Percorrer muitos caminhos…

As malas prontas fechadas com cadeado abrem as comportas para uma inundação de incertezas, medos e insônia. Já não há mais tempo para desistir, já não há mais como conter ou impedir o crescimento que me espera, sigo apesar e com o pesar da culpa. No portão de embarque, a despedida, digo palavras engasgadas e desafinadas, um choro contido em um nó. Sigo em frente e olho para traz, ela está sorrindo e me dando tchauzinho no colo do pai, penso o quão forte e resiliente ela é, uma lagrima me foge em alta velocidade rosto abaixo, ela não vê. Lembro da primeira vez que me separei da minha mãe, foi com 15 anos que fiz meu primeiro voo solo, exatamente naquele mesmo lugar olhei para traz e quis voltar, sinto agora a mesma vontade, mas sei que se eu voltar não viajo nunca mais. A medida que meus passos me levam para longe vai crescendo em mim a segurança e a certeza de que tudo vai ficar bem.

É a primeira noite em quase 3 anos que não tenho que amamentar, por isso me permito beber vinho livremente, como minha refeição devagar e ainda quente, crianças correm pelo restaurante e vejam só, não sou eu que preciso me levantar para ir atrás, posso enfim terminar uma conversa sem interrupções. A noite avança, entro no quarto me jogo na cama enorme e só minha, não tenho que trocar fraldas, nem escovar dentes que não sejam os meus, me sinto livre, posso ler de luz acesa, posso beber mais um vinho, posso ver um filme ou assistir um vídeo, são tantas as possibilidades, mas acabo dormindo exausta sem ter me decidido por nenhuma delas. Acordo na madrugada sobressaltada, meus olhos e minhas mãos procuram por ela no breu gelado do quarto de hotel, com o coração disparado demoro a me dar conta de onde estou e a que estou, pego novamente no sono, porém agora ele é superficial.

Os dias estão passando, entre aprendizados, afloramentos, cadernetas, anotações e fotografias a saudade se camufla e fica ali como um pano de fundo. No entanto nos finais de tarde ela vem com tudo, as noites vão ficando cada vez mais difíceis. Ligo para falar com ela, mas a tela fria da ligação por vídeo não a entretém como eu gostaria, me ressinto e choro ao desligar, que saudade é essa gente? É normal! Respondo consolando a mim mesma, se não sentisse é que seria estranho. Saio do quarto conformada e pronta para mais um descontraído jantar com outros adultos.

Amanhece mais um dia, mando uma mensagem para uma amiga em franco desabafo: “hoje está especialmente difícil, cansaço, saudade, sinais de ansiedade, mas estou respirando fundo, nomeando as coisas que estou sentindo e assim vou seguindo, afinal está sendo muito importante estar aqui”. Quase que imediatamente chega a resposta cheia de empatia, minha amiga me diz com sinceridade que me entende, diz que eu a inspiro, mal sabe ela que é ao contrário, é ela que me inspira, é ela que me resgata e me traz de volta a razão, aquecendo meu coração antes mesmo da primeira xícara de café.

Antes da viagem eu e minha filha fizemos juntas um potinho de massinha rosa e colocamos pedrinhas transparentes dentro dele, o combinado é a cada dia de manhã ela tirar uma e quando o potinho estiver vazio eu volto. Em uma tentativa frustrada de antecipar minha chegada, ela tira do pote todas as pedrinhas restantes de uma única vez, o pai explica que não é assim, que as pedrinhas são só uma ajuda para contar os dias que faltam e que tira-las de uma vez não vai me trazer de volta. Ela parece entender, mas depois arruma confusão por causa da meia, do sapato, da blusa e do penteado, o pai acolhe, diz que o que ela sente se chama saudade, que é normal e que ele sente também! Por aqui eu também sigo acolhendo e respeitando os meus próprios sentimentos, os valido e os sustento pelo tempo que se fazem necessários. A cada manhã eu também tiro uma pedrinha do meu potinho rosa e imaginário, faltam poucas…

Voltar para casa…

A sensação de missão cumprida me alerta que já é tempo de regressar. Me distraio com a paisagem lá em baixo, rios negros meandrando por entre montanhas de diferentes tons de verde, o avião faz uma curva abrupta e agora o que vejo é o mar, estou enfim chegando em casa…. Viro a chave e abro a porta, sou recebida com sorrisos e abraços pelo meu marido, pergunto por ela ansiosa, ele me aponta o sofá, lá está ela dormindo profundamente. Chego bem pertinho, beijo a bochecha macia e me delicio com cheirinho de bebê que ela ainda tem, ela se meche e se aconchega ainda mais na almofada, parece que minha saudade vai ter que resistir um pouquinho mais. Fico esperando ela acordar, observando e percebendo cada detalhe sobre ela, meu Deus como ela é linda, como os traços dela são delicados e perfeitos, como o cabelinho lembra o meu quando criança, como ela pode estar crescendo tão rápido diante dos meus olhos?

Olhar tudo como se fosse a primeira vez

Em meio a gratidão por estar de volta, meus pensamentos se perdem no espaço e a percepção de tempo fica confusa, parece que muito tempo se passou desde de que parti e ao mesmo tempo sinto que nunca me ausentei. Procuro me distrair reparando a disposição dos moveis e outros detalhes da casa, começo a ver beleza e ordem onde antes só via bagunça e caos. As bonecas de pano espalhadas pelo corredor, as manchas de comida no sofá, as paredes rabiscadas, as marcadas de guache na porta do armário, só fazem confirmar o quanto sou feliz e sortuda. Nossos olhos se encontram enfim, ela sorri e me abraça forte, constata sonolenta “A mamãe voltou! ” fica ali abraçada quietinha sob o meu calor, fica por um tempo mais longo do que o comum para uma criança da idade dela e mais curto do que o necessário para uma mãe babona como eu.

À noite, sozinha no sigilo das minhas reflexões, concluo orgulhosa que uma etapa importante foi concluída com êxito. Percorri novos caminhos, por mais uma vez permeei pelas entranhas da terra desvendando seus segredos, por mais uma vez em meio a natureza vivi a sensação de desbravamento, saciando um pouco dessa sede que me acompanha desde a infância. Mas dessa vez foi tudo tão diferente, pela primeira vez eu silenciei e me reconectei com uma parte de mim que estava adormecida, me recordei quem eu fui um dia e me liguei a quem eu hoje sou. Voltei para casa, já não sou mais a mesma, sou outra, estou completa enfim, mãe e a geóloga se fundiram, já há algum tempo vinham timidamente ensaiando essa integração, tiveram um início confuso de acusações e frustrações, se engalfinhavam ferozes em uma louca disputa de quem renunciava mais em favor da outra, agora seguem pacificas e unidas com o mesmo propósito, dando o melhor que podem, somos uma só… Por agora revisito tudo e olho para tudo como se fosse a primeira vez….

 

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa, geóloga e mãe da Ive de 2 anos e 10 meses e participante da turma 5 do Zum Zum de mães.

vivian.pessoa@globo.com

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