O Mico das Telas e do Urso Polar

-Alô, é da Organização Mundial da Saúde? Que história é essa de que crianças de dois a seis anos não podem ficar mais de uma hora na frente da televisão, de celular ou tablet? Querem acabar com a nossa salvação?

-Filho, fique quieto, não consigo ouvir o telefone, Meu Deus, você quebrou um copo? Vamos para outro lugar, depois eu limpo isso, vem.

Só eu com o celular na mão, eletrônicos desligados, por isso essa criatividade a todo vapor.

Ele sobe na cama do escritório e pega o meu globo terrestre no colo, gira-o com os dedinhos, toca o mundo com a palma das mãos, coloca o dedo indicador em Paris e ri para mim, eu respondo que é longe, enquanto ouço uma música chata tocar ao telefone, parece que a atendente não gostou da minha reclamação.

Ele encana com o Hemisfério Norte, vejo-o conversando com o globo, eu respondo que lá tem urso polar.  Ele imita um urso gigante e começa a me fazer cócegas nas pernas e diz que o urso quer comida, pulando pulando igual a um canguru.

-Organização Mundial da Saúde, boa tarde.

Não consigo responder alô, estou concentrada em dar risadas e a nova atendente deve achar que está falando com uma louca varrida do outro lado da linha, mal sabe ela que morro de cócegas nas pernas e que tem um urso no meu escritório arranhando-me e implorando por comida.

Eu sei, esse tal urso está utilizando suas artimanhas para ver a luz dos olhos meus se encontrarem com a luz dos olhos seus, e isso eu só consigo fazer longe do celular, mas mal sabe ele que o assunto é extrema importância para a sua galáxia.

-Boa tarde Eduarda, desculpa, estava passando por uma situação delicada de pernas, quer dizer, uma situação delicada apenas, ou melhor, apenas engraçada. Bom, vou direto ao ponto, para não ser transferida novamente para outra atendente: Por que essa regra da OMS de apenas uma hora de uso de telas para crianças de três anos? Por quê? Sabe que nós mães usamos o chicote da culpa diariamente e vêm vocês agora por mais essa dívida na nossa conta?

-Minha senhora, é apenas uma orientação, não precisa cumprir à risca. Não temos o manual da educação, cada pai faz aquilo que é melhor para sua família, queremos apenas chamar a atenção dos pais para algumas questões, veja: vocês pais não deixam o filho sair na rua sozinho, dirigir, usar arma, mas dão acesso livre ao celular que é o maior esgoto a céu aberto do mundo, com conteúdo de pornografia, automutilamento, suicídio, crimes, etc.

-Entendo, até aí eu concordo, nem criança nem adolescente pode ter acesso livre ao celular.

-Hoje, está em alta, crianças assistirem a outras crianças brincando, há pais que acham que o seu filho está brincando porque está vendo outra criança brincar, mas na verdade, esse é o auge da passividade, da dormência dos sentidos, é a morte da criatividade, da capacidade de ser criança, do desejo de brincar com as próprias pernas e mãos.

-Mas todos nós assistíamos à tv quando éramos pequenos, Eduarda.

-Minha senhora, mas não assim, hoje em dia há também propagandas camufladas, um incentivo de consumo exagerado, as crianças se tornam produtos vendendo produtos e nossos filhos se tornam bonecos de olhos estalados e hipnotizados, sem qualquer discernimento.

Olho para o meu filho com o mundo nas mãos, cheio de ideias na cabeça, no momento imitando um avião para buscar outro urso polar no hemisfério norte, e tento mais uma pergunta à atendente, a meu favor, digo que a tv ajuda a desenvolver a fala.

-Não, não, minha senhora a fala se desenvolve pela interação social, a tela não reage, se a criança conversa não há qualquer comportamento corporal em resposta àquela ação. Há estudos que dizem que as sinapses cerebrais de uma pessoa conectada a um estímulo tóxico de tela são semelhantes a um usuário de droga; deixe seu filho no celular por meia hora, mudando e mudando com os dedinhos os mais variados programas, depois tente tirar dele o celular para ver se ele não se comportará como um bicho, um “addicted”.

-Verdade, isso já aconteceu comigo.

-Sem contar a enorme frustração que a criança se depara com a vida ao perceber que não consegue mudar as coisas com um simples toque dos dedinhos na tela da vida. Uma pergunta: a senhora dá chocolate, sorvete em excesso para o seu filho?

-Claro que não (eu repondo categoricamente, porque cuido bem da alimentação dele).

-Pois é, o açúcar é um aditivo também, e por que é mais fácil de visualizar do que as telas?

-Verdade, Eduarda.

-Senhora, esse mundo virtual está matando nossos jovens, a depressão infanto-juvenil tem aumentado e o uso do celular em demasia tem alarmado esse quadro, porque não se aceita mais a sensação de frustração, a interação com pessoas diferentes, cria-se uma bolha na palma das mãos.

-Então quer dizer que toda criança que usa telas será depressiva?

-Não estou dizendo isso, minha senhora. As pessoas adoram um determinismo, se fulano fez isso será assim, se sicrano fez aquilo será assado, ninguém é apenas uma coisa e ponto, somos uma interação com o meio, com as pessoas, com tudo ao nosso redor, e o que há de mais importante na criação de um filho é a PRESENÇA, que não tem nada a ver com dar PRESENTE, a presença que eu digo não vem necessariamente da quantidade de tempo, vem do amor, do acolhimento, da empatia, da conexão real dos pais com a criança, essa é a melhor sinapse cerebral (ela diz rindo) já estudada pelos especialistas, é a salvação não só para a família, mas também para essa maldita humanidade que vive mergulhada no ódio, pode acreditar.

-Acredito. Digo com a voz embargada, querendo convidar a tal atendente Eduarda para uma palestra lá em casa, no condomínio, na vizinha, na escola e sinto um aperto no coração, tão grande, tão grande, que coloco o celular no chão, sem perceber que a deixei falando sozinha, para me tornar um mico leão dourado e fazer a luz dos olhos meus se casar com a luz dos olhos do meu amado urso polar.

-Alô, alô, senhora, senhora, vou entender esse silêncio como uma resposta: a senhora se desconectou para se conectar. A Organização Mundial da Saúde agradece a sua ligação, tenha uma boa conexão.

SOBRE A AUTORA:

Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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