Pedidos deslocados: as consequências das necessidades não atendidas

“Pedidos deslocados” é um conceito fundamental para analisarmos nossas relações. Afinal, acredito que todos somos capazes de admitir que a comunicação é um dos principais desafios das relações humanas! O DIÁLOGO costuma ser sempre apontado como solução para os conflitos entre casais, entre pais e filhos e em todas as relações que estabelecemos!

E como dialogar com o outro se, por vezes, não dialogamos nem mesmo conosco? Será que sabemos MESMO nossos desejos, sentimentos e necessidades? Como comunicar ao outro coisas das quais não temos clareza?

Somos capazes de pedir o que realmente precisamos?

Assim, antes de falar de nossos filhos, eu proponho um desafio! Que tal: olhar internamente e perceber quantas necessidades estamos reprimindo? Quantos papéis estamos preocupadas em desempenhar e como nos esquecemos de nossas NECESSIDADES?! 

Temos imensa dificuldade para falar de nossos sentimentos, emoções e, principalmente, de nossas necessidades! Afinal, estamos acostumadas a reprimir ou mesmo “deslocá-las” para comida, doces, compras etc. Neste nosso mundo tecnológico também as deslocamos para as redes sociais – Whats App, Facebook, Instagram – e tudo o que possa nos desviar de olhar para dentro!

A grande questão é que, apesar deste esforço, nossas necessidades não desaparecem! Na verdade, elas se transformam: em sintomas, em estresse, em explosões… Estamos tão fora da sintonia de nossas necessidades que, por vezes, perdemos até mesmo a conexão com elas! Para refletir um pouco mais leia: 2° Passo para ser feliz: EQUILIBRAR-SE! Assim, acabamos manifestando o que Laura Gutman denomina de “pedidos deslocados”:

“Quando os adultos não conseguem reconhecer com simplicidade e senso lógico uma necessidade pessoal, tampouco conseguem compreender a necessidade específica do outro, menos ainda se tiver sido formulada em um plano equivocado. Sem que percebam, pedem o que acreditam que será ouvido, e não aquilo de que realmente precisam. Eu denomino esse fenômeno tão frequente e usado por todos nós de pedido deslocado.” (A Maternidade e o encontro com a própria sombra, p. 205)

Desta forma, este conceito revela toda nossa dificuldade para acessar nossas necessidades verdadeiramente. Como não conseguimos acessá-las, também não conseguimos expressá-las para obter a plena satisfação. E, quando isso se refere ao outro, por exemplo ao filho, fica ainda mais complicado!

A importância do diálogo interno

Como observar nossos filhos ATENTAMENTE, quando não conseguimos escutar nem mesmo a nossa voz interna, que muitas vezes grita em forma de sintomas? Como estar disponível emocionalmente para nossos filhos, quando não conseguimos nem mesmo dar vazão às nossas necessidades emocionais básicas?!

Para isso, a solução é simples, mas não é fácil e se chama AUTOCONHECIMENTO! Tal como um músculo a ser trabalhado na academia, o autoconhecimento é algo que precisa ser exercitado. Isso requer uma prática diária de auto-observação e silenciamento da mente. E mais, a construção de um espaço interno, criado para curar as próprias feridas de nossa criança interior! Leia também Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

Desta forma, cientes desta jornada interna, teremos melhores condições de observar os nossos filhos! E assim, APRENDER a ser “o exemplo digno de ser imitado”, como sempre frisa a querida Clarissa Yakiara! Somente conhecendo nossas emoções, nossas necessidades e a melhor forma de expressá-las e satisfazê-las, seremos capazes de liderar nossos filhos neste processo! E, principalmente, ouvi-los mais atenciosamente!

Necessidade X Vontade

Para trazer mais clareza para esta reflexão, vale a pena especificar a diferença entre necessidade e vontade! Estes conceitos parecem iguais, mas tem diferenças sutis e importantes! Segundo o dicionário Aurélio:

Necessidade: 1 – Falta do que é necessário. 2 – Obrigação imprescindível. 3 – Força maior; impossibilidade de deixar de agir ou de dizer.

Vontade: 1 – Faculdade comum ao homem e aos outros animais pela qual o espírito se inclina a uma ação. 2 – Desejo. 3 – Ato de se sentir impelido a. 4 – Ânimo, espírito. 5 – Capricho, fantasia, veleidade.

Neste sentido, recomendo ainda o vídeo do Paizinho, Vírgula: Necessidades e Vontades, Qual a Diferença? De forma muito didática ele diferencia os conceitos e nos convida para refletir sobre as necessidades emocionais que, muitas vezes, parecem vontades! Um exemplo é o pedido para dormir com os pais. Trata-se de algo que pode parecer um capricho, mas pode estar sendo motivado por uma necessidade emocional de se sentir seguro!

Pedidos Originais e Pedidos Deslocados

Segundo a teoria de Laura Gutman, os pedidos originais não atendidos podem se transformar em pedidos deslocados. Muitas vezes o que, aparentemente se manifesta como uma vontade, têm por trás algo muito mais profundo! É isso que precisamos aprender a identificar! Conforme exemplifica a autora, muitas vezes a criança pede um chocolate, mas, na verdade, quer atenção, disponibilidade: LAURA GUTMAN EN UN MINUTO – LIMITES Y PEDIDOS DESPLAZADOS

Ainda quero ler o livro Biografia Humana, mas encontrei um artigo que faz uma reflexão interessante a respeito da metodologia da Laura e os pedidos deslocados de nossos filhos. O trecho abaixo ressalta muito bem a importância de atentar para esta comunicação conosco e com nossos pequenos:

Ao nos questionarmos sobre o comportamento de nossos filhos, ao invés de interpretar cada coisa que fazem, querendo encontrar a origem se seus comportamentos, ao invés de encerrar nossos filhos em personagens como “o bonzinho” ou “o agitado”, pudéssemos olhar profunda e honestamente as coisas que sentimos e pelas quais estamos passando, nomeando para as crianças o que está acontecendo, como nos sentimos, ajudando-as a entender seus próprios sentimentos, então as vivências internas, as sensações, as percepções teriam um lugar real onde pudessem se manifestar, ajudando as crianças  a encontrar reações coerentes com aquilo a que estão sentindo e não deslocadas dos fatos. (A criação consciente de filhos e a Biografia Humana)

Desta forma, fica claro que os pedidos deslocados representam, muitas vezes, uma forma da criança comunicar uma necessidade emocional! Pedidos que tantas vezes nos provocam inúmeras emoções como raiva, irritação e cansaço estão nos comunicando uma necessidade que, por vezes, estamos bem distantes de compreender!

Comunicação e Presença

Vale lembrar a frase mais marcante de Laura para mim “Ninguém pede o que não precisa!”, como citei no artigo Exterogestação: a importância de gestar do lado de fora! Entretanto, convém ressaltar que, nem sempre, este pedido exterioriza exatamente o que precisamos! Como esclarece Laura Gutman neste trecho de A Maternidade e o encontro com a própria sombra:

“Por exemplo: uma mulher precisa que o marido a abrace e lhe diga o quanto a ama; no entanto, em vez de explicitar sua necessidade afetiva, pede que vá trocar o bebê. Quando um desejo é manifestado por meio de outro desejo, surge o mal-entendido. Inconscientemente, a pessoa pede algo de que não precisa e, portanto, não obtém o que deseja, então, se sente incompreendida, desvalorizada e se irrita. No plano emocional, quando não sabemos ou não podemos explicar o que está acontecendo conosco, obviamente, nada nem ninguém pode nos satisfazer.” (p.205)

Ou seja, cabe a nós estabelecer uma comunicação direta e verdadeira com nossos filhos para permitir que estas necessidades emerjam. A grande questão é que isso só pode acontecer se antes estabelecermos esta comunicação internamente!

Acessar nossas emoções e expressá-las é um exercício cotidiano! Ensinar nossos filhos a lidarem com as próprias emoções e comunicá-las é uma arte! Esta missão requer muita OBSERVAÇÃO e muita disponibilidade emocional! Convém ressaltar, contudo, que oferecer a disponibilidade que as crianças necessitam também não é fácil, porque não aprendemos a estar presentes! Estamos sempre com a cabeça no passado ou no futuro! Não é à toa que o Programa Zum Zum foca tanto na importância do Foco e Presença! Leia também Presença: um desafio cotidiano!

Auto-educar-se para educar!

Como atuar de maneira mais consciente e saudável com as próprias emoções? Esta é uma jornada que iniciei com o Zum Zum de Mães! Apesar de estar trilhando o caminho do autoconhecimento há bons anos, não tinha me dado conta de como reprimo minhas emoções e como elas “explodem” muitas vezes de “modo invisível”!

Sempre escutei o discurso de que era preciso “Ser boazinha”, de que era feio sentir raiva, de que era preciso ser corajosa e enfrentar os meus medos! E eu aprendi a reter minhas emoções e muitas vezes me punir quando sentia coisas consideradas “negativas”! Somente a maternidade trouxe um mar profundo de emoções e contê-las não apareceu mais como uma opção! Desde então, venho aprendendo a me observar e tenho trabalhado a EXPRESSÃO dessas emoções sem tantos bloqueios e vergonhas!

Confesso que ainda é um grande desafio para mim lidar com minha raiva e meu medo de forma saudável! Minha tendência inicial é tentar reprimi-lo tanto em mim quanto em minha filha! Mas ler a Laura Gutman e participar do Zum Zum de mães foi me trazendo consciência da importância da entrega!

As emoções não são feias ou bonitas, são naturais e precisam ser liberadas para vivermos de forma mais saudável! Deste modo, seremos capazes de pedir o que precisamos e ensinaremos aos nossos filhos o caminho da realização de suas necessidades básicas e emocionais! Assim, eles poderão protagonizar sua própria história, se autorresponsabilizando por sua felicidade! No próximo artigo falaremos um pouco mais a respeito deste Universo das emoções, onde o conceito da Empatia é tão importante!

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda