Eu olhei para aqueles olhinhos atentos e brilhantes, de um jeito que só ele me faz olhar, e disse com o coração: “Você é a minha vida.” Sem espera, recebi a mensagem que eu tentava internalizar há anos com a clareza e simplicidade de uma criança, e um sorriso gostoso de acolhimento: “Mamãe, mas como eu sou a sua vida, a vida do papai, a vida da vovó, a vida de todo mundo?”

A Verdade encontrou a porta aberta

Como Coach em Saúde Holística e Nutrição Integrativa e, com todos os treinamentos, estudos e pesquisas, me certifiquei de que a ferramenta mais poderosa para processos de desenvolvimento pessoal são as perguntas, não quaisquer perguntas, mas aquelas que nos fazem refletir profundamente sobre um nível ainda não consciente, que trazem à tona sentimentos a desvendar, ou mesmo desvendam sentimentos e permitem aqueles momentos ‘AHA!’, em que nos descobrimos um pouquinho mais. Para isso acontecer, precisamos estar dispostos e confiar no processo.

Aquela pergunta do meu pequeno encontrou a pessoa certa, no lugar certo e no momento certo. Eu, enfim, estava aberta para receber essa verdade. Como eu poderia colocar sobre o meu filho de 3 anos a responsabilidade da minha vida? Mesmo que inconsciente, era o que eu estava fazendo.

Você me permite que eu lhe conte um pouquinho da nossa história?

Em um tempo não muito distante, mas muito diferente…

O pôr-do-sol era de uma beleza envolvente, o vento chegava forte anunciando uma noite inquieta e já começava a agitar aquele mar que se perdia no horizonte. Não importava a direção em que eu olhava, o mar se perdia no horizonte. O Sol, por sua vez, imponente e me desejando luz, tinha toda a minha atenção naqueles últimos minutos de céu claro. Eu estava sentada, imóvel, agradecendo por aquele momento e pedindo para que ele durasse mais. Quem me visse ali, ou melhor, quem visse aquela cena, como uma imagem congelada no tempo, diria que eu havia alcançado o sucesso e não podia desejar outra vida. Será?

O mais interessante é que eu fiz tudo certo para chegar até ali e pode ser que você se identifique com essa trajetória. Para resumir, desde que me entendo por gente (aliás, essa é uma expressão que cresci ouvindo e provavelmente dá outra história), cresci como uma aluna exemplar e uma filha tranquila e sorridente. Estudei a vida toda em escolas públicas e me destacava em notas e comportamento. Emendei na Universidade e, antes mesmo que acabasse, passei em um concurso para ter o emprego dos sonhos de todo brasileiro. Pronto. Eu havia trilhado o caminho do sucesso ensinado pela sociedade. Eu havia agradado tanta gente nesse caminho. E, não de repente, estava lá sentada, a poucos instantes de me concentrar naquele trabalho dos sonhos, pensando: “Que direito eu tenho de desejar outra vida? Por que não sou apenas grata por tudo que conquistei?”

Era um conflito interno muito forte que eu vivia, era doloroso, sintomático, tinha reflexos na minha saúde, na minha paz, na minha felicidade. A depressão já era bem conhecida, altos e baixos se tornaram comuns. Os questionamentos que eu me fazia se intensificavam, mas a confusão dentro de mim permanecia grande e eu escolhia ficar no lugar de costume, na zona de conforto. Percebe que essa que chamamos de zona de conforto pode não ser mesmo confortável? É, na verdade, onde os riscos já são conhecidos e os desafios não superam as nossas habilidades. É uma zona de apatia, tédio ou relaxamento.

Eu tinha lampejos de felicidade quando me conectava a algo que fazia minha alma sorrir, que me fazia sentir amor pela vida. Dançar, sonhar com uma vida mais leve, com a natureza presente para ser admirada e preservada, não explorada, escrever sentimentos, desenhar planos mirabolantes de fuga, eu fazia tudo isso, me libertava por instantes e, em seguida, guardava a minha liberdade em uma caixinha dos desejos, num cantinho escuro e escondido. Não passava pela minha cabeça que o conteúdo da caixinha eram peças do grande quebra-cabeça que eu tentava desvendar. Então, eu retornava para a vida que eu conhecia, a vida certa para uma pessoa bem sucedida, a vida que agrada quem olha e que eu não reconhecia como minha.

Tempo de despertar a consciência

Acredito que ocorrem alguns momentos em que se abre um portal de conexão com uma sabedoria maior, com um plano espiritual, com algo a que pertencemos, mas nem sempre temos consciência desse pertencimento. Lembro de sentir que era chegado o tempo de me tornar mãe, como se tivesse algo antes combinado. Engraçado escrever isso agora porque João e eu sempre fechamos um acordo nosso dizendo: “Combinado!”. E foi assim, eu acreditava que seria mãe até os 30, me tornei mãe aos 30, e esse portal divino estava aberto. Eu me permiti receber a luz da consciência, me permiti receber o presente de conexão com a vida em essência, bela e simples. A pureza do olhar do meu filho me fez compreender o amor. Eu percebi, então, que era responsável por duas vidas, a dele e a minha.

Meus 30 anos, um divisor de águas. Não havia mais tempo para depressão e, melhor, não havia mais motivo. Eu havia compreendido o sentido da minha existência. Assim eu acreditava. O João se tornou a minha vida, repleta de felicidade e amor. Por ele e por amor, eu tirei aquela minha caixinha do cantinho, comecei a questionar se aquilo tudo podia se encaixar nessa minha nova visão de mundo. Quanto mais eu mexia, mais eu percebia que eu sempre estive lá, apenas não havia ainda me encontrado. Cada dia, uma ou mais descobertas. Foi um tempo mágico, milagroso.

Afeiçoada aos estudos e pesquisas, uma prática de toda a vida, comecei a me dedicar à abertura de um novo caminho, que estivesse alinhado aos meus princípios e valores. Mais rápido do que pensava, estava dando grandes passos para a minha liberdade, um movimento de dentro para fora, um movimento pela vida. Como um dos maiores atos de amor próprio que vivi (hoje percebo isso), decidi deixar a carreira dos sonhos de outras pessoas e tornar os meus sonhos realidade. Mudei de estilo de vida, mudei de endereço, mudei de trabalho. Sem muito planejamento e metas definidas (algo que não recomendo e também é assunto para outra conversa), abandonei a minha zona de conforto.

Tempo de viver e deixar viver

Tudo estava fluindo melhor, o ar era mais leve. Os desafios eram crescentes e sempre mais libertadores. Educar o meu filho de acordo com o que eu acredito bom era e continua sendo o maior desafio. Não é fácil se libertar das amarras com que crescemos, mas é plenamente possível. Apesar de sentir que eu seguia com amor e verdade, algumas peças do meu quebra-cabeça faltavam e outras pareciam ter sido posicionadas erroneamente. Com o tempo, um sentimento antigo que eu não aceitava mais insistia em aparecer. Como aquele vazio da depressão poderia surgir de novo se eu já conhecia o sentido da minha vida?

Dia após dia, dificuldades e conquistas, pensei em desistir e, ao mesmo tempo, não poderia desistir da missão que eu reconhecia pra mim e se afirmava a cada passo. Quando você inicia um processo profundo de autoconhecimento, você começa a ver o que não via e não tem como (des)ver. Fingir que não vê é se dar um atestado de infelicidade. Eu não queria essa opção. Decidi, então, acreditar mais e entregar para o Universo porque a resposta viria.

Eu digo que a depressão causa cegueira porque o caminho fica enevoado e difícil de percorrer. Quando confiamos que há algo maior e nos conectamos a essa crença, podemos finalmente fechar os olhos e seguir o coração. O ciclo virtuoso da prosperidade e abundância começa a se manifestar. As respostas surgem com clareza. Foi assim que, ao libertar o meu sentir novamente, o pensar e o querer reencontraram o seu fluxo. Foi a segunda vez que, consciente, senti um amor que não conhecia, o amor por mim.

Vou recapitular e acrescentar! Eu me tornei mãe e percebi que era responsável por duas vidas, a do João e a minha, mas essa verdade foi assimilada em tempos diferentes e em níveis diferentes de consciência. Primeiro, conheci o amor puro e incondicional de uma criança, que amoleceu o meu coração e fez com que eu unificasse as nossas vidas para que a minha fizesse sentido. Esse amor preparou o terreno para a descoberta mais recente, o auto amor ou amor próprio, em construção. Agora, tenho uma percepção mais aguçada da responsabilidade sobre a minha vida, minhas escolhas, minhas palavras, meus pensamentos, sentimentos e ações.

Através do olhar de uma criança, aprendi a amar. Através do seu sorriso e de suas palavras, aprendi a viver e deixar viver.

“Mamãe, como eu sou a sua vida…?”

Isso não fez sentido para ele e não fazia mais sentido para mim. Meu filho faz parte da minha vida, mas eu não tenho o direito de fazer dele a minha vida. Hoje, enxergo a beleza de guiá-lo para que cresça livre e feliz, para que tenha tempo e espaço de descobrir e abraçar a sua bio-individualidade, para que viva com amor e verdade.

Eu não tenho o direito de responsabilizar outra pessoa, quem quer que seja, pela minha felicidade Hoje, sei que tenho muitas descobertas por fazer, estou no início da minha jornada de desenvolvimento pessoal, cada dia cultivo uma conquista, todo dia encontro o meu sucesso e coloco mais uma peça no quebra-cabeça da vida.

 

Este texto foi escrito por: Cibele Calderan, mãe do João de 3 anos, criadora do Espaço Vice Versa, movimento pela vida, e Consultora de Bem Estar dōTerra. Reconhece como sua arte, sua missão, semear a mensagem de conexão com a vida, que permite o educar alinhado à natureza do ser, com amor, respeito e liberdade, e promove o cultivo de uma cultura sustentável. Saúde Holística, Nutrição Integrativa e Permacultura para Mães e Famílias com crianças de até 7 anos.

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Nas sombras que se aproximam, esgueiradas por entre as frestas abertas que me permitem enxergar, vejo nuvens densas, corram que lá vem vindo uma tempestade! Procuro os culpados para descarregar minha frustração e minha raiva, mas quando os encontro, são rostos tão conhecidos e até amáveis em sua maioria. Tempos difíceis esses para se amar e respeitar o próximo.

Porém não existem culpados pela minha raiva, tudo e todos os fatores externos a mim são apenas gatilhos para desperta-la, ela me pertence e hoje entendo e a aceito de bom grado, afinal é um sentimento humano.

A raiva é minha apenas, emerge das profundezas do meu eu até a superfície, vem nua despida dos moralismos históricos empurrados goela abaixo, vem sem os disfarces de costume, sem maquiagem e me encara em toda sua plenitude, ela é devastadora e assustadora demais. Me surpreendo por ela me ser tão intimamente desconhecida, afinal disseram-nos que ela é ruim, que devemos ser boazinhas, que não é certo senti-la, então mocinha a esconda, sorria e siga em frente. Ela me diz debochadamente que sempre esteve aqui, e agora que estamos face a face vejo toda sua força, sua rebeldia. Corajosamente à assumo, me permito senti-la com toda a sua potência e então eu grito alto, pego um travesseiro e abafo inesperados urros viscerais, a fera está acordada, por longos minutos soco com toda minha força o travesseiro, ela vai se alimentando, aos poucos se contentando, saciada por hora vai então diminuindo, vira uma lágrima e transborda em um lamento de impotência.

E me vem enfim a clareza, um lampejo da verdade, da minha verdade, eu continuo e preciso continuar em busca dos caminhos do amor, digo a minha raiva que posso senti-la, que vou tentar acolhê-la sempre quando ela vier, mas peço que ela não se iluda, não é ela que vai me guiar. É por tolerância e amor à minha busca, é onde me fortaleço e fortaleço minhas convicções, porque se eu agora simplesmente passar a desejar devastação, apenas para dizer ou provar que eu estava certa, se assim eu fizer, eu terei então mudado de lado, estarei então jogando o jogo do ódio e alimentando esse ciclo tenebroso implantado em nossa sociedade!

Me recuso a sucumbir ao ódio, à raiva e à revanche, entendo que as pessoas têm diferentes vivências que as levaram a percepções e escolhas diferentes das minhas, prefiro desejar que lá na frente estejamos todos juntos novamente envoltos pela mesma esperança de dias melhores. Continuo desejando igualdade, empatia e respeito para com às minorias, com as maiorias e com todos aqueles que têm por direito serem diferentes de mim e do que eu acredito.

Vou ensinar minha filha a ser tolerante, resistente, potente, senhora de si, livre de amarras, livre para os caminhos que o amor a levar… O meu maior legado para o mundo será mais uma consciência desperta, para isso eu estudo, penso, procuro nos ensinamentos do mestre dos mestres, mergulho no amor do criador, me conheço, me reconheço, me reviro do avesso, revelo com honestidade minhas fraquezas, trago luz às minhas sombras, leio, releio, repenso, pondero, perdoo e sigo na busca, abrindo as portas, olhando para frente, paro alto, para além dos véus que aos poucos e a duras penas vão sendo removidos da frente dos meus olhos.

 

Este texto foi escrito por: Vivian Pessoa, mãe da Ive de 2 anos e 8 meses e participante da turma 5 do Zum Zum de Mães.

 @viviancpessoa

 vivian.pessoa@globo.com

 

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Depois de uma boa noite de sexo, sentei-me à mesa do café da manhã, como quem acaba de encarnar Buda.

Minha mente zen fez cócegas no meu autoboicote e em tudo que eu julgo difícil, complicado ou impossível.

Meu marido sentou-se à minha frente e me deu uma piscadela, como quem queria rir da nossa noite ou apenas continuar aquele gozo dia afora.

Tentamos comer sem pressa, ao som da Galinha Pintadinha e de vários esbarrões nas cadeiras, daquele menininho lindo correndo em volta da mesa.

Um grito tomou conta do ambiente. Um tombo, um mau jeito na perna do meu filho e um choro longo, desses de novela mexicana. Sentei-me delicadamente no chão, na intenção de mostrar o meu apoio por ele e fiz um gesto com os olhos, para demonstrar compaixão.

Não estava acreditando na minha tranquilidade, em momentos como esse como seria o meu comportamento? Correr para pegar o gelo, abanar, assoprar, beijar, gritar, assustá-lo ainda mais.

Tive a sensação de sair do meu próprio corpo para me observar. “Ei, você? Tomou alguma droga, chegou da aula de yoga, está em estado de transe com o corpo celestial da paz?”

É, não estava me reconhecendo, e obviamente o meu filho também não. Em poucos segundos ele parou de chorar e devolveu-me um olhar de cumplicidade. O silêncio parecia tomar conta do seu pensamento e prepara-lo novamente para a próxima brincadeira.

Lembrei-me do café na xícara, já gelado, mas não me importei, bebi com gosto, desejo de molhar os lábios. Se fosse outro dia, talvez reclamasse da temperatura e do gosto amargo.

Sim, a sensação de “good vibes” soava falso, mas eu sabia que não era.

Um súbito pensamento me ocorreu. O sexo, como fonte máxima de prazer, conexão e entrega teria esse poder de tirar os meus pés do chão?

Aliás, ouso indagar se qualquer caminho de entrega fiel e libertadora não teria esse mesmo efeito avassalador.

Não me chamem de herege, mas vou comparar o sexo com a religião.

Sou religiosa, mas jamais me encontrei em um estado de crença tão sublime a ponto de mudar a minha vida, mas sou testemunha de que algumas pessoas já passaram por essa situação.

Conheci um homem que morreria em seis meses, segundo a medicina, mas morreu apenas dez anos depois, simplesmente porque tinha muita fé, algo transcendental, que não se explica. Apenas se agradece, pois engrandece.

A meditação também gera essa transcendentalidade. É uma filosofia de vida, que quando praticada em alto nível coloca a pessoa em sintonia máxima da mente com o corpo humano.

Já ouvi dizer que os monges não fazem sexo, porque encontram essa plenitude máxima de paz interior quando estão meditando.

Sem maiores julgamentos às crenças e aos costumes religiosos ou meditativos, o fato é que ainda não consegui alcançar essa plenitude máxima com a meditação ou religião.

Oxalá, meu marido, que pode se dar bem nessa, caso eu passe a acreditar que preciso de sexo para ficar zen.

Brincadeiras à parte, esta reflexão serviu para me mostrar o caminho da entrega. Talvez eu não soubesse antes da maternidade o que era me despir sem medo de ser feliz.

E não é só isso, talvez me falte transar com a própria vida, valorizar mais meu tempo com o meu filho, amigos e família.

Transar no dicionário é também: “gostar de, deleitar-se com, apreciar”.

É isso, TRANSEMOS MAIS!

 

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

 

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“Pedidos deslocados” é um conceito fundamental para analisarmos nossas relações. Afinal, acredito que todos somos capazes de admitir que a comunicação é um dos principais desafios das relações humanas! O DIÁLOGO costuma ser sempre apontado como solução para os conflitos entre casais, entre pais e filhos e em todas as relações que estabelecemos!

E como dialogar com o outro se, por vezes, não dialogamos nem mesmo conosco? Será que sabemos MESMO nossos desejos, sentimentos e necessidades? Como comunicar ao outro coisas das quais não temos clareza?

Somos capazes de pedir o que realmente precisamos?

Assim, antes de falar de nossos filhos, eu proponho um desafio! Que tal: olhar internamente e perceber quantas necessidades estamos reprimindo? Quantos papéis estamos preocupadas em desempenhar e como nos esquecemos de nossas NECESSIDADES?! 

Temos imensa dificuldade para falar de nossos sentimentos, emoções e, principalmente, de nossas necessidades! Afinal, estamos acostumadas a reprimir ou mesmo “deslocá-las” para comida, doces, compras etc. Neste nosso mundo tecnológico também as deslocamos para as redes sociais – Whats App, Facebook, Instagram – e tudo o que possa nos desviar de olhar para dentro!

A grande questão é que, apesar deste esforço, nossas necessidades não desaparecem! Na verdade, elas se transformam: em sintomas, em estresse, em explosões… Estamos tão fora da sintonia de nossas necessidades que, por vezes, perdemos até mesmo a conexão com elas! Para refletir um pouco mais leia: 2° Passo para ser feliz: EQUILIBRAR-SE! Assim, acabamos manifestando o que Laura Gutman denomina de “pedidos deslocados”:

“Quando os adultos não conseguem reconhecer com simplicidade e senso lógico uma necessidade pessoal, tampouco conseguem compreender a necessidade específica do outro, menos ainda se tiver sido formulada em um plano equivocado. Sem que percebam, pedem o que acreditam que será ouvido, e não aquilo de que realmente precisam. Eu denomino esse fenômeno tão frequente e usado por todos nós de pedido deslocado.” (A Maternidade e o encontro com a própria sombra, p. 205)

Desta forma, este conceito revela toda nossa dificuldade para acessar nossas necessidades verdadeiramente. Como não conseguimos acessá-las, também não conseguimos expressá-las para obter a plena satisfação. E, quando isso se refere ao outro, por exemplo ao filho, fica ainda mais complicado!

A importância do diálogo interno

Como observar nossos filhos ATENTAMENTE, quando não conseguimos escutar nem mesmo a nossa voz interna, que muitas vezes grita em forma de sintomas? Como estar disponível emocionalmente para nossos filhos, quando não conseguimos nem mesmo dar vazão às nossas necessidades emocionais básicas?!

Para isso, a solução é simples, mas não é fácil e se chama AUTOCONHECIMENTO! Tal como um músculo a ser trabalhado na academia, o autoconhecimento é algo que precisa ser exercitado. Isso requer uma prática diária de auto-observação e silenciamento da mente. E mais, a construção de um espaço interno, criado para curar as próprias feridas de nossa criança interior! Leia também Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!

Desta forma, cientes desta jornada interna, teremos melhores condições de observar os nossos filhos! E assim, APRENDER a ser “o exemplo digno de ser imitado”, como sempre frisa a querida Clarissa Yakiara! Somente conhecendo nossas emoções, nossas necessidades e a melhor forma de expressá-las e satisfazê-las, seremos capazes de liderar nossos filhos neste processo! E, principalmente, ouvi-los mais atenciosamente!

Necessidade X Vontade

Para trazer mais clareza para esta reflexão, vale a pena especificar a diferença entre necessidade e vontade! Estes conceitos parecem iguais, mas tem diferenças sutis e importantes! Segundo o dicionário Aurélio:

Necessidade: 1 – Falta do que é necessário. 2 – Obrigação imprescindível. 3 – Força maior; impossibilidade de deixar de agir ou de dizer.

Vontade: 1 – Faculdade comum ao homem e aos outros animais pela qual o espírito se inclina a uma ação. 2 – Desejo. 3 – Ato de se sentir impelido a. 4 – Ânimo, espírito. 5 – Capricho, fantasia, veleidade.

Neste sentido, recomendo ainda o vídeo do Paizinho, Vírgula: Necessidades e Vontades, Qual a Diferença? De forma muito didática ele diferencia os conceitos e nos convida para refletir sobre as necessidades emocionais que, muitas vezes, parecem vontades! Um exemplo é o pedido para dormir com os pais. Trata-se de algo que pode parecer um capricho, mas pode estar sendo motivado por uma necessidade emocional de se sentir seguro!

Pedidos Originais e Pedidos Deslocados

Segundo a teoria de Laura Gutman, os pedidos originais não atendidos podem se transformar em pedidos deslocados. Muitas vezes o que, aparentemente se manifesta como uma vontade, têm por trás algo muito mais profundo! É isso que precisamos aprender a identificar! Conforme exemplifica a autora, muitas vezes a criança pede um chocolate, mas, na verdade, quer atenção, disponibilidade: LAURA GUTMAN EN UN MINUTO – LIMITES Y PEDIDOS DESPLAZADOS

Ainda quero ler o livro Biografia Humana, mas encontrei um artigo que faz uma reflexão interessante a respeito da metodologia da Laura e os pedidos deslocados de nossos filhos. O trecho abaixo ressalta muito bem a importância de atentar para esta comunicação conosco e com nossos pequenos:

Ao nos questionarmos sobre o comportamento de nossos filhos, ao invés de interpretar cada coisa que fazem, querendo encontrar a origem se seus comportamentos, ao invés de encerrar nossos filhos em personagens como “o bonzinho” ou “o agitado”, pudéssemos olhar profunda e honestamente as coisas que sentimos e pelas quais estamos passando, nomeando para as crianças o que está acontecendo, como nos sentimos, ajudando-as a entender seus próprios sentimentos, então as vivências internas, as sensações, as percepções teriam um lugar real onde pudessem se manifestar, ajudando as crianças  a encontrar reações coerentes com aquilo a que estão sentindo e não deslocadas dos fatos. (A criação consciente de filhos e a Biografia Humana)

Desta forma, fica claro que os pedidos deslocados representam, muitas vezes, uma forma da criança comunicar uma necessidade emocional! Pedidos que tantas vezes nos provocam inúmeras emoções como raiva, irritação e cansaço estão nos comunicando uma necessidade que, por vezes, estamos bem distantes de compreender!

Comunicação e Presença

Vale lembrar a frase mais marcante de Laura para mim “Ninguém pede o que não precisa!”, como citei no artigo Exterogestação: a importância de gestar do lado de fora! Entretanto, convém ressaltar que, nem sempre, este pedido exterioriza exatamente o que precisamos! Como esclarece Laura Gutman neste trecho de A Maternidade e o encontro com a própria sombra:

“Por exemplo: uma mulher precisa que o marido a abrace e lhe diga o quanto a ama; no entanto, em vez de explicitar sua necessidade afetiva, pede que vá trocar o bebê. Quando um desejo é manifestado por meio de outro desejo, surge o mal-entendido. Inconscientemente, a pessoa pede algo de que não precisa e, portanto, não obtém o que deseja, então, se sente incompreendida, desvalorizada e se irrita. No plano emocional, quando não sabemos ou não podemos explicar o que está acontecendo conosco, obviamente, nada nem ninguém pode nos satisfazer.” (p.205)

Ou seja, cabe a nós estabelecer uma comunicação direta e verdadeira com nossos filhos para permitir que estas necessidades emerjam. A grande questão é que isso só pode acontecer se antes estabelecermos esta comunicação internamente!

Acessar nossas emoções e expressá-las é um exercício cotidiano! Ensinar nossos filhos a lidarem com as próprias emoções e comunicá-las é uma arte! Esta missão requer muita OBSERVAÇÃO e muita disponibilidade emocional! Convém ressaltar, contudo, que oferecer a disponibilidade que as crianças necessitam também não é fácil, porque não aprendemos a estar presentes! Estamos sempre com a cabeça no passado ou no futuro! Não é à toa que o Programa Zum Zum foca tanto na importância do Foco e Presença! Leia também Presença: um desafio cotidiano!

Auto-educar-se para educar!

Como atuar de maneira mais consciente e saudável com as próprias emoções? Esta é uma jornada que iniciei com o Zum Zum de Mães! Apesar de estar trilhando o caminho do autoconhecimento há bons anos, não tinha me dado conta de como reprimo minhas emoções e como elas “explodem” muitas vezes de “modo invisível”!

Sempre escutei o discurso de que era preciso “Ser boazinha”, de que era feio sentir raiva, de que era preciso ser corajosa e enfrentar os meus medos! E eu aprendi a reter minhas emoções e muitas vezes me punir quando sentia coisas consideradas “negativas”! Somente a maternidade trouxe um mar profundo de emoções e contê-las não apareceu mais como uma opção! Desde então, venho aprendendo a me observar e tenho trabalhado a EXPRESSÃO dessas emoções sem tantos bloqueios e vergonhas!

Confesso que ainda é um grande desafio para mim lidar com minha raiva e meu medo de forma saudável! Minha tendência inicial é tentar reprimi-lo tanto em mim quanto em minha filha! Mas ler a Laura Gutman e participar do Zum Zum de mães foi me trazendo consciência da importância da entrega!

As emoções não são feias ou bonitas, são naturais e precisam ser liberadas para vivermos de forma mais saudável! Deste modo, seremos capazes de pedir o que precisamos e ensinaremos aos nossos filhos o caminho da realização de suas necessidades básicas e emocionais! Assim, eles poderão protagonizar sua própria história, se autorresponsabilizando por sua felicidade! No próximo artigo falaremos um pouco mais a respeito deste Universo das emoções, onde o conceito da Empatia é tão importante!

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Em tempos como esses que estamos vivendo, faço o exercício desafiador de olhar ainda mais para dentro. Descubro então, a linha tênue que existe entre o cenário político e nossas emoções mal resolvidas.

Consigo perceber claramente que meus desafios diários comigo mesma, com os meus condicionamentos e padrões de controle que, refletem diretamente na minha maneira de maternar e consequentemente na minha saga contínua pela desconstrução pacífica desses mesmos padrões são, na (triste) realidade, o reflexo de um modelo fadado ao fracasso.

O mesmo desafio que sinto sobre minhas questões corriqueiras do dia a dia com meu filho de dois anos e oito meses, são na realidade os desafios do nosso cenário político que, de um lado manifesta claramente a obsessão pelo controle, que por sua vez, revela o autoritarismo acima de tudo e de todos, que não abre espaço para a troca e portanto impera o desejo de apenas uma das partes envolvidas.

Veja bem, a frase do “não podemos dar aquilo que não recebemos” é bastante coerente e verdadeira. Vivemos gerações e gerações dessa criação controladora e autoritária, sendo assim criamos seres humanos controladores e autoritários que por sua vez, desejam exercer controle e autoritarismo sobre outros seres humanos. A matemática é simples apesar de devastadora e, é justamente por isso que se faz necessário um olhar bastante cauteloso quando o assunto é criar nossos filhos com escuta ativa e de maneira amorosa visto que eles são a representação mais palpável do futuro da nação. É urgente exercitar o que não nos foi dado para que nossos filhos possam ser melhores versões, trocando o controle e autoritarismo pela cooperação, a colaboração, a escuta ativa, a autonomia e a liberdade e o respeito para ser quem se é.

A mudança precisa ser exercitada, como um músculo que pode doer após uma série de exercícios novos, e que ao final de um mês de exercício passa a ser natural. E não se engane pela minha metáfora, o desafio é pra sempre, é diário, minuto a minuto, segundo a segundo.

Hoje por exemplo foi assim aqui em casa… Olhava para meu filho, no meu pleno período pré/atual menstrual, e desejava ardentemente que ele me obedecesse, que me ouvisse e correspondesse aos meus ‘comandos’. Me frustrei com a (óbvia) recusa dele e, com a minha criança interior ferida, o ciclo já conhecido por mim se repetiu, me enraiveci, fugi do prumo, gritei, interferi, me culpei e por fim chorei de desespero. Era o brinquedo,  o almoço,  o sono,  a fralda, o fio dental, a janela, o travesseiro e uma infinidade de pequeninas coisas que me faziam fugir da conexão com ele pelo simples fato de estar obcecada pelo controle… E eu poderia pensar “mas eu só queria que ele me ouvisse e se acalmasse” Ora! Que ironia não é mesmo? Como posso exigir de uma criança, ainda em pleno desenvolvimento (sobretudo neurológico), que me escute e se acalme se eu, a suposta adulta da relação, sou incapaz de fazê-lo e (talvez a parte bacana disso tudo) reconheço tal desafio?!

O fato é que o caminho ainda é longo e cheio de pedregulhos, olho então cuidadosamente para a minha obcessão pelo controle e para as reações agressivas e intolerantes em busca daquilo que elas omitem. Hoje sei que essa é a superfície, é o que está visível a olho nu, é o que eu vejo/percebo e os outros também, são muito provavelmente as manifestações de algo que não foi nomeado anteriormente e se cristalizou, ou ainda de alguma necessidade que está por trás desse meu comportamento inadequado, que de tão engessado obstrui a visão do que ele oculta. Essas reflexões acima, construídas tal qual um quebra-cabeça de um sem número de peças, me conduzem para o incrível fato que, as mesmas ferramentas que tento usar com meu filho de dois anos e oito meses também se aplicam à mim…rs Lembro que no auge da crise meu marido apareceu e sugeriu algumas alternativas (que fugiam obviamente do meu controle – afinal o controle é uma ilusão) e eu respondi de maneira impulsiva e agressiva. Ele, que me conhece há 13 anos, na mesma hora me perguntou se queria aplausos, e conscientemente eu disse “- Não, eu quero me acalmar mas não consigo”, depois eu desejei um abraço, mas também não fui capaz de pedir… A verdade é que isso tudo me parece um processo curativo real, onde vou me despindo aos poucos e me abraçando um tanto mais. Tem muito choro no meio disso tudo, muita culpa também, mas a parcela de resiliência que venho conquistando diuturnamente tem feito o processo todo valer a pena.

É nesse ponto que olho pra minha história e traço um paralelo com a história do nosso país… A diferença visível a olho nu aqui (e não me entenda mal, não sou nem melhor ou pior do que ninguém, esse é o meu processo), é que eu estou olhando para o meu medo de ser imperfeita, encarando de frente os meus padrões, deixando a minha mente tagarela (o meu ego) de lado e reconhecendo o modelo falido, solitário e ultrapassado do controle e do autoritarismo.

É como uma grande amiga me disse uma vez: “desconstruir é um ato de coragem!”, e ela está certa. Avante com coragem! Vamos juntas?

Este Texto foi escrito por: Iara Schmidt (participante do ZumZum 6)
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.

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A Primavera que acontece ao nosso redor, acontece também dentro de nós, inspira o florescer da vida.

Antes do florescer, há de ter o recolhimento e acalento do Inverno, é necessário um preparo interno, é necessário o fortalecimento do corpo e da alma. Precisamos dormir para acordar, para viver com amor e verdade, sintonizando nosso pensar, nosso sentir e nosso querer.

Eu estava dormindo e não era um sono tranquilo. Era sim daqueles que me traziam lampejos de realidade e sustos. Em muitos momentos, eu não sabia se continuava mesmo dormindo ou se já havia acordado, o fato é que eu ainda não me sentia pronta para levantar e encarar o dia, encarar a vida. Então, eu decidia virar de lado e dormir mais um pouquinho.

E, assim, eu sonhava, me aventurava em pesadelos e acordava com o coração apertado, a respiração difícil e o olhar assustado, por algumas vezes fui capaz de encontrar a minha paz antes de voltar a dormir.

Essa noite pareceu longa e, ao mesmo tempo, curta demais porque me sentia cansada, um tanto pesada. Eu poderia ter aproveitado melhor sem interrupções, poderia ter dormido direto se não fosse minha inquietação, ou já que não dormia bem, poderia ter levantando durante a madrugada e feito algo produtivo. A sensação de que estava perdendo meu tempo também me atormentava. Mesmo assim, eu seguia dormindo, porque não me sentia pronta.

Veio a luz da manhã. Era Primavera. Esse era o meu momento de acordar, ainda que desafiador, eu o reconhecia como a hora do meu despertar. Me nutri daquela luz e de tudo que ela me proporcionava. Escolhi viver.

Hoje eu reconheço a importância do sono para a que a vida aconteça em sua plenitude. Também o sono da consciência é estruturante, dura o tempo adequado para que a capacidade do acordar se desenvolva, assim como as plantas externam a sua força e determinação através da beleza das flores.

Enquanto dormia, encontrei a minha verdade e a minha paz em momentos pontuais de dor e de contato profundo com a natureza, mas apenas escolhi a vida com consciência quando o meu menino de luz chegou. Por sincronicidade, já que feitos dos mesmos elementos somos eu, você e a natureza, a Primavera renova e reforça o convite de vida e, a cada ano, me permito aceitá-lo e honrá-lo. Neste período, sinto que todo o preparo do Inverno, do sono restaurador, faz brotar muitas cores, formas, cheiros e sabores, faz ideias criarem asas, faz projetos se tornarem reais, faz a vida florescer em amor e abundância.

Sentimentos de alegria, de mais energia e vitalidade, são comuns nessa estação. E não é à toa. O milagre da vida acontece em cada um de nós. Somos parte da natureza. Somos a própria natureza. Esses sentimentos simbolizam a tendência que temos de aceitar o convite de vida, porque o nosso corpo é muito inteligente, reconhece o que nos faz bem e está sempre em busca do equilíbrio, do seu estado natural de saúde, bem estar em paz.

A Primavera chama a nossa atenção, chama a nossa presença, em um mundo de tantas distrações como o nosso, em uma sociedade tão atribulada, com tantos barulhos externos e internos. Com frequência, nos distraímos do que pensamos, das nossas necessidades e desejos. E a Primavera vem, com seu jeito cativante, nos lembrar dessa nossa conexão com a natureza. Mesmo que não estejamos atentos, a conexão existe. Se nos sintonizamos à natureza e nos comprometemos em ser quem realmente somos, a vida floresce com mais leveza, com fluidez, na nossa casa, nos ambientes que atuamos, nos nossos relacionamentos, principalmente nos relacionamentos com os nossos filhos, que nos tem como exemplos de vida, nos observam a todo instante.

A vida se nutre da simplicidade e a conexão acontece pelo sentir. Com um exercício simples de respiração consciente, podemos sentir o ar percorrendo o nosso corpo e todos os benefícios que nos proporciona. A respiração ampla melhora a nossa qualidade de vida. Beber água e sentir o seu significado – purificação, nutrição, cura – potencializa a sua ação. Sentir o amor puro, quando temos a oportunidade encantadora de convivermos com seres de luz, nossas crianças, nossos filhos, que, quando pequenos, estão fortemente conectados à essência da vida, nos mostra o caminho certo a seguir. Que tal se cada pessoa escolhesse uma maneira de deixar a sua vida melhor todo dia e colocasse isso em prática? Pode ser uma forma diferente de pensar,  um novo gesto, um novo olhar, algo simples e ao alcance hoje. Podemos nutrir a nossa vida com pequenos passos, a conquista de saúde e felicidade não está lá no fim da jornada, não é o pote de ouro no fim do arco-íris, está no próprio processo, a conquista é diária, o sucesso está em toda a extensão do arco-íris.

A Primavera chega acompanhada de luz que anuncia o florescer da alma, de chuvas que abençoam a terra, purificam nosso ser, despertam a vida e fazem germinar as sementes trazidas pelos ventos, de arco-íris que renova os sonhos, de fertilidade.

A Primavera da minha vida chegou com o meu menino de luz. Quando senti a sua existência em mim, me permiti a liberdade e me tornei responsável por ele e por mim. A pureza do seu olhar mostra a verdade que há nele e há em mim. O seu sorriso é o termômetro da leveza. O seu amor é a felicidade pura. Como anunciador da minha Primavera, João inspira a minha jornada de autoconhecimento, o meu caminho de conexão com a minha essência. Sinto o meu lugar de pertencimento. Educando e me auto-educando, busco diariamente sabedoria para guiá-lo de forma que nunca se desconecte, de forma que aproveite todas as suas primaveras com leveza e paz.

A vida só é vida se faz sentido, se faz parte de um todo, se tem um motivo para ser, se está conectada, com suas múltiplas funções, a outras vidas e outras formas. Cuidemos para que a vida cumpra a sua missão.

Vamos nos conectar cada vez mais ao movimento da vida, aos ritmos da natureza, sejam na floresta, nas ruas, no nosso lar, sejam os ritmos dos nossos pequenos, sejam os nossos ritmos internos. Esse movimento de expansão da natureza, de coragem de se expressar com bondade, delicadeza e beleza, existe também em nós. Quanto mais sintonizados com os ciclos da natureza, mais fluido se torna o viver.

O convite à vida instiga novas realizações, pede que juntemos toda a nossa bagagem física, mental, emocional e espiritual e nos lancemos ao novo. Se aceitamos o convite, nos agarramos à confiança de uma vida cada vez melhor, mais alinhada a princípios e valores, deixamos de alimentar nossos medos e saltamos, apesar deles. Permitir que a vida floresça com amor e verdade pode significar sair da zona de conforto, abandonar padrões ensinados pela sociedade, que não cabem mais nas novas escolhas, pode significar nadar contra a correnteza, ter julgamentos e críticas passando ao lado. Nesse caminho, a solidão pode se encostar e pedir para ficar, os desafios aparecem e podem intensificar questionamentos, dúvidas. Fora e dentro, existirão vozes que dizem ser loucura esse movimento e vozes que consideram ser coragem. Se seguirmos acreditando na capacidade de viver, na capacidade de florescer, ressignificando medos e desafios, o barulho externo começa a silenciar, e as vozes internas se harmonizam na frequência do amor.

Eu escolhi viver alinhada à minha verdade. Escolhi resgatar o melhor que há em mim. A decisão de florescer, o acordar da consciência traz medos, ansiedades, inseguranças, mas é libertador, é ter a certeza de que uma nova vida está disponível e é permitido (porque eu me permito) ser quem sou. Uma vez ouvi que precisamos escolher as dores que queremos em nossas vidas. Analisando com cuidado, é um ponto de vista que faz sentido. No meu caso, eu poderia escolher a dor que a minha acomodação me traria em não realizar meus sonhos, ou poderia escolher a dor de enfrentar o que viesse para conquistar a minha liberdade.

Somos criadores da nossa realidade, somos potencialmente capazes de transformar o mundo, começando pelo nosso mundo interno. Vamos cultivar a realidade que acreditamos, o mundo que queremos, vamos cultivar saúde e felicidade. Cada momento é uma oportunidade linda de fazer o bem e de espalhar o amor através de pensamentos, sentimentos e ações pequenas, mas poderosas e transformadoras. Conectar-se à natureza é acreditar na abundância, é compreender que o melhor acontecerá e, mais, surpreenderá positivamente. Quando surpreendidos, acreditamos mais, nos conectamos mais, e o Universo entende cada movimento. Está estabelecido o ciclo da realidade abundante.

É Primavera! É tempo de renovar as percepções do mundo, é tempo de expressar o ser. Que a nossa semente interna busque o Sol e floresça o amor. Que a Primavera seja exuberante de realizações e que os desafios nos enriqueçam.

O contrário do medo não é coragem, mas amor (Rudolf Steiner). Hoje eu tenho a resposta que cabe no meu coração. Não foi por coragem que floresci e mudei toda a minha vida, foi por amor.

 

Este texto foi escrito por Cibele Calderan, mãe do João de 3 anos, criadora do Espaço Vice Versa, movimento pela vida. Saúde Holística, Nutrição Integrativa e Permacultura para Mães e Famílias com crianças de até 7 anos.

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Eu definitivamente me achava uma mãe moderninha e descolada, passeava pelas ruas do bairro com minha bebezinha no sling, diante de todos os tipos de olhares e palavras de reprovação.  Ela tinha um colar de âmbar que quando usava despertava os mais horrorizados comentários e perguntas do tipo: “Mas para que serve isso? E isso adianta mesmo?” Sem falar nos alertas desesperados de senhoras que diziam que ela podia até morrer enforcada! A bolsa linda de corujinha que saímos da maternidade, já tinha sido aposentada e dado lugar a uma prática mochila colorida. Confesso que tinha um certo orgulho desse estilo, me sentia meio subversiva ou sei lá. Nesse contexto lá vinha eu e ela de volta de uma caminhada matinal.

Na portaria do prédio encontrei uma vizinha que tinha um menino lindo, apenas alguns dias mais novo que minha filha, nós sempre conversávamos. O menino tinha uma cabeleira linda castanha em nuances dourados, nesse dia comentei com a mãe dele algo do tipo: “Nossa que lindo está o cabelinho dele, só deve dar um trabalho danado enxaguar no banho né? Eu sofro com os poucos fios da minha filha”. Ela me lançou um olhar de incompreensão e respondeu: “Ué muito simples, só colocar embaixo do chuveiro, não dá trabalho nenhum, você não dá banho de chuveiro na sua filha?  Nesse minuto minha marra de mãe prática e descolada escorreu poros afora, pensei em manter minha pose e mentir deslavadamente dizendo que sim, que eu dava banho de chuveiro, mas respondi com toda a sinceridade: “Não eu nunca dei banho de chuveiro nela” e ela respondeu: “Nossa, sério? Você devia experimentar, eles adoram, meu filho toma banho de chuveiro comigo desde o primeiro mês, ele estica as mãozinhas para a água e tenta segura-la é uma graça! É sem dúvida o momento mais especial do nosso dia”. Que lindo, pensei em voz alta, vou tentar hoje mesmo!

Peguei o elevador e lembrei de uma foto que a Bela Gil tinha recentemente postado, ela plena molhada no chuveiro com seu bebezinho fofo nos braços, com essa imagem na cabeça abri a porta do apartamento decidida e comuniquei ao meu marido: “vou dar um banho de chuveiro nela hoje” passei para o quarto como uma flecha e ele me acompanhou com os olhos, separarei uma roupa, peguei a toalha, tirei minha roupa, tirei a dela e fui nua e confiante para o banheiro com ela no colo. Meu marido levantou os olhos por cima do computador e perguntou se eu tinha certeza que seria uma boa ideia. Mas é claro que eu tinha certeza!

Abri o chuveiro e ela se agarrou fortemente em mim e eu disse calmamente: “tudo bem filha, vamos tomar um banho diferente e juntinhas hoje”. Quando entramos na água, ela simplesmente surtou, começou a chorar, parecia um gato tentando fugir da água e do meu colo. Insisti mais um pouco, peguei um pouquinho do sabonete e ensaboei sua barriguinha, tentei molha-la mais uma vez e ela gritou de um jeito que eu nunca tinha ouvido, um choro de pavor ecoava em meus ouvidos, ela começou a tremer, olhei para os olhos dela e pude ver o seu terror, pude ler sua mente e ela dizia: “você enlouqueceu, o que é isso? O que você está fazendo comigo? Estou com medo!” Ela se debatia ensaboada e escorregadia gritando de pavor, fiquei com medo dela cair do meu colo e me abaixei rápido, pensando que se ela caísse a queda seria menos alta, gritei pelo meu marido que abriu a porta do banheiro já com a toalha dela em posição de resgate. Quando ela foi para os braços dele se acalmou no mesmo segundo, ele a levou para o quarto enroladinha na toalha, voltou sem ela e com um balde na mão.  Enquanto ele enchia o balde de água morna do chuveiro, disse : “Amor acho que não foi uma boa ideia, podemos tentar de novo quando ela for maiorzinha.”

A Libertação

Eu tomei meu banho, digerindo aquela verdade e me sentindo uma mãe horrível, os olhos de pavor da minha filha não saiam da minha mente, não sei quanto tempo fiquei ali embaixo do chuveiro, em contato com minha frustração de não ter tido meu momento especial e pleno com ela. Quando finalmente sai do banheiro ela já estava cheirosa, de banho tomado e sorrindo para mim, peguei ela do colo do pai e fui para o quarto amamenta-la, fechei a persiana e me sentei confortavelmente. Assim que ela pegou meu peito deu aquele suspiro de alivio, fiz um carinho na cabecinha dela e ela foi relaxando, fui sentindo o seu corpinho cada vez mais pesado e aconchegado sobre  meus braços. Fui tomada por uma paz familiar e me deu um estalo, conclui: “Esse é o nosso momento mais especial do dia!”

Me dei conta de que meu momento não precisava ser igual ao de ninguém, percebi que nem tudo que eu achava legal ou “moderninho” daria certo com ela. Relembrei que ela era uma criança única, com suas particularidades e preferências e mesmo sendo tão pequena ela já me dizia quem ela era. Me senti no dever de ouvir e respeitar o que ela tentava me contar sobre ela, ainda de maneira tão primitiva. Fiquei lembrando de como ela gostava de banho de imersão na banheira, ela só chorou no banho da maternidade, desde os primeiros banhos em casa ela já adorava. Lembrei dos barulhinhos de alegria que ela fazia quando percebia que ia entrar na água e quando entrava fazia aquela bagunça com os pezinhos e as mãozinhas, ela ria e “conversava” com as ondinhas que se formavam ao seu redor, como se fossem velhas conhecidas. Eu já não estava mais frustrada, eu estava feliz por ela ter me ensinado um pouco mais sobre ela.

Ela adormeceu profundamente no meu colo, coloquei ela na cama entre barreiras de travesseiros e fui para sala. Eu e meu marido nos olhamos, eu estava mais calma e pude notar que ele estava claramente segurando o riso, inesperadamente eu comecei a rir e ele soltou enfim a gargalhada e rimos muito juntos. Achamos muita graça da cena que ele viu quando abriu repentinamente a porta e deu de cara comigo agachada, com a pobre criança ensaboada e em choque, tentando fugir a todo custo do meu colo. Quando contei que a minha expectativa era um momento tipo Bela Gil plena ai é que rimos mesmo, tentávamos rir baixo e controladamente para não acordá-la, mas ficava cada vez mais difícil e mais engraçado, rir com moderação nos fez gerar barulhos hilários e ai ríamos ainda mais e cada vez mais desmedidamente e livremente.

É claro que eu tinha consciência de quanto a tinha assustado e de maneira alguma no meu riso havia menosprezo por aquele olhar de pavor que ela me lançou, eu sabia o quanto tinha sido tensa aquela experiência para nós duas. Porém foi libertador rir de mim mesma naquela ocasião, porque me trouxe de volta uma leveza que andava faltando em tempos de neblina, típicos do puerpério. Eu andava me cobrando muito, cobrando perfeição e maestria nas situações novas e inusitadas tão comuns daquela fase. Ter arrumado aquela confusão desastrosa na hora do banho, me fez ver que tudo bem se eu errasse, mesmo errando ainda ficaria tudo bem. Reparei o quanto eu andava sendo cruel comigo mesma quando tentava me encaixar em um tipo específico de maternidade, ou quando começava a fazer coisas que outras mães que eu admirava faziam ou diziam, sem antes consultar os meus instintos. Notei quantas vezes eu me desconectei de mim mesma tentando alcançar padrões insanos e solitários que eu havia estipulado naqueles últimos meses.

Aquela risada foi o curativo para uma ferida que já estava ali há algum tempo, que eu em meio aos cuidados com minha pequena nem tinha reparado, uma ferida causada pelas repetidas frustrações que acumulei por não ser perfeita, pelos momentos que eu não dei conta sozinha, pelas vezes que precisei tão vulneravelmente do meu marido. Aquela risada foi um jeito doce e divertido de me libertar daquela cobrança implacável pelo inalcançável. Acho que naquele dia me libertei de todos os padrões, dos tipos e de todas as outras amarras que me traziam angustia nos finais de tarde e que eu não sabia explicar de onde vinha e porquê. E foi uma delícia me dar conta disso no meio de uma gargalhada compartilhada com ele, que mais uma vez estava lá por nós…

 

Este texto foi escrito por Vivian C. pessoa, mãe da Ive de 2 anos e 7 meses (que hoje toma banho de chuveiro, feliz e sem nenhum trauma ☺) e participante da turma 5 do Zum Zum de mães.

vivian.pessoa@globo.com

@viviancpessoa

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Queridos papais e mamães, sou a Tânia, psicóloga, psicanalista, mãe da Milena e participante do Zum Zum. Conforme combinei com vocês este é o segundo texto sobre a prevenção primária dos problemas psicológicos. No texto do mês passado abordei o tema da prevenção na gestação, nascimento e primeiros dias de vida do recém-nascido. Hoje vamos dar continuidade até os dois anos. Para isso, irei recorrer a teoria do desenvolvimento emocional primitivo postulada pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott. Toda a sua teoria se desenvolveu a partir de sua ampla prática clínica de atendimento de bebês, crianças e adolescentes.

Fase de dependência absoluta:

Winnicott nomeia de dependência absoluta a fase do desenvolvimento emocional do bebê até os 5, 6 meses de idade. Nesse momento, o bebê sente que ele e a mãe formam uma pessoa só, uma unidade sem diferenciação eu e não-eu. Três principais processos se desenvolvem nesta fase: Integração, personalização e adaptação à realidade. Esses processos maturacionais se desenvolvem através dos cuidados maternos: Holding, handling e apresentação dos objetos. Vou explicar separadamente cada um deles:

  • Holding (suporte): Fornece apoio egóico ao bebê, inclui o segurar no colo, toda a rotina de cuidados em relação tanto as necessidades do corpo quanto as mais sutis, como estar envolvido pelo ritmo respiratório da mãe, de sentir o seu cheiro, as batidas do coração. Nesta fase é fundamental que a mãe se adapte ao ritmo do bebê, acompanhando suas mudanças tanto físicas quanto psíquicas, implementando uma adaptação ativa as suas necessidades. Isso leva à sensação de continuidade do ser e promove a integração psíquica. A mãe funciona como espelho para o bebê. Ele precisa se ver no olhar da mãe. Sabe aquele olhar apaixonado na qual nós mães olhamos para os nossos bebês? O bebê precisa dele para se estruturar. A integração faz parte do potencial herdado e é totalmente dependente do holding materno para se desenvolver. Todas as partículas e fragmentos de atividade e sensação que vão constituir o bebê, começam a congregar-se, ao mesmo tempo tem início o aparecimento de rudimentos de uma elaboração imaginativa sobre o seu corpo que também auxilia a integração. Falhas grosseiras e constantes podem gerar angústias profundas de aniquilamento, cair para sempre, se fazer em pedaços. Aqui pode ocorrer também, por falhas, uma pequena integração seguida de uma desintegração. A desintegração está presente fortemente nas doenças mentais do grupo das psicoses.
  • Handling (manejo): Conjunto de manipulação e jogos que a mãe introduz no seu relacionamento com o bebê por ocasião do banho, troca de fraldas e dos cuidados com a higiene. O toque e o manuseio da pele são fatores importantes para a personalização, criando a imagem corporal do bebê e um sentimento de que existe um dentro e um fora delimitado pela pele. A personalização é o sentimento de que o psíquico reside no corpo. É dependente do handling materno. É através do toque, do lidar com o bebê satisfazendo suas necessidades de movimento e expressão corporal que a mãe possibilita ao bebê experenciar, a sentir sua psique habitando seu corpo. Falhas grosseiras e frequentes podem acarretar problemas psicossomáticos ou a despersonalização quando a psique perde o contato com o corpo.
  • Apresentação de objetos: É o cuidado que facilita as relações entre as pessoas. A apresentação do mundo ao bebê deve ser feita por uma mãe sensível, concentrada na sua tarefa, com vivacidade, adaptada ao ritmo do bebê e sendo continuamente ela mesma. A mãe inicia se apresentando ao bebê e depois isto se estende à apresentação dos demais objetos. É muito importante que a criança sinta que é a relação com o outro que aplaca angustias e não objetos concretos como o bico. O bico pode ser usado, mas o colo precisa ser apresentado em primeiro lugar e ocupar lugar de destaque. Se a criança aprende que são os objetos que aplacam as angustias, no futuro pode-se desenvolver compulsões. A adaptação à realidade é dependente da apresentação dos objetos realizada pela mãe. No primeiro momento o bebê se relaciona com objetos subjetivos, isto é, ele tem a sensação que ele cria os objetos, como se tudo e todos fossem extensão dele. É somente se relacionando com objetos subjetivamente percebidos que o bebê pode vir a se relacionar com os objetos objetivamente percebidos. A adaptação da mãe deve ser de tal forma que o bebê sinta que ele criou aquilo que lhe era necessário.  É o momento de ilusão: o bebê sente que criou aquilo que lhe foi oferecido, proporcionando assim experiências de onipotência. Ex: Ele chora e a mãe oferece o seio. Desta forma, nesta fase de desenvolvimento, o bebê acha que criou o seio que o alimenta. Está é uma experiência de onipotência necessária para o bom desenvolvimento do psiquismo e o seio nesse momento seria um objeto subjetivo.

Os três processos maturacionais: Integração, personalização e adaptação à realidade formam a base do bom desenvolvimento emocional. São consolidados por volta dos 6 meses, mas nunca completamente estabelecidos. Se fortalecem por toda a vida.

Mães, não fiquem preocupadas, parece muita coisa, parece difícil, mas segundo Winnicott esse é um trabalho que todas as mães conseguem fazer. Winnicott chama de mãe suficientemente boa, as mães comuns que são guiadas por seu instinto materno e estão conectadas com o bebê. A conexão é o mais importante. Vale a pena ressaltar que as mães tentem seguir os seus instintos e não ficar ouvindo muitos palpites como: a) seu filho vai ficar manhoso, não fica pegando o bebê no colo; b) para aprender a dormir tem que deixar chorando, depois ele acostuma. Sabem porque ele acostuma? Porque ele dorme de exaustão e entende que não adianta, por mais que ele chore ninguém vai aparecer para ajudá-lo a se acalmar. É um total desamparo. Nesta fase, não é uma boa ideia viajar e deixar o bebê sob os cuidados de terceiros. Aqui ele precisa especialmente dos principais cuidadores. Ainda não suporta tanto tempo longe da mãe. O bebê precisa ser dependente, precisa de amor, para adquirir confiança necessária para depois aos poucos ir se tornando independente. Gostaria de lembrar também que não é qualquer falha que desencadeia patologias, são falhas grosseiras e que se repetem aliadas aos fatores genéticos.

Fase de dependência relativa:

As repetidas experiências de ilusão experimentadas pelo bebê na fase anterior oferecem confiança necessária para que a mãe comece a “falhar” nesse momento. Na verdade, falhar aqui é acertar. Explicarei melhor: a mãe vai sentindo que o bebê já consegue esperar um pouco mais o peito ou a mamadeira, ele suporta a ausência materna por mais tempo e ela começa a não atendê-lo tão prontamente como antes. Com isso, cria-se uma área intermediária da experiência chamada espaço potencial. O espaço potencial é uma área entre a ilusão e a realidade. É aqui que se desenvolve o uso dos símbolos que representam ao mesmo tempo os fenômenos do mundo interno e do mundo externo. Desenvolve-se a criatividade que posteriormente, evolui para o brincar, o brincar compartilhado e para experiências culturais, artes, etc. No espaço potencial surgem os objetos transicionais. São objetos escolhidos pelo bebê como: fraldinha, cobertor, urso de pelúcia que eles utilizam para se acalmar e dormir. Geralmente são objetos que não podem nem ser lavados que eles acham ruim. Esses objetos não são nem puramente imaginação e nem puramente realidade. Ele existe na realidade, mas o significado dele é subjetivo é do espaço da criação, da imaginação do bebê. É um objeto que irá ajudar no processo de separação da mãe. O objeto representa a mãe, a relação mãe-bebê e por isso oferece um conforto. A mãe precisa dar um espaço para que o bebê consiga se diferenciar, se deparar com a realidade e estabelecer uma identidade pessoal. A mãe vai aumentando a porção de realidade que apresenta ao bebê, mas sempre preservando uma certa porção de ilusão, pois ela continua o atendendo em suas demandas, mas se permite falhar. Com a desilusão, ou seja, percebendo cada vez mais que ele não é o criador do mundo, pois a mãe não consegue atender todos os seus desejos, ele vai percebendo que a mãe é uma pessoa separada, o bebê começa a perceber os objetos objetivamente ao invés de subjetivamente. A natureza é sabia, pois nesse momento a atenção que estava quase que totalmente voltada para o bebê pode ser compartilhada com outras coisas e pessoas. O bebê já interage mais, daqui a pouco vai sentar, engatinhar, vai querer coisas que os cuidadores terão que negar principalmente pelo perigo que podem representar. Assim a realidade vai sendo apresentada de forma natural.

Algumas mães já me perguntaram: Tânia, meu filho não teve um objeto transicional. Isso é ruim? Nem todas as crianças tem um objeto transicional concreto. As vezes a função do objeto transicional é realizada através de sons produzidos pelo bebê, balbucios, maneirismos, etc. Outras mães comentaram: eu tentei introduzir um objeto transicional e não deu certo. Na verdade, é o bebê que escolhe o objeto e não os pais.

A fase de dependência relativa vai até os dois anos, dois anos e meio mais ou menos ao final dela é esperado que a criança se veja como uma pessoa inteira, possua um sentimento de ser, de ter uma identidade própria e está pronta para um relacionamento total. Falhas intensas, grosseiras e persistentes levam a ansiedade de separação intensa mesmo em pessoas adultas. Ex: Pessoas que sofrem muito na ausência da pessoa amada, construindo fantasias que se a pessoa não estiver perto vai esquece-la, deixará de amar, como se ela não confiasse nas construções que faz e que essas construções são seguras e continuam existindo mesmo na sua ausência. Pode haver também a cronificação do objeto transicional, na qual o objeto é sentido como o único capaz de aplacar as dores e angustias em detrimento das relações e isto pode levar ao aparecimento de compulsões. Quando ocorre um sentimento de perda muito grande nesta época, pode levar a comportamentos antissociais no futuro numa tentativa de recuperar o que foi perdido, como um pedido de socorro.

Uma outra aquisição importante é a capacidade de se preocupar, que se desenvolve entre os 6 meses e os dois anos e meio / três anos mais ou menos. Ao perceber o outro como separado, a criança passa a se preocupar com ele, com sua saúde e com seu humor. É importante ressaltar, que no processo de separação, para a criança conseguir se tornar uma pessoa inteira, ela precisará se opor. Comportamentos considerados inadequados aparecem: bater, não fazer o que é pedido, gritos, etc. Para Winnicott é importante que os pais sobrevivam a esses “ataques” sem retaliar. Isto é, que não ajam da mesma maneira com a criança ou tenham atitudes que a faça entender que perderá o amor dos pais com aquele comportamento. Não queremos que os nossos filhos aprendam que só serão amados quando fizerem o que os outros querem. Os limites e ensinamentos são importantes. Para auxiliar nisso, vocês podem ler o e-book da Clarissa ou assistir a aula sobre o Limite na medida certa que está excelente. Nesta etapa, é necessário oferecer espaço também para a reparação para que o sentimento de culpa não se torne intolerável.

Acho importante que nós mães saibamos um pouco sobre o desenvolvimento emocional dos bebês primeiramente para nos ajudar a nos conectar com nosso filho, sermos mais empáticas, sabermos pelo menos em parte o que está se passando com ele para ajudá-lo. Ter um filho nos faz também reviver muito da nossa própria história de quando fomos bebês desencadeando vivencias angustiantes que podem nos fazer desconectar com nosso filho ou mesmo repetir padrões de relacionamento na qual fomos criados. Sabendo um pouco sobre o desenvolvimento emocional, nos auxilia a perceber nossas dificuldades e procurar ajuda para resolve-las. Por exemplo: se sentimos uma indisponibilidade interna muito grande para o bebê com uma grande frequência principalmente na fase de dependência absoluta, se não sentimos que há um amor enorme se construindo, se ao longo do tempo, não nos apaixonamos por nosso bebê, tem algo impedindo, algo que precisa ser visto, trabalhado e superado.

Caso vocês percebam que esse começo da vida dos seus filhos ficou prejudicada por algum motivo, vocês podem voltar a se conectar com eles em primeiro lugar, e em sintonia tentar sentir o que ele precisa. Se notarem o surgimento de sintomas, podem procurar uma psicoterapia pais-bebê (até 3 anos) ou psicoterapia infantil (após 3 anos). Quanto mais cedo se busca ajuda, mais fácil as coisas se resolvem. No próximo mês falarei de alguns sintomas que merecem atenção na infância. Até a próxima!

 

Tânia Oliveira de Almeida Grassano

Psicóloga formada pela UFMG. CRP-04/19643

Psicanalista: Membro efetivo e docente na Sociedade Brasileira de Psicanalise de Minas Gerais – SBPMG.

Realiza atendimento em psicoterapia individual de crianças, adolescentes e adultos. Atua também com psicoterapia pais-bebê.

Os atendimentos são realizados em BH, próximo à praça da Liberdade.

Tel: (31) 30725974

taniaoliveiraalmeida@yahoo.com.br

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Responder esta pergunta é algo bem pessoal. Ninguém é capaz de julgar quantos filhos formam uma família ideal. Um? Dois? Três? Quatro? Ou quem sabe nenhum? Cabe apenas ao casal tomar esta decisão.

Hoje, é cada vez mais comum encontrarmos famílias que optam por ter apenas um filho, ou nenhum. Muitas mulheres já planejam isso desde muito jovem, antes mesmo de se tornarem mães. Mas é verdade também que, grande parte delas, faz esta escolha depois que já tiveram seu primeiro filho.

As razões?

A que mais escuto por aí é: “Filho é muito caro e quero ter condições de dar uma vida boa para ele, a melhor escola, alimentação, saúde, as melhores roupas, os melhores brinquedos…”. Quando ouço algo desse tipo, me pergunto se realmente é isso que os pais pensam, ou se há algo implícito nesta resposta. Não que não seja verdade que filho é caro e que não seja importante se planejar financeiramente para ter filhos. Mas acredito que há algo escondido por detrás de respostas assim.

A verdade é que filho dá trabalho. Filho bagunça não só a casa, mas a vida da gente. E infelizmente a grande maioria de nós não se prepara para ser mãe ou pai, a gente imagina que quando o filho nasce a gente aprende tudo o que precisa instantaneamente.  Acreditamos que é como nas novelas, nos comerciais de TV, nos filmes… o bebê bonitinho, dormindo, sorrindo… o casal feliz da vida, vida profissional e social a todo vapor. Só que não!

O bebê nasce e TUDO MUDA, TUDO!

Quando um bebê nasce, por mais “tranquilo” que ele seja, é como se um furacão tivesse passado pela família, tira tudo de lugar. Eu coloco aqui o tranquilo entre aspas, pois acredito que não existam bebês tranquilos ou nervosos. Como já comentei em outros textos, por estarem em fusão emocional com a mãe, bebês refletem aquilo que ela trás consigo, consciente ou inconscientemente.  Em geral, o primeiro filho tende a ser mais “agitado”, pois a mãe geralmente está muito agitada diante de toda a mudança que está vivenciando.

Mudança na rotina diária

Para as mulheres que antes de ser mãe não tinham uma rotina bem definida, essa mudança não é tão significativa. Mas tem aquelas que são extremamente organizadas, que gostam de fazer tudo bem certinho e no horário. Por exemplo: Acordar, ficar um pouco na cama pensando/meditando, tomar um banho, tomar café, se exercitar, organizar a casa/trabalhar, almoçar, descansar uns minutinhos… enfim, tudo no horário. Quando se tem um bebê, para a grande maioria é praticamente impossível manter a rotina com horários pré estabelecidos, pelo menos até os 6 meses enquanto o bebê mama em livre demanda. Depois, aos poucos, a gente vai conseguindo se organizar com a agenda novamente. E para as mamães de primeira viagem, principalmente para quem não pode contar com ajuda, o impacto dessa mudança é forte. Muitas vezes a gente come comida gelada, fica o dia inteiro de pijama, faz xixi ou cocô com a cria no colo, consegue tomar um “banho de gato” minutos antes de se deitar… É um pouco louco a gente pensar sobre isso, mas é a realidade nua e crua. Quando a Laís era bebê, quantas vezes me senti super mal por não ter conseguido preparar uma refeição e ter que recorrer a marmita. Hoje, consigo priorizar as minhas atividades, procuro me manter consciente no momento, e agradeço pelo que já consegui fazer. No início o meu foco era naquilo que eu ainda precisava fazer. Quase pirei, mas me adaptei a mudança de rotina.

Mudança de identidade

Para mim, esta é a mudança mais significativa, tanto para o homem, como para a mulher, que por sua vez, começa a perceber de maneira bem sutil que sua identidade está mudando quando se descobre grávida. É quando o bebê nasce que a ficha cai realmente e ela se torna Mãe e o homem se torna Pai. Falando assim, parece tudo muito simples, mas só vivendo na pele para entender o peso dessa mudança. É estranho pensar que antes você era apenas filha, mulher, esposa, profissional. E agora você é além de tudo isso (e principalmente) Mãe. O mais engraçado é que a grande maioria das mulheres tem a imagem de mãe como sendo aquela mulher forte, guerreira, que tudo sabe, que tudo suporta. De repente a gente se torna mãe e tem que se tornar tudo isso junto, mas como?

Começa então um trabalho de desconstrução da mãe ideal para a mãe real. E aliado a isso, é necessário aceitar a nova identidade. Por mais que a gente insista que ainda é a mesma pessoa, aos poucos a gente vai percebendo que não tem como ser a mesma pessoa depois que se torna mãe.

Mudança na vida Profissional

Por mais que muitas mulheres digam que a vida profissional não será impactada com a chegada do bebê, acredito que isto seja raro, sobretudo nos primeiros anos após o nascimento (até uns 2 ou 3 anos). Afinal, qual é a mãe que consegue ficar 100% focada no trabalho com um bebê que ainda está em fusão emocional com ela? E mesmo nos casos em que a mãe trabalhe em casa, a disponibilidade para a vida profissional fica bastante comprometida.

Para as mães que trabalham fora, o fim da licença maternidade é geralmente muito doloroso. Algumas optam por se desligar do trabalho, outras gostariam de fazer o mesmo, mas por questões financeiras precisam voltar. Muitas descobrem com a maternidade, que o emprego ou a profissão atual não fazem mais sentido, e mudam radicalmente, se reinventam. Eu mesma estou em fase de reinvenção e mudança de carreira. Em breve vou escrever um texto só sobre isso para compartilhar com vocês.

Em muitos casos, o retorno ao trabalho implica em deixar o bebê em creches ou em escolas o dia inteiro. O período de separação é muito longo, e por isso este é um momento bastante delicado tanto para mãe e bebê, que até então estavam acostumados a ficarem o dia todo bem grudadinhos. A maioria dos bebês, que já estavam dormindo bem durante a noite, começa a acordar mais, pois é o modo que eles encontram para “aproveitarem” a presença da mãe. Além disso, alguns manifestam doenças, febres, deixando a mãe ainda mais preocupada e desfocada do trabalho.

Passada esta etapa inicial, a criança passa a se interessar mais pelo mundo que não seja a mãe. Nesta fase, para algumas mamães a vida profissional começa a voltar ao normal, mas para outras, ela nunca mais será a mesma.

Mudança na vida Social

Cinema com o marido ou com as amigas? Lembro que a última vez que fui ao cinema foi quando estava grávida da Laís, com uma amiga, pois na época Rafael estava viajando.

Barzinhos, baladas, festas, carnavais…? A última “balada forte” que fui, eu também estava grávida da Laís, foi um show de axé do grupo Timbalada.

Para as “mamães baladeiras” como eu, a vida social muda bastante. Algumas podem sentir muito essa mudança, mas para mim foi a mais tranquila. Acredito que por ser talvez a única mudança que já era esperada. Na verdade eu tinha comigo a crença que mãe não tem vida social. Apesar disso, cheguei a me aventurar em 2 festas de casamento quando Laís ainda não tinha nem 3 meses, e também fui em um barzinho que estava tocando pagode, em um sábado a tarde, quando ela tinha acabado de completar 4 meses. Nos casamentos até que foi bem tranquilo (ela dormiu quase o tempo todo), mas no pagode ela não curtiu muito o som e acabamos indo embora logo. Depois disso, comecei a me dar conta que, mesmo sendo eventos durante o dia, alguns não são apropriados para bebês e crianças e reforcei a crença que eu tinha que mãe não tem vida social.

Se eu sinto falta da vida de baladas?  As vezes sinto saudades, vontade de ir em algum show, curtir um axé… Para quem não sabe, eu e meu marido nos conhecemos graças ao carnaval de Salvador. Apesar da saudade, não fico triste por não poder realizar os mesmos programas de antes, pois a felicidade e a alegria que os filhos hoje me proporcionam são maiores do que qualquer tipo de balada. Além disso, através de um processo de Coaching que participei, consegui ressignificar a antiga crença. Hoje, acredito que filhos não nos impedem de ter vida social, apenas a transformam. Meus programas hoje são outros: passeios em parques, festas de aniversários de criança, alguns restaurantes apropriados (por enquanto apenas no horário do almoço…rs), passeios em shoppings, sorveterias, almoços com amigos em casa, e outros tipos de atividades apropriadas para bebês e crianças.

Mudança no relacionamento conjugal

Há quem acredite que filho “segura” marido. Há quem acredite que o relacionamento do casal não será “remexido” com a chegada dos filhos. E existem os casais que têm filhos.

É praticamente impossível um casal que tenha tido filhos e que o relacionamento amoroso não tenha mudado. Não estou falando aqui apenas das relações sexuais, estas a gente já sabe que são bastante afetadas, sobretudo no início. De qualquer forma, é válido lembrar mais uma vez que a mulher está em fusão emocional com o bebê e toda sua energia está dedicada para atendê-lo, nutri-lo, cuida-lo. Não existe neste momento espaço e disposição para sexo e até os hormônios colaboram para isso. Mas, não é sobre isto que quero falar, e sim sobre a mudança na forma de se relacionarem. Homem e mulher já não são as mesmas pessoas, mudaram de identidade, agora são Pai e Mãe. Portanto é necessário que aprendam a se relacionar novamente com estas novas pessoas que surgiram. É um desafio!

Por isso, é crescente o número de divórcios após o nascimento dos filhos.

Na grande maioria das relações, pai e mãe estão tão perdidos com a nova identidade que não sabem mais como se relacionar. Há muita expectativa entre ambos, pouco diálogo. A mulher, geralmente exausta física e emocionalmente, acha que o homem não esta colaborando como deveria, se vitimiza, se frustra. O homem, na grande maioria das vezes, não sabe como ajudar. Alguns se ocupam de trocar fraldas, ao invés de apoiar a mulher emocionalmente. Não que o pai não deva trocar fraldas do bebê, claro que ele deve e pode fazer isso. No entanto, o ideal é que o pai tenha condições de dar todo o suporte para a mulher a fim de que ela possa maternar tranquilamente.

Além disso, antes do nascimento do primeiro filho, geralmente a mulher acaba por sustentar emocionalmente o homem. Quando chega o bebê, todo o apoio que ela dava ao marido é agora exclusividade do recém-nascido. O pai sente-se excluído, sem lugar.

Este é só o começo de um emaranhado de mudanças na vida do casal. Apesar de muitos conseguirem se reinventar e aprenderem a se relacionar novamente, infelizmente, inúmeros relacionamentos não se sustentam após a chegada dos filhos.  Outros se fragilizam bastante, o casamento se mantém, porém não existe mais relação amorosa.

Aqui em casa passamos por vários perrengues, mas a vontade de permanecermos juntos em prol do nosso amor, dos nossos filhos, e da nossa família, falou mais alto. Seguimos em constante mudança, buscando nossa essência, com o objetivo de sermos os melhores pais que podemos ser. Temos nossas diferenças, discutimos, nos perdoamos e nos reconciliamos. Escolhemos amar.

É muita mudança que um simples bebê trás, né?

Mas na vida, tudo são fases. O bebê cresce, algumas demandas diminuem, e algumas coisas começam a voltar para algum lugar próximo do que era antes da chegada do filho…

A passagem do Furacão

Gosto de imaginar uma cidade que foi atingida por um furacão, e depois precisa se reestabelecer novamente. O tempo para reestabelecer é único para cada cidade e depende muito dos seus gestores, dos recursos disponíveis para investimento, e principalmente de ajuda externa de outras cidades/estados/países, outros governos. Algumas cidades se reerguem melhores do que antes, outras infelizmente não conseguem se reconstruir, mas nenhuma delas será a mesma.

Muitas das cidades se prepararam para a chegada deste fenômeno natural avassalador, e mesmo assim não saem ilesas. O fato é que, no momento em que se esta bem no olho no furacão, ninguém quer de novo viver aquela experiência. Mas depois, para as cidades que conseguiram se reerguer e se preparar novamente, quando o próximo furacão chegar, tudo vai ser diferente. Lógico que muita coisa vai sair do lugar de novo, estruturas serão abaladas, algumas coisas que não foram remexidas pelo primeiro furacão vão ser remexidas pelo segundo, ou pelo terceiro… Todavia, a cidade estará mais forte e mais consciente. Infelizmente, para as cidades que não se reestruturaram, que não aproveitaram as oportunidades de aprendizagem que o primeiro furacão trouxe, a chegada do segundo pode ser ainda mais avassaladora.

Mas graças a Deus não somos cidades, e nossos filhos não são furacões de verdade. Gosto apenas de usar essa metáfora para mostrar o porquê tantas famílias que antes desejavam ter mais de um filho, após o nascimento do primeiro desistem dos demais. Eu mesma, no auge do puerpério, cheguei a pensar na possibilidade de ser apenas “mãe de uma”. Porém, com o passar dos dias, fui aprendendo, me fortalecendo, me empoderando… fui em busca do autoconhecimento para ser a melhor mãe que eu poderia ser. Além disso, apesar de toda reviravolta que um filho trás consigo, é tanta coisa boa que vem embutida que muitas vezes nos esquecemos de olhar para “o estrago”.  E logo veio a saudade da barriga, a saudade do recém-nascido… e junto com isso a vontade de deixar para o mundo pessoas melhores… e quando Laís tinha 1 ano e 6 meses eu engravidei do Gael, como já comentei com vocês no texto anterior.

Somos seres humanos, racionais. Temos a possibilidade de escolher aquilo que julgamos melhor para nossa vida, temos a chance de mudar de idéia quando queremos. Tudo bem se antes você queria ter três filhos e agora quer ter apenas um. Só você sabe a intensidade do furacão que passou pela sua cidade e o quão difícil foi ou está sendo para reconstruí-la. Entretanto, não se engane! Não conte “historinhas” para você mesma, dizendo que mudou de idéia por que filho é muito caro.

Eu também concordo que filho é muito caro. Mas mais do que caro, filho dá trabalho. Exige disponibilidade, autoeducação, mudança de prioridades, autoconhecimento. Filho mexe com aquilo que a gente nem sabia que tinha para ser mexido…e dói! Mas filho também é benção, é graça, é a esperança de um mundo melhor, é amor desmedido, é oportunidade de evolução pessoal. Filho é milagre, é vida!

E lógico, se um filho já é tudo isso, dois filhos é tudo dobrado (nem tão ao pé da letra assim). É exaustivo, principalmente se você não tem ajuda. É punk no começo lidar com as emoções do mais velho que sente que ficou de lado. Mas é lindo ver o amor de um pelo outro crescendo. Eu imaginava que seria muito mais desafiador. Confesso que já estou com vontade do terceiro. Ops, já passou! Brincadeiras a parte, esta é uma decisão que ainda não tomei. No momento sigo com a idéia de ser mãe de dois, mas daqui um tempo, quem sabe…

O Furacão já passou, e agora?

Agora você decide se quer ou não viver as aventuras de um novo furacão na sua vida. Não estou escrevendo este texto para dizer que você deve ter mais de um filho, nem que você deve ter apenas um. Como eu disse lá no começo, essa é uma escolha pessoal e delicada.

Ser mãe de um, de dois, de três, ou de quatro, é um desafio, mas é também uma benção.

Quero apenas que você pare, respire fundo e reflita de forma consciente sobre suas escolhas:

– O que fez você decidir ter apenas um filho?

– O que fez você decidir ter mais de um filho?

– O que é para você ser mãe?

– Como você se sente sendo mãe?

– Você, que é mãe apenas de um filho, consegue se imaginar tendo mais filhos? Como se sente?

Aproveito para deixar duas dicas para quem planeja ter mais de um filho:

1- Prepare-se, no real sentido da palavra. Leia, informe-se, estude, eduque-se, conheça-se, conecte-se consigo mesma e com seu filho… Liberte-se das expectativas! Cada gestação é única e diferente, cada parto é único e diferente, e cada filho é único e diferente. Vão existir as semelhanças entre eles, mas não espere que seja 100% igual.

2- Prepare seu filho. Converse com ele, explique o que está acontecendo, leia livros sobre irmãos, mostre fotos de quando estava grávida dele e de quando ele era um bebê…. Seja honesta e diga que a vida de vocês vai mudar, que vai ser desafiador, mas que vai ser gratificante também.

E independente da escolha que você fizer, que seja a melhor!

 

Texto escrito por Amanda Balielo, Mãe da Laís e do Gael, Coach de Mães e participante da turma 4 do Zum Zum de Mães.

@amandabalielocoach 

Http://facebook.com/amandabalielocoach

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” ‘Seu filho mais velho vai ficar difícil de amar. Isso porque ele vai te pedir muita atenção. E teu bebê é tão fácil de amar! Um bebê recém nascido é muito fácil de amar. E você tem uma criança que já fala, que já olha pra você e que mete o dedo na sua cara, mexe com as suas dores e que fica difícil de amar. A gente precisa assumir que ele está difícil de amar porque ele precisa de amor. Porque senão a coisa vira um ciclo imenso de mau comportamento e você ficando nervosa…’ – Trecho da fala da Elisama durante o podcast.

 

A chegada do segundo filho mexe com as emoções de todos em casa. Por um lado a mãe se questiona: vou ser capaz de amar do mesmo jeito? Vou conseguir dar o mesmo de atenção? Meu filho mais velho vai aceitar bem a chegada do irmão? Por outro lado, temos o primeiro filho que, ainda que muito bem preparado, será impactado pelo nascimento do irmão e muito provavelmente terá ciúmes ou se sentirá ameaçado com a presença do bebê.

 

No 8o episódio da Tenda Materna, em que eu e a Clarissa Yakiara tivemos como convidada especial a Elisama Santos, conversamos sobre Relação Entre Irmãos. O que muda com a chegada do segundo filho? É possível evitar o ciúmes ou faz parte? Como ajudar o filho mais velho a lidar melhor com a vinda do bebê na casa? Por que o comportamento deles muda tanto mesmo quando eles demonstram entusiasmo durante a gravidez? Como fazer com que ele se sinta especial? Como não cair na tentação de comparar e rotular nossos filhos?

 

Neste episódio, eu confesso que fiquei praticamente de espectadora, já que sou mãe de uma e a Elisama e a Clarissa tinham muitas histórias para compartilhar. Mas durante a edição, me emocionei muitas vezes, acredito que reconectei com minha experiência como filha do meio, com a chegada do meu irmão, com os medos que senti, a sensação de ser rejeitada e me achar menos importante. Será que tinha alguém validando meus sentimentos naquela época? O que meus pais poderiam ter feito? Como eu poderia ter me sentido melhor? Falamos muito sobre reconhecer com honestidade o que se passa no íntimo da criança que recebe o irmão e da mãe que recebe o segundo filho.

 

Dá o play para escutar a conversa!

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No episódio mencionamos os livros Irmãos Sem Rivalidade – O que Fazer Quando os Filhos Brigam, de Adele Faber e Elaine Mazlish e Pais e Mães Conscientes, da Dra. Shefali Tsabary, além da série This is Us.

Para conhecer melhor o trabalho da Elisama Santos, você pode segui-la no Youtube ou no Facebook, ou acessar as páginas dos cursos online que ela tem para pais e mães de crianças pequenas, o Programa Reolhar, ou para pais e mães de adolescentes, o Programa Reolhar Teens.

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Mande para uma amiga que segue a Tenda Materna e está ansiosa pelo novo episódio, compartilhe!

Vamos fazer crescer essa rede de apoio que tanto faz falta às mães!”

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TEXTO: Maira Soares @cantomaternar
www.cantomaternar.com

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Depois dos primeiros dias na maternidade, vem a aventura dos primeiros dias em casa. Nossa, que medo que dá de levar aquela coisa pititica para casa! Parece tão frágil, tão vulnerável e a gente se sente tão despreparada, tão desajeitada…  Simplesmente porque parece que temos um pedaço do nosso coração batendo do lado de fora!

Quando observamos outros mamíferos percebemos o tamanho de nossa vulnerabilidade no reino animal! Os filhotes da girafa conseguem andar após 1 hora de seu nascimento, nossos primos macacos nascem e logo se penduram em sua mãe. Enquanto nós humanos sequer sustentamos nossa cabeça! Nós não nascemos prontos, precisamos ainda de um tempinho de desenvolvimento do lado de fora, é o que diz a teoria da exterogestação.

A gestação do lado de fora

Nosso bebê ainda precisa de um tempinho para se desenvolver fora da barriga da mãe. Afinal, ele ainda é extremamente dependente para sobreviver! Isto é o que diz a teoria da exterogestação, desenvolvida pelo antropólogo Ashley Montagu e difundida pelo pediatra Harvey Karp. Além dos 9 meses dentro da barriga da mãe, a gestação do lado de fora levaria pelo menos mais 3 meses para se completar.

Entretanto, existe um motivo biológico importante que justifica este aparente “despreparo” para o nascimento! Quando o bebê nasce o cérebro humano não está suficientemente desenvolvido para lidar com o mundo. Caso a natureza esperasse este tempo, a cabeça do feto seria grande demais para passar pelo canal vaginal.

Como sempre, podemos perceber a sabedoria da Mãe Natureza! Tudo tem seu tempo devido e o tempo dos bebês não respeita relógio e esquemas cartesianos! Trata-se de um tempo que está além de uma lógica racional! Como nos relata Laura Gutman no livro Maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos:

Para nos aproximarmos do universo do bebê é necessário usar o conhecimento intuitivo, e não o conhecimento racional, pois se trata de um ser regido por necessidades e leis que escapam às previsões mentais dos adultos. Esta aproximação intuitiva que aflora nas mães é muito desvalorizada socialmente. Por isso, as mulheres não respeitam os sentimentos óbvios que surgem pelo fenômeno de fusão emocional, que lhes permite ficar milimetricamente conectadas com as manifestações de seus bebês. (p.109)

Tempos de fusão

A ideia de que há uma fusão entre mãe e bebê chegou a mim de forma mais palatável através da Laura Gutman! Sempre tive medo de invadir o espaço da minha filha, de não respeitá-la enquanto indivíduo! Eu tinha medo de ser igual àquelas mães que agem como se o filho fosse uma extensão dos seus desejos, praticamente um boneco que elas manipulam da forma que desejam!

Exercitei por algum tempo este distanciamento com o objetivo de não me confundir com minha filha. Mas quando surgem os perrengues, o cansaço e toda a desordem emocional e hormonal do puerpério fica evidente este aspecto de fusão! A partir da leitura da Laura Gutman pude ressignificar o conceito de fusão e mesmo de simbiose numa perspectiva muito mais positiva nos primeiros anos do nascimento.

Segundo a autora, desde o nascimento até os 9 meses o bebê têm necessidades básicas que se assemelham àquelas que eram atendidas prontamente no ventre materno! São elas respectivamente: comunicação, contato, movimento e alimentação permanente.

Empatia com o “mundo dos bebês”

O choro dos bebês recém-nascidos refletem a profundidade de seu desconforto! Para amenizar isso é preciso tentar recriar alguns aspectos da vida intra-uterina. Vale a pena cuidar para que o mundo seja apresentado ao bebê de forma gradativa e tranquila!

Acredito que é preciso usar empatia para imaginar a enorme transição que é nascer! De que forma podemos fazer uma transição menos abrupta para este nosso mundo real? Tudo é novidade, trata-se de um mundo cheio de cores, sons, cheiros e uma explosão de sentidos! Antes estávamos aquecidos, apertados, alimentados… Agora estamos tendo nosso primeiro contato com o desconforto, com a necessidade, com a ausência… Por isso, o que mais acalma o bebê é a conhecida voz da mãe ou do pai, o colo, o aconchego!

Acredito que a maioria das mães perceberam o poder de sua voz, cheiro ou contato para acalmar seu filho! Digamos que nesta terra de ninguém, a mãe e o pai ou cuidadores mais próximos são os guias para esta longa jornada chamada vida! Eu amei e recomendo o documentário Começo da Vida, cheio de sensibilidade nos coloca neste universo dos bebês!

Comunicação e Contato

Na lista descrita pela Laura Gutman comunicação e contato figuram como aspectos principais! Esta experiência é fundamental para desenvolver a sensação de segurança e confiança ao bebê! No entanto, percebo uma certa dureza em relação à forma como vemos nossas crianças!

Em Amamentação: um capítulo à parte comentei que com 24 horas de vida, minha filha foi taxada de “preguiçosa” na maternidade! Além disso, quando ficava com ela no colo eu ouvia: “Você vai deixá-la mal acostumada, hein!” Sobre isso recomendo o vídeo: Colo deixa os bebês mimados no Canal Paizinho, vírgula.

Facilmente percebemos uma série de frases que denotam uma mesquinhez de sentimentos! Como se carinho demais fosse prejudicial à saúde infantil! Como se você precisasse ensinar ao seu filho que ele não pode ter muito, que é preciso se adaptar à escassez… E quanto antes, melhor! Puxa, por que tanta rudeza com este serzinho recém chegado ao mundo!

Quanto melhor afinarmos esta comunicação e contato com muito toque, olho no olho, muito colo e principalmente PRESENÇA nos cuidados diários, melhor será a adaptação de nosso bebê!

Movimento e Alimentação Permanente

Acredito que já seja moda o uso de sling! E que coisa boa poder levar nosso bebê conosco grudadinho! Infelizmente, o sling foi o que eu menos usei depois que minha filha nasceu! Simplesmente não rolou! Eu não me adaptei bem, quando eu me acertei, ela não curtia! Enfim, foi algo que eu idealizei bastante e não rolou pra gente! E tudo bem! A ideia central é manter o contato constante com a mãe e também o movimento! O bebê vive imerso em ruído e movimento no ventre materno e trazer estas condições após o nascimento é muito importante!

Além de dar colo, muito colo, colo em abundância para minha filha, rs, eu adaptei a necessidade de movimento usando uma bola de pilates! Sempre que minha filha Giovanna chorava eu tentava suprir todas as necessidades básicas: fome, aconchego, fralda… e quando o choro persistia eu experimentava o som do útero e o balanço na bola de pilates. De forma suave, este balanço trazia a ela conforto, porque logo se acalmava! Vale lembrar que NÃO é para sacudir o bebê, menos ainda dar aqueles trancos! Isso pode gerar a Síndrome do bebê sacudido.

A alimentação permanente era que o bebê tinha a seu dispor no ventre materno! Portanto é muito nova a sensação de falta, de fome! Desde a maternidade eu escutei as enfermeiras me aconselhando a “Não deixar a bebê chupetar o peito!” Entretanto, só fui desmistificar este conceito na Casa Curumin, onde a orientadora me perguntou: “Como sua filha vai chupetar se nem sequer sabe o que é uma chupeta? O que ela pode estar fazendo é alimentando sua necessidade de colo e aconchego!” A partir daí aumentou ainda mais minha disponibilidade para dar o peito à minha pequena!

“Ninguém pede aquilo que não precisa!”

A impressão que eu tenho é que as pessoas têm muito medo do amor. Medo desta relação tão especial, deste vínculo que se estabelece entre mãe e bebê! Na verdade, minha intuição me diz que a criança ferida de cada um está gritando! E ela diz: “Ah não deram carinho para mim, por que vão dar amor assim ‘de graça’ para este novo cidadão do mundo?!” Vale a pena dar uma olhadinha no artigo anterior “Maternidade: uma oportunidade de curar sua criança interior!“.

A frase título “Ninguém pede aquilo que não precisa!” foi a frase que mais mexeu comigo no livro da Laura Gutman! Isto porque ampliou o meu olhar para muito além da maternidade! Repensei bastante sobre minha criança, a relação com meus pais, meu trabalho como educadora e a própria relação com a sociedade.

Como seria o mundo se os adultos olhassem de verdade para os pedidos das crianças! E, para os críticos da Laura, eu não estou falando de viver em função dos pedidos das crianças! Mas para olhar profundamente para a necessidade que está escondida atrás daquele pedido! Na maioria das vezes tudo que as crianças querem é nosso olhar atento e focado nelas! Para refletir sobre isso um vídeo excelente é o Quem você convidaria para o jantar?

Coragem: a voz que vem do coração

Não tenha medo de entrar em fusão emocional com seu bebê! Esta teoria da exterogestação, para mim, valida ainda mais esta necessidade de contato íntimo e profundo entre mãe e bebê! Permita-se vivenciar esta experiência como uma oportunidade muito rica de cura emocional! Agora somos adultas e podemos amparar a criança que fomos e o bebê que temos nos braços!

Criar um bebê real é também reviver o bebê que fomos. O que acontece quando as mães criam seus bebês guiadas por conselhos e receitas recebidas, deixando de atender suas sensações viscerais? Simplesmente, a sombra aparece em manifestações incômodas, como doenças, choro desmedido e protestos dignos de bebês que resolveram chamar a atenção. (Gutman, p. 111)

Considerando esta perspectiva da exterogestação e da fusão emocional, imagine a tragédia de metodologias que propõem ignorar o choro dos bêbes! Deixá-los no berço e ADESTRÁ-LOS para que parem de chorar! Qual a leitura do mundo que estes recém chegados têm, quando suas necessidades básicas não são atendidas nem mesmo por seus cuidadores mais próximos?

Acredito que esta falta de suprimento emocional básico explique um mundo tão cheio de ódio e intolerância! No próximo artigo discutiremos um pouco mais a respeito da consequência destas necessidades não atendidas e como elas se apresentam como “pedidos deslocados”, segundo Laura Gutman. Enquanto isso, deixo o convite para que se fundam com seus bebês e que se disponibilizem emocionalmente para seus filhos! Para inspirar lá vai a linda música de Chico Cesar:

E aí você surgiu na minha frente
E eu vi o espaço e o tempo em suspensão
Senti no ar a força diferente
De um momento eterno desde então

E aqui dentro de mim você demora
Já tornou-se parte mesmo do meu ser

E agora, em qualquer parte, a qualquer hora

Quando eu fecho os olhos, vejo só vocêE cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz

O amor une os amantes em um ímã
E num enigma claro se traduz
Extremos se atraem, se aproximam
E se completam como sombra e luz

E assim viemos, nos assimilando
Nos assemelhando, a nos absorver
E agora, não tem onde, não tem quando
Quando eu fecho os olhos, vejo só você

E cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda

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Certa vez, um pai perguntou ao pediatra como conquistar o seu filho de apenas dois anos de idade.

O pediatra explicou-lhe sobre a importância de participar mais da rotina do filho: levá-lo na escola, ajuda-lo com a alimentação, com o banho e etc.

Pensei na dificuldade que o homem enfrenta na nossa sociedade para ser um pai presente, pois a ele sempre foi negado o direito de sentir, de se expressar, de se conectar com o próximo, de ninar um boneco, de se permitir.

Pensei, também, no fio invisível e magnético que aparece entre um adulto e uma criança, quando há uma relação de afeto, liberdade e criatividade envolvida.

Em outras palavras, quando o adulto se utiliza de uma comunicação lúdica para manter contato com a criança.

E ao falar desse assunto, não tem como não se lembrar do curta-metragem de animação espanhol, chamado Alike, dirigido por Daniel Martínez Lara e Rafael Cano Méndez.

A animação conta a história de um pai, que inserido na rotina pesada de trabalho de uma cidade grande, fecha os olhos para os anseios de criatividade do seu filho.

Ao percebê-lo infeliz, o pai oferece liberdade para o filho sonhar e criar. O filme termina em poucos minutos e nos deixa com um desejo indescritível de abraçarmos nossos filhos e abrirmos um novo canal de comunicação.

Precisamos enxergar as nossas crianças, dando-lhes asas para voarem, olhos para partirem e mãos para se apoiarem ao cair.

Uma criança que pula e dança sem parar pode não ter qualquer transtorno, mas simplesmente querer ser bailarina.

Um menino que não presta atenção na aula, mas somente na natureza lá fora, pode se tornar um grande fotógrafo da fauna silvestre.

Lembrei-me do circo, que encanta a todos, indistintamente.

Então porque não levamos o circo para dentro de nossas casas?

Provoquemos inovação, criatividade, superação de obstáculos e de frustação. Afinal, o que mais a vida irá exigir das nossas crianças no futuro?

Sobre aquele pai aflito no pediatra. Aguardei-o sentar ao meu lado, na sala de espera e disse-lhe: para conquistar o seu filho, torne-se um “pailhaço”. Jogue-se no chão, faça uma piada, provoque uma boa risada e não tenha medo de bancar o trapalhão. Depois você me conta se deu conexão!

Esse texto foi escrito por Lígia Freitas, Mãe do João e Participante do Zum Zum de Mães.

@ligiafreitasescritora

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