Temos consciência, então somos todos pais conscientes. Só que não, como diz a garotada.

Ter cérebro não significa automaticamente ter clareza mental.

A capacidade de se expressar e de se relacionar com o filho não é facilmente adquirida naquela loja da esquina ou numa padaria.

-Quero um pão, por favor, bem clarinho e uma consciência renovada, repleta de paz e resiliência.

-Não tenho.

-A consciência?

-Não, o pão.

-Então, quanto é a consciência?

-Quanto você paga?

-Até 200 reais.

-Não vendo para você.

-Por quê?

-Porque não merece. Se você quer preço vá numa padaria.

-Mas não estou numa padaria?

-Não, você está num hospício.

A maternidade é o passo mais próximo da loucura que podemos alcançar. Isso não quer dizer que iremos direto para um hospital psiquiátrico.

Sábio é aquele que convive com a insanidade, sabedor de que assim seus pés tocarão mais a liberdade.

A maré alta traz restos de quem não se salvou, daqueles que naufragaram em alto mar, ausentes de equipamentos de mergulho, daqueles que se aventuraram num caiaque em mar escuro.

Daqueles pais que olharam para a criança e se desesperaram com suas ondas altas e aparentemente traiçoeiras.

O mar responde: – não se enganem não, sou natural, rítmico e consistente, há sentido em cada chuá chuá reluzente.

Não há vingança, birra, pirraça das crianças, não enquanto elas permanecerem crianças, distantes das armadilhas de enganação e castigo dos adultos.

O mundo da criança é sim um mar aberto, de movimento, autonomia e expansão. Quando captarmos um pouco dessa maresia nosso navio começará a ser construído com as nossas próprias mãos.

E nossos mares também são profundos, muitas vezes nunca antes navegados, esta é a grande oportunidade que nossos filhos nos delegam: evolução.

Ouso mudar a letra da música de Paulinho da Viola “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar” para dizer que pais conscientes são capazes de construir um transatlântico para atravessar o mar interno da própria família.

Aguço meus ouvidos e ouço-os cantando: “Sou eu quem me navego, sou eu quem navego o mar”.

 

SOBRE A AUTORA:

Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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Este episódio com a querida Malu, @universodalizebel, foi simplesmente surpreendente.

Quando a convidamos para entrar em nossa tenda para falarmos sobre o “Brincar”, não imaginávamos que chegaríamos a lugares tão profundos. Rimos muito e também nos emocionamos. Percebemos o quanto o brincar nos coloca em contato com nossas emoções, com nossa experiência infantil, diz de quem somos e da relação que temos com nossos filhos.

De uma maneira muito leve e envolvente, a Malu nos conduz por um caminho que pode ampliar o seu olhar para o Brincar.

Dá o PLAY e seja super bem vinda a nossa Tenda:

Falamos sobre o brincar como relação e linguagem da criança; o ambiente para o brincar livre acontecer; TELAS e seus impacto no desenvolvimento das crianças; nossas experiências infantis com o brincar e como isso impacta na relação com nossos filhos hoje; o papel do adulto no brincar e muito mais…

Entre em nossa Tenda e desfrute desse universo encantador! E lembre-se de contar pra gente depois o que achou desse episódio, vamos adorar te escutar!

Um beijo com muito carinho por receber você em nossa Tenda,
Clarissa & Maira

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Eu já escrevi para vocês sobre a escolha de ter ou não mais que um filho (Mais de um filho, ter ou não ter).  Já contei também do meu antigo desejo de ser mãe de três, mas que no momento o marido e eu havíamos decidido “fechar a fábrica” no segundo (A maternidade como oportunidade para o autoconhecimento), afinal, como diz uma querida amiga, já tenho um exemplar de cada (uma menina e um menino).

Eu estava tão decidida conscientemente a este respeito, que assim que Gael nasceu doei todas as minhas roupas de grávida e conforme ele foi crescendo fui doando tudo que já não lhe servia mais, diferente do que fiz com Laís. Quando Gael tinha cerca de sete ou oito meses, meu marido voltou de uma imersão de Coaching que estava participando em um final de semana e me disse que nos exercícios de visualização do futuro que fez ele sempre via nossa família com três filhos. Na hora reagi: “Está louco? Nem brinca com uma coisa dessas.” Mas no fundo, eu fiquei feliz em pensar na possibilidade de me ver grávida de novo, de parir, de ter mais um filho. Sabe quando parece que uma sementinha que estava dentro do saquinho é plantada em um vaso e ela percebe que a partir de então ela pode desabrochar? Nem toda semente que é plantada de fato se torna uma planta, mas há uma possibilidade. Foi mais ou menos isso que senti. Não que eu necessariamente teria mais um filho, mas a possibilidade me trouxe uma grande felicidade para o meu coração.

Eu nunca escondi de ninguém o desejo de ter mais um filho, todavia, queria esperar mais tempo dessa vez, daqui uns três ou quatro anos quem sabe, eu pensava. Ao mesmo tempo, eu sabia que se fosse esperar todo esse tempo ia acabar desistindo. Aquela história de não querer revirar tudo de novo quando as coisas já estão se encaixando. Assim, eu estava conformada com a idéia de continuar só com um exemplar de cada.

Por vezes, quando via alguma grávida, ou bebê recém-nascido, ou alguma família com três filhos ou mais, eu achava lindo! E, novamente, o sentimento de ter mais um filho me invadia. Outras vezes, ao rever fotos das minhas gestações e dos partos, eu pensava: “Será que não vou ter a oportunidade de estar grávida e parir novamente?”.  Todavia, o diálogo interno começava: “Deixa de ser doida e se aquieta com dois, já está bom. Dois é o suficiente, você só tem duas pernas e dois braços para dar colo, um para cada. Se vier mais um, como você vai fazer? Como vai dar conta? Como vai administrar mais um filho?”. E assim eu ia procurando calar o desejo que desde sempre esteve comigo.

Uma semana após Gael completar um ano, voltei a menstruar. Uauuuuu, meu corpo estava pronto novamente. Agora mais do que nunca era preciso cuidado. As relações sexuais eram todas protegidas, e com dois filhos pequenos, eram também pouco frequentes. Mas um belo dia, após quase uma quarentena (ou mais) sem sexo, não achamos a “abençoada camisinha”. Pelas minhas contas o período fértil já tinha passado, sendo assim, deixamos a proteção de lado. Pronto, estava feito!

Menstruação atrasada.

No mês seguinte a menstruação não veio. Senti um frio na barriga, mas minha mente tagarela entrou em ação tentando me tranquilizar:

“Fica tranquila, seu ciclo não é regulado, logo a menstruação chega.”

“Algumas mulheres demoram para voltar a ter o ciclo normal após o parto.”

“Após o parto da Laís a menstruação veio só depois de um ano e três meses, então pode ser que logo ela chegue.”

Pensei em fazer um teste de farmácia, mas eu estava sem coragem. Sonhei que tinha feito um e que o resultado era positivo: “Ah, foi só um sonho!” – minha mente dizia.

E assim eu ia fugindo da realidade.

No segundo mês, de novo ela não veio. E agora?

“Ah, mas não estou sentindo nenhum enjoo.”

“Este sono que as vezes sinto é porque tenho dormido pouco devido a rotina intensa das últimas semanas.”

Eu continuava fugindo.

Até que em um domingo percebi que uma calça jeans já não estava tão folgada como antes. A noite, antes de ir dormir, subi na balança que tenho no banheiro e estava um pouco esquecida no último mês. Quase 2,5kg a mais. Chamei Rafael e disse: “Nossa, preciso voltar a cuidar da minha alimentação, tenho comido em excesso, olha como engordei?”.

Ele olhou para mim e disse: Você esta grávida!

Meu corpo inteiro estremeceu! Como assim grávida? Eu não podia estar grávida! Não agora! Eu estava com vários planos e projetos para este ano, e neles não estava incluído estar grávida. Resisti. Ainda não queria acreditar.

Naquela noite quase não dormi.

O teste de gravidez

Na segunda feira Rafael foi trabalhar logo cedo, e na volta para o almoço me trouxe duas caixinhas de teste de farmácia. Eu estava resistente, não queria fazer, talvez porque eu já soubesse da resposta. Eu queria ver apenas um risquinho no marcador, mas nem sabia qual era a sensação de ver apenas um risquinho, os dois testes que fiz foram positivos de cara, eu já sabia que este também ia ser, só não queria ver.

E realmente foi. Na verdade eu fiz o xixi, coloquei o marcador e pedi para o Rafael ir avaliar. Ele, sem entender direito, disse que estava negativo, pois os risquinhos eram de intensidades diferentes. Mal sabia ele que a intensidade da cor não importa. Bastam dois risquinhos para que o resultado seja positivo.

Chorei, chorei, chorei e chorei mais um pouco.

E agora?

Um turbilhão de coisas vieram à minha mente. Coisas negativas que eu não queria que viessem, mas não consegui evitar. Agradeci a Deus pela oportunidade de mais uma vez gerar a vida, porém os pensamentos negativos não iam embora.

Minha mente tagarela não conseguia silenciar um segundo:

“Como pude ter sido tão irresponsável?”

“E todos os planos que eu tinha pra 2019, como vou fazer?”

“Como Laís e Gael vão lidar com a chegada de um bebê? Ahhh, e Gael é ainda tão novinho…”

“Como Rafael vai lidar com mais um filho? Como vai ficar nossa relação?”

“Já é tão desafiador ser mãe de dois em alguns momentos, imagine de três? Como eu vou dar conta?”

“O que as pessoas irão pensar? (Este foi de fato o pensamento mais medíocre de todos. Percebi o quanto ainda tenho que desconstruir com relação a necessidade de ter minhas atitudes aprovadas pelos outros.)”

Enfim, neste primeiro momento tive muito medo. Chorei e chorei!

E chorei pelo fato de estar chorando, pois sabia que o bebê que estava em meu ventre estava sentindo tudo aquilo e eu não queria que ele sentisse. Sabia que todo o tempo que ele já estava lá dentro e eu o negando tinham impactos na sua formação… ele não merecia esta carga. Por outro lado, eu não conseguia controlar. Precisava colocar para fora de uma vez por todas o turbilhão de sentimentos confusos que estavam em meu ser. Eu chorei.

Rafael me acolheu!

Voltando para o eixo

Em meio ao meu desespero, Rafael usou suas habilidades de Coach e começou a me questionar várias coisas do tipo, o que eu estava sentindo, por que eu acreditava que estava sentindo aquilo, quais meus medos e inseguranças. Eu estava reativa, não queria pensar em nada do que ele estava falando, só queria ficar no papel de vítima coitadinha que não se cuidou e agora teria que lidar com mais um bebê. Eu só pensava nos planos que eu teria que adiar e no medo de não dar conta. Entretanto, Rafael me deu uns bons chacoalhões. Ele me fez refletir que ter três filhos sempre foi um grande desejo do meu coração, e que se eu fosse esperar mais tempo para engravidar talvez eu desistisse. Também me lembrou do quanto eu amo estar grávida, e do quanto eu devo ser grata pelo meu corpo estar saudável e fértil. Ele me fez imaginar o quanto será gostoso ter uma casa cheia de filhos, e me fez enxergar que a chegada deste bebê tem um propósito muito importante, considerando que foi uma única relação sem camisinha. Deus deve ter falado, é agora ou nunca! Enfim, era pra ser! E era pra ser agora, neste momento. Os demais planos podem ser adiados, mas a chegada deste bebê, que já chegou chegando e nos mostrando que não temos o controle de tudo, não.

Eu, que acredito tanto em Deus, que confio e que procuro estar sempre aberta para as manifestações divinas na minha vida, neste momento estava totalmente cética. Mas aos poucos Rafael conseguiu me trazer para o eixo novamente, abraçou-me, acolheu-me e abriu-me os olhos para aquilo que eu acredito e defendo. Quando estamos abertos à ação divina em nossas vidas, devemos repetir o mantra: Entrego, confio, aceito, agradeço!

Apesar de já estar mais calma, naquela noite eu ainda tive um sono agitado. Por vezes ainda não acreditava que estava grávida, e só para ter mais certeza, fiz o outro teste assim que acordei no dia seguinte, que confirmou o que já era certo.

Eu, o Bebê e Deus

Pensei em tudo que Rafael tinha me falado no dia anterior. Olhei para dentro, busquei meus valores, minhas crenças, minhas forças. Repeti para mim mesma mais uma vez o mantra: Entrego, confio, aceito, agradeço!

Senti que precisava ter uma conversa íntima comigo mesma, com Deus, e com o bebê. Precisava “colocar os pingos nos is”, entender melhor meus sentimentos, pedir perdão.

Fui para o Jardim Botânico com meu tapetinho de yoga.  Sentei-me em posição de meditação com as mãos no ventre, olhei para o céu e a natureza ao meu redor, tudo tão lindo, cheio de vida, de abundância, em perfeita sintonia. Em silêncio chorei! Busquei entender cada sentimento, e comecei a conversar com Deus. Pedi perdão pela minha falta de confiança. Entreguei a Ele meu ser, minha gestação, meu bebê. Agradeci pela confiança d’Ele para comigo, pois mais uma vez eu fui escolhida para ser o canal através do qual uma alma vem ao mundo para cumprir sua missão. Mais uma vez eu vou ter a grande oportunidade de experimentar o milagre da vida acontecendo em meu ventre. Mais uma vez eu vou poder entrar em contato com minhas sombras e evoluir. Mais uma vez eu vou ter a graça de experimentar o amor mais puro, de ensinar e aprender… Agradeci pelo meu corpo perfeito, pela minha fertilidade.

Em seguida, iniciei o diálogo com meu bebê. Pedi perdão pelos meus medos e inseguranças, pela falta de aceitação da gravidez, pelos julgamentos e pelo sentimento de culpa. Disse que sentia muito por ter compartilhado todos estes sentimentos negativos com ele, pois ele não merecia. Agradeci por ele ter me escolhido como mãe, apesar de todas as minhas imperfeições. E disse também que desde já eu o amava muito, e que ele será muito bem vindo, amado, e querido em nossa família. Chorei, mas desta vez um choro de alívio misturado com felicidade.

E depois de sentir a alma mais leve, aproveitei e pratiquei um pouco de yoga com a consciência que dentro do meu corpo habita um ser em desenvolvimento que precisa de todo meu amor e cuidado.

Uma nova realidade

No momento em que escrevo este texto já estou com 14 semanas de gestação, e por vezes ainda esqueço que estou grávida. Não sinto enjoos e nenhum outro desconforto, sigo meu dia normalmente, na deliciosa e louca rotina de ser mãe de dois. Em breve a barriga vai começar a crescer e sei que virão outros desafios. Algumas vezes me pego pensando no que pode vir de mais desafiador, mas quando me dou conta já mando estes pensamentos embora e foco na alegria que é ser mãe.

Laís e Gael estão numa fase super gostosa de irmãos, brincam juntos, se abraçam, se beijam, cuidam um do outro. É encantador! Lógico que existem os momentos de rivalidade, e são bem intensos, mas são bem poucos se comparados aos momentos de parceria.  Ver o amor entre os dois tranquiliza meu coração quando penso na chegada do novo integrante da família.

Laís, a princípio, não aceitou a gravidez. Disse que só queria o Gael de irmão, que estava bom a família do jeito que estava e não precisava crescer. Nem preciso dizer que, de alguma forma, ela estava colocando para fora aquilo que era meu, a minha resistência em aceitar. Fui conversando com ela, explicando os meus sentimentos, e agora está tudo ok, exceto a expectativa por parte dela para ser uma menina!

Gael ainda não consegue se expressar de forma clara, mas com certeza já percebeu que tem algo de novo acontecendo. Tenho o percebido mais apegado. Também conversei e tenho conversado com ele, explicando o que está acontecendo e o que irá acontecer.  Ainda sigo amamentando, mas não ofereço mais o tetê. Quando ele pede, dependendo do momento eu dou, ou mudo o foco para outra atividade.  Por enquanto seguimos assim!

Diferente das duas primeiras gestações, desta vez não estou mais na loucura do mundo coorporativo. Tenho minha liberdade e faço meus horários de trabalho conforme minha necessidade. Além disso, conto com uma pessoa em casa para me ajudar com os afazeres domésticos e com as crianças quando preciso, o que me tira um grande fardo das costas.  Isto será um diferencial extremamente positivo nesta gravidez.

Minha relação com Rafael está numa fase muito boa, de evolução e aprendizado. Já passamos por alguns momentos de altos e baixos, e a vinda deste bebê com certeza foi para nos colocar mais para o alto, e assim tem sido.

Conforme já aprendi, cada gestação é única. Sigo desta vez mais leve, sem expectativas. Sinto-me mais preparada tanto física quanto emocionalmente. Estou em um momento maravilhoso da minha vida. Sou só gratidão!

Por um mundo melhor

Apesar do susto inicial, estamos muito felizes por aqui.

Eu acredito que a maternidade tem o grande poder de transformar o mundo. Por isso, para mim, cada filho é uma oportunidade que tenho de deixar para o mundo alguém que pode fazer a diferença de um modo positivo e amoroso. Todavia, para que isso aconteça, eu sou a responsável por ser para este filho a melhor mãe que posso ser. Dar a ele todo meu amor e educa-lo através do amor. É fácil? Lógico que não! Ainda mais com três filhos para amar e cuidar… A jornada é longa e desafiadora, mas estou disposta a encarar este desafio com unhas e dentes. Ser o que eu nasci para ser e educar meus filhos com este propósito.

Ao contrário do que muitos pregam por ai, que querem deixar um mundo melhor para os filhos, eu acredito que só é possível existir um mundo melhor quando deixarmos para o mundo filhos melhores! E já que eu tenho pressa, fiz logo três filhos para colaborar mais! Rs. Brincadeiras a parte, também acredito que ser mãe de três será para mim uma grande experiência, inclusive do ponto de vista profissional, visto que poderei viver na prática o que as mamães de três que atendo também vivem. Deste modo, fica mais fácil colaborar com algumas questões específicas.

Assim, sigo minha jornada na busca incessante por ser a melhor mãe e a melhor Coach de gestantes e mães que posso ser, de forma equilibrada e consciente, repetindo o mantra: Entrego, confio, aceito, agradeço.

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

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O tema Merecimento faz parte de algumas reflexões que venho escrevendo em meu blog Conexão Profunda! Trata-se de um tema que venho refletindo há tempos, e sinto que ainda tenho muito para explorar! E, como não poderia deixar de ser, este é mais um tema de autoconhecimento que perpassa o universo da Maternidade!

“Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar”. Katherine Mansfield

Em um dos artigos do Conexão Profunda, investiguei um pouco as origens de muitas crenças que carregamos sobre a ideia de merecimento! Caso interesse, deixo aqui o link Merecimento: aprofundando o olhar – parte 2 Inclusive, fiz uma pesquisa informal entre amigos com duas perguntas perturbadoras:

  1. O que é merecimento para você?
  2. Quando você se sente merecedor(a)?

Na realidade, acredito que as respostas a estas perguntas fornecem pistas importantes sobre como nos sentimos. Deste modo, estas reflexões trazem consigo nossas crenças mais profundas sobre nosso valor. Por isso, te convido a uma reflexão num universo muito mais profundo de descobertas sobre você, sua família e a forma como se vê no mundo!

As raízes de nossas crenças

Obviamente a infância é um período extremamente rico para o desenvolvimento humano. Ou seja, vários aspectos: físico, mental, emocional, espiritual e social estão em pleno desenvolvimento! Inclusive, muitas das respostas que procuramos hoje estão, na verdade, em nossa infância. Por vezes, estas respostas estão bloqueadas por traumas, medos e formas de compreender distorcidas. Afinal, ainda temos muitos registros inconscientes sob as condições limitadas do olhar de uma criança! Leia também Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

Convém notar que ao refletir sobre o passado, muitas frases vem à tona e permitem apreender o contexto repressor daquela sociedade. Naquele contexto, educar significava repreensão e submissão. Por isso, filhos bem educados eram filhos obedientes e temerosos de apanhar. Ou, talvez pior, de perder o amor dos pais! Claro, tudo isso de forma bem inconsciente!

Sob esta perspectiva, era preciso negociar o amor, “fazer por merecer”! Conforme exemplifica o ditado popular: “Deus ajuda, quem cedo madruga!”. Assim, o amor estava num universo de escassez em que era preciso aprender a conquistar! Deste modo, basta observar como isso ainda reverbera atualmente sobre nossa forma de MERECER! Aposto que sua resposta às duas questões anteriores referem-se à esforço, trabalho duro, colher o que se planta… Sob esta perspectiva, há várias destas ideias de que “é preciso fazer por onde!” para merecer amor, para merecer ser amado!

Padrões de Repetição Familiares

Conforme demonstra o artigo Que frases da sua infância te impedem de ser a mãe que você quer ser? , muitas vezes reproduzimos padrões familiares. E, como observou muito bem Maíra Soares, isto acontece sem sequer nos darmos conta! Ou seja, apesar de termos muito mais informações, ainda estamos reproduzindo modelos de violência implícita ou explícita. Isto porque para iniciar um processo de profunda transformação é preciso acessar estas emoções vividas por nós e tomar CONSCIÊNCIA destes padrões.

Vale a pena citar aqui a brilhante animação que retrata todo este profundo contexto em apenas 8 minutos: Vida Maria. Assim, mais do que retratar a realidade típica do nordeste, esta animação nos convida a observar de que forma estamos reproduzindo crenças e padrões em nossa família!

Como enfatiza Laura Gutman sobre a importância do Discurso Materno é preciso se observar para perceber de que forma estamos nos comunicando! É a mãe quem traduz o mundo para o filho, na verdade, é ela quem traduz o próprio filho para si mesmo num primeiro momento! Assim, a infância é esta fase em que a criança está conhecendo o mundo, a si mesma e aos outros! A forma como tudo isso for apresentada deixará profundas marcas e impressões para o resto da vida!

“Parece inverossímil… mas é comum e frequente. Podemos ter vivido algo e não lembrar. E, ao contrário, podemos não ter vivido algo e, no entanto, se foi nomeado por alguém importante durante nossa infância, lembrar disso como se fosse uma verdade inquestionável.” (Gutman, L. O Poder do Discurso Materno: 2013, p. 28)

A negociação do amor

Na sociedade em que fui educada o preço do amor era a obediência! Hoje, vejo que o preço do amor pode ser ir bem na escola ou ficar boazinha para a mamãe olhar as redes sociais no celular. Além disso, percebo que muitas mães enchem seus filhos de brinquedos na ânsia de compensar a falta que sua presença faz. Entretanto, sinto muito para as mães que se sentem culpadas, mas NADA é capaz de compensar a falta de amor, presença ou disponibilidade emocional!

Vale ressaltar que há mães que passam 24h com os filhos e, ainda assim, não conseguem oferecer este amor, presença e disponibilidade. Na verdade, acredito que seja muito menos uma questão de tempo e muito mais uma questão de consciência, escolher o caminho de conexão com o filho! E, vale lembrar, este caminho também apresentará inúmeros desafios, mas CONSCIENTES de sua importância seguiremos determinadas!

De fato, nós tentamos negociar com o desconforto, com o medo! Ou seja, nós tentamos controlar as condições para termos a ilusão que, de algum modo, estamos no controle! Às vezes, queremos o gabarito da vida, da maternidade, o caminho do pote de ouro no fim do arco-íris!

Todavia, é preciso aceitar que temos muito menos controle sobre as coisas do que gostaríamos! Assim, é impossível negociar ou controlar o amor! Isto porque é preciso cultivá-lo diariamente com paciência, determinação, disciplina e, principalmente, PRESENÇA! Leia também Presença: um desafio cotidiano! Tudo o que brota do amor, floresce e frutifica!

Amor incondicional

Então, será que existe amor incondicional? E, se houver, será que somos capazes de oferecê-lo? Eis aqui uma pergunta que a maternidade provocou dentro de mim! Diante disso, cada hora me pego com uma resposta reflexiva que me indica que há mais por vir!

Isto porque, penso que se for condicional não é amor, é barganha, é medo, é apego, é chantagem emocional, é dependência e projeção! Leia também Maternidade: a intensidade de sentir Deste modo, o amor sob condições é muito aprisionador, limitante! Há inúmeras formas de amar e, principalmente, de se sentir amado! E, refletir sobre isso é fundamental para criar filhos mais felizes! Afinal, se estivermos olhando para a criança ferida que fomos, jamais conseguiremos OLHAR PARA NOSSOS FILHOS e suprir SUAS necessidades reais!

Quantas pessoas projetam nos filhos os brinquedos que não tiveram, os produtos de consumo que um dia sonharam e não obtiveram?! Quantos projetam em seus filhos seus próprios sonhos de profissão?! Quantas ilusões em termos de: beleza, inteligência ou qualquer outro patamar de comparação que decidam escolher! Assim, agem como se os filhos fossem sua oportunidade de corrigir o lugar que um dia ocuparam no mundo e os feriu tanto!

Este, para mim, é o caminho da tragédia: viver o presente com os olhos no passado! Ou seja, criar um filho como extensão de si e não conseguir perceber as necessidades deste filho e sua própria condição única como ser humano!

Validar emoções, é preciso!

Conforme foi dito acima, temos muito menos controle sobre as coisas do que gostaríamos! Inclusive, um exemplo muito interessante são as nossas emoções! Por mais que procuremos sufocá-las, fingir que nada aconteceu, elas são capazes de nos fazer adoecer!

Assim, é preciso humildade para permitir que as emoções fluam! Neste fluir das emoções percebemos que a vida também precisa fluir! E, quantas vezes nossa necessidade de controle acaba por nos deixar estagnados? Quantas vezes nossos medos e traumas nos aprisionam dentro de um lixo emocional que apenas nos afasta do que desejamos viver?!

Vale ressaltar o que a Clarissa sempre frisa em seu trabalho: é preciso fazer um trabalho de auto-educação! Afinal, somente quando formos capazes de exercitar o fluir das emoções, seremos capazes de dar o exemplo! Sob este aspecto, recomendo o treinamento Como lidar com as explosões emocionais na relação mãe & filho. Neste treinamento, de valor super acessível, você vai encontrar orientações para se observar, se educar e redesenhar a forma como lida com as explosões emocionais tão comuns em todo processo educacional.

Educar pelo exemplo

Certamente, o jeito que lidamos com nossas emoções é a forma que ensinamos nossos filhos a lidar com as emoções deles! Por isso, se nosso objetivo é educar uma criança para que se torne um adulto seguro e fortalecido emocionalmente, há uma jornada para trilhar! E, o primeiro passo da jornada é mostrar aos nossos filhos que eles PODEM se expressar que não perderão nosso amor! Ou seja, irei amar minha filha INCONDICIONALMENTE, mesmo quando ela discordar de mim e disser todos os NÃOS que eu não gostaria de ouvir, rs!

Esta postura traz segurança e conforto para que ela se expresse e se descubra enquanto pessoa! Isto significa um exercício de amor cotidiano, como diria o padre: na alegria e na tristeza, no sono e na birra, rs! Apesar de me exigir muito, eu ensino a ela que ela pode simplesmente SER, como diz a linda música da Sandy que ela adora cantar comigo: Eu Só Preciso Ser:

“Eu não preciso ensinar

Eu não preciso pregar

Não preciso me explicar

Não tô aqui pra dar exemplo

Nem buscando acalento

Eu não preciso me posicionar

E nem te convencer

Eu só preciso ser

Eu só preciso ser

Eu não preciso me justificar

Mas não posso ter que me calar

Eu só preciso ser” (…)

Deste modo, exercitando o autoconhecimento, sabendo que é amada incondicionalmente e sem precisar provar nada para ninguém, acredito que ela será capaz de acreditar que é MERECEDORA, simplesmente por existir.

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda  e siga no instagram gm_conexaoprofunda

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Você completou 3 anos e quando eu achava que já tinha me munido de todas as ferramentas para lidar com seus sentimentos diante da vida, me deparo num imenso vazio.

Logo eu, que mergulhei (e ainda mergulho) fundo, que aprendi a ter coragem de olhar para as minhas próprias dores e sombras, me sinto só diante de uma maleta repleta de ferramentas que não sei usar (ou acho que não sei).

Depois de longas semanas e do longo feriado de carnaval, onde me vi incontáveis vezes impotente diante de suas crises – e cheguei inclusive a pensar que eu havia escolhido um caminho muito tortuoso e que não me dava garantia de nada, além de não me fazer ACABAR com aquele choro desesperador, eu me compadeci. Não uma vez, mas várias. Me lembrei quando aprendi a sustentar suas primeiras crises, me lembrei que para sustentá-las eu preciso me sustentar também; me lembrei que eu também sou humana e que a minha raiva é o meu maior desafio e não você.

Recentemente, ouvi de alguém que amo muito, que ele também se sentia frustrado por não saber conter a raiva no auge dos seus sessenta anos. Me compadeci outra vez, lembrando que está tudo certo sentir raiva e que o verdadeiro desafio é o que fazemos dela e com ela.

Confesso, desejei culpar a vida, os outros, as circunstâncias, e voltar ao antigo padrão mental, então me lembrei também, que a única grande responsável pela minha vida e com o que acontece com ela, sou eu mesma. Me compadeci outra vez, lembrando que os dois passos dados para frente diante dos 10 passos para trás em cada recaída, me fazem querer avançar e, olhando bem nesse último ano, acho que, modéstia a parte, os dois passos adiante realmente foram dados.

A medida em que avançamos e retrocedemos, algo em nós mudou para sempre… e agora, aqui, escrevendo, percebo que o que eu sempre falo enquanto artista, sobre a vida ser movimento, é fato. Nunca uma crise emocional será igual a outra, porque estamos todxs em constante movimento transformador. E é claro que os micro-movimentos entram na dança, aliás, tenho quase certeza que são justamente esses que concretizam os nossos dois passos adiante.

A maleta repleta de ferramentas continua me assustando na maior parte das vezes, mas é nela também que está o meu refúgio. Ao silenciar a minha mente, consigo escolher a ferramenta adequada. Nem sempre é tão simples – aliás, pra ser bem sincera, na gigante maioria das vezes é bem desafiador te ouvir antes de ouvir a mente tagarela, mas sigo tentando. É nesse esforço que me compadeço, é no momento em que, mesmo dando 10 passos para trás e pedir o seu abraço para EU me acalmar e recebê-lo genuinamente, que sinto estar munida de ferramentas que, muito além da garantia (que não existe) desejada, elas me ofertam algo para a toda a vida, elas potencializam o amor.

TEXTO escrito por: Iara Schmidt
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.

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Quando nascem os nossos filhos somos arrebatados por esse amor gigante avassalador, chega a assustar. Não foi diferente comigo, quando minha filha chegou segui o clichê,  jurei solene e ingênua que seria a melhor mãe do mundo. A busca pela perfeição, pelo acertar sempre e pelo infalível me acompanhou por um tempo, no entanto só me fez sofrer, só me fez frustrar e o caminho ficou mais pesado e solitário.

Em alguns momentos minha mente ficava barulhenta, eram tantas vozes internas me dizendo o que fazer e como fazer, vozes desde os meus ancestrais até às dos meus vizinhos bem intencionados, elas se misturavam com a minha própria voz em uma grande confusão mental e às vezes eu me sentia sem rumo e desanimada. Até que assumi esse processo, percebi que precisava de silêncio interno, ah mas o silêncio e eu não éramos lá muito íntimos, ele me causava até desconforto, não sabia lidar com ele, para mim o barulho era uma defesa, uma distração para não ver o que eu não queria ou o que eu não estava pronta para ver, foi preciso coragem e vontade. Hoje já estamos nos entendendo melhor, sigo tentando,  ainda é algo difícil para mim, mas quando consigo silenciar sou capaz de ver o que é meu com clareza, consigo acessar minhas próprias verdades, as que precisam ser ouvidas e comunicadas de fato.

Eu vivia em uma correria sem fim, sempre fui agitada e estava ficando cada vez mais acelerada em relação à vida… Depois de saber um pouco sobre o ritmo da infância, comecei a observar minha filha, no meu silêncio recém conquistado eu a observava nas minúcias, no seu comportamento curioso e observador, nas suas experimentações despretensiosas, nos seus olhos atentos às pequenas novidades, na maneira que ela se entregava ao sono e em toda sua fisiologia em si. Notei que ela estava dançando em plena harmonia com a música vinda da Terra, da natureza. Quanto a mim, percebi que em algum lugar do caminho eu havia perdido a capacidade de ouvir essa música, eu estava fora do compasso, dançando fora do ritmo, sabe quando em uma festa tem alguém dançando freneticamente uma música lenta? Então, foi exatamente assim que me percebi em relação ao mundo e em relação à minha filha. Minha pequena sempre me mostrando com precisão o que preciso olhar dentro de  mim. Hoje em dia quanto estou conectada a ela, à natureza e ao momento presente, dançamos juntas em um suave balanço, meu jeito apressado ainda me atrapalha um pouco, mas ainda assim tem sido incrível ouvir essa música de novo, relembrando aos poucos os movimentos harmônicos dessa dança primordial.

A Consciência 

Agora vejo que não é sobre ser a melhor mãe do mundo, não é sobre perfeição, é sobre ter consciência! Consciência do meu papel, consciência de que estou fazendo o melhor que posso com as informações que tenho, consciência do que ainda preciso melhorar, mas sendo gentil comigo mesma, consciência de quais são as minhas conquistas, onde já tenho meus méritos, mas sem soberba. Não existe mágica que transforme do dia para noite a nossa realidade, o caminho começa com comunicação para além das palavras, com sentimento, com vinculo para além dos cordões e das amarras, com verdade. O segredo para mim é sentir a alegria de contemplar a beleza do percurso e não esperar a felicidade somente na linha de chegada, entendendo que os tropeços são parte do aprendizado, isso tornou o meu caminho mais leve.

Tenho ouvido por ai que as crianças de hoje em dia são diferentes, claro que são diferentes, o mundo não é mais como era antigamente, estamos testemunhando e protagonizando mudanças intensas e rápidas como nunca vimos antes, é o alvorecer de uma nova era, acredito que nossos filhos viverão em um mundo diferente do que conhecemos, não dá para esperar que as crianças de hoje sejam como as crianças de outrora. Acho mais importante do que nunca ajudarmos a manter acesa essa chama que eles trazem, essa essência divina, esse propósito, conservando essa clareza e espontaneidade que os acompanha na infância, essa verdade sobre quem eles são para além das nossas expectativas. Mas isso requer uma mudança de olhar em relação à infância, requer educação e limites baseados na empatia e respeito, requer uma responsabilização e uma preparação nossa como pais e como parte da sociedade em que vivemos. Quando um de nós desperta, mais uma luz se acende no mundo, quando um de nós cresce, todos nós  crescemos juntos. E você? Se sente pronta(o) para fazer parte desse caminho?

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa Mãe da Ive de 3 anos, Geóloga, Participante da turma 5 do Zum Zum de mães, Educadora Parental pela Positive Discipline Association.

 @viviancpessoa

vivian.pessoa@globo.com

 

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Já comentei com vocês em textos anteriores que a maternidade me deu um super presente, a oportunidade do Autoconhecimento. Todavia, não é por que é um presente, que significa que seja fácil, leve e gostoso.  Autoconhecimento é olhar para dentro, o que, na maioria das vezes, exige de nós muita coragem. E além disso, não somos acostumados a olhar para nós mesmos. Pelo contrário, desde crianças somos estimulados a olhar cada vez mais para fora.

É a televisão, o móbile em cima do berço ou do carrinho, os mil brinquedos que piscam e cantam, o tablete, o celular… E quando entramos em contato com alguma emoção, somos rapidamente conduzidos a esquecê-las. “Ah, isso não foi nada… um raladinho no joelho nem dói tanto assim!”.
Oi? Como assim? Desde quando o adulto tem a capacidade de mensurar a dor de um ralado no joelho?

E nas relações a situação é bem parecida, pois aprendemos com nossos pais que nós somos os responsáveis por faze-los felizes ou tristes. Quem aqui nunca ouviu de seus pais: “A mamãe está muito triste com você por que você não guardou os brinquedos.”ou “O papai está muito triste com você por que você gritou comigo.”?

O fato é que, assim vamos crescendo, e aprendendo a olhar cada vez mais para o lado de fora, cada vez mais para o outro.

Quando nos tornamos mães e estamos dentro do olho do furacão chamado puerpério, fica mais difícil ainda olhar para si.

-É o bebê que só chora,

-É o bebê que não dorme,

-É o bebê que só quer peito,

-É o marido que não colabora e não entende,

-É o palpite/conselho/pitaco da mãe, da sogra, da vizinha, da amiga,

-É o médico que receitou leite artificial…

Percebem que é sempre o outro? E o que nós podemos fazer em relação ao outro? NADA, absolutamente NADA.
Ainda não temos o dom de transformar o outro pelo simples fato de acharmos que ele nos incomoda, ainda que este outro seja apenas um bebê. Mas temos um grande privilégio, que é o de enxergar no outro aquilo que está em mim e pode ser mudado.

Fusão Emocional

De acordo com a escritora Laura Gutman, quando nasce um bebê pensamos logo em separação, pois o corpo que antes estava dentro da mãe, alimentando-se com ela do mesmo sangue e compartilhando as mesmas emoções, após o nascimento começa a funcionar de maneira independente.  Sobretudo, este recém-nascido não é apenas um corpo físico. Ele é também um corpo emocional e espiritual, e esta separação não é tão simples assim como a separação física. Em seu livro, A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, Laura diz: “Esse recém-nascido, saído das entranhas físicas e espirituais da mãe, ainda faz parte do entorno emocional no qual está submerso. Pelo fato de ainda não ter começado a desenvolver o intelecto, conserva suas capacidades intuitivas, telepáticas, sutis, que estão absolutamente conectadas com a alma da mãe. Portanto, esse bebê se constitui de um sistema de representação da alma materna. Dito de outro modo, o bebê vive como se fosse dele tudo aquilo que a mãe sente e recorda, aquilo que a preocupa ou que ela rejeita. Porque, nesse sentido, são dois seres em um.”. E Laura ainda complementa: “E o mais incrível é que o bebê sente como próprio tudo o que sua mãe sente, sobretudo o que ela não consegue reconhecer, aquilo que não reside em sua consciência, o que relegou à sombra.”

O que é esta tal sombra? 

De acordo com Carl Gustav Jung, a sombra refere-se às partes desconhecidas da nossa psique e, também, àquelas de nosso mundo espiritual que são desconhecidas. Cada ser humano tem o propósito de passar por esta vida em busca da sua sombra, com o objetivo de trazê-la para luz, curar-se e ser quem realmente veio para ser.

Por isso, tendo todas as suas necessidades básicas atendidas com amor e apego, precisamos estar atentas nos casos de bebês que choram demais, que têm dificuldades para dormir, que rejeitam o seio, que não se conectam, que sempre adoecem.  O olhar deve ser sempre para nós mesmas, a mãe. Por que choro tanto? (Ou por que quero chorar?) O que tem me tirado o sono? Por que inconscientemente estou rejeitando meu bebê? Que pensamentos tenho alimentado em minha mente? São perguntas bastante desafiadoras, com respostas bem particulares e que residem no interior de cada uma de nós, mães, mesmo que não sejam tão evidentes.

Quando mantemos nosso olhar focado no bebê, as respostas não vem, e continuamos nos colocando no papel de vítima, de mãe coitadinha

Por quanto tempo se estende a Fusão emocional?

Quando o bebê começa a aprender a se deslocar, por volta dos nove meses, a fusão emocional começa a se transformar, de modo que os bebês vão criando laços com outras pessoas e se fundindo com elas também (pai, irmãos, cuidador, objeto que tem em mãos…) Todavia, é só perto dos dois anos e meio que inicia-se de fato a lenta separação emocional, quando começa o desenvolvimento verbal e a criança já consegue se identificar como “eu”.  Este processo de separação emocional será concluído apenas na adolescência,  entre treze e quatorze anos. Até então, o nosso estado emocional influencia diretamente o estado emocional de nossos filhos.

Neste sentido, conseguem perceber a importância de olharmos para nós mesmas quando julgamos que algo não esta bem com nossos filhos?

Lei da Projeção

Também conhecida como Lei do Espelho, esta lei bastante difundida na psicologia, diz que aquilo que no outro mais me incomoda, está na verdade dentro de mim.  Você pode me perguntar: “Como assim? Eu estou dizendo que me irrita demais pessoas que se atrasam, e você está dizendo que eu que me atraso? Não! Eu sou super pontual exatamente pelo fato de abominar atrasos.”
Eu te respondo: se observe, olhe para dentro de si mesma. Não olhe para fora.
Você pode ser extremamente pontual com os compromissos que firma com os outros, mas e com os compromissos que firma consigo? Você colocou o despertador para tocar 30min mais cedo do que o de costume, pois firmou com você o compromisso de se exercitar ou meditar diariamente ao acordar. O despertador toca, você desliga, resolve dormir mais um pouquinho. Será que isso é ser pontual com você?

Por aqui, um dos grandes desafios é lidar com as diferenças na maneira de educar os filhos. Fico extremamente irritada com ameaças, castigos, chantagens. Sempre que acontece algum desentendimento neste sentido, me sinto completamente frustrada, frágil, incapaz. Coloco no outro a expectativa de ser alguém completamente controlado e emocionalmente equilibrado, que são as mesmas expectativas que tenho com relação a mim mesma. É só quando a poeira abaixa que percebo o quanto muitas vezes minha vontade é fazer exatamente o mesmo, chantagear, ameaçar, castigar. Quando olho para mim, percebo o quanto muitas vezes me castigo por me julgar não ser uma boa mãe. Para ficar mais claro, várias vezes deixo de fazer alguma coisa que eu gostaria muito, algo que me dá prazer, por achar que não mereço. Percebem como inconscientemente estou me punindo?

É por isso que quando a gente tira o nosso olhar do outro e começa a olhar para si, a mágica acontece. Começamos a entender melhor o nosso comportamento, ter consciência das nossas ações. Assim, podemos nos transformar. Quando nos transformamos, as nossas relações se transformam, seja com nossos filhos, companheiro, pais, amigos, vizinhos. Todo o mundo ao nosso redor se transforma.  Saímos do papel de vítima, (de mãe coitadinha que o filhos só chora, não dorme, não obedece, que o marido não colabora) para o de heroína de nós mesmas.  É libertador!

Autorresponsabilidade

Hoje em dia muito temos ouvido falar sobre autorresponsabilidade, e para mim, a autorresponsabilidade é exatamente isso, olhar para si. Tirar o foco do outro, deixar de responsabilizar o outro pela sua situação atual. E aqui, entende-se pelo outro seus filhos, seu marido, seu vizinho, seus pais, seus irmãos, o governo, o seu chefe. Colocar-se como responsável total por tudo que acontece com você, inclusive seus sentimentos, é fundamental para que você tome as rédeas da sua vida e seja feliz.

Lá no inicio do texto eu comentei que quando crianças costumávamos ouvir de nossos pais que os deixamos tristes por alguma razão ou outra. Muitas vezes tendemos a repetir isso com nossos filhos. Percebem o peso que impomos às nossas crianças, depositando nelas toda a responsabilidade por nossa tristeza, raiva, frustração ou mesmo felicidade?  Diante disto, você pode querer me questionar: “Mas eu não posso ficar triste diante de um mau comportamento do meu filho, ou de qualquer outra pessoa?”.   É claro que pode! E deve! Nossos sentimentos devem ser expressados se não quisermos adoecer. Porém é preciso cautela no modo como os expressamos.  Observem os dois exemplos a seguir:

  1. A mamãe ficou muito triste com você, pois você gritou comigo.
  2. A mamãe ficou muito triste, pois eu não gosto que gritem comigo.

Notam a diferença? No primeiro exemplo o foco está no outro. Eu responsabilizo o outro pela minha tristeza. No segundo caso o foco está em mim. Eu sou a responsável pelo meu sentimento, pois eu não gosto que gritem comigo.

Situações deste tipo acontecem frequentemente não só na relação mães e filhos, mas em todas as relações. Costumamos responsabilizar o outro pelos nossos sentimentos. E mais uma vez eu pergunto: O que podemos fazer com relação ao outro? NADA.

A única coisa que podemos fazer (por nós e não pelo outro) é ter clareza a respeito do que nos desperta cada sentimento, e comunicar isso de forma clara para o outro. Talvez possa ajudar em alguns casos. E só conseguiremos ter essa clareza de uma única maneira, olhando para nós mesmas ao invés de olhar para o outro.

Por isso, insisto e repito, voltemos o nosso olhar para dentro!

 

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

One Comment

Inicialmente, preciso dizer que como amante da dança, em suas várias vertentes, nunca imaginei que ritmo seria um desafio! Todavia, compreendo que, por vezes, fui enrijecendo ao invés de me flexibilizar diante dos desafios da vida! E, de fato, para viver plenamente há que se dançar conforme a música, atendendo às batidas do nosso coração!

“O bambu que se curva é mais forte que o carvalho que resiste”. Provérbio Japonês

Assim, em um de meus artigos favoritos do Conexão Profunda Faça seu ritmo e dance sua própria música! destaco a importância da autenticidade e do amor-próprio! Naquele momento, eu testemunhava muitas pessoas seguindo outras, como um rebanho sem a menor originalidade e respeito por si. Por isso, eu refletia sobre a importância de escutar a música interna, que pulsa em nosso coração e que é fundamental para uma existência plena!

A partir desta consciência do alinhamento interno, preciso confessar que a maternidade trouxe mais ziriguidum para meu repertório musical, rs! Afinal, não se tratava mais só de mim, mas da responsabilidade e o compromisso que tenho com este Ser que eu trouxe para este mundo!

O Ziriguidum da Maternidade

No momento em que eu estava melhorando o meu solo, surgiu a possibilidade de fazer uma dança em dupla. O mais interessante é que a minha parceira muda a música repentina e frequentemente, tal como um DJ indeciso e inseguro! Vale ressaltar que, provavelmente, é assim que minha filha se sente com 2 anos e 8 meses! Às vezes, percebo que ela quer me impressionar me imitando e, em outros momentos, quer impor suas próprias escolhas e contestações!

Apesar de falarmos tanto sobre rotina, os filhos não nos permitem conhecer o tédio, rs! A verdade é que nunca sei o ritmo que me espera no salão, às vezes começa com um sorriso doce que me indica uma música lenta e agradável. Mas, de repente, tudo muda e vira um rock metaleiro que não estava nos meus sonhos! Isso tudo acontece em fração de segundos e eu, por muitas vezes, fico sem entender de onde surgiu tanta coisa!

Certamente, haja flexibilidade e malemolência para lidar com os desafios emocionais que nossos filhos nos propõem! Seguindo a linha proposta pela Clarissa e por autores como Laura Gutman, tenho buscado observar o que minha filha tem me revelado! Imediatamente percebo MUITO trabalho de cura emocional pela frente! Cada vez mais vejo o meu caminho de resgate de minha criança interna ferida e cura emocional não apenas minha, mas de muitos ancestrais! Leia também Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

Contexto Ancestral

O contexto histórico de nossos ancestrais é permeado de muita violência: guerras, perseguições, imigrações, fome e falências… Trata-se de um cenário de ameaças iminentes que fez parte da infância de nossos avós e nossos pais. Ou seja, esta sensação de medo, que é o grande pano de fundo de nossa sociedade, têm raízes profundas!

Ao olharmos para nossos ancestrais vale a pena ressaltar o papel da mulher como difusora de cultura! Isso, especialmente, numa sociedade patriarcal em que os papéis de poder e dominação eram prioritariamente exercidos pelos homens! À mulher cabia a educação dos filhos ou, quando muito, carreiras como a docência que também tratavam deste ambiente de formação educacional.

Assim, ao pesquisar um pouco sobre a história desta mulher – nossa tataravó, bisavó, avó e mãe – é possível notar que as palavras chaves são: REPRESSÃO e MEDO! Estas mulheres viveram conteúdos familiares e sociais de muita violência tanto explícita quanto implícita! Para quem se interessar, recomendo o Programa Café Filosófico Sexualidade: história de repressão e mudanças – Mary del Priore:

“Quando olhamos para trás e conhecemos os costumes dos nossos antepassados, a forma como eles lidavam com o próprio corpo e a sexualidade, compreendemos muito de nossos preconceitos e dos hábitos que reproduzimos… ou eliminamos”. (Introdução)

Neste contexto, é possível notar a enorme injustiça de julgar a educação que nossos pais nos deram com a consciência que temos AGORA! Afinal, opinar depois que o jogo acabou é fácil, a grande questão é ter humildade para entender que as pessoas fazem o melhor que podem com a consciência que têm no momento!

Novos Paradigmas

Iniciamos uma jornada rumo à construção de um novo paradigma social quando começamos a ler e flertar com conteúdos como: comunicação não violenta, criação com apego, maternagem consciente, disciplina positiva etc. Neste sentido, estamos à anos luz de distância da sociedade em que viviam nossos ancestrais!

Nas ocasiões em que vejo minha filha brincando com os avós, eu percebo como as coisas mudaram! Cotidianamente, busco construir novos panoramas de abundância, de gentileza, de integração e inclusão com minha filha! Antes, a educação se dava muito pelo medo, pela ameaça e pela chantagem emocional! Por isso, vejo que o trabalho que meu marido e eu realizamos é diferente e somos parceiros muito afinados para perceber quando alguém sai do ritmo! Afinal, ainda carregamos muitas crenças profundamente entranhadas deste sistema social e familiar.

Um exemplo recente foi o meu dizendo à minha filha que ela estava pesada! Aparentemente nenhum problema, mas meu tom estava acusativo, porque eu estava exausta! Logo, meu marido chamou minha atenção para observar o meu discurso. De algum modo eu fui transportada para o passado quando lembrei que me sentia responsável pela forma como minha mãe se sentia e isso me enchia de culpa!

Neste momento, percebi que apesar da distância entre os paradigmas, minha criança ferida continua lá, perdida naquele contexto, com aquelas feridas e precisando de minha maternagem atual! Vejo muito disso em minha filha: cada episódio de confusão emocional, por vezes, me remete à dores que eu ainda não curei!

“Eu vos digo: 

Alguém precisa ter caos em si mesmo

Para dar luz a uma estrela dançante”. Nietzsche

Descascando as Camadas da Cebola

Certa vez, fizeram esta metáfora ao falar sobre o processo de autoconhecimento: é como descascar uma cebola! Ou seja, sempre há camadas mais profundas, e assim, observo em meu próprio processo! Às vezes, parece que minha filha vai me conduzindo numa jornada de cura interna através de seu próprio processo de desenvolvimento! Geralmente, isso se inicia como um desconforto, algo que começa a me incomodar demais e que o comportamento dela manifesta!

De início, penso que é algo com ela, observo, indago, pesquiso e, de repente, começo a investigar o que EU estou sentindo com aquilo tudo! Por exemplo, é nítido e notório que questionar e tentar burlar as regras faz parte do cenário dos 2 anos. E ok, tudo conforme o esperado! Só que não, eu me irrito, me magoa, me deixa insegura, com raiva e muito cansada, por vezes, me sinto desrespeitada, invalidada e uma péssima mãe. Opa, agora isso tudo é MEU, MUITO MEU! Todas as expectativas, frustrações, medos e inseguranças que o processo dela desperta em mim NÃO SÃO RESPONSABILIDADE DA MINHA FILHA! MAS fazem parte do MEU PROCESSO DE AUTOCONHECIMENTO E CURA!

A ênfase da frase acima se faz necessária para que possamos perceber que NÓS somos RESPONSÁVEIS por nosso próprio processo! Uma tendência perigosa é querer voltar lá para a criança ferida e começar a se comportar como nossos filhos com 2 anos! Cuidado! Vejo que minha filha me mostra o caminho de minha jornada de cura, mas a responsabilidade de trilhá-lo é minha. Além disso, a responsabilidade de guiá-la, oferecendo segurança para que ELA trilhe seu próprio caminho, é minha enquanto adulta e responsável que sou! Mas só poderei oferecer isso à minha filha, se eu for um exemplo coerente em minha própria jornada! Para mergulhar neste processo  recomendo o Programa Pais Conscientes, Crianças Felizes, em que a Clarissa nos conduz numa jornada profunda de auto-consciência!

A Coerência Interna

Vivemos na sociedade do espetáculo, como diria o pensador Guy Debord! Este conceito nunca foi tão verdadeiro e palpável como atualmente! Isso nos estimula excessivamente a ficar distraídos do que realmente importa, do que é prioritário em nossa vida! Quantas vezes estamos nas redes sociais buscando amigos, curtidas e corações enquanto deixamos de conversar com as pessoas que ESCOLHEMOS compartilhar nossa vida?! Quantas vezes estamos preocupados com o mundo externo e deixamos de vivenciar o interno?!

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Nietzsche

Particularmente, eu procuro ser muito atenta a estes aspectos! Em geral, utilizo as redes sociais mais para trabalho ou mensagens em que eu realmente acredito. No dia-a-dia, tento usar o celular me policiando para não exagerar, mas ainda assim minha filha vive pegando objetos e fingindo que é um celular! Isso me faz lembrar do filme Click que traz uma crítica bem humorada, mas provocativa a respeito de nossas escolhas na vida! Quantas vezes priorizamos o externo e esquecemos de nutrir o mais importante e significativo em nossa vida?!

Para dançar e fluir com a vida eu preciso estar conectada profundamente aos meus princípios e valores! Leia também Redesenho do Cotidiano: da Crise ao Zum Zum de Mães. Contudo, isso não significa estar enrijecida em verdades absolutas, mas apenas estruturada no que realmente importa em minha vida! Por isso, percebo que o ritmo para mim é um caminho de auto-respeito e conexão que ultrapassam regras pré-estabelecidas! Para encontrar o ritmo é preciso voltar a escutar o próprio coração, o vento, nossa respiração e, desta forma, acessar nosso ritmo interno. Ou seja, o ritmo da natureza manifesto em nosso próprio ser!

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Cada etapa da vida da criança é uma nova descoberta para toda a família. Para muitos pais e mães, o momento em que as crianças vão para a escola pode ser fonte de muitas angústias, questionamentos e conflitos.

“Qual a melhor idade para iniciar a vida escolar? A criança precisa ir para a escola para se socializar? O que fazer quando a criança chora e não quer ir para escola? Como não se sentir a pior pessoa do mundo em deixar a criança esgoelando? Deixar chorar faz parte do processo?”

Neste episódio te convidamos a entrar em nossa tenda e desfrutar da nossa experiência com a adaptação escolar de nossos filhos. Teve de tudo um pouco, tempo e necessidades da criança e da mãe respeitados, insegurança diante da escola e busca de novas alternativas, processos intensos e duros para a criança e pais, até de “treinamento para o BOP” nós falamos… rs

Dá o PLAY e desfrute dessa conversa gostosa e descontraída que poderá ampliar seu olhar e lançar muita luz em suas angústias em relação a vida escolar de seu filho.

Caso sinta vontade, me conta aqui embaixo o que achou do episódio!

Até breve!

Com carinho,

Clarissa Yakiara

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No banheiro de um restaurante, eu e meu filho de dois anos lavávamos as mãos na pia quando entrou uma loira alta, esbanjando beleza, com sua filha de aproximadamente cinco anos.

-Olá.

-Olá.

A menina branquinha de tranças nos cabelos tinha as bochechas rosadas combinantes com o macacão cor-de rosa e cinturado da mãe.

Eu já de saída, ameacei um “Tchau”.

-Por favor, você poderia abrir o zíper das minhas costas?

-Pois não, claro. Pronto?

-Não, desça tudo, até embaixo.

-Ah, tá.

Rubra se torna a minha face de levar as mãos até o bumbum da loira e o alívio foi imediato, meu e dela.

-Obrigada.

-De nada.

Enfim de saída, fui pegar as mãos do meu filho, quando o percebi longe de mim, parado, como os olhos estatelados fitando tranquilamente a tal loira fazer xixi.

Para a minha surpresa a cabine do banheiro estava completamente aberta e eu pude entender a admiração do meu filho, não de ver a moça praticamente pelada só de sutiã, mas de ver a sensação de libertação que ela emitia com o semblante ao eliminar um xixi longo e sufocado.

Jamais imaginei vivenciar tamanha intimidade com uma desconhecida.

Olhei para a cabine ao lado, vazia, para disfarçar a troca de olhares e entendi o ocorrido.

A cabine era pequena demais para mãe e filha juntas, então ela precisou deixar a porta aberta para não perder a filha de vista.

E quer saber, o banheiro era feminino, não era? Então qual o problema?

O pudor era meu e somente meu e a mania de complicar o descomplicado também.

E como é bom ver alguém na sua inteireza, onde quer que esteja. A maternidade descomplicada, pura, com fé e coragem nas próprias decisões.

Ser estrangeira do outro é natural, mas não posso aceitar ser estrangeira de mim mesma.

É, a loira não sabe, mas me ensinou sobre aceitação.

Poderia dizer que conheci a louca do banheiro, a pervertida da cabine ou a sem-noção do xixi.

Mas prefiro dizer que conheci uma mulher admirável, uma mãe que facilita a maternidade e usa o pragmatismo a seu favor. Uma mãe que simplesmente faz e acontece, alcança o seu objetivo, sem colocar mais pedras no caminho.

É inevitável me imaginar naquela situação “meu filho esmagado comigo na cabine, no meu colo, na minha cabeça, onde quer que seja, chorando ou não, para que eu pudesse me despir em paz”.

Talvez eu não fizesse xixi ali, procurasse alguém para olhar meu filho ou outro banheiro. E talvez ficasse procurando, procurando, procurando….ops, parece que fiz xixi nas calças.

O aprendizado da maternidade pode até estar em livros, teorias, tratados, mas o coração só entende quando se depara com o dia a dia, com as mulheres que o Brasil têm, nos banheiros de cada esquina.

 

SOBRE A AUTORA:

Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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Minha mãe engravidou de mim com 35 anos quando eu já tinha um irmão e uma irmã mais velhos. Logo no comecinho da gravidez, no banheiro de casa, ela teve um sangramento seguido do que pareceu ser um aborto espontâneo. Quando foi ao médico foi constatado que ela ainda estava grávida, não foi possível fazer uma ultrassonografia para saber o que tinha de fato acontecido, o plano de saúde não cobria e meus pais não tinham a grana para fazer o exame particular.

Existiam duas suspeitas, a primeira era que haviam dois fetos e um deles tinha sido abortado. A segunda era a de um único feto com problema de má formação, e que alguma “parte” dele havia sido expelida. Minha mãe decidiu corajosamente prosseguir com a gravidez, não importava o que houvesse, ela queria o bebê do jeito que ele viesse. Com o meu nascimento a primeira opção foi confirmada, ela havia perdido meu irmão gêmeo. Eu sempre soube dessa história e sempre a contei sem nenhum pesar, sem nenhuma emoção minha, mas sempre com respeito e empatia a dor da minha mãe, afinal perder um filho é sempre muito difícil.

Até que comecei a fazer terapia individual com a Clarissa e logo de início, algumas emoções em relação a esse fato vieram à tona. Pude enfim acessar a dor da minha perda, eu perdi o meu primeiro amor, a gestação gemelar é a única situação em que o primeiro amor do bebê não é a mãe e sim o irmão, pude validar essa saudade e esse luto.

As sessões de terapia, junto com reike e recentemente o Thetahealing me ajudaram a mapear onde estão impressas as marcas dessa perda e como elas impactaram na  minha vida até o presente. Me trazendo repetições de padrões inconscientes que me impediam de acessar todo meu potencial, me levando sempre ao mesmo lugar de medo e iminência de perigo, e o pior de tudo, passando adiante essa herança para minha filha.

Tomando consciência disso tudo, paro por aqui e escolho a partir de agora seguir de uma maneira diferente, deixando para traz crenças que me impediam de ser quem eu vim ser, deixando minha filha ser quem ela veio ser. Sou feliz e grata pelos caminhos que me trouxeram até aqui. Emocionada e honrada com a minha história, agradeço ao meu irmão por ter escolhido compartilhar comigo o início, a beira dessa jornada.

Para o meu primeiro amor e como marco de um novo caminho,  escrevi:

Meu irmão, meu anjo caído que me trouxe até o útero abrigo.
Ciente ou não do que viria a seguir e se iríamos conseguir, prosseguir.
Meu primeiro amor prometido, perdido.
A estrela que se apagou diante dos meus olhos para renascer em outros orbes, longe do alcance das minhas mãos ainda em formação.
Nos meus primeiros registros o medo, a culpa e a solidão. Vagando na imensidão vazia onde antes outro coração batia.
Dividida entre a cruz e a espada, entre vontade de te rever e a necessidade de crescer, renascer.
De repente tudo fica tranquilo e pacato, sinto para além da matéria que nosso laço está intacto, nato.
Com o pensamento ainda meio torto,  relembro que esse era exatamente o nosso acordo.
Estou bem, inteira e perfeita, prometi ansiosa para minha mãe temerosa, corajosa.
Mais de 30 anos depois e eu sigo cumprindo o combinado, mesmo quando estou aos cacos.
O luto veio enfim, a verdade sobre o que essa perda foi para mim.
Uma saudade sem nome, do inacabado, do que não foi vivido, dividido.
Gratidão pelo tempo que tivemos juntos ainda que tenha sido curto, ainda que tenha sido duro.
Gratidão meu anjo amigo, que me trouxe de mãos dadas até o útero abrigo, me trouxe até o portão da minha evolução te agradeço com todo meu coração.                                                               
E diante da vastidão que o universo oferece  de possibilidades, me sinto honrada de dividir contigo as primordiais verdades.

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa, geóloga e mãe da Ive de 2 anos e 10 meses e participante da turma 5 do Zum Zum de mães.

vivian.pessoa@globo.com

@viviancpessoa

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Neste episódio convidamos o Thiago Queiroz, autor autor do blog Paizinho Vírgula, do livro Abrace Seu Filho e dos Podcasts Tricô de Pais, Sinuca de Bicos e Coisa de Criança.

Na conversa, ele conta o quanto mudou sua forma de pensar, de agir e de ser desde que sua mulher engravidou do primeiro filho, há 6 anos, e manifestou seu desejo de ter um parto humanizado em casa. Na busca de encontrar formas de apoiá-la e ser um parceiro nessa caminhada, um novo mundo se abriu para ele, que não se reconhece como a mesma pessoa.

“Sou muito grato pelo Dante, por todas as coisas que ele fez, ele nunca vai entender o tanto que ele me ajudou a melhorar na vida.”

Dê o play no episódio para ouvir o episódio completo:

Também conversamos sobre seu livro “Abrace seu Filho”, sobre a dificuldade de algumas mães envolverem os pais neste tipo de educação e em suas expectativas com a chegada da terceira filha (ainda na barriga da Anne durante a gravação, mas já nascida agora que o publicamos).

Para conhecer mais o trabalho da Thiago Queiroz, é só entrar no blog dele > https://paizinhovirgula.com/

Você é  sempre muito bem vinda(o) em nossa Tenda!

Caso queira deixe seu comentário, sugestão ou pergunta! E se sentir vontade compartilhe este espaço materno com outras mães e pais, afinal pais também podem e “devem” maternar! 😉

Até breve!

Com amor e gratidão por recebê-las em nossa Tenda,
Clarissa e Maíra

*** Agradecemos muito a colaboração da Priscila e Diogo Wendland (@diogowend), que fizeram a edição do episódio pra gente. 😉

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