Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

No último artigo sobre amamentação comentei que falaria desta criança que chora perto de você, mas que não é o seu bebê! É você! Demorei muito tempo para me dar conta disso e aproveito este espaço para compartilhar minha experiência pessoal. Não sou psicóloga, não sou coach de mães, não tenho milhões de cursos de formação! Mas tenho algo que nada disso substitui: minha intuição aguçada e minha experiência!

O valor da experiência e o desenvolvimento da intuição

Antes eu acreditava na importância de um currículo! Mas depois de trabalhar em algumas instituições percebi a realidade sobre aquela famosa frase: “As pessoas são contratadas pelo currículo e demitidas por comportamento!”. Um currículo exemplar nem sempre significa um bom profissional e vice-versa! Muito mais importante é a atenção e sensibilidade do profissional para perceber e investigar a realidade das coisas!

Quando me descobri grávida eu não quis investir em muita teoria como havia feito em outros momentos da minha vida! Preferi investir na minha capacidade de sentir e perceber as coisas! Eu já estava num processo terapêutico que me ajudava muito neste sentido! Eu fazia massagens, acupuntura, estava atenta aos benefícios da aromaterapia e fazia uso de florais! Tudo isso estava alicerçando um processo de mudança de paradigmas interno!

Eu, a pessoa que sempre valorizava o racional, estava me abrindo para SENTIR. Leia também Maternidade: A intensidade de sentirE este processo se intensificou com a chegada efetiva da minha filha! Eu sentia uma tristeza, um desconforto, uma angústia que não tinham espaço dentro de mim! Eu queria resolver, fugir, sair dali, parar desesperadamente de sentir aquilo tudo!

Afinal, racionalmente estava tudo indo bem! Ela nasceu saudável, ficou um dia na UTI, mas já estava em casa. Eu estava com dificuldades no início da amamentação, leia também Amamentação: um capítulo a parte. Mas isso era algo temporário, acontecia com todas as mulheres… Entretanto, por mais que repetisse tudo isso para mim mesma, eu só queria um buraco para me esconder! E ainda tinha que receber visitas! Meu Deus, eu não dava conta nem de mim mesma, que dirá ouvir outras pessoas!

Em busca de conforto: o desespero do puerpério!

Mesmo buscando conversar muito com minha mãe e meu marido, parecia que eu estava num local inacessível! Eu me sentia imensamente sozinha, incompreendida e muito magoada com o mundo, com a vida, comigo mesma! Parecia que eu havia caído numa imensa armadilha da vida! Eu não dava conta das minhas lágrimas e ainda tinha o choro de uma linda bebê para cuidar!

Hoje, revendo os vídeos daquela época, eu vejo o imenso amor nas minhas palavras. Percebo que, apesar da confusão interna, eu consegui ser atenciosa e amorosa como eu queria! Mas nunca vou me esquecer da minha sensação interna de estilhaçamento! Quem era aquela mulher, com aquele corpo estranho, com aqueles sentimentos esquisitos?

O tempo mais frio sempre mexeu comigo, me deixando um pouco triste. Mas aquele outono / inverno foi especialmente difícil! Lembro, inclusive, que eu não queria sair do quarto, único local que parecia aquecido, protegido e adequado para que eu começasse a lamber minhas feridas! Diante de minha imensa dificuldade com a amamentação, uma amiga, a Marcela, me sugeriu que eu conversasse com minha bebê e contasse a ela o que estava acontecendo comigo!

Acho que estas foram as conversas mais difíceis de iniciar! Desde a gravidez eu não me sentia muito à vontade conversando com a bebê! Eu falava, mas não era algo que fosse natural, às vezes me parecia meio forçado. Neste momento, não foi diferente! Como é que eu iria explicar algo que eu mesma não entendia, nem conseguia nomear direito para aquela bebezinha tão frágil?!

Criança ferida: um novo processo de cura

Na minha terapia e em buscas paralelas eu vinha fazendo um trabalho de cura de minha criança interior. Vale a pena dar uma olhadinha no artigo Criança Interior no blog Conexão Profunda. Neste momento eu me vi mergulhada num mar de mágoas, dores e tristezas em que eu estava me afogando! Daí chegou até mim um curso online que muito me ajudou neste período, pois a recomendação principal eram fazer meditações e escrever cartas para limpar experiências negativas! Vale a pena conhecer o trabalho de Tatiane Guedes “Mas afinal, o que é a Criança Interior?”

Foi escrevendo e me entregando às meditações de encontro com minha criança, que fui me dando conta que minha criança chorava muito mais que minha bebê! Fui tendo acessos a lembranças que eu havia enterrado e fugido por muito tempo! Fui acessando emoções reprimidas que estavam precisando ser liberadas e que, certamente, minha bebê trouxe à tona!

Nesta fase eu ainda não havia lido Laura Gutman, estava tão mergulhada em mim que, por vezes, me sentia sem fôlego para a realidade! Ali tomei contato com muitos sentimentos de tristeza da minha infância, pude rever relacionamentos e percebê-los por uma outra perspectiva. Assim como no outono, as árvores vão perdendo as folhas eu fui me despindo de minhas couraças de proteção e encontrando minhas feridas bem abertas precisando de cuidados !

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou.

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou”.  Fernando Pessoa

Só podemos CURAR o que podemos SENTIR 

Esta frase: “Você só cura aquilo que pode sentir.” (Domingos Cunha) já anuncia que é um processo que dá trabalho! Sentir, algo que deveria ser tão natural, mas que é tão reprimido! O desespero que sentimos para fazer um bebê parar de chorar conta muito a respeito desta nossa dificuldade de SENTIR e permitir sentir!

Quando fui tentando parar de sentir o que eu achava que deveria sentir. Quando fui dando espaço para a tristeza que eu sentia se manifestar, quando fui conversando com minha filha e dizendo o que eu estava sentindo, eu fui elaborando minha tristeza. Desta forma, fui legitimando algo que minha criança interior gritava para me mostrar!

É preciso dar-se tempo, colo, conforto! É preciso silenciar as vozes externas e também as internas  dos “eu deveria…” e permitir-se simplesmente SENTIR! Quando criamos este espaço verdadeiramente, começamos um processo de compreender o que tanto nos aterroriza, entristece e magoa! Somente criando um espaço interno de escuta é possível iniciar o processo de cura!

O bebê e a criança interna em Conexão

Uma coisa que eu pensava era que não podia dar voz à minha criança interior nesta fase tão sensível do puerpério. Era preciso ser adulta e cuidar da minha filha, não havia espaço para mais uma criança precisando de cuidados ali.

Entretanto, com o passar dos dias fui percebendo que se eu não olhasse com carinho e atenção para minha criança, não conseguiria ser a mãe atenciosa que eu desejava. Por isso, fui permitindo que minha criança expressasse ao máximo suas mágoas, expectativas e decepções e todas as feridas que rondavam meu universo infantil. Lembrei de cenas que eu jamais imaginava recordar, sentimentos, até a leitura das expressões dos adultos que, de alguma forma, me impactaram.

Vale ressaltar algo importante aqui: nem sempre foi o que aconteceu que feriu a criança, mas como ELA interpretou NAQUELE MOMENTO, sem muitos recursos emocionais. A criança com sua sensibilidade capta coisas que os adultos nem imaginam e, por vezes, ficam com uma cena bem recortada, ferindo seu coração. Quando criamos este espaço de escuta e cura, podemos RESSIGNIFICAR experiências e perceber que fazem parte de um contexto mais amplo de acontecimentos! Vale a pena ouvir o Podcast Tenda Materna #2: “A Nossa Criança Interior”

Outro ponto importante a ser destacado é que não podemos nos identificar com aquela criança ferida, tomando suas dores! Esta é uma tentação: se vitimizar e fazer acusações é fácil! Contudo, quando nos tornamos mães percebemos que, por vezes, as situações são mais complexas do que aparentavam anteriormente! Quando vivenciamos o papel de mães notamos que errar faz parte do processo de aprendizagem! E, por mais perfeitas que desejássemos ser, isso não seria possível e nem útil já que a vida é um processo de aprendizagem contínua!

“No momento em que uma criança nasce, a mãe também nasce. Ela nunca existiu antes. A mulher existia, mas a mãe, nunca. Uma mãe é algo absolutamente novo”. Osho

Assumindo desafios

Assim que nos tornamos mães e compreendemos os desafios deste papel, passamos a ter muito mais humildade e respeito para olhar a postura de nossas mães! E a partir desta posição de adulta, que abraçou sua criança interior, é possível olhar e cuidar profundamente do bebê no seu colo!

Este bebê precisa de um olhar atento e amoroso para suas necessidades! Ele precisa que você nomeie o mundo para ele – tanto o interno quanto o externo. Nos primeiros anos o bebê está muito fundido com sua mãe. Por isso, é fundamental que haja clareza e muito diálogo para que esta relação vá organizando as emoções, o mundo, as experiências…

Muitas vezes eu percebo algumas mães pressionadas a seguirem o mesmo modelo no qual foram criadas para que suas mães se sintam, de alguma forma, validadas. Entretanto, esta ainda é uma postura de nossa criança interior que sente a necessidade de obedecer os pais! Para refletir profundamente, recomendo dois vídeos da Psicóloga e Consteladora Sistêmica – Inês Rosangela: Criança InteriorSomos Adultos Realmente?

Articulação entre o mundo interno e o externo

Como sabiamente nos ensina Laura Gutman em seu livro O poder do Discurso Materno: introdução à metodologia de construção da biografia humana:

Assim, se estou criando filhos pequenos, tudo de que necessitam são pais que questionem a si mesmos da maneira mais honesta possível. Porque se observamos os mapas completos, se olhamos os cenários e, dentro deles, reconhecemos nossos automáticos, nossos personagens e nossos roteiros escritos, talvez possamos decidir não funcionar assim e experimentar outras maneiras mais criativas e ricas. E só então seremos capazes de olhar para nossos filhos com mais abertura e sem tantos preconceitos, ou seja, sem prejudicá-los antes de observá-los e acompanhá-los. Em vez de interpretar cada coisa que fazem e não nos agrada, em vez de trancá-lo em personagens que nos acalmam porque conseguimos localizá-los rapidamente… poderemos simplesmente nomear cuidadosamente aquilo que acontece com eles, dando-lhes todo o valor real disso que acontece. E também poderemos nomear com palavras simples o que acontece conosco, na totalidade de nosso complexo universo emocional. (p.55)

Portanto, é fundamental fortalecer-se internamente para assumir os desafios de se tornar mãe e pai! É preciso olhar nossas feridas e nos dispormos à SENTIR PARA CURAR! Acredito que somente deste modo seremos capazes de observar nossos filhos e captarmos SUAS necessidades emocionais!

O mundo atual, com seus desafios e informações, torna mais acessível a nossa evolução! Hoje temos muito mais conhecimento e isso pode e deve ser usado com sabedoria. Ou seja, sem perder a conexão que desenvolvemos com nossa intuição, especialmente quando nos abrimos para este olhar mais sensível que o mundo do bebê nos convida! No próximo artigo falaremos um pouco mais sobre este contato com o mundo do bebê, você já ouviu a respeito da exterogestação?

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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