Maternidade e Merecimento

O tema Merecimento faz parte de algumas reflexões que venho escrevendo em meu blog Conexão Profunda! Trata-se de um tema que venho refletindo há tempos, e sinto que ainda tenho muito para explorar! E, como não poderia deixar de ser, este é mais um tema de autoconhecimento que perpassa o universo da Maternidade!

“Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar”. Katherine Mansfield

Em um dos artigos do Conexão Profunda, investiguei um pouco as origens de muitas crenças que carregamos sobre a ideia de merecimento! Caso interesse, deixo aqui o link Merecimento: aprofundando o olhar – parte 2 Inclusive, fiz uma pesquisa informal entre amigos com duas perguntas perturbadoras:

  1. O que é merecimento para você?
  2. Quando você se sente merecedor(a)?

Na realidade, acredito que as respostas a estas perguntas fornecem pistas importantes sobre como nos sentimos. Deste modo, estas reflexões trazem consigo nossas crenças mais profundas sobre nosso valor. Por isso, te convido a uma reflexão num universo muito mais profundo de descobertas sobre você, sua família e a forma como se vê no mundo!

As raízes de nossas crenças

Obviamente a infância é um período extremamente rico para o desenvolvimento humano. Ou seja, vários aspectos: físico, mental, emocional, espiritual e social estão em pleno desenvolvimento! Inclusive, muitas das respostas que procuramos hoje estão, na verdade, em nossa infância. Por vezes, estas respostas estão bloqueadas por traumas, medos e formas de compreender distorcidas. Afinal, ainda temos muitos registros inconscientes sob as condições limitadas do olhar de uma criança! Leia também Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

Convém notar que ao refletir sobre o passado, muitas frases vem à tona e permitem apreender o contexto repressor daquela sociedade. Naquele contexto, educar significava repreensão e submissão. Por isso, filhos bem educados eram filhos obedientes e temerosos de apanhar. Ou, talvez pior, de perder o amor dos pais! Claro, tudo isso de forma bem inconsciente!

Sob esta perspectiva, era preciso negociar o amor, “fazer por merecer”! Conforme exemplifica o ditado popular: “Deus ajuda, quem cedo madruga!”. Assim, o amor estava num universo de escassez em que era preciso aprender a conquistar! Deste modo, basta observar como isso ainda reverbera atualmente sobre nossa forma de MERECER! Aposto que sua resposta às duas questões anteriores referem-se à esforço, trabalho duro, colher o que se planta… Sob esta perspectiva, há várias destas ideias de que “é preciso fazer por onde!” para merecer amor, para merecer ser amado!

Padrões de Repetição Familiares

Conforme demonstra o artigo Que frases da sua infância te impedem de ser a mãe que você quer ser? , muitas vezes reproduzimos padrões familiares. E, como observou muito bem Maíra Soares, isto acontece sem sequer nos darmos conta! Ou seja, apesar de termos muito mais informações, ainda estamos reproduzindo modelos de violência implícita ou explícita. Isto porque para iniciar um processo de profunda transformação é preciso acessar estas emoções vividas por nós e tomar CONSCIÊNCIA destes padrões.

Vale a pena citar aqui a brilhante animação que retrata todo este profundo contexto em apenas 8 minutos: Vida Maria. Assim, mais do que retratar a realidade típica do nordeste, esta animação nos convida a observar de que forma estamos reproduzindo crenças e padrões em nossa família!

Como enfatiza Laura Gutman sobre a importância do Discurso Materno é preciso se observar para perceber de que forma estamos nos comunicando! É a mãe quem traduz o mundo para o filho, na verdade, é ela quem traduz o próprio filho para si mesmo num primeiro momento! Assim, a infância é esta fase em que a criança está conhecendo o mundo, a si mesma e aos outros! A forma como tudo isso for apresentada deixará profundas marcas e impressões para o resto da vida!

“Parece inverossímil… mas é comum e frequente. Podemos ter vivido algo e não lembrar. E, ao contrário, podemos não ter vivido algo e, no entanto, se foi nomeado por alguém importante durante nossa infância, lembrar disso como se fosse uma verdade inquestionável.” (Gutman, L. O Poder do Discurso Materno: 2013, p. 28)

A negociação do amor

Na sociedade em que fui educada o preço do amor era a obediência! Hoje, vejo que o preço do amor pode ser ir bem na escola ou ficar boazinha para a mamãe olhar as redes sociais no celular. Além disso, percebo que muitas mães enchem seus filhos de brinquedos na ânsia de compensar a falta que sua presença faz. Entretanto, sinto muito para as mães que se sentem culpadas, mas NADA é capaz de compensar a falta de amor, presença ou disponibilidade emocional!

Vale ressaltar que há mães que passam 24h com os filhos e, ainda assim, não conseguem oferecer este amor, presença e disponibilidade. Na verdade, acredito que seja muito menos uma questão de tempo e muito mais uma questão de consciência, escolher o caminho de conexão com o filho! E, vale lembrar, este caminho também apresentará inúmeros desafios, mas CONSCIENTES de sua importância seguiremos determinadas!

De fato, nós tentamos negociar com o desconforto, com o medo! Ou seja, nós tentamos controlar as condições para termos a ilusão que, de algum modo, estamos no controle! Às vezes, queremos o gabarito da vida, da maternidade, o caminho do pote de ouro no fim do arco-íris!

Todavia, é preciso aceitar que temos muito menos controle sobre as coisas do que gostaríamos! Assim, é impossível negociar ou controlar o amor! Isto porque é preciso cultivá-lo diariamente com paciência, determinação, disciplina e, principalmente, PRESENÇA! Leia também Presença: um desafio cotidiano! Tudo o que brota do amor, floresce e frutifica!

Amor incondicional

Então, será que existe amor incondicional? E, se houver, será que somos capazes de oferecê-lo? Eis aqui uma pergunta que a maternidade provocou dentro de mim! Diante disso, cada hora me pego com uma resposta reflexiva que me indica que há mais por vir!

Isto porque, penso que se for condicional não é amor, é barganha, é medo, é apego, é chantagem emocional, é dependência e projeção! Leia também Maternidade: a intensidade de sentir Deste modo, o amor sob condições é muito aprisionador, limitante! Há inúmeras formas de amar e, principalmente, de se sentir amado! E, refletir sobre isso é fundamental para criar filhos mais felizes! Afinal, se estivermos olhando para a criança ferida que fomos, jamais conseguiremos OLHAR PARA NOSSOS FILHOS e suprir SUAS necessidades reais!

Quantas pessoas projetam nos filhos os brinquedos que não tiveram, os produtos de consumo que um dia sonharam e não obtiveram?! Quantos projetam em seus filhos seus próprios sonhos de profissão?! Quantas ilusões em termos de: beleza, inteligência ou qualquer outro patamar de comparação que decidam escolher! Assim, agem como se os filhos fossem sua oportunidade de corrigir o lugar que um dia ocuparam no mundo e os feriu tanto!

Este, para mim, é o caminho da tragédia: viver o presente com os olhos no passado! Ou seja, criar um filho como extensão de si e não conseguir perceber as necessidades deste filho e sua própria condição única como ser humano!

Validar emoções, é preciso!

Conforme foi dito acima, temos muito menos controle sobre as coisas do que gostaríamos! Inclusive, um exemplo muito interessante são as nossas emoções! Por mais que procuremos sufocá-las, fingir que nada aconteceu, elas são capazes de nos fazer adoecer!

Assim, é preciso humildade para permitir que as emoções fluam! Neste fluir das emoções percebemos que a vida também precisa fluir! E, quantas vezes nossa necessidade de controle acaba por nos deixar estagnados? Quantas vezes nossos medos e traumas nos aprisionam dentro de um lixo emocional que apenas nos afasta do que desejamos viver?!

Vale ressaltar o que a Clarissa sempre frisa em seu trabalho: é preciso fazer um trabalho de auto-educação! Afinal, somente quando formos capazes de exercitar o fluir das emoções, seremos capazes de dar o exemplo! Sob este aspecto, recomendo o treinamento Como lidar com as explosões emocionais na relação mãe & filho. Neste treinamento, de valor super acessível, você vai encontrar orientações para se observar, se educar e redesenhar a forma como lida com as explosões emocionais tão comuns em todo processo educacional.

Educar pelo exemplo

Certamente, o jeito que lidamos com nossas emoções é a forma que ensinamos nossos filhos a lidar com as emoções deles! Por isso, se nosso objetivo é educar uma criança para que se torne um adulto seguro e fortalecido emocionalmente, há uma jornada para trilhar! E, o primeiro passo da jornada é mostrar aos nossos filhos que eles PODEM se expressar que não perderão nosso amor! Ou seja, irei amar minha filha INCONDICIONALMENTE, mesmo quando ela discordar de mim e disser todos os NÃOS que eu não gostaria de ouvir, rs!

Esta postura traz segurança e conforto para que ela se expresse e se descubra enquanto pessoa! Isto significa um exercício de amor cotidiano, como diria o padre: na alegria e na tristeza, no sono e na birra, rs! Apesar de me exigir muito, eu ensino a ela que ela pode simplesmente SER, como diz a linda música da Sandy que ela adora cantar comigo: Eu Só Preciso Ser:

“Eu não preciso ensinar

Eu não preciso pregar

Não preciso me explicar

Não tô aqui pra dar exemplo

Nem buscando acalento

Eu não preciso me posicionar

E nem te convencer

Eu só preciso ser

Eu só preciso ser

Eu não preciso me justificar

Mas não posso ter que me calar

Eu só preciso ser” (…)

Deste modo, exercitando o autoconhecimento, sabendo que é amada incondicionalmente e sem precisar provar nada para ninguém, acredito que ela será capaz de acreditar que é MERECEDORA, simplesmente por existir.

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda  e siga no instagram gm_conexaoprofunda

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