Tem Mar na Maternidade

Temos consciência, então somos todos pais conscientes. Só que não, como diz a garotada.

Ter cérebro não significa automaticamente ter clareza mental.

A capacidade de se expressar e de se relacionar com o filho não é facilmente adquirida naquela loja da esquina ou numa padaria.

-Quero um pão, por favor, bem clarinho e uma consciência renovada, repleta de paz e resiliência.

-Não tenho.

-A consciência?

-Não, o pão.

-Então, quanto é a consciência?

-Quanto você paga?

-Até 200 reais.

-Não vendo para você.

-Por quê?

-Porque não merece. Se você quer preço vá numa padaria.

-Mas não estou numa padaria?

-Não, você está num hospício.

A maternidade é o passo mais próximo da loucura que podemos alcançar. Isso não quer dizer que iremos direto para um hospital psiquiátrico.

Sábio é aquele que convive com a insanidade, sabedor de que assim seus pés tocarão mais a liberdade.

A maré alta traz restos de quem não se salvou, daqueles que naufragaram em alto mar, ausentes de equipamentos de mergulho, daqueles que se aventuraram num caiaque em mar escuro.

Daqueles pais que olharam para a criança e se desesperaram com suas ondas altas e aparentemente traiçoeiras.

O mar responde: – não se enganem não, sou natural, rítmico e consistente, há sentido em cada chuá chuá reluzente.

Não há vingança, birra, pirraça das crianças, não enquanto elas permanecerem crianças, distantes das armadilhas de enganação e castigo dos adultos.

O mundo da criança é sim um mar aberto, de movimento, autonomia e expansão. Quando captarmos um pouco dessa maresia nosso navio começará a ser construído com as nossas próprias mãos.

E nossos mares também são profundos, muitas vezes nunca antes navegados, esta é a grande oportunidade que nossos filhos nos delegam: evolução.

Ouso mudar a letra da música de Paulinho da Viola “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar” para dizer que pais conscientes são capazes de construir um transatlântico para atravessar o mar interno da própria família.

Aguço meus ouvidos e ouço-os cantando: “Sou eu quem me navego, sou eu quem navego o mar”.

 

SOBRE A AUTORA:

Este texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *