Deixe o sol entrar

Em tempos de agrotóxico, quero falar das abelhas, em tempos de certezas absolutas sobre a maternidade, quero falar de um curso de mães que se chama “Zum Zum de Mães”.

A colheita chega a nossa mesa como num passe de mágicas, ninguém vê o percurso do alimento da terra até o estômago, aquilo que acontece entre o início e o fim.

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” já dizia o poeta, e a pergunta que não quer calar é: como identificarmos as pedras nos nossos caminhos?

O agrotóxico, por exemplo, não foi criado como pedra, mas sim para acabar com as pragas, mas será que não se tornou pedra a partir do momento que está acabando também com as abelhas, rainhas da polinização, responsáveis pela manutenção da flora, com suas folhas e frutos? Será que estamos a usar o Maquiavel, onde os fins justificam os meios?

Eis uma pedra no meio do caminho da sociedade contemporânea: O DESCARTE DO VELHO PELO NOVO, do idoso pelo jovem, da sabedoria milenar pela teoria atual, da abelha ou meios de polinização natural pelo agrotóxico, do instinto materno pelas certezas da maternidade.

ACUMULAMOS e acumulamos LIXO =aquilo que vem DE FORA, e de outro lado, DESCARTAMOS O ESSENCIAL=aquilo que vem DE DENTRO.

As armaduras desse novo mundo têm nos colocado de costas para nós mesmos. É como se criássemos uma casca grossa em torno do nosso corpo, até que chegará um dia em que essa casca alcançará os nossos olhos e não nos enxergaremos mais nem no espelho.

Em extinção está a busca pela simplicidade, pelos motivos que nos conduzem a continuarmos nesta caminhada terrestre, apesar das pedras no meio do caminho, em extinção estão pessoas que olhem para a nossa essência por trás da tal armadura, mas eu conheci uma pessoa assim.

Essa pessoa é a professora Clarissa Yakiara, que ministra um curso de mães que leva o símbolo de uma abelha, não por acaso, e se chama “Zum Zum de Mães”.

Entrei no curso quando o João tinha seis meses, com a ideia de receber um manual para ser mãe, mas quando saí do curso percebi que esse manual não existe, ou melhor, que ele até existe, mas não está lá fora, está aqui dentro, na conexão única e pessoal que eu estabeleço a cada dia com o meu filho.

O zunido da abelha me resgata até hoje à minha natureza interna e o “Zum Zum” me faz lembrar a cada manhã de que é preciso alimentar não só o meu corpo, mas também a minha alma e a do meu filho.

Depois do curso, pude ver que por baixo de toda armadura há um ser humano e onde tem ser humano tem sentimento, e onde tem sentimento pode haver alguma necessidade não atendida.

Antes do curso, as situações da maternidade pareciam meramente matemática: doente= remédio, vomitou= comida fez mal, frio=cobertor, chilique= não tem motivo, vontade exagerada por algo específico: vontade exagerada por algo específico.

Só que não, como diz a moçada. Não é simples assim, diz a professora Clarissa Yakiara.

Hoje quando o João fica doente ou vomita, não olho apenas para FORA, a comida, a doença, mas principalmente para DENTRO: será que ele tem me mostrado  algo que o incomoda? Será que ele está com dificuldade de conviver com alguma emoção e o seu corpinho está falando?

Recentemente ele deu um chilique de cinema e demonstrou uma vontade exagerada por um chocolate,  logo após a despedida  da minha mãe que mora longe, antes eu enxergaria somente o desejo exagerado e ponto, agora, consigo ver uma vontade interposta, um desejo camuflado: estava triste porque a vovó foi embora (o desejo exagerado era pela sua volta), e eu o abracei, tanto e tanto, acolhi  a saudade já anunciada, e em pouco tempo ele não tocou mais no assunto do chocolate.

Hoje estou grávida do meu segundo filho, e o João anda expressando os seus sentimentos por linguagens variadas, o meu desafio maior tem sido desvendá-las.

Abro a janela, e inspiro profundamente a minha essência, posso ouvir o zunido das abelhas cuidando de mim e do meu entorno, olho fixo num ponto e vejo: no meio do caminho tem uma pedra, tem uma pedra no meio do caminho. Expiro confiança nesta travessia, na certeza de que a janela deve permanecer aberta para deixar o sol entrar.

SOBRE A AUTORA:

Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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