Responder esta pergunta é algo bem pessoal. Ninguém é capaz de julgar quantos filhos formam uma família ideal. Um? Dois? Três? Quatro? Ou quem sabe nenhum? Cabe apenas ao casal tomar esta decisão.

Hoje, é cada vez mais comum encontrarmos famílias que optam por ter apenas um filho, ou nenhum. Muitas mulheres já planejam isso desde muito jovem, antes mesmo de se tornarem mães. Mas é verdade também que, grande parte delas, faz esta escolha depois que já tiveram seu primeiro filho.

As razões?

A que mais escuto por aí é: “Filho é muito caro e quero ter condições de dar uma vida boa para ele, a melhor escola, alimentação, saúde, as melhores roupas, os melhores brinquedos…”. Quando ouço algo desse tipo, me pergunto se realmente é isso que os pais pensam, ou se há algo implícito nesta resposta. Não que não seja verdade que filho é caro e que não seja importante se planejar financeiramente para ter filhos. Mas acredito que há algo escondido por detrás de respostas assim.

A verdade é que filho dá trabalho. Filho bagunça não só a casa, mas a vida da gente. E infelizmente a grande maioria de nós não se prepara para ser mãe ou pai, a gente imagina que quando o filho nasce a gente aprende tudo o que precisa instantaneamente.  Acreditamos que é como nas novelas, nos comerciais de TV, nos filmes… o bebê bonitinho, dormindo, sorrindo… o casal feliz da vida, vida profissional e social a todo vapor. Só que não!

O bebê nasce e TUDO MUDA, TUDO!

Quando um bebê nasce, por mais “tranquilo” que ele seja, é como se um furacão tivesse passado pela família, tira tudo de lugar. Eu coloco aqui o tranquilo entre aspas, pois acredito que não existam bebês tranquilos ou nervosos. Como já comentei em outros textos, por estarem em fusão emocional com a mãe, bebês refletem aquilo que ela trás consigo, consciente ou inconscientemente.  Em geral, o primeiro filho tende a ser mais “agitado”, pois a mãe geralmente está muito agitada diante de toda a mudança que está vivenciando.

Mudança na rotina diária

Para as mulheres que antes de ser mãe não tinham uma rotina bem definida, essa mudança não é tão significativa. Mas tem aquelas que são extremamente organizadas, que gostam de fazer tudo bem certinho e no horário. Por exemplo: Acordar, ficar um pouco na cama pensando/meditando, tomar um banho, tomar café, se exercitar, organizar a casa/trabalhar, almoçar, descansar uns minutinhos… enfim, tudo no horário. Quando se tem um bebê, para a grande maioria é praticamente impossível manter a rotina com horários pré estabelecidos, pelo menos até os 6 meses enquanto o bebê mama em livre demanda. Depois, aos poucos, a gente vai conseguindo se organizar com a agenda novamente. E para as mamães de primeira viagem, principalmente para quem não pode contar com ajuda, o impacto dessa mudança é forte. Muitas vezes a gente come comida gelada, fica o dia inteiro de pijama, faz xixi ou cocô com a cria no colo, consegue tomar um “banho de gato” minutos antes de se deitar… É um pouco louco a gente pensar sobre isso, mas é a realidade nua e crua. Quando a Laís era bebê, quantas vezes me senti super mal por não ter conseguido preparar uma refeição e ter que recorrer a marmita. Hoje, consigo priorizar as minhas atividades, procuro me manter consciente no momento, e agradeço pelo que já consegui fazer. No início o meu foco era naquilo que eu ainda precisava fazer. Quase pirei, mas me adaptei a mudança de rotina.

Mudança de identidade

Para mim, esta é a mudança mais significativa, tanto para o homem, como para a mulher, que por sua vez, começa a perceber de maneira bem sutil que sua identidade está mudando quando se descobre grávida. É quando o bebê nasce que a ficha cai realmente e ela se torna Mãe e o homem se torna Pai. Falando assim, parece tudo muito simples, mas só vivendo na pele para entender o peso dessa mudança. É estranho pensar que antes você era apenas filha, mulher, esposa, profissional. E agora você é além de tudo isso (e principalmente) Mãe. O mais engraçado é que a grande maioria das mulheres tem a imagem de mãe como sendo aquela mulher forte, guerreira, que tudo sabe, que tudo suporta. De repente a gente se torna mãe e tem que se tornar tudo isso junto, mas como?

Começa então um trabalho de desconstrução da mãe ideal para a mãe real. E aliado a isso, é necessário aceitar a nova identidade. Por mais que a gente insista que ainda é a mesma pessoa, aos poucos a gente vai percebendo que não tem como ser a mesma pessoa depois que se torna mãe.

Mudança na vida Profissional

Por mais que muitas mulheres digam que a vida profissional não será impactada com a chegada do bebê, acredito que isto seja raro, sobretudo nos primeiros anos após o nascimento (até uns 2 ou 3 anos). Afinal, qual é a mãe que consegue ficar 100% focada no trabalho com um bebê que ainda está em fusão emocional com ela? E mesmo nos casos em que a mãe trabalhe em casa, a disponibilidade para a vida profissional fica bastante comprometida.

Para as mães que trabalham fora, o fim da licença maternidade é geralmente muito doloroso. Algumas optam por se desligar do trabalho, outras gostariam de fazer o mesmo, mas por questões financeiras precisam voltar. Muitas descobrem com a maternidade, que o emprego ou a profissão atual não fazem mais sentido, e mudam radicalmente, se reinventam. Eu mesma estou em fase de reinvenção e mudança de carreira. Em breve vou escrever um texto só sobre isso para compartilhar com vocês.

Em muitos casos, o retorno ao trabalho implica em deixar o bebê em creches ou em escolas o dia inteiro. O período de separação é muito longo, e por isso este é um momento bastante delicado tanto para mãe e bebê, que até então estavam acostumados a ficarem o dia todo bem grudadinhos. A maioria dos bebês, que já estavam dormindo bem durante a noite, começa a acordar mais, pois é o modo que eles encontram para “aproveitarem” a presença da mãe. Além disso, alguns manifestam doenças, febres, deixando a mãe ainda mais preocupada e desfocada do trabalho.

Passada esta etapa inicial, a criança passa a se interessar mais pelo mundo que não seja a mãe. Nesta fase, para algumas mamães a vida profissional começa a voltar ao normal, mas para outras, ela nunca mais será a mesma.

Mudança na vida Social

Cinema com o marido ou com as amigas? Lembro que a última vez que fui ao cinema foi quando estava grávida da Laís, com uma amiga, pois na época Rafael estava viajando.

Barzinhos, baladas, festas, carnavais…? A última “balada forte” que fui, eu também estava grávida da Laís, foi um show de axé do grupo Timbalada.

Para as “mamães baladeiras” como eu, a vida social muda bastante. Algumas podem sentir muito essa mudança, mas para mim foi a mais tranquila. Acredito que por ser talvez a única mudança que já era esperada. Na verdade eu tinha comigo a crença que mãe não tem vida social. Apesar disso, cheguei a me aventurar em 2 festas de casamento quando Laís ainda não tinha nem 3 meses, e também fui em um barzinho que estava tocando pagode, em um sábado a tarde, quando ela tinha acabado de completar 4 meses. Nos casamentos até que foi bem tranquilo (ela dormiu quase o tempo todo), mas no pagode ela não curtiu muito o som e acabamos indo embora logo. Depois disso, comecei a me dar conta que, mesmo sendo eventos durante o dia, alguns não são apropriados para bebês e crianças e reforcei a crença que eu tinha que mãe não tem vida social.

Se eu sinto falta da vida de baladas?  As vezes sinto saudades, vontade de ir em algum show, curtir um axé… Para quem não sabe, eu e meu marido nos conhecemos graças ao carnaval de Salvador. Apesar da saudade, não fico triste por não poder realizar os mesmos programas de antes, pois a felicidade e a alegria que os filhos hoje me proporcionam são maiores do que qualquer tipo de balada. Além disso, através de um processo de Coaching que participei, consegui ressignificar a antiga crença. Hoje, acredito que filhos não nos impedem de ter vida social, apenas a transformam. Meus programas hoje são outros: passeios em parques, festas de aniversários de criança, alguns restaurantes apropriados (por enquanto apenas no horário do almoço…rs), passeios em shoppings, sorveterias, almoços com amigos em casa, e outros tipos de atividades apropriadas para bebês e crianças.

Mudança no relacionamento conjugal

Há quem acredite que filho “segura” marido. Há quem acredite que o relacionamento do casal não será “remexido” com a chegada dos filhos. E existem os casais que têm filhos.

É praticamente impossível um casal que tenha tido filhos e que o relacionamento amoroso não tenha mudado. Não estou falando aqui apenas das relações sexuais, estas a gente já sabe que são bastante afetadas, sobretudo no início. De qualquer forma, é válido lembrar mais uma vez que a mulher está em fusão emocional com o bebê e toda sua energia está dedicada para atendê-lo, nutri-lo, cuida-lo. Não existe neste momento espaço e disposição para sexo e até os hormônios colaboram para isso. Mas, não é sobre isto que quero falar, e sim sobre a mudança na forma de se relacionarem. Homem e mulher já não são as mesmas pessoas, mudaram de identidade, agora são Pai e Mãe. Portanto é necessário que aprendam a se relacionar novamente com estas novas pessoas que surgiram. É um desafio!

Por isso, é crescente o número de divórcios após o nascimento dos filhos.

Na grande maioria das relações, pai e mãe estão tão perdidos com a nova identidade que não sabem mais como se relacionar. Há muita expectativa entre ambos, pouco diálogo. A mulher, geralmente exausta física e emocionalmente, acha que o homem não esta colaborando como deveria, se vitimiza, se frustra. O homem, na grande maioria das vezes, não sabe como ajudar. Alguns se ocupam de trocar fraldas, ao invés de apoiar a mulher emocionalmente. Não que o pai não deva trocar fraldas do bebê, claro que ele deve e pode fazer isso. No entanto, o ideal é que o pai tenha condições de dar todo o suporte para a mulher a fim de que ela possa maternar tranquilamente.

Além disso, antes do nascimento do primeiro filho, geralmente a mulher acaba por sustentar emocionalmente o homem. Quando chega o bebê, todo o apoio que ela dava ao marido é agora exclusividade do recém-nascido. O pai sente-se excluído, sem lugar.

Este é só o começo de um emaranhado de mudanças na vida do casal. Apesar de muitos conseguirem se reinventar e aprenderem a se relacionar novamente, infelizmente, inúmeros relacionamentos não se sustentam após a chegada dos filhos.  Outros se fragilizam bastante, o casamento se mantém, porém não existe mais relação amorosa.

Aqui em casa passamos por vários perrengues, mas a vontade de permanecermos juntos em prol do nosso amor, dos nossos filhos, e da nossa família, falou mais alto. Seguimos em constante mudança, buscando nossa essência, com o objetivo de sermos os melhores pais que podemos ser. Temos nossas diferenças, discutimos, nos perdoamos e nos reconciliamos. Escolhemos amar.

É muita mudança que um simples bebê trás, né?

Mas na vida, tudo são fases. O bebê cresce, algumas demandas diminuem, e algumas coisas começam a voltar para algum lugar próximo do que era antes da chegada do filho…

A passagem do Furacão

Gosto de imaginar uma cidade que foi atingida por um furacão, e depois precisa se reestabelecer novamente. O tempo para reestabelecer é único para cada cidade e depende muito dos seus gestores, dos recursos disponíveis para investimento, e principalmente de ajuda externa de outras cidades/estados/países, outros governos. Algumas cidades se reerguem melhores do que antes, outras infelizmente não conseguem se reconstruir, mas nenhuma delas será a mesma.

Muitas das cidades se prepararam para a chegada deste fenômeno natural avassalador, e mesmo assim não saem ilesas. O fato é que, no momento em que se esta bem no olho no furacão, ninguém quer de novo viver aquela experiência. Mas depois, para as cidades que conseguiram se reerguer e se preparar novamente, quando o próximo furacão chegar, tudo vai ser diferente. Lógico que muita coisa vai sair do lugar de novo, estruturas serão abaladas, algumas coisas que não foram remexidas pelo primeiro furacão vão ser remexidas pelo segundo, ou pelo terceiro… Todavia, a cidade estará mais forte e mais consciente. Infelizmente, para as cidades que não se reestruturaram, que não aproveitaram as oportunidades de aprendizagem que o primeiro furacão trouxe, a chegada do segundo pode ser ainda mais avassaladora.

Mas graças a Deus não somos cidades, e nossos filhos não são furacões de verdade. Gosto apenas de usar essa metáfora para mostrar o porquê tantas famílias que antes desejavam ter mais de um filho, após o nascimento do primeiro desistem dos demais. Eu mesma, no auge do puerpério, cheguei a pensar na possibilidade de ser apenas “mãe de uma”. Porém, com o passar dos dias, fui aprendendo, me fortalecendo, me empoderando… fui em busca do autoconhecimento para ser a melhor mãe que eu poderia ser. Além disso, apesar de toda reviravolta que um filho trás consigo, é tanta coisa boa que vem embutida que muitas vezes nos esquecemos de olhar para “o estrago”.  E logo veio a saudade da barriga, a saudade do recém-nascido… e junto com isso a vontade de deixar para o mundo pessoas melhores… e quando Laís tinha 1 ano e 6 meses eu engravidei do Gael, como já comentei com vocês no texto anterior.

Somos seres humanos, racionais. Temos a possibilidade de escolher aquilo que julgamos melhor para nossa vida, temos a chance de mudar de idéia quando queremos. Tudo bem se antes você queria ter três filhos e agora quer ter apenas um. Só você sabe a intensidade do furacão que passou pela sua cidade e o quão difícil foi ou está sendo para reconstruí-la. Entretanto, não se engane! Não conte “historinhas” para você mesma, dizendo que mudou de idéia por que filho é muito caro.

Eu também concordo que filho é muito caro. Mas mais do que caro, filho dá trabalho. Exige disponibilidade, autoeducação, mudança de prioridades, autoconhecimento. Filho mexe com aquilo que a gente nem sabia que tinha para ser mexido…e dói! Mas filho também é benção, é graça, é a esperança de um mundo melhor, é amor desmedido, é oportunidade de evolução pessoal. Filho é milagre, é vida!

E lógico, se um filho já é tudo isso, dois filhos é tudo dobrado (nem tão ao pé da letra assim). É exaustivo, principalmente se você não tem ajuda. É punk no começo lidar com as emoções do mais velho que sente que ficou de lado. Mas é lindo ver o amor de um pelo outro crescendo. Eu imaginava que seria muito mais desafiador. Confesso que já estou com vontade do terceiro. Ops, já passou! Brincadeiras a parte, esta é uma decisão que ainda não tomei. No momento sigo com a idéia de ser mãe de dois, mas daqui um tempo, quem sabe…

O Furacão já passou, e agora?

Agora você decide se quer ou não viver as aventuras de um novo furacão na sua vida. Não estou escrevendo este texto para dizer que você deve ter mais de um filho, nem que você deve ter apenas um. Como eu disse lá no começo, essa é uma escolha pessoal e delicada.

Ser mãe de um, de dois, de três, ou de quatro, é um desafio, mas é também uma benção.

Quero apenas que você pare, respire fundo e reflita de forma consciente sobre suas escolhas:

– O que fez você decidir ter apenas um filho?

– O que fez você decidir ter mais de um filho?

– O que é para você ser mãe?

– Como você se sente sendo mãe?

– Você, que é mãe apenas de um filho, consegue se imaginar tendo mais filhos? Como se sente?

Aproveito para deixar duas dicas para quem planeja ter mais de um filho:

1- Prepare-se, no real sentido da palavra. Leia, informe-se, estude, eduque-se, conheça-se, conecte-se consigo mesma e com seu filho… Liberte-se das expectativas! Cada gestação é única e diferente, cada parto é único e diferente, e cada filho é único e diferente. Vão existir as semelhanças entre eles, mas não espere que seja 100% igual.

2- Prepare seu filho. Converse com ele, explique o que está acontecendo, leia livros sobre irmãos, mostre fotos de quando estava grávida dele e de quando ele era um bebê…. Seja honesta e diga que a vida de vocês vai mudar, que vai ser desafiador, mas que vai ser gratificante também.

E independente da escolha que você fizer, que seja a melhor!

 

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

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” ‘Seu filho mais velho vai ficar difícil de amar. Isso porque ele vai te pedir muita atenção. E teu bebê é tão fácil de amar! Um bebê recém nascido é muito fácil de amar. E você tem uma criança que já fala, que já olha pra você e que mete o dedo na sua cara, mexe com as suas dores e que fica difícil de amar. A gente precisa assumir que ele está difícil de amar porque ele precisa de amor. Porque senão a coisa vira um ciclo imenso de mau comportamento e você ficando nervosa…’ – Trecho da fala da Elisama durante o podcast.

 

A chegada do segundo filho mexe com as emoções de todos em casa. Por um lado a mãe se questiona: vou ser capaz de amar do mesmo jeito? Vou conseguir dar o mesmo de atenção? Meu filho mais velho vai aceitar bem a chegada do irmão? Por outro lado, temos o primeiro filho que, ainda que muito bem preparado, será impactado pelo nascimento do irmão e muito provavelmente terá ciúmes ou se sentirá ameaçado com a presença do bebê.

 

No 8o episódio da Tenda Materna, em que eu e a Clarissa Yakiara tivemos como convidada especial a Elisama Santos, conversamos sobre Relação Entre Irmãos. O que muda com a chegada do segundo filho? É possível evitar o ciúmes ou faz parte? Como ajudar o filho mais velho a lidar melhor com a vinda do bebê na casa? Por que o comportamento deles muda tanto mesmo quando eles demonstram entusiasmo durante a gravidez? Como fazer com que ele se sinta especial? Como não cair na tentação de comparar e rotular nossos filhos?

 

Neste episódio, eu confesso que fiquei praticamente de espectadora, já que sou mãe de uma e a Elisama e a Clarissa tinham muitas histórias para compartilhar. Mas durante a edição, me emocionei muitas vezes, acredito que reconectei com minha experiência como filha do meio, com a chegada do meu irmão, com os medos que senti, a sensação de ser rejeitada e me achar menos importante. Será que tinha alguém validando meus sentimentos naquela época? O que meus pais poderiam ter feito? Como eu poderia ter me sentido melhor? Falamos muito sobre reconhecer com honestidade o que se passa no íntimo da criança que recebe o irmão e da mãe que recebe o segundo filho.

 

Dá o play para escutar a conversa!

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No episódio mencionamos os livros Irmãos Sem Rivalidade – O que Fazer Quando os Filhos Brigam, de Adele Faber e Elaine Mazlish e Pais e Mães Conscientes, da Dra. Shefali Tsabary, além da série This is Us.

Para conhecer melhor o trabalho da Elisama Santos, você pode segui-la no Youtube ou no Facebook, ou acessar as páginas dos cursos online que ela tem para pais e mães de crianças pequenas, o Programa Reolhar, ou para pais e mães de adolescentes, o Programa Reolhar Teens.

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Se você gostou deste episódio da Tenda Materna, siga a gente no Soundcloud ou no iTunes ou assine minha newsletter (é só preencher seus dados👇 abaixo 👇) para receber avisos sobre os próximos episódios. Acesse os outros episódios aqui.

Mande para uma amiga que segue a Tenda Materna e está ansiosa pelo novo episódio, compartilhe!

Vamos fazer crescer essa rede de apoio que tanto faz falta às mães!”

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TEXTO: Maira Soares @cantomaternar
www.cantomaternar.com

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Depois dos primeiros dias na maternidade, vem a aventura dos primeiros dias em casa. Nossa, que medo que dá de levar aquela coisa pititica para casa! Parece tão frágil, tão vulnerável e a gente se sente tão despreparada, tão desajeitada…  Simplesmente porque parece que temos um pedaço do nosso coração batendo do lado de fora!

Quando observamos outros mamíferos percebemos o tamanho de nossa vulnerabilidade no reino animal! Os filhotes da girafa conseguem andar após 1 hora de seu nascimento, nossos primos macacos nascem e logo se penduram em sua mãe. Enquanto nós humanos sequer sustentamos nossa cabeça! Nós não nascemos prontos, precisamos ainda de um tempinho de desenvolvimento do lado de fora, é o que diz a teoria da exterogestação.

A gestação do lado de fora

Nosso bebê ainda precisa de um tempinho para se desenvolver fora da barriga da mãe. Afinal, ele ainda é extremamente dependente para sobreviver! Isto é o que diz a teoria da exterogestação, desenvolvida pelo antropólogo Ashley Montagu e difundida pelo pediatra Harvey Karp. Além dos 9 meses dentro da barriga da mãe, a gestação do lado de fora levaria pelo menos mais 3 meses para se completar.

Entretanto, existe um motivo biológico importante que justifica este aparente “despreparo” para o nascimento! Quando o bebê nasce o cérebro humano não está suficientemente desenvolvido para lidar com o mundo. Caso a natureza esperasse este tempo, a cabeça do feto seria grande demais para passar pelo canal vaginal.

Como sempre, podemos perceber a sabedoria da Mãe Natureza! Tudo tem seu tempo devido e o tempo dos bebês não respeita relógio e esquemas cartesianos! Trata-se de um tempo que está além de uma lógica racional! Como nos relata Laura Gutman no livro Maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos:

Para nos aproximarmos do universo do bebê é necessário usar o conhecimento intuitivo, e não o conhecimento racional, pois se trata de um ser regido por necessidades e leis que escapam às previsões mentais dos adultos. Esta aproximação intuitiva que aflora nas mães é muito desvalorizada socialmente. Por isso, as mulheres não respeitam os sentimentos óbvios que surgem pelo fenômeno de fusão emocional, que lhes permite ficar milimetricamente conectadas com as manifestações de seus bebês. (p.109)

Tempos de fusão

A ideia de que há uma fusão entre mãe e bebê chegou a mim de forma mais palatável através da Laura Gutman! Sempre tive medo de invadir o espaço da minha filha, de não respeitá-la enquanto indivíduo! Eu tinha medo de ser igual àquelas mães que agem como se o filho fosse uma extensão dos seus desejos, praticamente um boneco que elas manipulam da forma que desejam!

Exercitei por algum tempo este distanciamento com o objetivo de não me confundir com minha filha. Mas quando surgem os perrengues, o cansaço e toda a desordem emocional e hormonal do puerpério fica evidente este aspecto de fusão! A partir da leitura da Laura Gutman pude ressignificar o conceito de fusão e mesmo de simbiose numa perspectiva muito mais positiva nos primeiros anos do nascimento.

Segundo a autora, desde o nascimento até os 9 meses o bebê têm necessidades básicas que se assemelham àquelas que eram atendidas prontamente no ventre materno! São elas respectivamente: comunicação, contato, movimento e alimentação permanente.

Empatia com o “mundo dos bebês”

O choro dos bebês recém-nascidos refletem a profundidade de seu desconforto! Para amenizar isso é preciso tentar recriar alguns aspectos da vida intra-uterina. Vale a pena cuidar para que o mundo seja apresentado ao bebê de forma gradativa e tranquila!

Acredito que é preciso usar empatia para imaginar a enorme transição que é nascer! De que forma podemos fazer uma transição menos abrupta para este nosso mundo real? Tudo é novidade, trata-se de um mundo cheio de cores, sons, cheiros e uma explosão de sentidos! Antes estávamos aquecidos, apertados, alimentados… Agora estamos tendo nosso primeiro contato com o desconforto, com a necessidade, com a ausência… Por isso, o que mais acalma o bebê é a conhecida voz da mãe ou do pai, o colo, o aconchego!

Acredito que a maioria das mães perceberam o poder de sua voz, cheiro ou contato para acalmar seu filho! Digamos que nesta terra de ninguém, a mãe e o pai ou cuidadores mais próximos são os guias para esta longa jornada chamada vida! Eu amei e recomendo o documentário Começo da Vida, cheio de sensibilidade nos coloca neste universo dos bebês!

Comunicação e Contato

Na lista descrita pela Laura Gutman comunicação e contato figuram como aspectos principais! Esta experiência é fundamental para desenvolver a sensação de segurança e confiança ao bebê! No entanto, percebo uma certa dureza em relação à forma como vemos nossas crianças!

Em Amamentação: um capítulo à parte comentei que com 24 horas de vida, minha filha foi taxada de “preguiçosa” na maternidade! Além disso, quando ficava com ela no colo eu ouvia: “Você vai deixá-la mal acostumada, hein!” Sobre isso recomendo o vídeo: Colo deixa os bebês mimados no Canal Paizinho, vírgula.

Facilmente percebemos uma série de frases que denotam uma mesquinhez de sentimentos! Como se carinho demais fosse prejudicial à saúde infantil! Como se você precisasse ensinar ao seu filho que ele não pode ter muito, que é preciso se adaptar à escassez… E quanto antes, melhor! Puxa, por que tanta rudeza com este serzinho recém chegado ao mundo!

Quanto melhor afinarmos esta comunicação e contato com muito toque, olho no olho, muito colo e principalmente PRESENÇA nos cuidados diários, melhor será a adaptação de nosso bebê!

Movimento e Alimentação Permanente

Acredito que já seja moda o uso de sling! E que coisa boa poder levar nosso bebê conosco grudadinho! Infelizmente, o sling foi o que eu menos usei depois que minha filha nasceu! Simplesmente não rolou! Eu não me adaptei bem, quando eu me acertei, ela não curtia! Enfim, foi algo que eu idealizei bastante e não rolou pra gente! E tudo bem! A ideia central é manter o contato constante com a mãe e também o movimento! O bebê vive imerso em ruído e movimento no ventre materno e trazer estas condições após o nascimento é muito importante!

Além de dar colo, muito colo, colo em abundância para minha filha, rs, eu adaptei a necessidade de movimento usando uma bola de pilates! Sempre que minha filha Giovanna chorava eu tentava suprir todas as necessidades básicas: fome, aconchego, fralda… e quando o choro persistia eu experimentava o som do útero e o balanço na bola de pilates. De forma suave, este balanço trazia a ela conforto, porque logo se acalmava! Vale lembrar que NÃO é para sacudir o bebê, menos ainda dar aqueles trancos! Isso pode gerar a Síndrome do bebê sacudido.

A alimentação permanente era que o bebê tinha a seu dispor no ventre materno! Portanto é muito nova a sensação de falta, de fome! Desde a maternidade eu escutei as enfermeiras me aconselhando a “Não deixar a bebê chupetar o peito!” Entretanto, só fui desmistificar este conceito na Casa Curumin, onde a orientadora me perguntou: “Como sua filha vai chupetar se nem sequer sabe o que é uma chupeta? O que ela pode estar fazendo é alimentando sua necessidade de colo e aconchego!” A partir daí aumentou ainda mais minha disponibilidade para dar o peito à minha pequena!

“Ninguém pede aquilo que não precisa!”

A impressão que eu tenho é que as pessoas têm muito medo do amor. Medo desta relação tão especial, deste vínculo que se estabelece entre mãe e bebê! Na verdade, minha intuição me diz que a criança ferida de cada um está gritando! E ela diz: “Ah não deram carinho para mim, por que vão dar amor assim ‘de graça’ para este novo cidadão do mundo?!” Vale a pena dar uma olhadinha no artigo anterior “Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!“.

A frase título “Ninguém pede aquilo que não precisa!” foi a frase que mais mexeu comigo no livro da Laura Gutman! Isto porque ampliou o meu olhar para muito além da maternidade! Repensei bastante sobre minha criança, a relação com meus pais, meu trabalho como educadora e a própria relação com a sociedade.

Como seria o mundo se os adultos olhassem de verdade para os pedidos das crianças! E, para os críticos da Laura, eu não estou falando de viver em função dos pedidos das crianças! Mas para olhar profundamente para a necessidade que está escondida atrás daquele pedido! Na maioria das vezes tudo que as crianças querem é nosso olhar atento e focado nelas! Para refletir sobre isso um vídeo excelente é o Quem você convidaria para o jantar?

Coragem: a voz que vem do coração

Não tenha medo de entrar em fusão emocional com seu bebê! Esta teoria da exterogestação, para mim, valida ainda mais esta necessidade de contato íntimo e profundo entre mãe e bebê! Permita-se vivenciar esta experiência como uma oportunidade muito rica de cura emocional! Agora somos adultas e podemos amparar a criança que fomos e o bebê que temos nos braços!

Criar um bebê real é também reviver o bebê que fomos. O que acontece quando as mães criam seus bebês guiadas por conselhos e receitas recebidas, deixando de atender suas sensações viscerais? Simplesmente, a sombra aparece em manifestações incômodas, como doenças, choro desmedido e protestos dignos de bebês que resolveram chamar a atenção. (Gutman, p. 111)

Considerando esta perspectiva da exterogestação e da fusão emocional, imagine a tragédia de metodologias que propõem ignorar o choro dos bêbes! Deixá-los no berço e ADESTRÁ-LOS para que parem de chorar! Qual a leitura do mundo que estes recém chegados têm, quando suas necessidades básicas não são atendidas nem mesmo por seus cuidadores mais próximos?

Acredito que esta falta de suprimento emocional básico explique um mundo tão cheio de ódio e intolerância! No próximo artigo discutiremos um pouco mais a respeito da consequência destas necessidades não atendidas e como elas se apresentam como “pedidos deslocados”, segundo Laura Gutman. Enquanto isso, deixo o convite para que se fundam com seus bebês e que se disponibilizem emocionalmente para seus filhos! Para inspirar lá vai a linda música de Chico Cesar:

E aí você surgiu na minha frente
E eu vi o espaço e o tempo em suspensão
Senti no ar a força diferente
De um momento eterno desde então

E aqui dentro de mim você demora
Já tornou-se parte mesmo do meu ser

E agora, em qualquer parte, a qualquer hora

Quando eu fecho os olhos, vejo só vocêE cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz

O amor une os amantes em um ímã
E num enigma claro se traduz
Extremos se atraem, se aproximam
E se completam como sombra e luz

E assim viemos, nos assimilando
Nos assemelhando, a nos absorver
E agora, não tem onde, não tem quando
Quando eu fecho os olhos, vejo só você

E cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Certa vez, um pai perguntou ao pediatra como conquistar o seu filho de apenas dois anos de idade.

O pediatra explicou-lhe sobre a importância de participar mais da rotina do filho: levá-lo na escola, ajuda-lo com a alimentação, com o banho e etc.

Pensei na dificuldade que o homem enfrenta na nossa sociedade para ser um pai presente, pois a ele sempre foi negado o direito de sentir, de se expressar, de se conectar com o próximo, de ninar um boneco, de se permitir.

Pensei, também, no fio invisível e magnético que aparece entre um adulto e uma criança, quando há uma relação de afeto, liberdade e criatividade envolvida.

Em outras palavras, quando o adulto se utiliza de uma comunicação lúdica para manter contato com a criança.

E ao falar desse assunto, não tem como não se lembrar do curta-metragem de animação espanhol, chamado Alike, dirigido por Daniel Martínez Lara e Rafael Cano Méndez.

A animação conta a história de um pai, que inserido na rotina pesada de trabalho de uma cidade grande, fecha os olhos para os anseios de criatividade do seu filho.

Ao percebê-lo infeliz, o pai oferece liberdade para o filho sonhar e criar. O filme termina em poucos minutos e nos deixa com um desejo indescritível de abraçarmos nossos filhos e abrirmos um novo canal de comunicação.

Precisamos enxergar as nossas crianças, dando-lhes asas para voarem, olhos para partirem e mãos para se apoiarem ao cair.

Uma criança que pula e dança sem parar pode não ter qualquer transtorno, mas simplesmente querer ser bailarina.

Um menino que não presta atenção na aula, mas somente na natureza lá fora, pode se tornar um grande fotógrafo da fauna silvestre.

Lembrei-me do circo, que encanta a todos, indistintamente.

Então porque não levamos o circo para dentro de nossas casas?

Provoquemos inovação, criatividade, superação de obstáculos e de frustação. Afinal, o que mais a vida irá exigir das nossas crianças no futuro?

Sobre aquele pai aflito no pediatra. Aguardei-o sentar ao meu lado, na sala de espera e disse-lhe: para conquistar o seu filho, torne-se um “pailhaço”. Jogue-se no chão, faça uma piada, provoque uma boa risada e não tenha medo de bancar o trapalhão. Depois você me conta se deu conexão!

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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No último artigo sobre amamentação comentei que falaria desta criança que chora perto de você, mas que não é o seu bebê! É você! Demorei muito tempo para me dar conta disso e aproveito este espaço para compartilhar minha experiência pessoal. Não sou psicóloga, não sou coach de mães, não tenho milhões de cursos de formação! Mas tenho algo que nada disso substitui: minha intuição aguçada e minha experiência!

O valor da experiência e o desenvolvimento da intuição

Antes eu acreditava na importância de um currículo! Mas depois de trabalhar em algumas instituições percebi a realidade sobre aquela famosa frase: “As pessoas são contratadas pelo currículo e demitidas por comportamento!”. Um currículo exemplar nem sempre significa um bom profissional e vice-versa! Muito mais importante é a atenção e sensibilidade do profissional para perceber e investigar a realidade das coisas!

Quando me descobri grávida eu não quis investir em muita teoria como havia feito em outros momentos da minha vida! Preferi investir na minha capacidade de sentir e perceber as coisas! Eu já estava num processo terapêutico que me ajudava muito neste sentido! Eu fazia massagens, acupuntura, estava atenta aos benefícios da aromaterapia e fazia uso de florais! Tudo isso estava alicerçando um processo de mudança de paradigmas interno!

Eu, a pessoa que sempre valorizava o racional, estava me abrindo para SENTIR. Leia também Maternidade: A intensidade de sentirE este processo se intensificou com a chegada efetiva da minha filha! Eu sentia uma tristeza, um desconforto, uma angústia que não tinham espaço dentro de mim! Eu queria resolver, fugir, sair dali, parar desesperadamente de sentir aquilo tudo!

Afinal, racionalmente estava tudo indo bem! Ela nasceu saudável, ficou um dia na UTI, mas já estava em casa. Eu estava com dificuldades no início da amamentação, leia também Amamentação: um capítulo a parte. Mas isso era algo temporário, acontecia com todas as mulheres… Entretanto, por mais que repetisse tudo isso para mim mesma, eu só queria um buraco para me esconder! E ainda tinha que receber visitas! Meu Deus, eu não dava conta nem de mim mesma, que dirá ouvir outras pessoas!

Em busca de conforto: o desespero do puerpério!

Mesmo buscando conversar muito com minha mãe e meu marido, parecia que eu estava num local inacessível! Eu me sentia imensamente sozinha, incompreendida e muito magoada com o mundo, com a vida, comigo mesma! Parecia que eu havia caído numa imensa armadilha da vida! Eu não dava conta das minhas lágrimas e ainda tinha o choro de uma linda bebê para cuidar!

Hoje, revendo os vídeos daquela época, eu vejo o imenso amor nas minhas palavras. Percebo que, apesar da confusão interna, eu consegui ser atenciosa e amorosa como eu queria! Mas nunca vou me esquecer da minha sensação interna de estilhaçamento! Quem era aquela mulher, com aquele corpo estranho, com aqueles sentimentos esquisitos?

O tempo mais frio sempre mexeu comigo, me deixando um pouco triste. Mas aquele outono / inverno foi especialmente difícil! Lembro, inclusive, que eu não queria sair do quarto, único local que parecia aquecido, protegido e adequado para que eu começasse a lamber minhas feridas! Diante de minha imensa dificuldade com a amamentação, uma amiga, a Marcela, me sugeriu que eu conversasse com minha bebê e contasse a ela o que estava acontecendo comigo!

Acho que estas foram as conversas mais difíceis de iniciar! Desde a gravidez eu não me sentia muito à vontade conversando com a bebê! Eu falava, mas não era algo que fosse natural, às vezes me parecia meio forçado. Neste momento, não foi diferente! Como é que eu iria explicar algo que eu mesma não entendia, nem conseguia nomear direito para aquela bebezinha tão frágil?!

Criança ferida: um novo processo de cura

Na minha terapia e em buscas paralelas eu vinha fazendo um trabalho de cura de minha criança interior. Vale a pena dar uma olhadinha no artigo Criança Interior no blog Conexão Profunda. Neste momento eu me vi mergulhada num mar de mágoas, dores e tristezas em que eu estava me afogando! Daí chegou até mim um curso online que muito me ajudou neste período, pois a recomendação principal eram fazer meditações e escrever cartas para limpar experiências negativas! Vale a pena conhecer o trabalho de Tatiane Guedes “Mas afinal, o que é a Criança Interior?”

Foi escrevendo e me entregando às meditações de encontro com minha criança, que fui me dando conta que minha criança chorava muito mais que minha bebê! Fui tendo acessos a lembranças que eu havia enterrado e fugido por muito tempo! Fui acessando emoções reprimidas que estavam precisando ser liberadas e que, certamente, minha bebê trouxe à tona!

Nesta fase eu ainda não havia lido Laura Gutman, estava tão mergulhada em mim que, por vezes, me sentia sem fôlego para a realidade! Ali tomei contato com muitos sentimentos de tristeza da minha infância, pude rever relacionamentos e percebê-los por uma outra perspectiva. Assim como no outono, as árvores vão perdendo as folhas eu fui me despindo de minhas couraças de proteção e encontrando minhas feridas bem abertas precisando de cuidados !

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou.

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou”.  Fernando Pessoa

Só podemos CURAR o que podemos SENTIR 

Esta frase: “Você só cura aquilo que pode sentir.” (Domingos Cunha) já anuncia que é um processo que dá trabalho! Sentir, algo que deveria ser tão natural, mas que é tão reprimido! O desespero que sentimos para fazer um bebê parar de chorar conta muito a respeito desta nossa dificuldade de SENTIR e permitir sentir!

Quando fui tentando parar de sentir o que eu achava que deveria sentir. Quando fui dando espaço para a tristeza que eu sentia se manifestar, quando fui conversando com minha filha e dizendo o que eu estava sentindo, eu fui elaborando minha tristeza. Desta forma, fui legitimando algo que minha criança interior gritava para me mostrar!

É preciso dar-se tempo, colo, conforto! É preciso silenciar as vozes externas e também as internas  dos “eu deveria…” e permitir-se simplesmente SENTIR! Quando criamos este espaço verdadeiramente, começamos um processo de compreender o que tanto nos aterroriza, entristece e magoa! Somente criando um espaço interno de escuta é possível iniciar o processo de cura!

O bebê e a criança interna em Conexão

Uma coisa que eu pensava era que não podia dar voz à minha criança interior nesta fase tão sensível do puerpério. Era preciso ser adulta e cuidar da minha filha, não havia espaço para mais uma criança precisando de cuidados ali.

Entretanto, com o passar dos dias fui percebendo que se eu não olhasse com carinho e atenção para minha criança, não conseguiria ser a mãe atenciosa que eu desejava. Por isso, fui permitindo que minha criança expressasse ao máximo suas mágoas, expectativas e decepções e todas as feridas que rondavam meu universo infantil. Lembrei de cenas que eu jamais imaginava recordar, sentimentos, até a leitura das expressões dos adultos que, de alguma forma, me impactaram.

Vale ressaltar algo importante aqui: nem sempre foi o que aconteceu que feriu a criança, mas como ELA interpretou NAQUELE MOMENTO, sem muitos recursos emocionais. A criança com sua sensibilidade capta coisas que os adultos nem imaginam e, por vezes, ficam com uma cena bem recortada, ferindo seu coração. Quando criamos este espaço de escuta e cura, podemos RESSIGNIFICAR experiências e perceber que fazem parte de um contexto mais amplo de acontecimentos! Vale a pena ouvir o Podcast Tenda Materna #2: “A Nossa Criança Interior”

Outro ponto importante a ser destacado é que não podemos nos identificar com aquela criança ferida, tomando suas dores! Esta é uma tentação: se vitimizar e fazer acusações é fácil! Contudo, quando nos tornamos mães percebemos que, por vezes, as situações são mais complexas do que aparentavam anteriormente! Quando vivenciamos o papel de mães notamos que errar faz parte do processo de aprendizagem! E, por mais perfeitas que desejássemos ser, isso não seria possível e nem útil já que a vida é um processo de aprendizagem contínua!

“No momento em que uma criança nasce, a mãe também nasce. Ela nunca existiu antes. A mulher existia, mas a mãe, nunca. Uma mãe é algo absolutamente novo”. Osho

Assumindo desafios

Assim que nos tornamos mães e compreendemos os desafios deste papel, passamos a ter muito mais humildade e respeito para olhar a postura de nossas mães! E a partir desta posição de adulta, que abraçou sua criança interior, é possível olhar e cuidar profundamente do bebê no seu colo!

Este bebê precisa de um olhar atento e amoroso para suas necessidades! Ele precisa que você nomeie o mundo para ele – tanto o interno quanto o externo. Nos primeiros anos o bebê está muito fundido com sua mãe. Por isso, é fundamental que haja clareza e muito diálogo para que esta relação vá organizando as emoções, o mundo, as experiências…

Muitas vezes eu percebo algumas mães pressionadas a seguirem o mesmo modelo no qual foram criadas para que suas mães se sintam, de alguma forma, validadas. Entretanto, esta ainda é uma postura de nossa criança interior que sente a necessidade de obedecer os pais! Para refletir profundamente, recomendo dois vídeos da Psicóloga e Consteladora Sistêmica – Inês Rosangela: Criança InteriorSomos Adultos Realmente?

Articulação entre o mundo interno e o externo

Como sabiamente nos ensina Laura Gutman em seu livro O poder do Discurso Materno: introdução à metodologia de construção da biografia humana:

Assim, se estou criando filhos pequenos, tudo de que necessitam são pais que questionem a si mesmos da maneira mais honesta possível. Porque se observamos os mapas completos, se olhamos os cenários e, dentro deles, reconhecemos nossos automáticos, nossos personagens e nossos roteiros escritos, talvez possamos decidir não funcionar assim e experimentar outras maneiras mais criativas e ricas. E só então seremos capazes de olhar para nossos filhos com mais abertura e sem tantos preconceitos, ou seja, sem prejudicá-los antes de observá-los e acompanhá-los. Em vez de interpretar cada coisa que fazem e não nos agrada, em vez de trancá-lo em personagens que nos acalmam porque conseguimos localizá-los rapidamente… poderemos simplesmente nomear cuidadosamente aquilo que acontece com eles, dando-lhes todo o valor real disso que acontece. E também poderemos nomear com palavras simples o que acontece conosco, na totalidade de nosso complexo universo emocional. (p.55)

Portanto, é fundamental fortalecer-se internamente para assumir os desafios de se tornar mãe e pai! É preciso olhar nossas feridas e nos dispormos à SENTIR PARA CURAR! Acredito que somente deste modo seremos capazes de observar nossos filhos e captarmos SUAS necessidades emocionais!

O mundo atual, com seus desafios e informações, torna mais acessível a nossa evolução! Hoje temos muito mais conhecimento e isso pode e deve ser usado com sabedoria. Ou seja, sem perder a conexão que desenvolvemos com nossa intuição, especialmente quando nos abrimos para este olhar mais sensível que o mundo do bebê nos convida! No próximo artigo falaremos um pouco mais sobre este contato com o mundo do bebê, você já ouviu a respeito da exterogestação?

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Os ensaios do dia a dia apontavam-no para uma portinha que se abria, rumo à primeira grande separação, a escola.

Criamos um clima de véspera, aparentemente saudável, na intenção de prepará-lo para a mudança.

Mas o bom diálogo se tornou vivência antecipada e ansiedade, com direito a vômito e à febre no primeiro dia de adaptação.

Apesar de tudo, ele quis ir e me ensinou sobre superação.

Chorou, ficou só um pouquinho, para ter vontade de voltar no dia seguinte. Assim aprendi a lição de que não precisamos chegar ao nosso limite.

Feito a expressão popular “o gato subiu no telhado” foram os demais dias de adaptação, tudo bem devagarinho, ao tempo dele.

A cada olhar cabisbaixo, as professoras se revezavam e olhavam-no nos olhos, como se quisessem tocar seu coração.

E se não resolvesse era o meu coração que aparecia, até que em pouco tempo as lágrimas que caíam ficaram escassas diante do novo mundo que se abria ao seu redor.

O cheiro da chuva, os animais soltos, o pique esconde, a areia que esfrega e afaga, a música, a ciranda, as mãos dadas com o amiguinho ao lado, o joelho ralado.

Um espaço para os sapatos. O quê? Meu filho vai pisar com seus pesinhos limpinhos no chão?

Não só pisou como se sentiu livre para brincar e se conectar com os seus desejos e emoções.

E foi assim, de camarote, que eu assisti a espontaneidade correr livre leve e solta pelo ar.

Em pouco tempo fui colocada na coxia desse lindo espetáculo, para me preparar para o grande dia.

E ele chegou, veio a galope, bateu à porta e me convidou para passear.

Olhei pelo vão da maçaneta e senti um clarão cegar meus olhos marejados da saudade que ainda estava por vir. Sim, era eu quem não estava pronta para partir.

Olhei ao longe, como quem fingia ter que se despedir de alguém para sair e avistei uma criança, rindo às gargalhadas.

Ah, era ele, o meu menino. A claridade penetrou em meus pensamentos, que me fizeram enxergar a felicidade fora de mim.

Não, ele não me viu, pensei e virei-me para ir embora. De repente, ele levantou os bracinhos e acenou em minha direção.

Com um tchau certeiro, mostrou-me que estava inteiro e que era chegada a hora de eu ser o personagem principal desta nova atuação.

 

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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Eu sou uma pessoa agressiva. Isso não me define, mas o fato é que sou agressiva, em muitas situações e de várias formas. Não é fácil pra mim falar sobre isso, mas decidi tentar, porque esse lugar da escrita despretensiosa me cura de alguma forma. Antes de continuar, te peço gentilmente, não me julgue, acolha a minha história assim como estou tentando me acolher diariamente.

Pois bem, a realidade é que sou agressiva na fala, sou agressiva no toque. Quando a raiva já não cabe mais dentro de mim ela esbarra em quem está por perto. Eu grito, eu sou mal educada, eu sou ríspida, eu agrido verbalmente… Mas também, já agredi fisicamente, já apertei e deixei marcas e isso fez meu coração se despedaçar… Doeu tanto ver o reflexo da agressividade que me habita que não me perdoei ainda. Eu acredito que nada nesse mundo justifica uma agressão, e logo eu, sou agressiva. O problema é que eu não consigo prever, não consigo antecipar e na hora que vejo, já estou repetindo o padrão… É desafiador e muito frustrante e de uns tempos pra cá (desde os Divinos Dois anos do meu filho) tem sido doloroso demais…

Recentemente me dei conta que, aquilo que eu sempre ouvi a aeromoça dizer antes da decolagem sobre as máscaras de oxigênio, é a dica de ouro da vida! É urgente se cuidar para poder cuidar. Se eu não me nutrir de alguma forma, não estiver conectada comigo mesma, como poderei nutrir o outro e me conectar com o outro? A conta não fecha e já não vem fechando há algum tempo por aqui… O último episódio em que perdi o controle, não me lembro nem mais o motivo, mas a cena ainda revivo na minha memória… Perdi a razão, fui lá pro cérebro reptiliano, a emoção tomou conta e a adulta saiu de cena. Segurei com muita força os bracinhos frágeis do meu maior tesouro, daquele que me iniciou nessa infinita jornada de auto conhecimento e responsabilidade. Perdi o chão, perdi o controle, perdi a razão e a minha criança tomou conta e num flashback quase que instantâneo, me lembrei de uma cena recorrente da minha infância : minha professora da primeira série me chacoalhava. Num relance me lembrei que eu já era adulta, que aquilo não passava de uma lembrança. Me senti uma mãe-fraude e me senti muito desamparada e com muita muita muita raiva dessa professora. Me dei conta naquele momento de que eu precisava de ajuda, não dá mais pra sustentar essa agressividade.

Me dei conta ao decorrer dos dias, que eu preciso de um tempo pra mim, que eu preciso me cuidar para oferecer o melhor cuidado para meu filho e para quem me cerca. Ao escrever, o choro ainda vem, é fato, a raiva também, e fica uma tristeza por me sentir tão impotente diante de algo que já conheço e não consigo controlar apenas por saber que existe. No entanto, já consigo identificar qual o caminho preciso seguir em busca dessa cura, e isso para mim é um enorme passo!

Agradeço ao meu marido que, dentro de suas limitações, me acolhe, me aponta, me faz refletir e me incentiva, sem saber conscientemente, a me conhecer melhor e buscar meus caminhos de cura.

Agradeço infinitamente ao meu filho que, no auge da sua pureza, me ama como eu sou e esse amor ilumina as minhas maiores e temerosas sombras que por sua vez, também me conduzem ao caminho do auto conhecimento e da auto responsabilidade.

Por fim, agradeço ao ZumZum6 que me fez mergulhar ainda mais profundamente na minha alma, me possibilitando uma escuta acolhedora e amorosa para a minha história (que não é melhor nem pior do que a de ninguém, mas é a minha história).

E por último agradeço a você, que me lê, me sente e se conecta com essa minha história. Gratidão pela escuta, pelo acolhimento e pelo respeito com as minhas dores, minhas sombras e desafios, que fazem parte de mim, mas não definem que sou.

Ahow

Este Texto foi escrito por: Iara Schmidt (participante do ZumZum 6)
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.

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Quando nós escutamos falar sobre vínculo e conexão muitas vezes queremos uma fórmula que sirva para todas as mães e para todos os filhos, não é mesmo?

E se tivesse essa fórmula talvez fosse bem mais fácil, já que só precisaríamos seguir o passo a passo, usando mais o nosso lado racional, a nossa mente.

Contudo, quando vamos para a vida real com uma, duas, três ou mais crianças, as coisas não são uma ciência exata, como gostaríamos que fosse, não é mesmo?

E é aí que mora a grande oportunidade

Oportunidade de cada uma descobrir o seu jeito, através da observação deles e de nós mesmas…  Através da entrega para essa relação, para conhecer os seus filhos e para se conhecer nesse processo.

E ainda de despertar a sua intuição para entender as necessidades do seu filho.

Foi nos primeiros meses de vida, quando minha filha ainda era tão pequena que descobri um grande segredo:

“_ Se você quiser ter vínculo e conexão com sua filha, vai precisar ter disponibilidade emocional para isso”. Assim eu pensei.

E, não posso negar que já havia estudado sobre o assunto, porque para mim não é algo natural falar sobre sentimentos, entender as emoções. Precisei fazer um movimento para conseguir praticar isso e sigo aprendendo.

Estar presente fisicamente não é a mesma coisa que estar presente emocionalmente.

Estar presente emocionalmente precisa ter um contato olho no olho, precisa se interessar pelo que o outro está dizendo de forma verbal ou não verbal. Até mesmo com os bebês conseguimos fazer isso, eles se comunicam conosco e sentem-se ainda mais necessitados por essa conexão.

Então comecei a trabalhar mais isso comigo mesma…

Quando minha filha ainda era bebê, procurei conversar muito.

Conversava sobre a rotina, sobre o que eu estava fazendo, se fosse trocar a fralda, por exemplo, já começava a falar antes que iria trocar a fralda e, durante, contava o que estava fazendo. Para que ela se sentisse mais calma sabendo o que iria acontecer e o que estava acontecendo.

Nessa fase de bebê que ainda não tem muita interação, eu também usava muito o toque, as massagens, ficar no colo, no sling e o próprio contato da amamentação. Isso auxiliava muito que ela se sentisse mais calma, principalmente porque até 3 meses e meio ela ainda tinha muitas cólicas.

Também comecei um movimento de falar sobre sentimentos. Mostrar que eu entendia o que ela estava sentindo. E conforme ela foi crescendo e desenvolvendo a linguagem, ensinei que reconhecesse seus próprios sentimentos e como ela pode fazer para se acalmar.

E às vezes falava sobre os meus sentimentos, sobre o que eu estava vivendo, mas deixando claro que aqueles sentimentos eram minha responsabilidade e não estavam relacionados com a minha filha, pois ela é um motivo de muita alegria. Também procuro não responsabilizar outras pessoas pelo que estou sentindo, principalmente quando converso com ela, para que ela não crie uma imagem negativa de outras pessoas, devido a algo que eu falei.

Apenas, busco falar como estou me sentindo e que estou olhando para aquela situação e procurando um jeito de melhorar.

Quando fazemos essa comunicação com os nossos filhos, também é importante deixar claro que você é o adulto da situação, que você consegue se cuidar. Para que a criança não gere uma crença de que precisa cuidar de você.

Comunicar-se verdadeiramente com os filhos é colocar em palavras aquilo que eles já estavam percebendo e muitas vezes sentindo também. Eles percebem e sentem o que está acontecendo, mas precisam de um adulto para auxiliá-los a traduzir de forma racional.

Quando minha filha tinha ainda 10 meses, tive uma experiência bem marcante com a “Comunicação Mãe e Filho”. Na época eu estava passando por uma situação de muita oscilação de humor, desequilíbrio emocional e havia começado o curso da Clarissa. Aprendi com ela e com a médica e psiquiatra Dra. Eleanor Luzes sobre a comunicação que liberta nossos filhos de sentir as nossas dores. Às vezes eles tomam para si essas dores, como se fossem deles, numa tentativa de trazer à tona para a consciência da Mãe ou do Pai aquilo que não está sendo visto.

E nessa época, mesmo eu estando presente 24 horas com minha filha eu estava passando por uma situação bem desafiante e, se quer entendia o que estava acontecendo comigo.

Comunicando com seu filho

Minha filha apresentava o seguinte comportamento, ela ainda não focava os olhos, ainda não olhava direto para os olhos das outras pessoas, não conseguia focar para olhar direto para objetos também.

E aquilo começou a me incomodar, principalmente porque eu já havia percebido que tinha relação com o que eu estava sentindo e vivendo.

Então usei a técnica de conversar no sono REM. Você sabe o que é sono REM?

Segundo o Instituto do Sono, o sono REM caracteriza-se pela atividade cerebral de baixa amplitude e mais rápida, por episódios de movimentos oculares rápidos e de relaxamento muscular máximo. É a fase onde ocorrem os sonhos. O sono não REM e o sono REM repetem-se a cada 70 a 110 minutos, com 4 a 6 ciclos por noite.

REM significa Rapid Eye Movement (“movimento rápido dos olhos”), sabe quando seu filho ou um adulto está dormindo e os olhos ficam se mexendo?

É aquele momento que você coloca seu filho para dormir depois de um bom tempo e ele está em um sono “mais pesado” e não acorda. Nessa fase a criança pode sorrir ou chorar dormindo e mesmo assim não acordar.

Então, em uma certa noite depois de colocá-la no berço, esperei um pouco até ter certeza que não iria acordar e comecei a falar sobre os meus sentimentos.

Falei que estava tomando consciência sobre o que estava acontecendo e que já estava cuidando disso, para que ela não mais precisasse dividir aquilo comigo no nosso processo de fusão emocional. Também aproveitei o momento para contar sobre o parto e sobre algumas situações que talvez tivessem deixado algum trauma. Pedi desculpas por algumas coisas também.

Depois dessa conversa que tivemos, no outro dia ela já estava focando mais o olhar! Naquela semana, gradativamente, ela passou a focar o olhar!

Foi uma experiência mesmo incrível e para mim ficou evidente o poder que tem essa comunicação.

Durante o dia eu já conversava sobre os sentimentos, mas falando de um jeito que uma criança entendesse. Já no sono REM, segundo a Dr. Eleanor, podemos falar como se fosse com um adulto.

Essa comunicação diária, estabelecer um diálogo, ouvir a criança, olhar nos olhos, se interessar pelo que elas querem nos dizer com palavras ou por linguagem não verbal, gera uma ligação forte entre pais e filhos. 

Essa disponibilidade emocional de observar, sentir e acolher a criança é um investimento na relação familiar e, certamente, a longo prazo você perceberá cada vez mais os resultados da confiança que estabeleceram juntos.

Ainda, eu não poderia deixar de contar sobre a importância que vejo em brincar com minha filha. Nas brincadeiras conseguimos reforçar tudo isso que falei anteriormente, sobre o diálogo, ter empatia e gerar conexão.

E tem um ponto que considero fundamental: quando brincamos com os filhos eles enxergam em nós uma amiga.

A cada dia que passa, aprendo mais e mais… criar filhos não tem mesmo um manual, mas sinto que quando buscamos nos conhecer, entender a nós mesmas fica mais fácil para entender e conhecer também os nossos filhos.

Disponibilidade emocional

Ter disponibilidade emocional para algumas pessoas pode ser natural, mas para outras pode ser algo bem desafiador, pode ser que você tenha que criar um novo hábito.

Crescemos e nos desenvolvemos com base nos valores, nas nossas crenças, aquilo que recebemos e aprendemos. E é bem comum que na sua criação possa não ter tido um espaço para o diálogo e, talvez, até falar sobre sentimentos fosse visto como um sinal de fraqueza.

Contudo a vida é agora. A medida que eu reconheço e vou cultivando gratidão por tudo que aconteceu, da forma que aconteceu, honro minha história, minhas raízes e me fortaleço para ir além daquilo que recebi.

Somos quem somos por termos vivido exatamente o que vivemos.

Quanto mais pudermos cultivar essa gratidão, mais podemos olhar para trás com amorosidade e usar essa força de amor e gratidão para construir a história que queremos ter com os filhos e com o marido.

A vida em família é começar e recomeçar

Ainda está em tempo de fortalecer esses laços, esse vínculo com seus filhos.

Imagine-se com 80 anos, como você vai querer contar a sua história? Como você vai querer contar a história da sua família?

Nossa família, nossos filhos são o principal legado que deixaremos nesse mundo. Nossos filhos são a continuidade da nossa história e dos nossos antepassados. São o principal caminho para construirmos a paz no mundo!

Essa paz que precisamos encontrar em nós primeiro e depois expandir para o mundo!

A vida em família tem seus desafios, mas também pode ter paz, alegria e amor. Desperte o seu olhar para tudo que tem de bom na sua vida hoje e construa uma vida melhor para você e sua família!

Com carinho,

Priscilla Soares.

Autora:

Esse texto foi escrito por: Priscilla Soares, Coach de Mães, participante do Zum Zum e autora do Blog http://www.maecomcarinho.com/

Auxilia a mãe a conciliar sua vida pessoal, familiar e profissional com mais equilíbrio e a melhorar seu relacionamento familiar.

Contato: maecomcarinho@gmail.com

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Quem nunca sonhou em amamentar seu filho? Antes da gravidez eu já sabia da importância nutritiva do leite materno! Sempre ouvia o Dr. Lair Ribeiro repetindo taxativamente que o leite materno é o melhor alimento do mundo! Lembro-me bem de um vídeo em que ele conta que milionários moribundos compravam leites das mães, ainda na maternidade, para ganhar um tempo a mais de vida!

Como se preparar?!

Quando fiquei grávida esta era uma preocupação: o que eu poderia fazer para garantir que minha filha desfrutasse desse benefício?! Minha médica sempre me orientou e tranquilizou a respeito do tema! Parecia que não havia muito o que dar errado, era mais uma questão de persistência! Entretanto, alguns relatos de amigas e colegas me assustavam e deixavam certa dúvida no ar!

Saber que minha mãe me amamentou somente até os 4 meses também me deixava um tanto intrigada. Mas tudo parece encoberto por uma névoa misteriosa até que você possa adentrar o mundo da maternidade!

Aos poucos fui descobrindo coisas que nunca sonhei! Eu que sempre adorei chá de hortelã ou menta, deveria tomar cuidado, pois ele não favorecia a produção de leite! Eu que sempre fui fã de aromaterapia, deveria ficar atenta para usar os óleos essenciais certos! Basicamente só fiquei tranquila com o óleo essencial de lavanda!

Eu já era adepta da acupuntura, mas serei eternamente grata à médica Karla Arana que me acompanhou durante o período de pré-natal! ( Excelente profissional que Deus colocou em meu caminho!). Além de sempre colocar o ponto de acupuntura bebê-feliz, rs, ela sempre colocava agulhas para estimular meu corpo na produção de leite!

Nesta fase da gestação o top less é liberado e apoiado pelo maridão, rs. Claro, só se for dentro do apartamento na fresta de sol que bate pela manhã! Brincadeiras a parte, sol no peito foi o que mais me falaram para fazer para prepará-lo para a intrigante missão que lhe esperava!

Realidade Nua e Crua

É fato que eu quis deixar as coisas fluírem, mas ir para uma cesariana de emergência por conta de baixa no líquido amniótico me deixou bem desconfortável. Na verdade, acho que esta não é a palavra, me deixou em pânico mesmo! Foi algo muito abrupto para minha personalidade planejadora e detalhista!

Eu sentia que não queria, não estava pronta, mas a pessoa que eu mais confiava neste processo era minha médica. Se ela dizia que era necessário, eu não ia discutir! Amo e confio muito no trabalho desta profissional, mas hoje vejo como eu não soube me empoderar durante minha gravidez! Fazemos o melhor que podemos com as condições que temos e foi assim que aconteceu!

Apesar de estar numa maternidade bem conceituada de São Paulo eu tenho horror de lembrar do tempo que passei lá! Especialmente por conta das enfermeiras! Apesar de não receber muitas visitas (tudo o que eu queria era ficar bem quietinha!), eu simplesmente não tinha um minuto de paz. Quando a bebê dormia elas vinham me acordar para medir temperatura, pressão, num excesso de precaução que beirava a paranoia. Eu sentia que havia um medo de que houvesse algo de errado e que elas fossem as culpadas! Ou seja, o clima era de medo constante!

Sou muito mais que meu peito

Quando minha filha teve o primeiro episódio de hipoglicemia eu fiquei bastante assustada. E quando notei um clima de nervosismo no ar, entre as enfermeiras, eu fui ficando bastante preocupada! Aquela confiança que minha médica foi me ajudando a conquistar no pré-natal em relação à minha capacidade de amamentar, sumiu na primeira acusação que ouvi, dizendo que meu bico não prestava!

De repente eu não era uma mulher que exigia cuidados, era uma mulher que não conseguia amamentar sua cria, porque seu bico não era do jeito que deveria! Passar da gravidez para a condição de parturiente foi bem traumático para mim! Antes havia um cuidado e depois havia um clima hostil! Lembro da grosseria da enfermeira quando me levou para tomar banho, ela me falava num tom que parecia que eu estava fazendo “corpo mole”. Eu a apelidei internamente de enfermeira do Hitler, tal foi a sensação de horror que ela me despertava!

Não é segredo que há inúmeras violências que ocorrem com as mulheres durante o pós parto. Confesso que me choca cada vez que ouço histórias a respeito e jamais imaginei que passaria por isso. Antes eu achava que havia um certo exagero, um certo melindre, inclusive. Mas depois do que vivi, e sei que foi pouco perto de muitos relatos, redobraria minha atenção dentro de instituições hospitalares!

Será mesmo que a amamentação é estimulada?

As propagandas enfatizam a amamentação, mas na realidade há muitas formas de desencorajá-la de forma sutil! E foi assim que aconteceu comigo! A primeira delas, na minha opinião, é o complemento! Por qualquer motivo, aliás para retirar qualquer possível responsabilidade do hospital, eles querem iniciar com o complemento. Eu me opus fortemente, mas fiquei com medo da hipoglicemia e concordei. Foi aí que diminuiu o interesse de minha bebê pelo meu peito.

O segundo movimento foi desqualificar o bico do meu seio como quem avalia uma vaca leiteira! Ali minha auto-estima que estava abalada, desceu muitos graus abaixo de zero! Fragilizada e com medo eu aceitava qualquer alternativa que resolvesse o meu suposto problema. Foi então que a solução foi apresentada como um bico de silicone acoplado ao meu peito, que facilitaria a sucção para a minha bebê! Afinal, elas diziam que ela era muito preguiçosa para mamar! (A bebê acaba de nascer, está APRENDENDO e já é rotulada como preguiçosa!!!)

O terceiro movimento foi incentivar o uso da mamadeira para dar o complemento para minha bebê na UTI. Apesar do risco de engasgar, de molhá-la toda, de ser mais difícil para ela, eu optei pelo copinho (exigia MUITA calma e paciência). A minha sorte é que eu nunca fui atraída pelas propagandas da facilidade! E depois, descobri que esta decisão foi fundamental para que minha filha não se desinteressasse completamente do meu peito!

Precisamos de apoio

Após conseguir amamentar com o bico de silicone acoplado ao meu peito, eu ganhei alguma confiança. Entretanto, novamente ela não estava comigo, estava depositada num objeto externo! O bico necessitava ser esterilizado e sempre me dava uma profunda sensação de incompetência, de peito defeituoso, de vergonha!

Com o passar de alguns dias comecei a sentir uma dor terrível para amamentar. Lembro que tinha que amamentar a cada 2 horas e sofria muito antes, durante e depois. Nunca sofri tanto na minha vida! Dependia de mim o bem estar de minha filha e aquilo me causava uma dor lancinante. Tive fissuras que nunca cicatrizavam, não importava o que eu fizesse (pomada, sol, banho de luz…).

Diante daquele cenário decidi procurar uma profissional especialista em amamentação: Cinthia Calsinski . Ela foi um anjo na minha vida, eu estava traumatizada com enfermeiras e só de pensar em falar com uma delas sobre minha dor era assustador. Detesto quando as pessoas não acreditam no que eu estou sentindo, especialmente porque sou uma pessoa muito atenciosa comigo mesma, com meu corpo! Quando digo que dói, não é frescura, é porque DÓI MUITO!

Quando conversei com a Cinthia, enfermeira obstetra, senti tanta delicadeza e compreensão que imediatamente confiei no trabalho dela. Com sua ajuda preciosa eu consegui amamentar sem aquele apetrecho de silicone! Apesar do medo e da dor, fiquei feliz por CONSEGUIR amamentar minha filha! A partir dali ela me deu um imenso suporte através de mensagens pelo whatsapp e eu fui ganhando confiança, surgiu uma luz no fim do túnel!

O alívio de um diagnóstico

Minha filha nasceu praticamente na entrada do inverno e eu tenho uma sensibilidade muito grande ao frio. Eu escutei diferentes pessoas aconselharem a colocar compressa fria/gelada no peito, porque senão corria o risco do leite empedrar. Este era outro sofrimento, pois com exceção do sorvete, detesto coisas geladas, ainda mais no peito!

Quando comentei sobre isso, a Cinthia foi a primeira a me dizer que eu precisava escutar meu corpo antes de escutar qualquer outra pessoa! Se o calor me trazia conforto, então era calor o que eu precisava! Comecei a usar uma bolsa térmica na região da barriga ou das costas, meus músculos relaxavam e então eu só sentia a dor no seio! Este foi um processo que a Cinthia foi acompanhando muito atentamente, porque minha dor não se concentrava no bico, irradiava para o peito. Após o período natural de adaptação, ainda não tinha melhorado.

Apesar de fazer tudo o que a Cinthia tinha me ensinado para aliviar minha dor, cicatrizar minhas fissuras, o processo estava muito lento e eu começava a perder minhas esperanças novamente. A tentação de usar mamadeira com complemento era imensa, porque estava sofrendo muito física, emocional e psicologicamente.

Segundo a enfermeira, a única hipótese que justificaria minha dor seria candidíase mamária, mas não havia o menor sinal de sapinhos na boca da minha filha! A pediatra do Convênio me olhou com desconfiança e descartou qualquer possibilidade! A Cinthia me esclareceu que, na maioria das vezes, eram os sintomas da mãe que caracterizavam a doença. Apesar disso, eu estava relutante em dar qualquer medicação para minha filha sem o consentimento da pediatra! Neste sentido, a Cinthia não tinha muito mais o que me recomendar, começamos a pensar que pudesse ser algum trauma psicológico em relação à região nas mamas… E ela foi extremamente atenciosa e cuidadosa para investigar o que acontecia comigo.

O que não te destrói, te fortalece!

Eu não aguentava mais sofrer e ficava muito triste por socorrer ao complemento ocasionalmente, quando entrava em desespero. Então, chorando implorei ao meu marido que desse o copinho com o complemento para minha filha. Lembro que tivemos uma discussão extravasando emoções e ele me disse: isso não está funcionando, vamos admitir e usar a mamadeira!

Era muito trabalhoso dar o complemento no copinho, em pleno inverno, o leite derramava e era aquele trabalhão! Uma noite, quando vi meu marido chegando com o copinho e minha filha vibrando, reconhecendo o copinho, senti uma pontada no coração. Eu me senti muito triste, me senti incompetente, foi terrível!

Neste clima de desespero, minha amiga Marcela sugeriu que eu fosse a Casa Curumim para receber orientações sobre como amamentar! Eu tinha vergonha, porque sentia tanta dor que dependia do meu marido colocar a bebê no meu seio, eu não conseguia me “auto-agredir”. Venci o medo, a vergonha e fui até lá! Fui ACOLHIDA de uma forma muito amparadora e saí de lá imensamente feliz. Eu estava fazendo TUDO certo, como a Cinthia já havia orientado, confirmado e reconfirmado. Então, a profissional que me atendeu sugeriu o mesmo diagnóstico, especialmente porque uma das fissuras virou uma bolha horrível no bico do meu seio.

Com mais uma pessoa com o mesmo diagnóstico eu resolvi não dar mais ouvidos à pediatra ou à ginecologista (que nunca tinha visto um caso como o meu!). Mesmo sem minha filha apresentar os sintomas, eu iniciei o tratamento para candidíase mamária e com persistência mantive a amamentação para manter a produção de leite! Levou uns 10 a 15 dias para dizer que eu conseguia amamentar sem dor!

Aprendizado

Neste processo tão doloroso saí empoderada, respeitando muito mais minha individualidade, minha sensibilidade e minha intuição! Eu fui forte, determinada e persistente, apesar de tantos obstáculos. Mas compreendo as mães que desistem da amamentação! Apesar de parecer que a amamentação é incentivada, há muitos obstáculos, muita desinformação e MUITA falta de acolhimento! O que mais vemos, na verdade, é julgamento, inclusive de outras mães!

Sinto que precisamos criar uma rede de amor em torno das mães para que possamos protegê-las num momento tão delicado! Se você está se sentindo fragilizada, busque uma forma de acolher-se, dê a você o colo que precisa, sua criança interior agradece e lhe ajudará com seu bebê que também reclama sua atenção! Falaremos mais sobre isso no próximo artigo! Mas quero deixar a mensagem para que você silencie as vozes externas e suas vozes mentais que te sabotam! Dê espaço para o silêncio dentro de você, somente assim você será capaz de escutar o seu coração e decidir o que é melhor para VOCÊ! Gratidão pela leitura! Namastê!

 

ESTE TEXTO FOI ESCRITO POR: Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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De 01 a 07 de agosto de 2018 aconteceu a Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM). É uma semana de incentivo, informação e apoio à amamentação. Pra continuar no clima, resolvi escrever sobre o tema, o qual ainda gera muita polêmica, muitos julgamentos e muita falta de empatia.

Eu mesma já julguei.

Antes de ser mãe julgava a amamentação prolongada, achava horrível um bebê grande, com mais de um ano, mamando. Hoje, tenho consciência que este julgamento veio da minha criança ferida, que foi desmamada às pressas. Quando eu tinha apenas 6 meses minha mãe engravidou novamente, e a orientação que ela recebeu do seu médico foi desmamar. Ela fez o que de melhor podia ter feito, com a consciência que tinha naquele momento. Há 35 anos, era prática comum receber esta orientação. E hoje, infelizmente, também é. Mas graças a Deus existem alguns raros médicos que orientam a seguir com a amamentação durante a gravidez (o meu é um deles). Além disso, temos muito mais acesso à informação.

Quando estava grávida, julguei novamente. Depois de tudo que eu tinha lido, não fazia sentido para mim, uma mãe dizer que não tinha leite, ou que o leite era fraco. Para mim, essas mães é que eram fracas, afinal de contas, amamentar é fisiológico, não é mesmo? Até que Laís nasceu e eu entendi. Por vezes achei que não tinha leite suficiente, que meu leite era fraco, e que eu mesma era fraca. Por medo de minha filha estar passando fome, por quase dois meses complementei a amamentação com leite artificial. Chorei inúmeras vezes, me culpei… mas tive apoio, fui atrás de ajuda e de mais informação.  Hoje, quando vejo uma mãe que não conseguiu amamentar, ou mesmo que optou por não amamentar, consigo entender todas as dificuldades que a mesma deve ter passado, a falta de apoio e de informação. E indo um pouco mais a fundo, logo fica evidente que esta mãe também não foi amamentada.

Hoje, com toda informação que tenho, consigo olhar para trás e entender as reais causas pelo que passei. Tanto que a amamentação do meu segundo filho foi e tem sido extremamente mais fácil!

Mas não quero falar aqui sobre este fato. Talvez em outro momento, caso haja interesse, eu escreva a respeito dos desafios que vivi no início da amamentação, como superei, e o que aprendi.

Hoje, quero partilhar com vocês sobre uma experiência nada agradável que vivi, e que pra mim foi muito mais intensa e dolorosa, a “Perturbação da Amamentação”. Acredito que poucas de vocês já tenham ouvido sobre isso. Eu mesma nunca tinha ouvido falar, até que senti, não só na pele, mas no corpo todo, o desconforto que a tal perturbação trás.

Perturbação da Amamentação, o que é isso?

Como o próprio nome sugere, é um estado de desordem, desequilíbrio, confusão, durante o ato de amamentar.

É difícil descrever em palavras, é como se fosse uma rejeição do corpo à amamentação. Conscientemente a mãe quer amamentar, mas o corpo não. É uma sensação estranha, visceral, incontrolável. Pelo menos comigo foi assim. O que mais me deixava “perturbada” era não entender a razão pela qual eu sentia este desconforto apenas ao amamentar a Laís.  Com o Gael tudo fluía bem. Isto me destruía, pois eu sabia que era um momento que Laís estava precisando de mim. Eu não queria sentir nada daquilo, mas eu não tinha o controle… Tinha medo de fazê-la sofrer com o desmame, mas ao mesmo tempo eu a estava fazendo sofrer com minha irritação e agressividade. Os momentos de prazer se transformaram em momentos de terror e admitir isso era o mais doloroso. Hoje, consigo entender que não era nada particular com relação a minha filha, era só meu corpo me mostrando que algo diferente precisava ser feito.

Muitas mães passam pela perturbação e não sabem. Sofrem sozinhas com a culpa por tudo que estão sentindo.  Algumas sentem mais de leve, outras de forma mais intensa e chegam a ficar agressivas com seus filhos. Por isso, é importante entender os sintomas, buscar ajuda.

Estão mais propensas a sentirem os desconfortos da perturbação da amamentação as mães que:

– amamentam estando grávidas;

– amamentam em tandem (2 filhos com idades diferentes)

– praticam a amamentação prolongada.

Se você faz parte de algum destes grupos, fique atenta. Não hesite em pedir ajuda. Conversar com alguém que você confia faz toda diferença.

O corpo fala: os sinais da perturbação e o chamado ao desmame

Quando descobri que estava grávida do Gael, Laís tinha 1 ano e 7 meses e ainda mamava em livre demanda sempre que eu estava por perto. Mesmo com muito palpite alheio dizendo que eu deveria desmama-la, resolvi seguir com a amamentação. Eu amava amamentar, ela amava o tetê. Sempre quis que ela mamasse pelo menos até 2 anos, e até já me imaginava amamentando dois, conforme já partilhei com vocês no texto “A maternidade como oportunidade de autoconhecimento” . Além disso, tudo estava indo bem na gestação e amamentação, e não achava justo cortar este vínculo com a Laís neste momento. Para mim, eu precisava estar mais próxima e mais conectada com ela para poder prepara-la para a chegada do irmão. E assim seguimos…

Entretanto, comecei a sentir os seios mais sensíveis, um leve desconforto ao amamentar, um pouco de dor no bico. Graças a Deus nada muito intenso e preocupante. Meu obstetra já havia comentado que era normal os seios ficarem doloridos, que esta sensibilidade poderia passar ou se estender por toda  a gravidez, mas que não era impeditivo para continuar a amamentação. Apenas se houvesse algum sangramento, ou eu sentisse cólicas e contrações durante o aleitamento, o desmame seria recomendado.

Eu não queria desmamar, porém comecei a ficar incomodada com a quantidade de vezes que Laís mamava durante o dia. E na tentativa de encontrar uma solução que amenizasse este incomodo, me coloquei como observadora da situação. Percebi que muitas vezes não era ela quem pedia o tetê, era eu quem oferecia. E nas vezes que ela pedia, o que ela queria na verdade era se conectar comigo, era minha atenção, pois sabia que, a hora do tetê, era um momento exclusivo só nosso.

Diante desta constatação, passei a me policiar para não mais oferecer. Lógico que não foi tão simples assim, muitas vezes lá estava eu tirando o peito para fora sem ela solicitar. Nos momentos que eu percebia que ela vinha pedir pra mamar, eu oferecia o meu carinho, meu colo, meu amor… e aos poucos ela foi diminuindo as mamadas, até que ficamos apenas mamando para dormir, e as vezes ao acordar.

No dia após ela completar 2 anos, foi a primeira vez que ela dormiu a noite sem tomar tetê. Nem sei explicar a sensação. Felicidade misturada com uma angústia, abandono.  Percebi que eu ainda precisava trabalhar muito minha mente para efetivamente poder desmamar.

Com 2 anos e quase 2 meses, pela primeira vez eu dormi duas noites longe da minha pequena. Fui participar de um congresso de Coaching e minha mãe veio ficar em casa com Laís. Eu estava desesperada pensando como ela ia dormir sem o tetê…e ela dormiu. Quando retornei da viagem, retomamos nossa rotina de tetê para dormir.

Era já o último mês da gestação, o desconforto passou a aumentar, mas ainda tolerável. Todavia, após o nascimento do Gael, a perturbação veio com tudo.  Eu já esperava que provavelmente a Laís iria sentir a chegada do irmão e solicitar mais tete do que o habitual. De fato isto aconteceu e graças a Deus foi menos do que eu imaginava. Mas a perturbação estava lá, crescendo, me tirando do eixo… e eu nem sabia que ela existia.

Eu deitava para amamentar a Laís, a abraçava…mas logo vinha o desconforto, o incomodo, a vontade de parar, de tirar ela do meu peito…Cinco minutos pareciam uma eternidade. Meu peito doía, e doía por dentro, por não querer sentir o que eu estava sentindo. Eu amava Laís, queria amamenta-la, mas ao mesmo tempo não queria. Me irritava, me perturbava. E por várias vezes gritei com ela, segurei forte em seu bracinho, a fiz chorar. E depois era eu quem ficava em prantos, pois não conseguia entender o que estava acontecendo. Eu, que condenava a violência e agressividade, por várias vezes fui violenta e agressiva com minha pequena.

Eu não queria pensar em desmame, pois a Laís mamava poucas vezes ao dia (a noite para dormir, quando acordava de madrugada, de manhã as vezes ao acordar, e para a soneca da tarde), e as vezes em 2 minutos no peito ela já dormia. Não parecia justo com ela, sabe? Mas por outro lado, se a mamada durasse mais que cinco minutos, eu começava a sentir aquele monte de coisas ruins que eu não queria sentir, começava a ficar agressiva. Me questionei: Eu estava sendo justa comigo? E até que ponto a amamentação estava sendo positiva para a Laís, considerando que várias vezes eu começava a brigar com ela? A solução seria desmamar. Mas algo dentro de mim me incomodava e eu não conseguia tomar esta decisão.

Compartilhei esta angustia com uma grande amiga que conheci no Mama Bee, a Luciana, que faz parte da maravilhosa rede de apoio do ZumZum. A Lu me fez várias perguntas que me ajudaram a refletir e me apresentou alguns textos sobre amamentação prolongada e desmame, em um dos quais falava sobre a Perturbação da Amamentação. Foi então que entendi o que estava acontecendo comigo. Era meu corpo dando sinal que estava na hora de desmamar…por mim, por Laís e por Gael.

Curar-se para desmamar

Não foi fácil tomar a decisão do desmame. Precisei de ajuda (terapia) para enxergar que o fato de eu deixar de amamentar a Laís não significava que eu a amava menos. Precisei mais uma vez curar minha criança interior.

Muito ouvimos dizer que, para o desmame acontecer tranquilamente, não basta só a criança estar preparada. Eu sabia que Laís estava pronta, ela já não mamava todos os dias. A grande dificuldade, na maioria das vezes, é a falta de preparo da mãe. No meu caso, eu não estava pronta.

Entende-se aqui, como falta de preparo da mãe, a necessidade de cura. Assim como para amamentar, para desmamar também precisamos estar preparadas, curadas, inteiras… Mais uma vez a maternidade nos convidando a olhar para dentro.

Com a terapia, consegui perceber que estava querendo compensar com a Laís a pouca amamentação que eu tive. Além disso, inconscientemente, estava querendo mostrar para minha mãe que era possível ela ter mantido a minha amamentação mesmo estando grávida. É uma loucura a gente a gente se dá conta disso…coisas que aparentemente para mim estavam bem resolvidas. Doeu quando trouxe para o consciente esta constatação, ao mesmo tempo, foi libertador. Conforme já comentei, minha mãe fez o que de melhor ela poderia ter feito com as informações e consciência que ela tinha naquele momento. Por isso honro, respeito e sou grata a cada gesto dela.

O Desmame

Tomada a decisão do desmame, coloquei em prática três ações que foram fundamentais para que de fato o processo ocorresse de forma tranquila e gentil.

– Todas as noites, durante o sono REM da Laís, eu falava para ela: “Filha, você é muito amada e querida. Você já mamou o suficiente, o bastante. O Tetê agora é do seu irmão.”

– Durante o dia, conversava com ela que o leitinho agora era do irmão, que ela já tinha mamado bastante, que ela sempre mamou muito, que ela teve o privilégio de ter o tete só para quando nasceu. Falava também que ela estava crescendo e que agora não precisava mais de tete, pois ela já comia de tudo e tomava leitinho no copo de manhã. E além disso, quando ela quisesse um carinho ou um colinho da mamãe era só pedir que eu estaria disponível.

– Sempre que eu me lembrava, várias vezes ao dia, fazia Ho’oponopono pedindo para o Divino Criador limpar em mim todas as memórias referentes à minha amamentação e ao meu desmame que eu compartilhava com minha filha. (Que ferramenta! Tenho feito e os resultados tem sido maravilhosos e transformadores em várias áreas da minha vida!)

Foram aproximadamente 3 meses, desde que coloquei em prática essas três ações diariamente, até que o desmame ocorreu. Neste período, tiramos a soneca da tarde, e deste modo, a noite o sono chegava rapidinho. Algumas vezes, enquanto eu fazia o Gael dormir, meu marido deitava com Laís e contava histórias para ela, até que ela adormecia sem o tetê. Outras vezes, ela resistia e ficava me esperando, mas quando eu chegava, com 5 minutos de tetê já dormia. Fazíamos alguns combinados: mamar até eu contar até 10, ou eu colocava 5 minutos no cronômetro e quando apitava ela tinha que parar. No começo, quando eu percebia que ia demorar mais para ela dormir, eu aumentava o tempo no cronômetro sem ela perceber, ou contava bem devagar, tudo conforme o meu limite. Quando chegava a hora de terminar, ela pedia para ficar com a mão no meu peito, e ficava fazendo carinho até adormecer.  E eu chorava em silêncio, olhando-a dormir…chorava de gratidão, por ela estar sendo um canal de cura na minha vida.

Dormir sem o tetê já estava sendo mais fácil. Sempre que ela dormia sem o peito, no dia seguinte eu a lembrava e mostrava como ela era capaz de dormir sem, fazia com que ela se sentisse orgulhosa por ter conseguido.

Mas as madrugadas ainda eram desafiadoras. Laís, desde aproximadamente 2 anos, já dormia a noite inteira, mas com a chegada do irmão, voltou a acordar de madrugada uma ou duas vezes. E nestas acordadas não tinha jeito, ela queria o tetê. Foi o mais difícil! Muitas vezes coincidia com as acordadas e mamadas do Gael e aí era aquele chororô em plena madrugada.  Eu e meu marido estávamos mais vulneráveis também, com sono, por isso era muito fácil sair do centro, perder o controle, brigar… Foram noites intensas, longas. Mas continuei firme no propósito do desmame, sem negar o tetê quando ela solicitava.

Aos poucos, as acordadas de madrugada foram diminuindo, mas ainda assim, quando ocorriam, só o peito para conseguir com que ela voltasse a dormir. Na semana que ela iria completar 2 anos e 7 meses, ela dormiu 3 dias seguidos sem tetê, mas acordou uma vez todas as madrugadas. Na terceira madrugada, porém, eu já estava praticamente com o peito de fora, quando ela me surpreendeu e pediu que eu contasse uma história. Guardei rapidamente o peito, iniciei uma história, a abracei, e logo ela adormeceu. Desde então, nunca mais pediu o tetê.

O Aprendizado

Para mim esta experiência foi fantástica. Confesso que teve momentos que achei que não ia conseguir desmamar Laís de uma maneira tranquila e gentil. Não esperava que ela simplesmente fosse parar. Após aquela madrugada que ela me pediu para contar história, ainda achei que viriam outras madrugadas e ela voltaria a pedir pelo tetê, mas nunca mais pediu. Hoje, ela as vezes chega perto do meu peito, pede pra fazer carinho, mas não pede para mamar. Eu já perguntei algumas vezes se ela queria mamar de novo, ela sempre diz que não, faz careta, sorri e diz que o tetê agora é do irmão, que ela já mamou bastante quando era bebê e agora não quer mais. Acredito que seja um sinal positivo que o desmame ocorreu na hora certa.

Incrível como o fato de eu conseguir nomear o que estava acontecendo e de decidir pelo desmame trouxe leveza e paz. Durante os 3 meses que segui diariamente com as três ações que já citei, passamos por momentos desafiadores da perturbação, porém de uma maneira mais tranquila e consciente. Eis um grande aprendizado para todas as questões da nossa vida, entender o momento pelo qual estamos passando e decidir. Para mim, tomar decisões sempre foi algo muito difícil, medo de optar pelo errado, medo de decepcionar e magoar as pessoas que amo. A maternidade tem me ensinado que decidir é fundamental para quem quer uma vida com mais sentido. Não dá para ficar em cima do muro e “deixar a vida me levar”. Quando tomamos uma decisão, sabemos o que tem que ser feito, e aí é só ir lá e fazer. Tudo fica mais simples.

Nem toda perturbação implica em desmame

Para finalizar, quero deixar claro que nem todas as mães que passam pela perturbação precisam necessariamente desmamar. Muitas vezes, o simples fato de reduzir as mamadas já alivia, ou mesmo elimina a perturbação.

Há de se entender todo o contexto pelo qual a mãe esta passando, entender sua história, suas limitações, suas vontades… só assim é possível tomar uma decisão entre continuar ou não a amamentação.  E neste momento, toda ajuda é bem vinda. Processos de Coaching e Terapia auxiliam bastante nesta tomada de decisão.  No meu caso, eu optei pelo desmame.

Tenho orgulho da história de amamentação que Laís e eu vivemos. Espero que ela também se sinta orgulhosa. Agora, sigo escrevendo a história de amamentação com o Gael.

 

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

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Ele acabou de dormir. Depois de longas duas horas de tentativa, ele cedeu ao sono e adormeceu em menos de um minuto. E eu? Vivi duas longas horas tentando lidar com os mais diversos sentimentos, tentando domar e fazer as pazes com a minha própria criança interior. Nesse exato momento sinto-me um fracasso, na verdade um misto de frustração com fracasso e talvez um pouco de vergonha e culpa. A cabeça pesada por uma gripe que me pegou e também pelo choro derramado, vivido, sentido, extravasado… aliás, as lágrimas ainda molham meu rosto.

Sinto como se fosse agora, o aperto no peito e na garganta, a fila que as lágrimas faze(ia)m na tentativa de não se derramarem. Inútil, elas desce(ia)m como uma enxurrada, sem aviso prévio, simplesmente escorre(ia)m sem que eu consiga(uisse) contê-las. A memória das vozes que ecoam pelas minhas células, me faz ouvir claramente: “mas já está chorando?!” ou “é muito difícil conversar com você, você sempre chora” ou ainda “deixa pra lá, conversaremos quando você conseguir parar de chorar“.

Pois é, sempre fui chorona, manteiga derretida como dizem por aí sobre pessoas sensíveis, ou simplesmente uma pessoa muito sensível (recentemente descobri através da Ariana Schlösser que existem estudos sobre esse estado aflorado de sensibilidade e me confortei em saber). Certa vez, também, na minha primeira leitura de mapa astral me senti contemplada pela história de Alcione, tenho olhos de Alcione e choro limpa (entendedores, entenderão). E foi assim, depois de me tornar mãe, fui/estou (constantemente) descobrindo um pouco mais sobre mim, sobre essa essência que ainda guarda memórias celulares de uma certa inadequação e, junto com essa sensação, o grande desafio de ouvir, acolher e respeitar o choro do meu filho…

Quanta contradição, não é mesmo? Como é possível eu me sentir desafiada em acolher o choro do meu filho sendo que o que eu mais preciso é que também acolham o meu choro?! Bingo! Mais uma vez aquela história de não poder oferecer aquilo que não recebemos”, e por isso é um desafio!

Mas voltando às duas longas horas que vivi – antes do meu filho, de dois anos e cinco meses, adormecer no horário previsto para a soneca da tarde dele –  tive um verdadeiro duelo interno. Lutava contra todas as vozes que me diziam “esse menino está te afrontando”, “esse menino te deve obediência”, “onde já se viu, bater em você?!”, “não é possível que esse menino não vai dormir”, “você tem que dar limite pra ele”, etc etc etc… E eu poderia continuar listando todas as vozes que ecoavam dentro da minha cabeça flutuante de uma pessoa gripada. Por outro lado, eu ouvia também ecoar “você é a adulta da relação, ele é apenas uma criança tentando fugir do sono”, “respira fundo”, “recita o ho’oponopono”, “extravasa a raiva sem assustar”, “respira fundo outra vez”, “caminha rápido”, “pula”, “pára”, “respira”… E por aí vai o cabo de guerra entre, as dores da minha criança interior e a minha adulta consciente e auto responsável. Numa dessas me vi bufando, soltando fumaça pelo nariz e segurando-o com força para ele não me chutar (olha a minha raiva manifestada pelo comportamento dele aqui 🤦), perguntei se ele precisava ficar sozinho, ele disse que sim e eu agradeci internamente antes que eu pudesse perder o duelo para a minha criança interior ferida. Fui ao banheiro enquanto ele permaneceu no quarto me chamando. Respirei fundo, joguei uma água no rosto e quando me senti mais calma saí do banheiro e me deparei com a seguinte cena: silêncio, ele na cama e todo o papel higiênico de um rolo espalhado na cama enquanto ele fazia bolinhas. Eu quis surtar, confesso, mas me lembrei “é apenas papel higiênico”, “você é a adulta da relação”. Então, deixei ele brincar, tentei fazer um combinado, ele aceitou, eu o ajudei, mas eu olhei no relógio e me dei conta do tempo que estávamos ali e isso me deixou louca por dentro (explico: a soneca tardia, o pai não estaria de noite conosco, eu teria que lidar com qualquer imprevisto sozinha – ou seja ansiedade por antecipação). Ele dizia estar com fome (mas tem feito isso há algumas semanas sempre que o assunto é dormir, então já fico desconfiada), ofereci o que tinha na mochila, ele disse que sim mas não quis comer, chamou pelo pai, tentou abrir a porta e eu fechei trazendo-o de de volta pra cama sem nenhum pingo de delicadeza, tentou outra vez e eu fui perdendo o controle da adulta consciente e auto responsável…

Respirei fundo. Peguei ele no colo e disse “agora vamos descansar“, consegui aos poucos acalmar (aqui vale dizer que eu já tinha tentado de tudo um pouco, ele não quis ouvir as histórias que eu tinha pra contar, não deu ouvidos às minhas explicações lúdicas sobre os sentimentos, enfim, ele simplesmente se recusava a dormir). Ele pediu pra mamar, sentei e ofertei, nesse meio tempo… o pai abriu a porta com um prato cheio de manga, ele sentou e comeu quase tudo (Alerta! culpa materna de ter desconfiado), pediu pra mamar, mamou, fechou os olhos, pediu pra deitar e adormeceu. Fim da história. Só que não…

E não, essa história não é um pedido de ajuda de “como fazer o meu filho dormir”, ela está mais para um desabafo, ela é, na realidade, o retrato da minha busca incessante de maternar de maneira afetuosa, consciente e auto responsável, é um lembrete para eu eu acolher minha criança interior desamparada e inadequada, é um chamado para reforçar o quanto é urgente dar espaço para os sentimentos que nos causam desconforto existirem, virem mas também (e pelamor da Deusa) partirem. Essa experiência-relato me ajuda a entrar em contato com as minhas próprias sombras e iluminá-las, me faz real, me aproxima de cada mãe e mulher que busca a auto responsabilidade como caminho de expansão da consciência, me possibilita diminuir as distâncias que ainda existem entre minha versão adulta e minha versão criança e assim criar um vínculo amoroso, reelaborar as memórias de dor, integrar e me libertar.

As lágrimas se foram, abriram espaço para uma respiração ritmada e consciente. Sinto-me aliviada e as sensações de fracasso, frustração, culpa e vergonha deram lugar para uma sensação de pertencimento, resiliência, auto avaliação e auto cuidado. Sei que esse não foi o primeiro e muito menos o último desafiodessa longa jornada materna, mas nessa batalha, me sinto vitoriosa por me permitir rasgar-me e olhar com consciência e auto responsabilidade para aquilo que à olho nú, nossos olhos não vêem.

Este Texto foi escrito por: Iara Schmidt (participante do ZumZum 6)
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.

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Queridas mamães, sou a Tânia, psicóloga, psicanalista, mãe da Milena e participante do Zum Zum, estou de volta para falar de um tema que eu julgo ser muito importante e relativamente pouco comentado. Pretendo escrever sobre a prevenção primária de problemas emocionais e doenças psiquiátricas. Vou abordar a importância da vida intrauterina, o nascimento, os cuidados emocionais com o recém-nascido e como podemos contribuir para o desenvolvimento emocional saudável dos nossos filhos. No próximo mês escreverei sobre o desenvolvimento emocional do recém-nascido até a “adolescência dos bebês” aos dois anos de idade. Esse texto e o próximo juntos darão uma visão muito boa a respeito da prevenção primária e o nosso papel como mães nesse processo.

Para a eclosão de uma doença psiquiátrica é necessário haver uma pré-disposição genética e fatores ambientais que contribuam para o seu desenvolvimento. Com relação ao fator genético, não temos o que fazer, mas temos como possibilitar um ambiente propício a construção da saúde. Como? Vou explicar separadamente, em cada fase do desenvolvimento.

Vida intrauterina:

Pesquisadores de diversas partes do mundo se dedicaram ao estudo do feto na barriga da mãe e fizeram descobertas incríveis. Uma destas descobertas é que o feto possui uma vida mental. O bebê antes mesmo de nascer é um ser inteligente, sensível, apresenta traços de personalidade. Ele tem uma vida afetiva e emocional, nesse momento, ligada as suas experiencias com a mãe, que já possui uma comunicação tanto emocional como fisiológica com seu bebê. Todas as experiencias que passamos ficam registradas na nossa memória celular. Esses registros ficam impressos e guardados de forma inconsciente ainda sem uma representação mental. Para um melhor entendimento darei um exemplo de uma pessoa que atendi alguns anos atrás. Ela esteve dentro da barriga de sua mãe com o seu irmão gêmeo. Ela nasceu pequena, franzina, mas saudável. Seu irmão nasceu grande, robusto, mas não sobreviveu. O que ficou inscrito dentro dela e guiou sua vida por muito tempo de forma inconsciente foi que ela tinha que viver com pouco. O irmão se alimentava mais, era maior, ficava com a maior parte dos nutrientes e morreu. Ser muito grande (em todos os sentidos) e ter muitas coisas era muito perigoso. Assim, tinha que se contentar com muito pouco para sobreviver. Só com a psicoterapia já na vida adulta ela conseguiu tomar consciência, elaborar e nomear essas vivencias para conseguir viver de forma diferente.

Segundo, Marie Claire Busnel, grande pesquisadora francesa, o estresse materno afeta diretamente o feto. O estresse é entendido aqui como o efeito de uma agressão física, psíquica ou emocional. O termo agressão diz respeito a tudo que é capaz de provocar sofrimento, que tire a mulher da homeostase. Alguns exemplos são: perda de um ente querido, doença nela ou na família, abandono pelo marido, ser agredida verbal ou fisicamente, passar por um susto muito grande, etc. Se a mãe está em sofrimento, o feto é atingido.  Os diferentes tipos de estresse que podem afetar o bebê são: os transmitidos pela sua fisiologia, isto é, a variação do seu ritmo cardíaco, da pressão arterial, da respiração, dos efeitos hormonais, da comunicação que são produzidos por uma agressão. Há o estresse produzido também pelo efeito de drogas, álcool e cigarro e o estresse físico, quando a mulher é submetida a violência física, excesso de calor, infecções, depressão, desnutrição, muito barulho, etc. Os efeitos do estresse no feto afetam tanto a nível psíquico quanto na saúde física. Há estudos que indicam que uma mãe exposta a muito barulho durante a gravidez pode afetar o desenvolvimento da área auditiva do bebê. Bebês cujas mães passaram por períodos longos de estresse durante a gravidez, apresentam com maior frequência, problemas de imunidade baixa, recorrendo mais vezes a serviços de emergência.

Nesse contexto vocês podem me perguntar: mas Tânia, não podemos ter controle de tudo que possa nos estressar na gravidez. Podemos evitar lugares barulhentos, nos cuidar de forma global, e o que não depende da nossa vontade?  Quanto a isso tenho boas notícias! Segundo esta mesma pesquisadora: “o apoio psicológico e fisiológico dado a mãe que está passando por uma situação de sofrimento, melhora muito a situação psico-fisiológica do bebê.” (Busnel). Assim, se você está grávida e passando por um período de turbulência muito forte, é importante buscar ajuda: um colinho gostoso dos amigos e familiares, os grupos de troca de experiências para grávidas, uma psicoterapia, ajuda médica, etc. Na medida que vamos conseguindo lidar com os eventos que nos estressam no sentido de elabora-los, isto também vai ficando mais fácil para o bebê. O mais importante é que não percamos a conexão com o nosso filho. Podemos conversar com ele, explicar o que está acontecendo e acolhe-lo mesmo dentro da barriga.

Uma outra descoberta importante foi que existe uma continuidade referente a aspectos da personalidade do bebê dentro e fora da barriga. Alessandra Piontelli, psicanalista italiana, observou através do ultrasson, fetos a partir do terceiro mês de vida uma vez por semana. Observou-os também após o nascimento com maior frequência no primeiro ano de vida e menor frequência até os 5 anos. Ela publicou essas observações no seu livro intitulado “Do feto a Criança”. Ela conta a história de Pina. Pina era um bebê muito ativo dentro da barriga de sua mãe. Em um ultrasson realizado por volta da vigésima semana de gestação, observou-se Pina depois de chutar e se movimentar bastante, aproximar a mão na placenta e começar a manipula-la, puxando-a em sua direção. Nesse momento, o ultrassonogravista intervém dizendo: Cuidado Pina! Pare com isso! É perigoso o que você está fazendo. Pode descolar a placenta. Alguns dias depois, a mãe começa a apresentar um grave sangramento. Os médicos decidem mantê-la em repouso e receitam altas doses de medicamentos. Havia a possibilidade de um abordo iminente. A partir disso Pina perde a vivacidade e para de se movimentar. Se enfia num canto do útero e fica encolhida em posição transversal, imóvel. O parto teve que ser por cesariana devido a posição que ela estava. Foi muito difícil retira-la. Quando Pina estava com mais ou menos 2 meses, Piontelli via uma bebê com olhar muito vivo e curioso. Gosta de explorar o mundo em sua volta, no entanto, parece muito assustada. Fica insegura no colo, como se estivesse sempre temendo cair. E apresenta problemas com a alimentação. A mãe associa esse evento com as drogas que precisou ingerir após a iminência do aborto e que Pina deve ter se sentido envenenada. Aos 3 anos tem muito medo do mar, tem pesadelos. Através de um desenho demostra que sabia que quase fora levada por uma correnteza. Isso tudo nos mostra que o psiquismo começa a se formar muito cedo. O normal e saudável é que haja um desenvolvimento continuo. Quando ocorre algo que quebra essa continuidade também deixa marcas. A iminência do aborto deixou marcas em Pina e provavelmente em sua mãe. Com o conhecimento que temos hoje, talvez o sofrimento de Pina tivesse sido amenizado se o profissional de saúde tivesse acolhido a mãe no momento da iminência de aborto, se tivesse conversado com Pina sobre o que havia ocorrido, sobre quais as medidas estavam sendo tomadas e que ela poderia ficar tranquila, pois ainda estava protegida na barriga da mamãe. Quando a mãe percebesse que ela estava insegura no colo ou sem querer comer poderia dizer que ela passou um momento de muito medo dentro da barriga da mamãe, achou que seria levada por uma correnteza, foi necessário alguns medicamentos para que ela e a mamãe ficassem bem e o medicamento deve ter dado um gostinho meio ruim lá dentro, ela podia ter se sentido mal, mas ficou tudo bem e agora ela estava segura no colinho da mamãe e podia mamar um leitinho gostoso que não faria nenhum mal à ela.

Nascimento:

O nascimento é um momento muito importante. É uma etapa da vida humana. Uma passagem da vida uterina para a vida pós-natal. Primeira separação vivenciada por nós. Para Myriam Szerjer o trauma pode ocorrer de acordo com as condições em que o nascimento ocorra. Para essa autora no parto normal a criança avisa quando está preparada para nascer, há uma passagem da vida intrauterina para a vida pós-natal. As contrações fazem uma espécie de massagem na criança e permitem a maturação final de seu sistema respiratório. Na cesariana programada a criança é retirada, nada a prepara para a rápida transição para a via aérea e constitui para essa autora uma violência que só deve ser realizada se houver extrema necessidade. Caso seja necessário fazer uma cesariana, converse com o seu bebê, diga a ele que ele vai passar de dentro da barriga para os seus braços. E que o médico irá retira-lo. Depois converse novamente, que ele nasceu e está super saudável em seus braços. No momento logo após ao nascimento é adequado que o bebê não se separe da mãe, que fique em contato pele a pele com ela, que possa mamar na primeira hora do nascimento. Isso cria um continuo entre a vida intrauterina e a pós-natal. O contato pele a pele, a voz, o calor, o cheiro, as batidas do coração materno, a voz do pai, o silêncio, a penumbra, dão ao bebê um sentimento de segurança, de continuidade. Converse com o seu médico, inclua no seu plano de parto o desejo de que seu bebê não saia de perto de você, a menos que corra algum risco. Diga que você quer dar o primeiro banho no quarto. Prepare seu companheiro para reivindicar que tudo isso seja atendido no momento do nascimento.

Vida pós-natal:

Quando dá tudo certo no parto, o bebê nasce bem, sem nenhuma necessidade de cuidados médicos, é maravilhoso. E quando nem tudo sai do jeito que gostaríamos? Aí é um sofrimento para pais e bebês. Quando os bebês precisam ser submetidos a procedimentos invasivos, ser separados dos pais, o que podemos fazer para tentar minimizar os danos? Se tivermos chance podemos conversar com o bebê antes, acolhe-lo, explicar o que está acontecendo. Por exemplo: meu amor, a Dra vai ter que te levar para fazer uma pequena cirurgia, a mamãe não vai poder ir, mas vai estar aqui com o pensamento em você o tempo todo, rezando para ficar tudo bem. Assim que eu puder irei te ver. Pode ter alguma situação que não dê tempo de conversar, mas assim que você ver a criança novamente pode fazê-lo. Enquanto isso, tente sensibilizar algum médico ou enfermeira que tenha acesso ao local que o bebê estiver para conversar, explicar e acolher mesmo que seja somente com a voz e com o olhar. Infelizmente, nem todos os profissionais que lidam com bebês são capazes de percebe-lo como um todo, com corpo e psiquismo. Geralmente, só cuidam do corpo. Lute para ficar perto do seu filho o maior tempo possível. Olhe seu filho nos olhos, não perca a conexão, toque nele sempre que conseguir. Se seu filho nascer prematuro peça para fazer o método canguru. O olhar apaixonado da mãe, sua voz e o contato corporal é tão importante quanto o leite que alimenta e com certeza faz milagres acontecerem. Esteja o máximo possível ao lado dele, converse, explique….com certeza isso vai ajuda-lo e muito.

Você pode me perguntar: Tânia passei por tudo isso e não fiz o que você sugeriu, e agora? Se você notar algum comportamento no seu filho que te remeta ao que vocês vivenciaram no passado ainda vale a pena conversar. Pode usar o exemplo que dei quando descrevi a Pina logo acima. Pode contar uma história sobre o que aconteceu usando até outros personagens, mas com sentimentos semelhantes e com o bom desfecho, enfatizando a segurança e o apoio. Mas se o seu filho apresentar um sintoma mais grave e persistente, o ideal é procurar uma psicoterapia pais – bebê (zero a 3 anos) ou psicoterapia infantil (a partir de 3 anos).

Espero que eu possa ter contribuído de alguma forma. Junte-se a nós na luta pela humanização dos cuidados com o bebê. Compartilhe essa idéia.

Até mês que vem!

Este texto foi escrito por: Tânia Grassano, psicóloga, psicanalista, mãe da Milena e participante do Zum Zum.

Contatos: (31) 30725974 / taniaoliveiraalmeida@yahoo.com.br

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