perspectivas dentro de nós.
Sinto muita gratidão por todo o processo de autoconhecimento que a maternidade despertou em mim, pois tudo que tenho vivido, todas as minhas buscas interiores, através de terapias, de muito estudo e muitas leituras, de assistir palestras e palestras sobre o tema autoconhecimento e maternidade com diferentes abordagens, os insights são cada dia mais claros, minha mudança é cada dia maior, e ver essa clareza e leveza se refletindo na minha filha e no nosso entorno familiar não tem preço.
Sinto que esse caminho não acaba aqui, e que essa mudança está apenas começando. Cada fase traz consigo novas questões a serem olhadas e integradas. Porém não posso esperar pra ser uma mãe mais feliz somente no futuro – enquanto mergulho no meu autoconhecimento e na minha autocura vou desfrutando do que a vida me reserva na beira da estrada, ora me deparo com uma linda vista de flores exalando perfume, ora com algumas pedras no caminho, mas o importante é continuar caminhando rumo a nossa verdadeira essência, rumo ao nosso “Eu” interior.
Parafraseando Gandhi, isso nunca fez tanto sentido pra mim como hoje faz: “Seja a mudança que você quer ver no seu mundo, do seu filho e da sua família”! Cada dia me convenço mais de que o segredo está em e no “Ser”.
SOBRE AUTORA: Este texto foi escrito por NATALIA CAMILA DA SILVA, 32 anos, mãe da Olívia de 3 anos, Participante da Turma 5 do Zum Zum de Mães, Funcionária Pública, Gestora de Recursos Humanos, adepta do Sagrado Feminino. Escreve para elaborar suas emoções, só de escrever se sente mais leve e mais inteira.
IG: natycamila87