“No parque, a mãe grita com a Filha:

– Feche as pernas para brincar.

-Mãe, mas eu estou vestindo calças!

-Não importa, comporte-se como uma menina.

 

Em casa, a esposa senta no sofá e o marido diz:

-O que você está fazendo nesse celular?

-Nada, estou apenas descansando um pouquinho.

– Você disse que tinha tanta coisa para fazer!

 

No trabalho, a operadora de telemarketing diz ao chefe:

-Pensei que seria promovida, por merecimento.

-Por acaso você me enviou relatórios de desempenho, demonstrou opções de incremento financeiro ou marcou reunião?

–Não, achei que poderia incomodá-lo.

 

Eis um recorte do cenário brasileiro. No ar ainda paira a opressão do feminino, feito um pássaro sombreiro.

Achar culpados, esse não é o intento. O tempo se encarrega de encontrar as armadilhas dos nossos moinhos de vento.

É que profundas são as raízes e mordaças da nossa alma de mulher ao relento.

Deixar de ser tabu, talvez seja o primeiro passo. E aceitarmos os rastros da nossa história para darmos um novo enlaço.

Era uma aristocracia rural, escravista e patriarcal.

O homem como chefe da família, mandava na comunidade, na cidade, no país. A mulher como propriedade do marido era uma serviçal da casa e dos filhos, travestida de dona da casa.  Não tinha voz, não tinha anseio, seus direitos eram ditados por um sobrenome alheio.

Prazer no sexo? Quiçá às prostitutas, astuto era o marido, que tinha direito de estuprar a esposa e satisfazer sua libido na rua.

A domesticação começava desde cedo, para evitar qualquer desassossego.  Aos meninos: bola, carrinho, grama, rua

(liberdade), às meninas: boneca, panela, vassoura, casa (prisão).

Isso explica nossa vida nesta panela de pressão. É sentimento que borbulha e respira repressão.

Eis o desemboco de uma encruzilhada. Um pouco do que explica nossa cilada.

Por isso os homens estão sempre em busca do poder, na família, nas finanças, na empresa, na política. Daí vem o “sonho” das mulheres em casa-mento (e o desespero dos homens em casa-mento). Daí vem o medo que as mulheres têm dos homens, daí vem os limites ao comportamento feminino (roupa, gesto, jeito, visual, nome).

Daí vem a nossa síndrome da Gata Borralheira. Descansar no sofá de casa? Não, não, arrume o que fazer, lave louças, limpe o chão, arrume a cama. Sinta-se ocupada e, por vezes, culpada se resolver cuidar de você.

Vamos sacudir nossa árvore genealógica para que caiam somente os bons frutos? Tenhamos gratidão por nossos antepassados, sim eles fizeram o melhor que puderam. Mas não fiquemos grudados ao passado, sem levar em conta o mal dos pecados de não deixarem um ser humano ter a própria respiração.

Somos mutantes, seres em constante evolução. Aquilo que aprisiona as mulheres de uma sala, mais tarde aprisionará as mulheres de uma nação.

Crianças, Freedom!!!

Abram as janelas e deixem o sol entrar. Brinquem de bola, boneca, carrinho, vassoura. Isso é riqueza de recursos, vivência, descoberta, liberdade de criação.

Tornem-se adultos perspicazes, com inteligência emocional e recursos inventivos.

Meninos brinquem de família. Meninas brinquem de bola. Brinquem do que quiserem.  Depois a vida afunila e aquele que vence não é o mais forte, o mais abastado. Vence na vida aquele que entende a descida, mas consegue transitar por todos os lados, sem machucar os pés descalços.

Mulheres sejam demasiadamente humanas!

Não sejam objetos ou santas, aceitem a força que do seu peito emana. Abram essas asas presas há anos, soltem suas amarras pelos quatro cantos.

Homens sejam companheiros, amantes, parceiros, de vocês só pedimos mãos que nos afagam por inteiro.

Saibam que o nosso coração é feito um sino de Belém. Seu badalar só toca direitinho quando os nossos pés flutuam pelo trilho, livremente sem tocarem no chão.

Então, vamos juntos sonhar?

Veja! Aquela mãe no parque.

Parece que ela está dizendo alguma coisa:

-Vá, minha filha, jogue-se e brinque como uma criança.”

 

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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Logo que ficou sabendo que estava grávida se pôs a ler todos os livros sobre desenvolvimento.

Assim que os primeiros sinais da mudança do corpo começaram a aparecer ela estava atenta a todo aquele acontecimento.

Logo nos primeiros exames a mãezinha já queria saber se o seu filho estava pronto para se desenvolver.

A mãe já amava demais, já amava toda aquela situação e todas aquelas novidades.

Todo o enxoval foi pensado e tudo de melhor lhe foi comprado.

O Filho tão desejado, tão amado e tão esperado já havia anunciado a sua chegada.

Logo nos primeiros dias os cuidados eram exagerados.

Os medos e as dúvidas sempre eram amenizados com todo o amor que lhe era dado.

A mãe que amava demais não admitia erros e fazia questão de cuidar de seu filho em tempo integral. Ninguém seria capaz de fazer igual.

Nos primeiros meses tudo era muito limpo e devidamente vistoriado, pois o filho tão esperado não podia ser malcuidado.

Quando se chegou a hora de explorar, a mãe que amava demais não conseguia deixar ele caminhar. Tudo era perigoso.

Aos poucos, a criança tão curiosa se tornou a criança medrosa.

Ao invés de andar, correr e pular, a criança esperava que o olhar de aprovação da mãe lhe deixasse voar.

A mãe que amava demais entendia que precisava permitir ao filho explorar, mas o medo e o amor não lhe deixavam experimentar.

O tempo exigiu que o filho fosse para a escola se alfabetizar, mas o filho não sabia se comportar. O mundo sempre lhe foi mostrado como um lugar muito perigoso e ele não sabia se integrar.

Muitos diziam o quanto ele necessitava voar, mas a mãe que amava demais tinha medo do filho lhe abandonar.

Aos poucos o mundo lhe cobrou muitas atitudes e liberdade para o filho crescer, mas o filho não sabia como proceder.

A mãe, sem saber o que fazer, brigou com todos e aos poucos se fechou. Contra o mundo ela lutou e o desenvolvimento do filho ela atrapalhou.

A mãe nunca entendeu o que estava provocando, porque a única coisa que ela fez foi amar. Na sua mente ela fez tudo o que julgou certo, mas o seu medo lhe impediu de ver além do seu universo.

Quantas vezes somos inundados pelo nosso amor e inundamos os nossos filhos com esse amor também, mas o quanto esse amor pode ser prisioneiro quando não enxergamos além do amor.

Hoje a minha reflexão é sobre o quanto temos que colocar um limite entre o nosso mundo, as nossas expectativas. Entender que o nosso filho tem o seu caminho a ser trilhado e que tem o direito de escolher como ele será.

Muitas mães na ânsia de fazer sempre o melhor para o filho, podem cair no erro da superproteção ou não levar em consideração a opinião dos filhos.

Se você se pegou aí nessas armadilhas do amor, pare e volte um pouquinho atrás, olhe em volta e deixe que seu filho participe das decisões da vida também. Só assim você estará buscando educar um ser mais integro e fortalecendo o seu crescimento.

Bjs e até a próxima

Deborah Garcia

Mãe da Liz e do Pedro, Psicóloga e Coach Familiar.

www.conexão.psc.br

Intagram: @deborahgarciapsi

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Foi depois que me tornei mãe que a busca pelo autoconhecimento veio com força total. Muitas questões vieram a tona no meu pós parto e eu precisava trazer luz para minha sombra. Iniciei um processo de Coaching, o qual me ajudou a enxergar fora da caixa. Me apaixonei tanto pelo processo que resolvi me capacitar e estudar para também ser Coach.

Dos vários assuntos abordados na formação, me chamava sempre a atenção os temas relacionados à mente humana, sobretudo quando se tratava do nosso obscuro inconsciente. Aprendi que cerca de 95% de toda nossa atividade cerebral é comandada pelo nosso inconsciente, e apenas 5% pelo consciente. Fiquei intrigada com esta afirmação. Considerando que nossa mente é responsável por criar a realidade em que vivemos e pelo que somos, e se 95% dela trabalha de forma inconsciente, há de se ter cuidado. Esta é uma das razões pela qual ultimamente existem tantos estudos para desvendar os mistérios da mente humana, sobretudo no que diz respeito ao inconsciente.

Diferenças entre Consciente, Subconsciente e Inconsciente

Para ficar mais claro, trago para vocês de forma bem simples e resumida, a diferença entre Mente Consciente, Mente Subconsciente e Mente Inconsciente.

Mente Consciente:

É a parte do cérebro que pensa. É a mente desperta, acordada, que observa e coordena todas as nossas ações. É capaz de comparar, julgar e identificar se algo é bom ou ruim. Quando uma pessoa sente uma dor e sabe onde é essa dor, essa pessoa é consciente da existência da dor.

Mente subconsciente.

É a parte do cérebro que é responsável pelas nossas crenças, sejam elas fortalecedoras ou não. Se uma mãe acredita que não será capaz de nutrir seu bebê,  pois não tem leite suficiente ou o mesmo é fraco, então ela tem algo relacionado a amamentação armazenado em seu subconsciente que a faz pensar deste modo.

Costumo dizer que o subconsciente é um acervo das nossas memórias que para serem acessadas precisam de um esforço a mais. Sabe quando você esta querendo lembrar o nome de um livro super interessante que você leu sobre o sono dos bebês e você não consegue? Você se esforça, se lembra de trechos do livro, mas nada do nome. E de repente, minutos ou horas depois, quando você nem pensava mais sobre o assunto, você se lembra.

Mente Inconsciente.

É a parte do cérebro responsável pelos sentimentos. Essa parte domina o corpo e é por esse motivo que faz a pessoa fazer algumas coisas que muitas vezes não queria fazer. Sabe quando seu filho esta num momento de descontrole emocional, e mesmo você não querendo, de repente se vê gritando ou falando “coisas horríveis”? É seu inconsciente em ação.

Quando uma mãe vai trocar a fralda de seu bebê, por exemplo, o faz de forma inconsciente, pois não fica pensando o tempo todo o que tem que fazer. Por isso é possível trocar a fralda ao mesmo tempo que se canta uma música para entretê-lo.

A ação do Inconsciente na minha vida.

Eu sempre desejei ser mãe. Gostava e gosto muito de bebes e crianças. Quando jovem, sempre pensei em ter três filhos, acredito que pelo fato de eu ter dois irmãos. Todavia, meu marido desde o inicio falava que queria um só. Decidimos então que teríamos dois. Quando eu estava grávida da minha primeira filha, a Laís, eu já pensava e comunicava para as pessoas que após dois anos eu estaria grávida de novo.  Eu imaginava uma diferença de idade entre um filho e outro de cerca 2 a 2 anos e meio. Comentava inclusive que ia amamentar os dois ao mesmo tempo.

Laís nasceu, e com ela veio o puerpério, uma reviravolta. Mesmo eu desejando tanto ser mãe, não tinha consciência de tamanha mudança e transformação que a maternidade proporciona na vida de uma mulher. Infelizmente muitas não estão preparadas, não têm apoio, não buscam ajuda, e em meio ao caos, desistem de ter mais um filho.

Meu marido, que desde antes só queria um filho, sempre que estávamos em algum momento desafiador do pós parto, me instigava a “fecharmos a fábrica”. Confesso que muitas vezes cheguei a pensar nessa possibilidade, mas não me enxergava sendo mãe apenas de um. Então resolvemos que iríamos esperar um pouco mais para ter o segundo, talvez 3 ou 4 anos ao invés de 2.   Assim seguimos, mas não nos prevenimos adequadamente.

Voltei a menstruar após 1 ano e 3 meses do nascimento da Laís, exatamente no dia 01/01/2016. Lembro que fiquei feliz e pensei: “já estou pronta para engravidar de novo, e o período é o ideal para a diferença de idade que eu desejo”. Mas ao mesmo tempo este pensamento foi substituído por: “Agora não é hora de engravidar, há algumas questões profissionais que precisam ser resolvidas, tenho que me cuidar”. Como a vida sexual não estava assim tão ativa, reflexo ainda da adaptação da maternidade, eu estava seguindo a boa e velha tebelinha e não tendo relações nos possíveis dias férteis (foi seguindo a tabelinha que engravidei da Laís, mas fazendo o contrário).

Mas mesmo meu consciente dizendo NÃO, o meu inconsciente dizia SIM. Eu via outras mulheres grávidas e com crianças pequenas, e ficava me imaginando na mesma situação. Eu sentia saudade da minha barriga de grávida. E quando alguém me perguntava a respeito de ter mais filhos, eu respondia que queria mais um, falava da diferença de 2 anos que eu desejava e concluía dizendo que por algumas questões pessoais e profissionais eu tinha resolvido esperar mais um pouco. Só me esqueci de dar este recado para o meu inconsciente e por isso meu corpo estava todo preparado para engravidar. No terceiro mês após a menstruação ter voltado, tendo feito sexo esporadicamente e em datas que possivelmente eu não estava fértil, ENGRAVIDEI. (Quando engravidei da Laís foi um intensivão de 2 meses no período fértil).

Foi a partir desta constatação que eu realmente pude comprovar que nossa mente é fantástica e poderosa. Lógico que na hora que descobri a gravidez isso nem passou pela minha cabeça. Foi necessário algum tempo para eu digerir essa nova mudança e entender que mesmo eu não tendo planejado conscientemente esta gravidez, estava tudo muito bem planejado inconscientemente.

Este é apenas um exemplo real da ação do inconsciente na minha vida.

A Sombra e o Inconsciente

Quando me tornei mãe, assim como grande parte das recém mães, comecei a ler muito sobre maternidade com o objetivo de me tornar uma mãe melhor. Dentre as diversas páginas nas internet e livros, encontrei a BeeFamily e A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra – Laura Gutman, respectivamente. Ambos foram um divisor de águas na minha maternidade. São fonte de inspiração que me motivam a seguir em busca do autoconhecimento para assim trazer luz para minhas sombras e  ser a melhor mãe que posso ser.

Mas o que é essa tal sombra? Segundo a autora, “Este termo, usado e difundido por Carl Jung, tenta ser mais abrangente do que o termo “inconsciente”, defendido por Sigmund Freud. Refere-se às partes desconhecidas de nossa psique e, também, àquelas de nosso mundo espiritual que são desconhecidas.”

Podemos considerar que parte desta sombra encontra-se bem escondida no nosso inconsciente. São memórias do que vivemos, desde nossa concepção até aproximadamente nossos 20 anos, mas principalmente na primeira infância (0 a 3 anos). Medo, abandono, abuso, violência, desamor, insegurança… são alguns exemplos do que muitos de nós experimentamos, mas não lembramos, pois “engavetamos” todas essas “memórias ruins” no inconsciente. E então desenvolvemos um tipo de uma capa protetora, uma máscara, e seguimos firmes e fortes sem nos dar conta do que realmente nos aconteceu, de quem realmente somos. Até que nasce um bebê.

Um convite para olhar para dentro

Quando nasce um bebê, recebemos um dos convites mais importantes da nossa vida, olhar para dentro.

O ser humano em geral, só consegue ser plenamente feliz quando aceita e honra sua história, quando se conhece de verdade. Infelizmente, nem todos têm consciência disto e se vão deste plano sem saber quem são. Outros chegam nesta consciência já em idade avançada, e tudo bem, nunca é tarde para buscar o autoconhecimento, ser feliz.  Mas nós, mães, costumo dizer que somos privilegiadas, pois recebemos da vida o convite para o autoconhecimento. E melhor ainda, da vida que geramos, de nossos filhos.

É fato que, não é tão simples assim reconhecer este convite, ainda mais sozinha. É muito mais fácil e cômodo cair na mesmice de dizer que:

“Depois que meu filho nasceu …

…minha vida virou um caos.”

…meu casamento está indo de mal a pior.”

…meu marido não me entende.”

…eu não tenho mais tempo para nada.”

…eu não tenho mais vida social.”

…eu deveria estar mais feliz, mas não estou.”

…as vezes tenho vontade de sumir.”

…qualquer coisa me estressa.”

Ou ainda, costumamos rotular nossas crianças como: chorona, birrenta, nervosa, agitada, desobediente, teimosa, mimada, centralizadora…e não faltam rótulos, não faltam reclamações.  O que falta mesmo, na grande maioria das vezes, é coragem para buscar ajuda, enxergar e aceitar este convite tão precioso. Eu mesma demorei mais de um ano para entender. Precisei ler muito, passar por um processo de Coaching e pelo ZumZum. Só então me dei conta que, devido ao estado de fusão emocional mãe e bebê, o que minha filha estava expressando com sua inquietação, dificuldade para dormir, choros, algumas vezes febre, era na verdade o que estava dentro de mim.

E assim, o olhar para dentro ficou mais fácil. Não que tenha sido fácil, pelo contrário, foi e é doloroso. O processo de autoconhecimento geralmente dói, pois insistimos em carregar a máscara que criamos de nós mesmas. E quanto mais a gente resiste em ser quem realmente somos, em aceitar nossa história, em trazer luz para a sombra, mais difícil é. Por isso, infelizmente, muitas mães optam, mesmo que inconscientemente, por recusarem este maravilhoso convite ao mergulho nas profundezas do seu ser.

-E você, já aceitou seu convite?

-Consegue perceber nas ações e expressões do seu filho, as suas sombras?

-Como tem sido para você a experiência da maternidade?

-Você é plenamente feliz?

-Quem realmente é você?

 

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

 

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Queridas mães, é com imensa alegria que escrevo esse texto para vocês. Gostaria de agradecer a Clarissa por essa oportunidade e por ter criado esse espaço maravilhoso de trocas, aprendizado, apoio e autoconhecimento. Meu nome é Tânia, sou psicóloga, psicanalista e mãe da Milena que fará 3 anos em agosto.

Escolhi falar desse tema por ser muito recorrente no meu consultório. O nascimento de um bebê trás muitos impactos no casal e em geral as mães reclamam muito da falta de envolvimento do companheiro nos cuidados com o bebê e de como elas se sentem sozinhas e sobrecarregadas.

Quando uma mulher engravida, além das mudanças biológicas e corporais, também ocorrem mudanças psicológicas que nos ajudam a nos apropriar desta nova função que é a maternidade. Psicologicamente falando, na gravidez passamos pela fase de transparência psíquica (Monique Bydlowski) que reativa a criança que fomos um dia. Com isso, ficamos mais abertas a lidar com os nossos conflitos infantis, principalmente ligados ao cuidado ou ao não cuidado que recebemos, em especial, de nossas mães. Ficamos preocupadas em como seremos como mães, em não reproduzir certos comportamentos familiares que nos fizeram sofrer. A natureza é sabia, primeiro precisamos cuidar de nós mesmas para depois conseguir cuidar do outro. Tudo isso é importante para conseguirmos entrar na fase de preocupação materna primária (Winnicott) que ocorre no final da gestação e nos primeiros meses de vida do bebê. Nesta fase o bebê é o centro de tudo, nossa mente e corpo ficam quase que totalmente voltados para ele. Desenvolvemos um estado de sintonia fina com o bebê que nos propicia atende-lo prontamente nas suas necessidades. Tudo isso ocorre na mulher de uma maneira visceral, muito intensa. Nós somos convocadas com uma força enorme a exercer esse papel. É a grande minoria das mulheres que movidas por grandes conflitos internos não elaborados, grandes privações afetivas e sociais ou mesmo patologias psiquiátricas não aceitam esse chamado. Com o homem as coisas ocorrem um pouco diferente. Eles não vivem a paternidade no próprio corpo, a intensidade do momento é bem diferente e por isso, muitas vezes essa construção é mais demorada e em alguns casos não acontece. 

Como podemos ajudar nesta construção fortalecendo a união familiar?

Na decisão de ter um filho:  

Podemos começar todo esse processo desde a ideia inicial de ter um filho. O marido está implicado nesta decisão? Ele também tem esse desejo? No meu caso, demorou um tempo para que eu e meu marido estivéssemos certos que queríamos ter um filho. Foram muitas conversas que aos poucos foram amadurecendo esse desejo em nós. Imaginávamos como seria e isso alimentava o nosso desejo, mesmo sabendo que seria tudo diferente do que pensávamos e que teríamos que mudar nossa vida, nossa rotina para acolher um bebê.

E quando o bebê não foi planejado? Nesse caso, o casal terá que lidar com isso, mas em grande parte destes casos percebemos que alguma parte desta mulher e deste homem quis ter um filho, mesmo que de forma pouco consciente, pois permitiram que a gravidez ocorresse. Tive um cliente jovem ainda terminando a faculdade, na qual a namorada ficou gravida. No primeiro momento foi um impacto enorme, chorou, achou que sua vida havia acabado. Depois, passou a curtir a gravidez e depois que o filho nasceu criou um vinculo muito forte, fazia de tudo e foi se tornando um pai amoroso, presente e participativo.

Na gestação:

A gestação também é um momento importante para incluirmos o marido nas consultas médicas, ultrassons, preparativos para a chegada do bebê. É importante deixar o marido interagir com o bebê dentro da barriga e estimular isso. Em nossa cultura, em geral, as pessoas e especialmente as mães conversam com os bebês e falam por eles, uma vez que ainda não conseguem falar. Isso é fundamental tanto para o bebê ser incluído no mundo simbólico quanto para os próprios pais, pois oferece uma concretude para existência desse bebê. Ele existe e já faz parte da família. Para o pai que não vive a gravidez corporalmente é muito importante para ir dando forma a sua paternidade. São falas simples como: Olha o papai chegou, eu escutei a voz dele e já estou querendo falar oi. Vem cá papai falar comigo. Sabemos que a partir da vigésima semana de gestação, o bebê já escuta bem os sons e que tem preferência pelos sons graves, como a voz do pai. Muitas vezes, eles reagem se mexendo. Intuitivamente percebemos isso e incluímos o pai nesse processo. Durante a gestação algumas mulheres também optam em fazer cursos sobre cuidados com o bebê, amamentação, etc. Seria fantástico se os pais participassem juntos, mas quando isto não for possível, é bacana que possamos passar o que aprendemos a eles.

No parto:

No parto, a inclusão do pai também é muito importante independentemente do tipo de parto que irá acontecer. O pai sempre terá um papel importante tanto de apoio emocional para a mãe quanto para acolher o bebê nesse primeiro momento de sua vida.

Na volta para casa da maternidade:

Agora vem a parte mais difícil: a volta para casa da maternidade. Entre 70 e 90% das mulheres passam pelo fenômeno denominado Baby Blues. Ocorre entre o terceiro e quarto dia após o nascimento do bebê. A mulher entra num estado de muita fragilidade e sensibilidade. É muito comum que a mulher chore por uma mistura de sentimentos e hormônios. É um estado de reconhecimento mútuo do bebê e da mãe. Psicologicamente falando, há nesse momento uma reatualização dos lutos e das separações não simbolizadas ao longo da vida da mulher. Especialmente nessa fase, a presença amorosa do parceiro é muito reconfortante, assim como a presença acolhedora da mãe da mãe. As parturientes precisam ser cuidadas e acolhidas. Ter a informação que a parturiente pode passar por essa fase é interessante, para que ela e a família possam reconhece-la e se assustar menos com o turbilhão de sentimentos que podem surgir, facilitando o cuidado materno nesse momento. Passar por esse fenômeno é normal e não necessita de ajuda especializada, diferente dos quadros de depressão pós-parto e psicose pós-parto que muitas vezes impedem que a mãe exerça o cuidado com o bebê.

No dia a dia com o bebê:

Passadas as primeiras grandes emoções, entramos no dia a dia com o bebê. Aquele pequeno ser que necessita da gente para absolutamente tudo, 24 horas por dia. Em geral é nessa fase que iniciam os maiores conflitos no casal. O principal motivo é que as mulheres se sentem cansadas e sobrecarregadas e os homens se sentem cobrados e criticados. É claro que todo o histórico anterior terá um impacto positivo ou negativo nessa fase. Os homens que já vinham participando desde o início terão uma tendência a serem mais participativos nos cuidados com o bebê, mas mesmo assim, pode não ser da forma que a mulher espera. Então, como podemos fazer para essa fase ficar mais leve?

Quando o bebê nasce, nós mães somos as pessoas mais intimas e importantes na vida dele. Ele já nos conhece como ninguém. Esteve dentro de nós, escutou as batidas do nosso coração, nossa voz, sentiu muitos dos nossos sentimentos e depois que nasce ainda sente que ele e a mãe são uma pessoa só. E nós mães por toda natureza na qual já me referi acima somos as pessoas mais aptas a nos conectar com ele para que possamos atender as suas necessidades tanto físicas quanto emocionais e psicológicas. Dessa maneira, também somos nós a introduzir uma terceira pessoa a esta relação. Já ouvi de algumas mães: Mas Tânia, isto é muito pesado. Como assim também somos responsáveis por introduzir o pai na relação com os filhos? Claro que não somos 100% responsáveis, eles também têm a parcela deles, mas o que eu quero dizer é que podemos facilitar ou dificultar essa relação. Por exemplo: se acharmos que o pai não sabe cuidar do bebê, que é desajeitado, que não leva jeito para trocar a fralda e se temos receio de que o pai dê um banho, teremos a tendência de fazer tudo sozinha.  Para camuflar isso, as vezes sem perceber, usamos o pai apenas para: preparar o banho, trazer as coisas que a gente está precisando, etc. Se o pai fica apenas como auxiliar, trazendo coisas, preparando outras, ele perde o mais importante que é a relação, a conexão com o filho. É muito comum fazermos isso sem perceber. Se conseguirmos dosar isto melhor, possibilitamos um contato mais agradável e não transformamos o pai num auxiliar.

Facilitamos o contato e a conexão do pai com o bebê e a união familiar quando em primeiro lugar somos claras, pedimos o que queremos sem a expectativa de que o outro vai adivinhar que precisamos de ajuda. Quando temos essa expectativa invariavelmente iremos nos frustrar e ficar com raiva. Podemos deixar que o pai exerça tarefas diretamente com o bebê e aceitar que ele vai fazer do jeito dele. Podemos ensinar sim alguma coisa desde que seja sem críticas. Devemos evitar a frase: pode deixar, você não sabe fazer nada mesmo ou olha o que você está fazendo, não é assim… Estas falas são muito comuns e afastam o pai da relação. Eles já têm que lidar com o sentimento de exclusão próprios da ocasião, pois é a mãe a pessoa mais importante para o bebê e o bebê também para a mãe. A nossa atitude é de fundamental importância para a harmonia e conexão familiar. Nós mães muitas vezes não falamos pelo bebê uma vez que ele ainda não sabe falar? Então podemos fazer assim: Papai eu prefiro que troque a minha fralda assim. Gosto de ficar no colo de frente para eu olhar para todo mundo. Oba papai chegou, estou com saudade do colinho dele. Papai me coloca para arrotar agora, eu já acabei de mamar. É claro que não vamos falar o tempo todo pelo bebê com o pai, e quando falarmos diretamente com ele podemos falar com tranquilidade, com clareza e também com carinho, para que todos sintam o quanto são importantes naquela família. Escuto frequentemente, os pais se queixando de que as mulheres não falam o que querem e depois cobram como se tivesse falado. É importante lembrar que o que é obvio para nós, pode não ser obvio para o outro. O casal deverá suportar ficar em segundo plano nesse momento, priorizando o bebê, mas mãe e pai podem se unir ainda mais em prol do maior projeto de suas vidas que é criar um filho. Nesta fase ter uma rede de apoio também é muito importante, ter avós que ajudem, algum familiar ou mesmo uma funcionária de confiança, faz com que a rotina inicial fique mais leve para todos. E na medida que o bebê for crescendo as vezes é possível fazer um passeio com o marido e deixa-lo aos cuidados da vovó. E se o seu filho já não é mais um bebê e você continua com os mesmos problemas, também é possível aplicar o que estou explicando aqui. Deixe os dois sozinhos brincando, permita e incentive que o pai leve na pracinha sozinho que eles desenvolvam as atividades deles.  A grande maioria dos pais responde positivamente a estas iniciativas.

Espero que tenham gostado do texto e que ele possa ajudar de alguma forma. Pretendo escrever nos próximos meses sobre o surgimento do psiquismo e o desenvolvimento emocional desde o feto até a criança e como podemos ajudar para um desenvolvimento emocional saudável. Deixe sua dúvida, seu comentário que terei prazer em conversar com você.

 

Este Texto foi escrito por:  Tânia Oliveira de Almeida Grassano, Psicóloga formada pela UFMG. CRP-04/19643

Psicanalista: Membro efetivo e docente na Sociedade Brasileira de Psicanalise de Minas Gerais – SBPMG.

Realiza atendimento em psicoterapia individual de crianças, adolescentes e adultos. Atua também com psicoterapia pais-bebê.

Os atendimentos são realizados em BH, próximo à praça da Liberdade.

Contatos: (31) 30725974 / taniaoliveiraalmeida@yahoo.com.br

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O Julgamento

Era uma tarde de sexta feira, sai um pouco mais cedo do trabalho, precisava comprar umas roupas para o inverno que acabara de chegar. Entrei em uma loja, experimentei as peças, decidi o que levaria e fui para o caixa. Percebi que ia demorar, pois duas vendedoras estavam trocando a fita da máquina do cartão, olhei para o relógio, meu tempo era cronometrado, ainda precisava pegar minha filha na escola, mas já que não tinha outro jeito comecei então a prestar atenção na conversa das duas moças. Uma delas estava contando que viveu dos 5 aos 13 anos em um colégio interno junto com a irmã, contou ainda que só iam para casa nos finais de semana há cada 15 dias, fiquei alguns segundos em silêncio e um pouco chocada, olhei para ela com mais atenção, como que procurando alguma coisa, algum traço, ainda que no olhar, que refletisse tamanho abandono.

Não resisti e me intrometi na conversa, perguntei se ela não sentia falta de casa, ela disse que no início sim, que havia sido muito sofrido e solitário, mas que depois se acostumou. Acho que ela percebeu o meu olhar atônito e falou resignada que foi o melhor colégio em que já havia estudado, que os professores eram muito bons e que haviam feito muitos amigos.

A outra vendedora falou algo do tipo: “nunca faria isso com minha filha” e percebi que era exatamente aquilo que eu estava pensando, a moça porém defendeu prontamente sua mãe, dizendo que ela não teve outra escolha, ela era sozinha com duas filhas e essa foi a única maneira de conciliar a maternidade com o seu trabalho, que era o único sustento da família. Mas ainda assim, na intimidade dos meus pensamentos eu julguei ferozmente aquela mãe, só conseguia pensar no abandono que aquela moça havia sofrido em tão terna idade. Perguntei como era a relação com a mãe atualmente, ela me respondeu que não tinham uma relação muito próxima e com sinceridade me contou que se tornou uma pessoa muito carente de afeto, mas que ao mesmo tempo tinha uma enorme dificuldade em criar vínculos com as pessoas, inclusive com a própria mãe.

A empatia

Sai da loja levando minha sacola, meus pensamentos e um monte de sentimentos desordenados, de indignação principalmente, fui andando apressada em direção ao metrô, o coração apertado e um nó na garganta eu só conseguia pensar na moça da loja e em sua irmã, duas crianças pequenas abandonadas em um colégio interno….

Mas aos poucos minha consciência foi me chamando a razão e comecei a tentar exercitar a verdadeira  empatia, fui tentando me colocar no lugar daquela mãe de uma maneira muito verdadeira, fui tentando imaginar que caminhos a teriam levado até a porta daquele colégio e quanta dor e culpa aquela decisão deve ter custado até hoje.

Comecei a visualizar uma mulher diferente da megera do meu primeiro pensamento, comecei a vê-la como uma mulher sozinha, perdida e exausta. Provavelmente devia estar sendo cobrada ao extremo no trabalho, mas ia aceitando, consumindo  seu tempo e correspondendo de forma impecável, quem sabe ela tinha em vista uma promoção que poderia melhorar a vida e o futuro de suas meninas. Pensei na possível amargura que a devorava por dentro, pelo fato de ter sido abandonada pelo pai de suas filhas, ou talvez tenha sido uma morte precoce e inesperada que tenha levado para sempre o amor de sua vida, de todo modo imaginei a saudade que ela devia sentir da época que sua família estava inteira, senti sua solidão no silêncio de uma casa vazia e arrumada, pensei em todas as noites quando ela finalmente desabava em sua cama fria, possivelmente era somente ali que se permitia chorar… Como fui injusta com aquela mulher, poderia ter sido eu, poderia ter sido comigo em um outro tempo, em um outro cenário, em outras circunstâncias.

 

A minha culpa

Quando dei por mim já estava na estação que deveria descer, fui caminhando pela rua ainda emersa em meus pensamentos. Chegando perto da escola da minha filha, fui dragada para um passado não muito distante dali, comecei a reviver então os meus caminhos, aqueles que me levaram até a porta daquela escola pela primeira vez, carregando nos braços uma bebê com ainda 6 meses e meio.

Lembro da sensação de que o tempo havia passado rápido de mais, os meses da minha licença teimavam em começar e terminar em uma velocidade que eu não fui capaz de acompanhar, quando dei por mim estava sentada na secretaria matriculando minha filha. Dias depois, prestes a voltar ao trabalho o coração estava estrangulado e cheio de culpa, não sabia se havíamos nos preparado para aquele dia!

Queria dizer para minha filha, de algum modo que ela entendesse, que não havia outro jeito, eu simplesmente precisava voltar ao trabalho, não somente por amar minha profissão, mas nossa realidade financeira naquele momento não me permitia outra opção! Queria explicar que entendia que era cedo demais para nós duas e que não era uma troca, nem abandono, nem falta de amor ou vontade. Queria poder parar o tempo ou começar tudo de novo, ir de volta para o momento em que entramos em casa pela primeira vez com nosso pacotinho nos braços, completamente confusos e arrebatados de amor.

No primeiro dia em que ela ficou na escola sem mim, após o período de adaptação, a saudade que eu senti foi devastadora e irracional, só haviam alguns minutos que eu a havia deixado lá, tentava me convencer de que o que eu sentia não fazia sentido, mas o meu corpo me falava a verdade, do meu peito vazava leite, nos meus braços um imenso vazio e no meu colo só ausência.

Rezei baixinho para que ela não estivesse sentindo minha falta do mesmo jeito que eu estava sentindo a dela, pedi a Deus que fizesse florescer amor pelas suas novas tias e que ela cativasse seus corações, para que em seu novo e precoce caminho ela continuasse cercada de amor, mesmo quando inevitavelmente estivesse longe dos meus olhos…

Já de volta ao presente, na porta da escola, escutei a vozinha da minha pequena dizendo: “é a mamãe é a minha mamãe ” ela veio correndo e pulou no meu pescoço, como sempre faz todos os dias.  Esse é sem duvida o melhor momento do meu dia, depois de mais de nove horas longe dela, chega finalmente o momento do nosso abraço, meu corpo todo se prepara, meu espírito se entrelaça com o dela e eu sou preenchida pela felicidade mais verdadeira e pura que já pude experimentar. 

Somos muitas, Somos tantas….

No caminho de volta para casa, pensei novamente na moça da loja e em como deviam ser os reencontros após os 15 dias longe da mãe, desejei de coração que esses momentos tenham sido mágicos, como o meu acabara de ser, senti uma enorme gratidão por poder passar todas as noites com a minha filha, por poder compartilhar a cama e dormir de mãos dadas com ela, sentindo seu cheirinho e seu calor, me emocionei e algumas lágrimas começaram a cair pelo meu rosto. Mas logo em seguida senti medo de ser julgada pelas minhas decisões, assim como eu tinha acabado de fazer com uma outra mãe. Ainda no caminho de casa, uma mulher passou por mim na rua, reparou minhas lágrimas e disse: “foi só um dia difícil, eu sei bem como é, estou indo buscar o meu na escola” apesar daquele não ser exatamente o motivo pelo qual eu estava chorando, me senti acolhida por aquele comentário, senti que eu não estava sozinha, somos muitas, somos tantas, estamos em todos os lugares, pelos quatro cantos do mundo…

Quando cheguei em casa chorei ainda mais, já nem sabia mais por que eu estava chorando, se era por mim mesma e o peso da minha escolha, se era pela minha filha que desde de pequenina tem que ficar tanto tempo longe casa, se era pela moça da loja e a ferida emocional que o abandono causou a criança que ela foi um dia, se era pela mãe dela e todo esse tempo convivendo com a solidão e a culpa.  Acho que na verdade chorei por todas nós que decidimos seguir com as nossas carreiras apesar de tudo. Chorei também por aquelas que decidiram desistir de suas profissões, ainda que por um tempo, decidiram renunciar aos seus sonhos e aos seus projetos. Sinto tanto por ainda termos que fazer escolhas tão difíceis, por ainda ser tão difícil sustentar essas escolhas e sinto mais ainda por saber que independente de quais sejam, seremos sempre duramente julgadas.

Antes de dormir fiz uma prece, pedi por um mundo como mais empatia e respeito,  onde nós voltássemos a acreditar que não fomos feitas para julgarmos ou competirmos entre nós, pedi que nos lembrássemos da nossa essência e de quão natural e poderoso é quando estamos juntas, nos apoiando e aprendendo com nossas diferenças, que nos lembrássemos o quão potente somos quando colaboramos para o crescimento e a mudança que queremos ver mundo. Pedi desculpas aquela mãe pelo meu pré-julgamento e pedi que ainda houvesse tempo de cura, de perdão e de amor para todas nós…

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa, mãe da Ive de 2 anos e 4 meses  e participei da turma 5 do Zum Zum de Mães.

@viviancpessoa

 

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Minha filha já tinha mais de um ano de idade quando eu li o seguinte trecho da obra da Laura Gutman “A maternidade e o encontro com a própria sombra”: “Prevalece, também, a intenção de evitar a dor, embora ‘dor’ seja diferente de ‘sofrimento’. O sofrimento é padecido quando a mulher se sente só, desprotegida, desamparada, humilhada ou acha que não está fazendo o correto. Quando se está em posição dorsal (deitada), com soro (que não permite que se levante da maca nem se vire), ouvindo as pulsações do bebê amplificadas e tentando adivinhar o que significa a expressão do obstetra ou da parteira depois de cada toque.” Eu simplesmente fechei o livro, chorei e demorei um tempo pra voltar novamente naquela página…

Considero que minha gravidez foi ótima: atividade física cinco vezes por semana, nada de enjoos, nada de intercorrências, esperando a hora da minha filha. Desde o primeiro instante, eu decidida: parto normal.
Havia só um detalhe: assim que descobri que estava grávida, com 6 semanas de gestação, tive que me mudar de cidade, deixando para trás o meu médico de confiança, defensor do parto normal. Chegando ao meu destino eu me consultei com alguns médicos e a minha primeira pergunta era: qual a sua experiência com partos normais? Encontrei um profissional em que confiei e continuei meu pré-natal, linda e contente.
Mil e duzentos quilômetros depois da minha cidade e exatamente 40 semanas mais tarde (bem na DPP), a Olívia deu o primeiro sinal: lá vem a minha bebê!!!
As contrações iam se intensificando e eu calma, muito tranquila: fiquei em casa, tomei um longo banho, tirei o esmalte das unhas… Até meu marido quis se embelezar: ‘Dá tempo de fazer a barba, amor’… ‘Claro! Está tudo sob controle.’. Até aqui eu sentia só dor, nada de sofrimento.
Cheguei no hospital com 7 dedos de dilatação e já pensei ‘Que boa notícia. Estou indo muito bem’. As contrações aumentando, muita dor e eu forte: logo fui encaminhada para a sala de parto normal.
Foi quando as coisas começaram a parecer diferentes da minha expectativa: na minha frente aquela maca ginecológica. Não tinha nada a ver com os episódios do Boas Vindas.
Poucos minutos depois estava lá eu deitada naquela posição dorsal, com um caninho nas costas e pernas pra cima. Eu estava me sentindo mesmo de cabeça pra baixo, com a neném entalada na minha garganta. A minha dor era tanta que eu não conseguia reagir a nada: naquela hora eu só pensava em fazer força na hora que ela tivesse que sair. 
Já se iam 7 horas de trabalho de parto,  9 dedos de dilatação, eu lá de ponta-cabeça com uma dor de matar, porque parece que a anestesia só fez atrapalhar minhas contrações, a dor que eu sentia era incrível.
De tempos em tempos, o batimento cardíaco da minha filha era escutado por meio de um aparelho manual que parecia um cone de linha de costura… nesta época tecnológica em que existe aplicativo de celular que permite ouvir os sons do bebê, era nisto que eu tinha que confiar.
Até que, depois de uma escuta na barriga, foi minha vez de ouvir a sentença final: “Acabou o seu sonho do parto normal.” Esta frase ainda ecoando na minha cabeça. Eu nem sei o que pensei na hora, provavelmente foi: salvem a minha filha. 
Correria e eu ouvindo: ‘Vamos transferi-la para uma sala de cesárea.’ e a resposta da enfermeira: ‘Não tem sala’. Foi tudo lá mesmo: depois de 7 minutos, sangue espirrado na parede e eu sem reação ela já tinha nascido… fora da minha barriga e do meu alcance, eu só disse para o meu marido: “só veja se ela está bem”.
E ela estava ótima!
Eu não lembro o que eu pensei naquela hora sobre a minha situação… depois que ela nasceu eu só queria chegar perto dela, ver se estava tudo bem. Parei de pensar em mim. Aquele tinha sido o meu parto normal. Muita coisa aconteceu naquele dia, mas isso fica pra outro momento!
Eu sentia, sinto sempre sentirei gratidão pelo nascimento da minha filha. Só que alguma coisa tinha acontecido comigo ali naquela sala, eu não sabia o que era, mas eu não era mais a mesma. Claro, eu era mãe. Mas ainda tinha algo a mais.
Somente depois de ter lido aquele trecho que escrevi acima pude perceber o que o parto foi na minha vida: um momento de impotência, humilhação. 
Eu me sentindo culpada e fraca. Como eu não pude fazer nada naquela hora? Eu simplesmente não podia. Eu me sentia engessada. 
Depois de muito tempo percebi que aquela dor do parto tinha se transformado em um longo sofrimento: por muito tempo eu me senti incapaz de cuidar da minha filha, parecia desorientada, perdida. Minha mãe morando comigo desde o nascimento até ela completar 3 anos. Eram duas que precisavam de colo.
Justo eu que tinha lido vários livros, visto muitos vídeos e falava para todas as gestantes dos benefícios do parto normal, tinha que escutar: ‘Nossa, depois de tanta dor ainda fez cesárea! Deveria ter marcado logo!’ Eu só engolindo. Eu tinha vergonha de mim.
Quem sou eu para analisar ou questionar a conduta dos médicos naquele momento. Não tenho tal técnica e nem coragem: a minha filha é perfeita e saudável. Mas posso analisar a minha conduta, o meu aprendizado.
Nunca me preparei para um plano B. Minha gravidez foi de flores e borboletinhas e não pensava que o parto seria diferente: na minha a cabeça eu seria protagonista de um episódio de programa de televisão. É o famoso meme: expectativa X realidade. Eu não tinha preparado para uma realidade de sofrimento. Eu imaginava a dor do parto, não o sofrimento da humilhação.
Apesar de ter lido, relido e aprendido sobre o parto normal, eu cometi um erro: eu não tinha as pessoas corretas ao meu lado. Ao meu ver, se tem uma verdade nesta vida é que você não vai parir sozinha: que profissional estará ao seu lado? Um médico, uma parteira, uma doula? Essa pessoa tem realmente experiência em parto normal?
Helloooo Suzete: você mora em um país continental onde 57% dos partos são cesáreas (Revista UNICEF n.39, p.9, Março/18)! Muita gente (inclusive eu) difunde, defende e incentiva o parto normal, mas esta é uma realidade na sua vida? Na minha não era! Não era! E eu não tinha me preparado para isto.
Por fim, aprendi que olhar para o meu sofrimento me faz crescer como mulher e como mãe. Escrever este texto, contar a história, falar com as futuras mães me faz entender as consequências do meu pós-parto, explica muita coisa. Por muito tempo eu fiquei com engasgada com tudo, sem entender. Quando eu pude falar, ter contato com outras pessoas que também sofreram, eu percebi que não estou sozinha. Enquanto eu falo eu aprendo a aceitar a realidade, tal como ela é.
Neste ponto, é importante a rede de apoio (mesmo que virtual no Zumzum), a dupla de escuta, ter contato com outras mães: as crises, os problemas, as tristezas não são iguais, mas são bem parecidas e desabafar faz muito bem!
Hoje estou grávida novamente, de 16 semanas: tenho uma gravidez inteira e um parto pela frente. Tudo que eu passei serviu de aprendizado. Hoje, olhando para meu sofrimento, ergo a cabeça e digo: estou aqui para o que der e vier.
Este TEXTO foi escrito por: Suzete Pereira Gonçalves, Mãe da Olívia, de 4 anos e 8 meses e grávida de 16 semanas. Advogada em São Paulo e participante do Zum Zum de Mães!
Instragram: @suzetegoncalves

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Sou uma das mediadoras de um grupo virtual de puérperas (um desejo de estar entre mulheres que pulsava desde que me tornei mãe e que coloquei em prática ao lado de outras mulheres que também são mães e que admiro muito), e hoje, ao ler um monte de mensagens que estavam atrasadas, tive vontade de escrever algumas coisas que me vieram à tona ao ler/sentir os relatos e desabafos tão próprios da maternidade…
Me antecipo  aqui dizendo que são reflexões que refletem muito o que eu tenho pensado e aprofundado sobre e com os meus processos na maternidade e que senti no coração de dividir aqui com vocês… Se porventura o que eu disser não fizer sentido para você, tá tudo certo… E se fizer, deixe as palavras decantarem por aí ❤
Meu desejo é poder dar um abraço em todas as mães e puérperas e dizer com amorosidade e honestidade que, a maternidade está muito além de ter um bebê lindo nos nossos braços…
O lado B da maternidade nos traz para uma expansão de consciência que nunca haviam nos alertado. Entramos em contato com feridas da alma e lutamos contra padrões que se perpetuam sem que pensemos, nem por um segundo sequer, sobre a insistência deles existirem e persistirem…em nós e/ou na sociedade.
Nos deparamos não só com o choro do bebê mas com a nossa incapacidade de assistir a esse choro, pois na lógica da vida, não podemos oferecer aquilo que não recebemos e, como também não souberam nos ouvir chorar, não suportamos ouvir o choro do nosso bebê, afinal o nosso próprio choro ainda está entalado.

Nos deparamos com nossa fortaleza na mesma proporção da nossa fragilidade – na verdade a linha é bastante tênue – e nesse vaivém, ao nos olharmos no espelho não nos reconhecemos. É verdade que não é fácil, mas acho pouco provável que alguém nos tenha dito isso, mas também não nos disseram o quão desafiador seria, e aqui estamos…
Nos sentimos exaustas por precisarmos de ajuda e não saber como nos expressar de forma clara e amorosa – pois também não nos foi ensinado. As “novas abordagens” para criarmos nossos filhos existem aos montes e ainda assim nos sentimos perdidas… A privação do sono, o marido, a mãe, a sogra, os irmãos, os cunhados, os estranhos, os livros, os blogs, os instagrammers… Todos querem e/ou parecem ter razão sobre o que é melhor para nós, mães, e também para nossos filhos.
A maternidade e esse encontro com o nosso lado B (ou com as nossas sombras como diria Laura Gutman), nos coloca frente a frente com questões muito mais profundas (as verdadeiras causas) desses “sintomas” ou incômodos que nos são apresentados desde o primeiro encontro com o bebê. Quando nos permitimos ser tocadas intensamente por esse encontro, nesse mergulho profundo, damos início a uma jornada sem fim de descobertas.
É um caminho sem volta, onde já não há mais espaço para nos vitimizarmos diante das nossas próprias vidas e nem das nossas próprias escolhas. Onde já não há mais espaço para olhar para o bebê e esquecer que ele é o nosso reflexo mais puro e cristalino, de tudo aquilo que precisamos trabalhar em nós mesmas. Onde é urgente nos acolher, olhar para as tais feridas da alma com amorosidade, e calar as vozes “ocultas” dos demais mas sobretudo as nossas próprias ladainhas e tagarelices mentais, para ouvir o que somente o coração é capaz de revelar.
Acredito verdadeiramente que, só seremos capazes de curar nossas feridas se nos silenciarmos, se entrarmos em contato com aquilo que nos incomoda – e se nos incomoda é porque nos identificamos com o que quer que seja – e encararmos de frente. E me arrisco a dizer (depois de ter ouvido certa vez a Clarissa Yakiara dizer) que AceitAcão é palavra de ordem, afinal, com esse verbo embutido em si mesma, ela nos permite agir e nos movimentarmos em direção às mudanças que desejamos verdadeiramente. E quando mudamos, tudo o que está à nossa volta, também muda… Mas isso já é papo pra outro texto.
Então, que possamos nos permitir o mergulho, o encontro, as lágrimas que lavam e também levam aquilo que já não nos faz mais sentido, a vulnerabilidade de sermos imperfeitas e ao mesmo tempo a potência e libertação de podermos ser inteiras, ao nosso modo. Que a resiliência e a aceitação nos conduzam à auto responsabilidade, devolvendo para nós o poder de mudar a rota da nossa travessia que, apesar de desafiadora pode ser linda e leve!
E parafraseando mais uma vez a Clarissa, vamos juntas e de mãos dadas, nos apoiando, porque juntas vamos mais longe e mais felizes também!
Este Texto foi escrito por: Iara Schmidt (participante do ZumZum 6)
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.
 

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Quando falamos em identidade é preciso especificar do que estamos tratando! Por isso, sempre recorro ao bom e velho dicionário. No caso, a definição que mais se aplica é: Circunstância de um indivíduo ser aquele que diz ser ou aquele que outrem presume que ele seja”. (dicionário do Aurélio: https://dicionariodoaurelio.com/identidade).

Neste ponto já temos uma questão que sempre me intrigou: ser como penso que sou ou como os outros esperam que eu seja?!

Identidade Feminina

O papel da mulher, por muito tempo, foi considerado o de casar, ter filhos e cuidar da casa. Esta era a imagem das mulheres de antigamente, da minha avó, da minha mãe… As mulheres da minha família adotaram um padrão tradicional de comportamento. Ou seja, foram o que se esperava delas! Entretanto, sinto na fala da minha mãe, tia e várias outras mulheres, uma certa revolta, uma raiva mal reprimida deste destino! Parece mais uma sina do que um destino escolhido por elas.

Desta forma, isso era tudo o que minha mãe não desejava para mim! Lembro bem das frases: “você precisa estudar para ser uma mulher independente, autônoma com seu próprio dinheiro, senhora do seu destino!”

Por muito tempo eu fiquei perseguindo este objetivo: ser a mulher que minha mãe esperava que eu fosse! Eu sentia que ela havia feito sacrifícios, havia abdicado de sua própria vida para que eu pudesse ser melhor e mais feliz que ela, de alguma forma!

Por algum tempo busquei na carreira acadêmica esta realização. Mas fui sentindo uma profunda solidão e desconexão com outras coisas que eu desejava. Então comecei a dar aulas, me aproximei afetivamente de pessoas, de crianças e a vida foi me levando por outros caminhos. A mulher independente e poderosa, que minha mãe sonhava, foi se transformando numa pessoa mais voltada para o autoconhecimento, autodesenvolvimento.

Eu fui me desligando aos poucos desta identidade que designaram para mim e fui construindo minha própria identidade feminina.

O “romance” da gestação

Há muitas cobranças para que a mulher tenha filhos, para que seja desta ou daquela forma! Mas eu decidi me abrir à possibilidade de gerar um filho de forma muito espontânea, intuitiva, quase inocente! Eu cismava que teria dificuldades para engravidar, e fiquei pasma quando soube da gravidez com 8 semanas! Só acreditei com o ultrasson!

Durante a gestação parece que as pessoas esperavam que eu estivesse num comercial de margarina… Eu tinha que estar sorridente, calma, sentindo coisas boas para não passar nada de ruim para a bebê! E como se faz isso? Eu SENTIA MUITA coisa! Dificuldades de adaptação, medo do futuro, desconforto com o presente… Sem contar meu cenário profissional que andava caótico por algumas questões à parte!

Ali percebi “na pele” que a vida tinha uma engrenagem que eu desconhecia e que girava independente da minha vontade ou estado de espírito! Meu corpo tinha novas necessidades e aceitar isso foi um processo que foi ganhando consistência. Quando consegui me adaptar, a gestação já estava acabando e era hora de pensar na chegada da bebê, algo que eu nem conseguia pensar!

A crise do puerpério

Pasmem, mas eu nunca tinha sequer ouvido falar em puerpério, nem baby blues! Eu tinha em minha memória a famosa e temida “depressão pós-parto”. Lembro das mulheres da minha família mencionando o assunto bastante preocupadas. Então, tudo o que eu temia era a depressão! Como dar vazão à imensa tristeza que eu sentia e não ser taxada de deprimida?! Por que eu estava tão triste se tinha a coisinha mais preciosa do mundo nos meus braços?

Ali descobri que meu mundo estava estilhaçado! Eu não conseguia entender meu corpo, minha mente, meus sentimentos… Estava TUDO absolutamente fora do lugar! Era como se um furacão tivesse passado por mim e eu não reconhecesse nada nem por dentro nem por fora! Nestes momentos, o único lugar que eu encontrava algum conforto era embaixo do chuveiro. Mas logo eu escutava um choro e precisava reassumir o papel que esperavam de mim: a mãe amorosa!

Eu senti que me perdi de mim, do mundo, das pessoas… Estava tudo estranho e havia muita responsabilidade sobre meus ombros, muitas expectativas, muita cobrança! Talvez, na verdade, com certeza a maior cobrança do mundo era a minha!

Lembro do pavor que eu tinha de ir na consulta com a pediatra! Ela fazia umas caras, eu me sentia a pessoa mais desajeitada do mundo para trocar minha bebê na frente dela! Tudo o que eu esperava era um ok, uma validação, mas era uma pediatra de convênio bem econômica com as palavras! Outro capítulo à parte é o lance da amamentação, este vale um post exclusivo! Mas eu lembro do pânico que tinha de que a bebê quisesse mamar quando eu estivesse em público.

Maternidade: a intensidade de sentir

Escrevi um post no meu blog Conexão Profunda com este título, porque ele sintetiza o que descobri na minha maternidade. Certamente iniciei uma jornada de profunda consciência da minha capacidade e intensidade para sentir! Depois de um período de estranhamento de mim mesma e daquele serzinho tão puro em meus braços, fui me apropriando de minha capacidade de SENTIR!

Acredito que àquela tristeza imensa que eu senti no puerpério foi a tristeza que eu senti durante toda a minha vida. Nossa cultura não nos educou para sentir, mas para esconder, fingir que… A maternidade que eu vivo não me permite usar máscaras! Ela me exige muita coragem para olhar minhas feridas de perto!

Quando conseguimos silenciar as milhares de vozes à nossa volta, conseguimos dar espaço para escutar nossa voz interna. Temos uma Sabedoria Interna, que é aguçada com a maternidade! No entanto, estamos tão preocupadas em corresponder à identidade que esperam de nós ou àquela que a gente mesmo fantasia, que não conseguimos abrir espaço. É preciso silêncio e conexão profunda para acessar essa Sabedoria!

A descoberta da Fênix

Não é exagero dizer que vivemos um certo luto no puerpério! Estamos enterrando uma mulher e a partir destas cinzas uma nova mulher está sendo gerada! Vejo muitas mulheres desesperadas para voltar a ser quem eram antes da maternidade: seja com o corpo, cabelo, pele, trabalho… Tenho a sensação de que a vontade é dizer: Tive filho, MAS sou a mesma de antes! Não, não somos! E nunca mais seremos! Demorei muito para aceitar isso, mas quando aceitei foi libertador!

Os filhos nos permitem um contato com a impermanência das coisas, algo que vivemos negando! Nós não somos, nós estamos! Viver agarrada à uma identidade é uma forma de perder a experiência mágica de fluir com a vida! O que pode ser mais mágico e poderoso que o desenvolvimento de um novo ser humano? Na observação de cada fase, cada conquista, vejo a magia da vida, o poder de Deus, Universo ou seja lá o nome que você queira dar… Trazer um novo ser humano ao mundo é uma imensa responsabilidade, mas também uma oportunidade para reavaliar o que realmente é importante em nossa vida!

Acredito que seja válido lembrar das coisas que sempre gostei de fazer para me sentir bem: tomar chá, andar à cavalo, tomar banho de mar e cachoeira, fazer trilha… Isso me coloca em conexão profunda comigo mesma porque faz parte da minha Essência! Mas é preciso lembrar que minha maternidade me trouxe novos cenários, novas prioridades e um talento especial de amar, que jamais acessei em outros tempos.

Como a Fênix renasce das cinzas: convido a todas à se apropriarem de Sua Essência (a identidade que sempre tiveram de si mesmas) e integrarem com a mãe que estão hoje! 

Assuma seu poder

Estamos sempre fazendo o melhor que podemos com as condições que temos! Ame a mulher que você está agora! Assuma sua responsabilidade sobre esta mulher!

Certamente você nota muitas coisas que quer mudar… Mas que tal começar reconhecendo o que você gosta nesta mulher que você vê no espelho? Olhe para si mesma com mais carinho, compaixão e compreensão! Dê a si mesma o colo que precisa, o apoio e o conselho que deseja! Silencie as vozes externas e mande seu crítico julgador interno ficar calado, dê espaço interno para sua voz amorosa!

Assuma a sua responsabilidade por suas escolhas! E saiba que é a partir delas que todo o resto vai se desenvolvendo! Aos poucos, mas de maneira firme e consistente vá tomando mais e mais consciência!

Independente de qualquer identidade ou papel que definam para você, o importante é que VOCÊ protagonize sua própria vida! Não permita que os outros digam quem você deve ser, ESCOLHA tornar-se a pessoa que você acredita que veio para ser! 

Para Inspirar

Para inspirar deixo para reflexão um trecho do livro Mulheres Visíveis, Mães invisíveis de Laura Gutman:

“Vivemos em uma época especial talvez porque – em plena crise de identidade social – cabe às mulheres segurar as rédeas do pensamento global, dos movimentos espirituais e da ação criativa. Somos nós que teremos de assumir a recente revalorização da energia feminina integrada. Espero que sejamos capazes de abandonar o autoritarismo desgastado e as ideias preconcebidas do passado e consigamos pular no vazio, mesmo sem saber o que nos espera do outro lado.

Abandonar os preconceitos, parar de repetir as mesmas frases que temos ouvido exaustivamente, nos atrever a pensar em liberdade – cada uma a sua maneira e com o compromisso emocional de procurar a si mesma de acordo com a realidade interior – é, exatamente, o que nos permitirá chegar a conclusões, a acertos, a propostas e a desafios diferentes. E assim, talvez, elevar o pensamento em prol das relações amorosas, esperando conquistar um maior conforto nos intercâmbios pessoais”. (p.9)

Que saibamos aproveitar este espaço para nos inspirar, apropriar de nossas conquistas e estar mais cientes sobre nossos desafios! Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Chega de chorar, o que está acontecendo?

Assim começou nossa conversa, em tom estridente, naquela noite fatídica, em que o meu filho não queria dormir no seu quarto.

Eu não sabia quem estava pior. Eu, uma mãe desprovida de autocontrole para aceitar o choro incessante do seu filho ou ele, uma criança normal, de apenas dois anos de idade, que não conseguia reconhecer e nomear seus sentimentos.

O choro foi aumentando à medida que fui me irritando e como última alternativa eu gritei um basta, mas para mim mesma.

Uma voz sussurrou em meus ouvidos:

“Pense em como foi o seu dia. Ouça esse choro em forma de lamento. Acredite, algo ele está lhe dizendo”.

Meu dia foi normal, Voz do Além.  Talvez um pouco agitado e só. Tudo bem, tudo bem, voltemos no tempo.

Trimmm!! Ouvi o barulho do despertador e acordei apressada, coloquei um vestido rodado e um sapato de salto alto, fiz a maquiagem, tomei meu café e como de costume sentei-me no sofá para esperar que o meu filho acordasse.

Porém naquela manhã, eu não podia esperar mais do que cinco minutos e acabei saindo de casa sem me despedir dele.

Voltei apenas no cair da noite, novamente algo diferente, pois jamais passo um dia inteiro longe dele.

É, a tal Voz do Além estava certa, meu dia foi mesmo inusitado e aquele choro tinha nome e sobrenome: saudade da mamãe.

A correria foi tamanha que tomou conta da mente e se esqueceu da alma. Agora é o meu corpo que pede calma.

Deitei-o em meu ombro e comecei a fazer carinho na sua cabeça.

Olho no olho, coração com coração, lágrima com lágrima, perdão com perdão.

Ele adormeceu em instantes, antes mesmo de eu tomar a minha decisão-quarto dele ou meu.

Na verdade, ele decidiu por mim, já que estava em meus braços. Levantei-me e guardei minhas regras e teorias numa gaveta empoeirada lá do porão.

Levei-o para o meu quarto e no meio do caminho encontrei as respostas. Percebi que a força de uma mãe não está nas palavras, mas no eterno caminhar de mãos dadas e que o compromisso é muito mais emocional do que obrigacional.

Deitei-o na minha cama e senti necessidade de falar, imaginando que ele não fosse escutar:

-Filho, a mamãe também estava morrendo de saudade de você, então durma hoje bem aqui do meu lado!

E ao som de um ahhhh ele me respondeu aliviado, como quem ouvia música para seus ouvidos.

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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Olá!  Hoje eu quero falar com você sobre um tema bastante presente no nosso dia a dia com nossos filhos: a autonomia!

Grande parte das mães que atendo, verbaliza o desejo de que o filho seja independente, que aprenda a “se virar”, que saiba se defender. Na prática, o lidar com o crescimento e desenvolvimento do filho e consequentemente o seu alçar de voos, se mostra muito mais complexo e bastante controverso. Não raro, tenho observado uma cultura do medo, uma proteção excessiva, que por vezes, me causa desconforto: crianças presas em seus apartamentos; escolas, que não permitem que seus alunos, nem ao menos, no momento de “recreio”, possam correr, brincarem, expressarem-se livremente.

Nosso discurso, por vezes, se distancia muito da prática: anunciamos que queremos filhos críticos, comunicativos, afetivos e capazes de gerir suas vidas, quando adultos, mas os mantemos distante de nossa convivência no dia-a-dia; buscamos poupá-los das pequenas frustrações, que podem ter, por exemplo, quando perdem num jogo de regras, no picar uma fruta.  Não percebemos, que dessa forma, também evitamos todo o aprendizado que o lidar com esses desafios podem ajudar a construir.

De maneira sutil, muitas vezes, vamos evitando que nossos filhos percebam que feridas podem ser curadas; que erros são humanos e podem ser reparados; que a organização dos brinquedos e do seu quarto, além de ser importante para o cuidado e a participação no espaço familiar, pode ser o início do  perceber-se capaz de assumir responsabilidades.

E por que fazemos o que fazemos?

Exauridos pelo trabalho, encarcerados em nossas próprias preocupações, quando é que olhamos nos olhos, ouvimos com o coração, conversamos, orientamos ou brincamos com nossos pequenos?

Quando é que estamos inteiros e nos permitimos estarmos presentes, sentindo prazer na companhia de nossos filhos?

Quando é que nos sentimos preparados para apoiá-los a desenvolver suas potencialidades e lidar com suas fragilidades?

Que somos seres da contradição, que nos pegamos muitas vezes sentindo, pensando e agindo de formas totalmente dissonantes, não é novidade. Aí reside nossa humanidade!

E a maternidade, é sem dúvida, uma das experiências grandiosas, que nos coloca diante dessas contradições, de nossos próprios “monstros”, nossos medos e “nós” mais intensos.

E, exatamente, com esses desafios, com esses “entraves internos”, que a maternidade nos apresenta, eu acredito que venha a possibilidade de nos questionarmos, de quebrarmos padrões que reproduzimos de forma mecânica, muitas vezes.

A maternidade ao nos confrontar, nos “cospir verdades à cara”, nos traz inquietações e aponta para aquilo que não faz sentido  conosco mesmas e nas relações que vamos construindo.  Ao nos deixarmos nos conduzir “por essas águas nem sempre mansas” podemos encontrar o que realmente desejamos para a educação de nossos filhos e buscarmos compreender o quanto estamos em concordância em nosso sentir e agir.

“A diferença entre o remédio e o veneno está na dose!”

Não é isso que ouvimos tantas vezes em nossas famílias?! Pois é, a minha vivência pessoal e troca com outras mães validaram essa frase para mim!

Por isso, eu tenho compreendido cada vez mais que, a disponibilidade para olharmos para nossas dores internas, para compreendermos a maneira como exercitamos nossa própria autonomia e o modo como vamos construindo nosso espaço de convivência, as regras em nossas casas, com nossos pequenos será uma importante bússola para nos orientar nesse caminho do limite de forma amorosa. No encontro da “nossa dose” entre apresentar possibilidades e o cuidar! Entre o proteger e o superproteger! Entre o reprimir e o permitir experimentar o mundo!”

A nossa auto-observação, o mergulho em nossas vivências  poderá nos trazer clareza acerca de nossas relações com nossos filhos e sobre como essas ações nos aproxima ou não daquilo que desejamos para o desenvolvimento da independência de nossos filhos.

Uma vivência curativa

Há algum tempo, meu filho, então, com seis anos, foi com os colegas da escola, ao seu primeiro acampamento: três dias fora de casa! A despeito dos dias que antecederam terem sido recheados de conversas, treino ao banho, organização dos próprios pertences (…) um misto de alegria, orgulho, receio e insegurança se fez presente em nosso contexto familiar naqueles dias.

Ainda por essa ocasião, várias mães, colegas que têm filhos da mesma idade, me disseram que não “teriam coragem” de deixar seus filhos experimentarem essa aventura! Sentia nessas falas pitadas de reprovação, insegurança misturadas à certa inveja e até solidariedade. Como mexe conosco “a saída da cria de nosso domínio!” Confesso que chorei, à noite! Que desejei receber um telefonema pedindo para buscá-lo! E, me alegrei, também, ao vê-lo espontâneo e sorridente nas fotos que recebi!

A experiência, sem dúvida, me trouxe transformações verdadeiras, permitindo-me olhar para minha condição de mãe de um garotinho arriscando-se em seu primeiro “voo solo”. Tive a possibilidade de perceber o quanto ele tinha se desenvolvido e como suas necessidades eram de poder ampliar sua conexão com outras pessoas.

Assim, me permiti pensar e sentir a respeito da autonomia, nos modos como a independência interna vai sendo constituída. Pude revisitar as minhas primeiras saídas sem meus pais, o medo sentido,  a insegurança frente ao novo e a sensação incrível de liberdade, do “eu dou conta!”.

“Linha à Pipa”

A experiência com meu filho me fez pensar na alegoria do aprender a “dar linha à pipa”. Sim, as coloridas, alegres e aventureiras pipas nos ensinam muito: se as deixamos muito soltas ou não cuidarmos de suas linhas, podem desaparecer na imensidão azul…por outro lado, se não nos arriscarmos a dar-lhes linha, se tivermos medo de perdê-las, sequer vamos arriscar soltá-las; não vivenciaremos a festa intensa que podem fazer lá em cima!

Os voos que nos são permitidos ou negados, na infância; o incentivo que recebemos ou não; a confiança que aos poucos nos vai sendo depositada, certamente é parte edificante do como nos vemos, de nossa segurança interna, do quanto nos permitimos tentar, ousar, lidar com o erro…

Ao olharmos para nossos pés, para a caminhada que percorremos através de nossa história temos a oportunidade de nos conhecermos, de percebermos nossas forças e nossas possibilidades, bem como, os desafios que fomos capazes de enfrentar. Assim, entendo que podemos olhar, também, para a nossa contribuição, o nosso modo de apoiar os “voos” de nossos filhos.

Entendo que não se trata de nos olharmos com dedos acusatórios, caso nos vejamos muito distantes do que desejamos para a independência dos filhos.  Podemos escolher, sim, olhar para os passos que podemos dar na direção que sonhamos; nos permitindo sentir, experimentar e aprender na caminhada lado a lado com nossos pequenos.

A partir dessa nossa conversa, eu gostaria de te perguntar: 

Quanto você tem se permitido arriscar em busca de seus sonhos? Quais lembranças você tem sobre seus primeiros passos “fora do alcance dos olhares de seus pais?” De que forma isso pode interferir no modo como você lida com a independência do seu filho?

Ao olhar pra seu interior e se permitir esses questionamentos, eu acredito que você poderá encontrar muitas das respostas ao modo como encara o desenvolvimento de seu filho, às pequenas frustrações que ele enfrenta; os voos que realiza e às conquistas que alcança!

 

Texto de autoria de Andréia L. Rafael Quintelia – Psicóloga, coach de mães e participante do Zum Zum de Mães. Se você quer conhecer melhor meu trabalho, me acompanhe no Instagram: @andreiaquinteliacoach ou no Facebook: Tecendo Vínculos. Você pode, também, entrar em contato, através do cel (11) 971823324.

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 Sobre as Dores

        Meu primeiro puerpério foi doído. Foi maravilhoso, lindo, lindo! Mas doeu demais. Lembro de me sentir tão frágil, de chorar intermináveis lágrimas com meu bebê no colo.Lembro de gente me tirando ele dos braços, dizendo que ele chorava de calor (e eu sabia que não era de calor). Lembro de ficar paralisada, sem reação, fragilizada….enquanto me tiravam ele do colo sem minha autorização, pra tentarem resolver um choro que só eu podia resolver.

       Lembro de um dia estar amamentando e chorando baixinho no quarto, pra família lá fora não escutar. Chorava em silêncio, até que olhei para o meu bebezinho. Ele tinha feito dois meses. Me olhava quietinho, os olhinhos vidrados em mim…. até que uma lágrima escorreu desses olhinhos, o rosto dele imóvel. Nessa hora, senti a primeira força do puerpério. Basta! Levantei decidida. Chamei meu marido: “- vamos embora agora”. Peguei a malinha do bebê e fui arrumando minhas coisas. Ele não perguntou nada, tamanha era a minha certeza. Levantou-se e pois se arrumar as coisas.

        Meu marido é um homem maravilhoso, mas lembro de nunca ter sentido tamanha solidão.

Quem está cuidando de você?

Uma vez uma tia avó me telefonoupara dar os parabéns pelo bebê. E aquele papo básico de resposta pronta: Como está o bebê? Tá dormindo? Mama bem? Etc, etc…  Eu já estava até acostumada a perguntarem só do bebê, até que ela me disse: ” – E você, filha? Quem é que está cuidando de você?” Silêncio. Meus olhos encheram d’água. Eu não sabia que precisava de cuidados. Como assim? Sou eu quem cuida… Desliguei o telefone e chorei loucamente. Eu precisava de cuidados! Eu precisava desesperadamente de cuidados. Mas não havia ninguém disponível….

       É uma dor que pega a gente desprevenida. Lembro de não saber porque doía, mas que todas as esferas do meu ser ardiam como feridas se abrindo, cada hora em um lugar. “Seu filho bebê anjo! Todo bonzinho! Dorme a noite toda. Não entendo porque você está tão mal….você deveria agradecer por esse bebê.” E você se sente toda errada porque tem um bebê anjo no colo e sente vontade de chorar o tempo todo. Não é que eu não agradecia…. agradecia TODOS os dias. E por isso mesmo estava perdida nesse sentimento. Eu tinha no colo o bebê que havia pedido a Deus, um companheiro que me amava, um canto nosso…. Eu não tinha o direito de me sentir assim. Ao menos era o que eu pensava. E me culpava por minha própria dor.
       Chorava sozinha. Meu marido dormindo na sala, vendo tv noites e noites. Ele trabalhava demais. Mas eu tinha raiva porque precisava de um abraço. Eu só queria um abraço. Eu só queria um colo nas vezes em que sentava na cama o mais longe possível da janela, com medo de fazer uma bobagem. E o abraço não vinha. “Como ele pode dormir? Como ele pode ficar fazendo graça com bebê se eu estou assim? Como ele pode fingir que nada acontece comigo? Como ele pode não me abraçar se sabe que estou chorando no quarto por horas?” Esses sentimentos todos eram insuportáveis e acabei me desconectando deles. Era a única coisa que eu podia fazer. E com isso, também me afastei um pouco do meu marido. Sempre fomos um casal cheio de amor. Mas as certezas se apagavam em meu coração.

A força transformadora da verdade…

       Depois de uns 4 anos, engravidei de novo. Amei estar grávida, ambos queríamos muito um outro bebê. Mas estávamos num momento ruim de casal, brigando o tempo todo. Fiquei pensando por muitos dias que não queria passar nada daquela solidão de novo. E de alguma forma, eu o culpava por isso. Como poderia fazer para ele não me abandonar de novo? Não podia força-lo. Cada um tem seus próprios sentimentos e se ele não quisesse me acolher, não haveria nada que eu pudesse fazer. Fiquei remoendo isso um bom tempo, até que o medo ficou insuportável. Tomei coragem e falei com ele. Foi muito difícil, mas fui ganhando força com minha própria verdade. E contei tudo. E disse que nunca mais queria passar por aquilo de novo. Se eu passasse por aquilo de novo, não sei se conseguiria ficar conectada a ele. Eu não queria fazer nenhum tipo de chantagem emocional, na verdade estava apavorada.

       Mas cresci aprendendo que a gente não deve se expor tanto num relacionamento. Aprendi que quando a gente se põe frágil, o mundo passa por cima, os homens não te valorizam, as pessoas se cansam de você. Então fiquei esperando que ele revidasse. Ou pior, muito pior, que ele me rejeitasse. Mas ele nem se defendeu. Ficou quieto, bem quieto. Depois de alguns segundos, me disse: “eu só fico triste que você não confiou em mim para falar isso antes e ficou sentindo isso o tempo todo. Não vai ser igual dessa vez, mas fala! Você precisa falar as coisas.” E me abraçou.

       Curioso como a gente, às vezes, imagina que os outros têm obrigação de saber o que se passa conosco. Ou que são responsáveis pelo que a gente sente. Algo dentro de mim o culpava pela minha dor. Foi muito bom perceber a força que tem você simplesmente falar o que sente. Ao tomar coragem de falar, me senti forte para aceitar que ele me rejeitasse. E ele se sentiu agradecido por eu abrir esse canal. Ele teve espaço pra contar como foi com ele. Eu estava tão imersa em minha dor que não consegui vislumbrar a dor dele. A verdade é que nem eu sabia bem o que estava sentindo, e ao colocar pra fora, fui ganhando clareza. Percebi que essa solidão já estava transformada. E percebi o quanto pra ele também foi solidão e dor. O quanto a criança dele também gritou em silêncio e eu não ouvi.

       Quantas vezes me calei, me enchendo de raiva porque ele dormia na sala enquanto eu chorava. E dentro da cabecinha da minha criança ferida, eu estava sendo ignorada. De novo, meus sentimentos não eram importantes. Mas ele não sabia que eu estava chorando, ele não sabia de quase nada! Eu não falava. E ele estava no processo dele mesmo, trabalhando exaustivamente, e batalhando pra vencer sua própria dor. Apagava em frente a tv para manter sua própria sanidade. Cantarolava após uma discussão para se acalmar e poder manter um clima bom na casa, e não pra afrontar meus sentimentos..

O primeiro puerpério doeu absurdamente e eu agradeço por essa dor. E agradeço por ter tido coragem. Eu tive um bebê anjo, que quase não chorava e dormia das 7 às 7. Eu sempre sabia o que fazer para acalmar e fortalecer esse bebê. Hoje eu tenho um bebê bem mais desafiador, tudo está bem mais difícil no dia a dia. Muitas vezes me sinto perdida, não sabendo o que é melhor para esse bebê. Mas não me sinto só com minhas dores. Pude dividi-las com quem mais importava, e juntos achamos caminhos para lidar com isso. Por muitas vezes, ainda tenho que deixar bem claro que eu não quero uma solução. Não quero um conselho. Não quero uma opinião. Tenho que deixar claro que eu só quero um abraço. Um abraço que dure mais de 20 segundos. Um abraço para eu poder me soltar ali. Ou um colo, um ninho, um travesseiro nos braços dele.

         Por que isso ainda não é óbvio para ele e meu erro foi achar que era, ou que ele deveria adivinhar. Gostaria muito que ele sempre adivinhasse e hoje ele percebe muito mais quando as coisas começam a sair dos eixos dentro de mim. Mas a verdade é que quem está dentro da gente é só a gente mesmo e só a gente pode botar para fora. Demorei 5 anos para descobrir isso, começar a curar meu relacionamento e essa criança ferida que gritou tanto. Então, agradeço de novo por essas dores. Elas me devolveram o amor por meu companheiro, um amor muito mais inteiro.
         Como as dores do puerpério são transformadoras! Às vezes acho que nada nesse mundo tem tanto poder quanto as dores de um puerpério. Ainda que ele dure 5 anos…

Este texto foi escrito Chantal Tambara, mãe de dois, dentista e participante da turma 6 do Zum Zum de Mães.

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Queridas mamães, é a primeira vez que escrevo para vocês e gostaria de compartilhar o motivo que me levou a conhecer a Escola de Pais Bee Family e como isso foi impactante na minha vida.

Mudança de rotina

Logo após ter minha primeira e única filha, a Maria Luíza, que atualmente está com quatro anos, pensei que enlouqueceria nos primeiros três meses. Eu queria manter a amamentação e, como ela chorava muito e era magrinha, tive muitas dúvidas se o meu leite a estava nutrindo adequadamente.

Apesar das dificuldades, mantive a amamentação até os três anos e meio da minha filha. Acredito que, após o término da licença maternidade, continuar amamentando era uma forma de manter o vínculo, já que trabalho o dia todo e a minha pequena permanece período integral na creche.

Enfim, acredito que o término da amamentação foi mais difícil para mim do que para a Maria Luíza.

O fato é que, durante o primeiro ano de amamentação, engordei muito. Eu acordava várias vezes durante a noite e, creio que, para combater o cansaço, comia  várias vezes por dia e tomava muito café, independentemente do horário.

Assim, dormia pouco, me alimentava mal e ainda tentava estudar em casa após um dia inteiro de trabalho e após a Maria Luíza dormir. Enfim, essa rotina me deixou estressada e irritada.

Tomada de Consciência e necessidade de mudança

Procurei ser mais produtiva, já que não é possível aumentar as horas do dia e, durante minhas buscas por orientação sobre o assunto, li o maravilhoso livro “Produtividade para quem quer tempo”, de Gerônimo Theml. Nele, há uma recomendação interessante de escrever uma espécie de diário, em que devo listar todas as prioridades para o dia seguinte, informar o que eu aprendi com as experiências do dia e, por fim, listar três coisas para agradecer.

Colocando em prática esse ensinamento do livro, os dias foram passando e notei, ao reler referido diário, um arrependimento que sempre aparecia, principalmente nos dias em que eu estava mais cansada: falta de paciência com a minha filha, irritação com suas birras. Assim, a elaboração de tal diário me deixou consciente de que eu deveria fazer algo para mudar essa situação. Já não bastava constatar o problema, que me deixava imensamente triste. Eu já tinha clareza do problema e precisava buscar uma solução.

Escola de Pais Bee Family

Com esse objetivo na mente, chamou-me a atenção um vídeo da Clarissa Yakiara no facebook sobre a abertura de uma nova turma para o curso Zum Zum de Mães: “um programa diferenciado e acolhedor para mães que desejam falar abertamente sobre limites, raiva, falta de paciência…”.

A Clarissa me passou muita paz, segurança e, principalmente, o equilíbrio que eu tanto buscava. Eu queria ser aquela mãe calma, centrada e linda do vídeo. Aposto que muitas de vocês também desejam isso, não é?!

Não tive dúvidas. Era a minha oportunidade de melhorar essa parte da minha vida, que tanto me angustiava.

Comecei a assistir as aulas, fiz os exercícios e o que guardei de mais valioso foi a necessidade de “estar presente”, consciente, e de ser melhor a cada dia, procurando ser um exemplo para minha filha.

É claro que muitas vezes saio da rotina e acabo cansada, caindo na mesma armadilha e perco a paciência, no entanto, é mais fácil agora recuperar o centro, ficar presente novamente, enxergar de fora o meu comportamento e “ajustar as velas”.

Ser feliz para criarmos filhos felizes

O fato de procurar ser uma pessoa mais realizada para ser uma mãe melhor, me levou a buscar evoluir em outras áreas da vida.

Assim, incluí a rotina de praticar atividade física no meu dia-a-dia, dormir as cerca das sete horas diárias que necessito para me sentir bem disposta e me alimentar melhor.

A rotina que é tão importante para as crianças e inclui essas três atividades fundamentais (sono, alimentação saudável e atividade física), também é importante para nós adultos, para que haja equilíbrio e energia necessários para enfrentarmos o dia e sermos mais produtivos.

Sei que, assim como eu, você se cobra muito, procurando ser perfeita em tudo. No entanto, não somos perfeitas. O que precisamos é nos aperfeiçoar e procurar melhorar um pouquinho a cada dia. Quem já não ouviu aquela frase: “feito é melhor do que perfeito”?

É bem isso. Antigamente eu me torturava pensando: não nasci para isso, não nasci para aquilo. Não levo jeito para ser mãe. Não tenho habilidade para tal coisa. Com o tempo e a disposição adquirir hábitos saudáveis, percebi que precisamos tentar, errar e fazer melhor da próxima vez. Os erros não são mais do que oportunidades de aprender e prosseguir até atingirmos nossos objetivos.

Nascemos com facilidade para a aquisição de certas habilidades, no entanto, as dificuldades em determinadas áreas da vida não podem nos impedir de tentar, treinar e melhorar.

Somos exemplos para nossos filhos

Somos um exemplo para nossas crianças. Assim, a prática de bons hábitos em nossa rotina é percebida e internalizada por nossos filhos.

É muito fofo ver a minha filha me imitando fazendo exercícios, sendo extremamente carinhosa com as próprias bonecas.

Por outro lado, ela fica tão insuportável quanto eu quando está com sono, cansada. Quero mudar esse comportamento nela. Então, devo mudar esse meu comportamento também, pois percebi que essa atitude da minha filha apenas reflete o meu  próprio comportamento.

Desejo que minha Maria Luíza se sinta segura e amada em nossa casa, que adquira valores como honestidade e respeito. Desejo que ela possua motivação para correr atrás dos próprios sonhos e, nas dificuldades, seja resiliente. Assim, devo ser um exemplo de tudo isso para ela.

As intenções acima ficaram evidentes após um exercício proposto numa das aulas do curso Zum Zum de Mães. Tal exercício proporcionou a clareza que eu e meu marido precisávamos na condução da educação da Maria Luíza.

Agradeço à Clarissa Yakiara que, por meio do Zum zum de Mães, me ajudou a ser uma pessoa mais consciente, olhar para mim, procurar suprir minhas próprias necessidades e ir atrás da minha felicidade e realização, para ser uma mãe inspiradora para minha filha.

Giulianna P. Barbosa, mãe da Maria Luiza (4 anos) e participante do Zum Zum de Mães.

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