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A comunicação mãe e filho como um caminho de cura e libertação!

Era a terceira vez que meu marido viajava nos últimos dois meses. E durante estas viagens,“coincidentemente”, meu filho mais novo ficara com febre. Desta última vez percebi que isso não era apenas uma mera coincidência, uma febre devido ao nascimento dos dentes caninos ou porque ele estava com o nariz cheio de catarro, tinha algo meu ali e que eu precisa me apropriar.

Meu filho estava me sinalizando com seu pequeno corpo quente, com sua necessidade de grudar-se a mim, com seu choro, com seu olhar triste e sem brilho, que ele já estava cansado de me mostrar que existia algo em mim que se enfraquecia na ausência do pai.

Passei o dia inquieta, remexendo por dentro, refletindo sobre minha história de vida, sobre minha relação com meu esposo, com meus pais, com meus filhos… e me PERGUNTANDO onde estava a minha RESPONSABILIDADE naquela situação? Como eu poderia estar co-criando esta realidade que estávamos vivendo? Como de alguma maneira eu era responsável pela febre que meu filho estava manifestando a cada vez que seu pai se ausentava?

Naquela noite quando fui coloca-lo na cama, disse sim para mais uma grande oportunidade que a vida me apresentava. Lucas estava agitado e inquieto, assim como eu, ele chorava, e não me deixava sair do seu lado nem por um segundo. Pude sentir e me conectar com aquela sensação de medo e de insegurança que ele estava manifestando através do seu comportamento. E naquele ambiente aparentemente angustiante e confuso, em meio ao seu choro e ao calor do seu corpo, peguei-o em meus braços, abracei-o fortemente e fui silenciando minha mente que insistia em fugir dali. Fui aos poucos me conectando com aquele instante, fui para dentro, sem muitas expectativas, simplesmente comecei a sentir o que estava acontecendo ali dentro, tornando-me um pouco mais intima de mim mesma.

E calmamente, a medida que as palavras vinham para dar nome a todo este movimento interno eu tratava de compartilha-las com meu filho. Me COMUNICAVA e dividia com ele cada insight, cada novo aspecto do meu SER que se revelava! Vieram a tona muitos medos… medo de ficar só, de não conseguir cuidar de mim e das crianças sozinha, vi também uma necessidade de controlar meu marido e te-lo por perto para me sentir segura, um apego forte. Senti também raiva da liberdade do outro, dos homens… Percebi que a medida que eu sentia as emoções que vinham à tona, que eu permitia que elas se revelassem e as acolhia com respeito, meu coração e minha mente se aquietavam e as palavras surgiam com força, elas eram capazes de expressar ao meu filho o que estava acontecendo em meu mundo interno.

Lucas começou a suar, senti que de alguma maneira ele compreendia minhas palavras, ou melhor as intenções que elas traziam consigo. Eu estava completamente entregue e aberta para o processo que estávamos vivendo ali. Simplesmente procurei aquietar minha mente e sentir o que  meu filho estava despertando em meu ser com seu comportamento. E a cada nova sensação, a cada momento de clareza, sentia vontade de me expressar e comunicar para ele o que estava acontecendo, o que eu estava me dando conta com o seu apoio. E naturalmente comecei a AGRADECE-LO por seu amor, sentia que no fundo ele confiava que em algum momento eu ia me  apropriar do que era meu naquela relação. E o fato de nomear para ele o que eu estava me dando conta e me abrir para a possibilidade de assumir o que era meu ali, permitiu que ele se libertasse . E seu corpo foi suando e limpando todo aquele movimento que já não mais lhe pertencia.

Era como se ele me dissesse: “finalmente neste instante vejo que há um adulto responsável nesta relação. Alguém capaz de se apropriar do que lhe corresponde e me deixar livre para viver os meus processos.”

E naquela noite ele suou e suou por várias horas seguidas e no dia seguinte não teve mais febre e nem no outro…

Até que novas oportunidades de crescimento apareçam para esta mãe que não se cansa de aprender com seus pequenos grandes filhos!

Um passo mais profundo na CURA por meio da COMUNICAÇÃO com as crianças…

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Comunicar para as crianças o que está acontecendo em nosso mundo interno de maneira responsável e honesta, quero dizer, assumindo a RESPONSABILIDADE pelo que nos corresponde em determinada situação, deixando claro que estamos atentos e cuidando daquilo, pode ser extremamente curativo para a relação mãe/pai/educador e filho.

Isso porque as crianças estão disponíveis emocionalmente para as pessoas e ambientes que se relacionam. Elas se conectam com o entorno e acabam absorvendo uma série de emoções que “não lhes pertencem”. Elas não sabem como se protegerem do que estão se relacionando.

Vejo esse movimento como um grande gesto de confiança de nossos pequenos na vida e especialmente em nós, pais e mães. Eles nascem tão entregues e abertos, que simplesmente amam e confiam no que temos para lhes oferecer.

O que acontece então é que a partir do momento que a criança absorve algo do entorno, ela vai começar a atuar de alguma maneira inspirada por aquela emoção. Ela vai nos entregar o que captou através de um comportamento, de uma mudança de atitude, ou até mesmo por meio das doenças. E se este adulto que cuida da criança estiver atento e se dispuser a assumir o que é seu naquela relação, ele terá a oportunidade de vivenciar todo um processo de tomada de consciência e crescimento junto com aquele pequeno ser.

Dessa forma, quando escolhemos trazer uma criança para este planeta, assumimos a responsabilidade de  proteger de nossos filhos, de cuidar deste entorno que eles estão inseridos. E não digo cuidar somente do ambiente fisico, incluo aqui também o ambiente emocional e mental. E para isso é preciso trabalhar com o auto observador e manter-se atento e RESPONSÁVEL pelo que você sente e pensa quando se relaciona com a criança.

E se você que está lendo este texto já está vivenciando (ou deseja começar) este processo de assumir a responsabilidade por sua vida e estabelecer um compromisso com sua evolução e do seu filho, vou te dar algumas dicas práticas que podem te apoiar muito neste movimento. Já te adianto que é um processo longo, desafiador e que é preciso ter muita paciência, coragem e honestidade para se ver ali, refletido em seu filho. Agora uma coisa é fato, se você se entregar e persistir vai colher frutos incríveis, vai experimentar uma relação mais profunda e conectada com  você e com quem ama!

Então, vamos aos pontos que levantei para que você comece logo a mergulhar neste universo de crescimento e possibilidades de cura para a sua relação com seu filhote:

  1. Observe atentamente seu filho: Mantenha-se atenta e presente para seu filho a maior quantidade de tempo que conseguir. Imagino que tenha vários afazeres em seu dia a dia, ou até mesmo trabalha fora de casa, mas é importante buscar momentos em sua rotina para se conectar com o seu filho. Tente parar tudo o que está fazendo e observe-o, mantenha-se em silencio ou fale pouco, olhe nos olhos da criança e mostre por meio do seu olhar e dos seus gestos que está ali disponível para ela. E somente depois de observar muito comece a identificar o que te incomoda ali.
  2. Pratique a auto observação: Observe seus pensamentos, emoções e ações especialmente na presença da criança. Entre em contato profundo com suas motivações quando está junto de seu filho. E caso observe em seu filho comportamentos desafiadores, que você se sinta confrontada ou incomodada aproveite a oportunidade para se questionar sobre sua responsabilidade naquela situação, como você poderia estar co-criando isso? Como de alguma maneira você é um exemplo disso que ele está manifestando? Como você pode estar inspirando a criança a atuar desta determinada maneira? Gosto de deixar as perguntas vivas em meu ser, conviver com elas por dias, deixa-las reverberarem. E logo sentir o movimento que as perguntas me inspiram a fazer. Quando estamos tratando de olhar para dentro, de questões existenciais, não há presa, não há certo e errado, não há uma resposta correta. As respostas podem “matar” as perguntas, muitas vezes nos enrijecem numa única possibilidade, num único caminho e nos desconectam da vontade de seguir em movimento, experimentando e buscando caminhos e possibilidades criativas, inovadoras.
  3. Comunique com responsabilidade: Depois de observar a criança e se observar, é hora de comunicar com seu filho o que você está sentindo e aprendendo sobre você neste processo.  Vale lembrar que a criança já está sentindo o que está acontecendo no mundo interno da mãe, mas ela precisa de escutar de você e sentir veracidade em sua fala, sentir que você está consciente de suas próprias questões internas, para soltar e liberar o que está absorvendo nesta relação. É importante que, além de falar que esta consciente das suas questões, você comunique suas intenções de trabalhar e organizar o que está percebendo.

Agora de maneira bem prática atente-se para estes pontos que podem facilitar sua conversa com a criança:

  • Comunique-se de forma responsável, sempre na primeira pessoa. Não responsabilize outras pessoas pelo que você está vivenciando.
  • Converse com seu filho num momento tranquilo, de preferência alguns minutos depois que ele adormecer.
  • Fale como se estivesse falando com um amigo intimo que é capaz de te escutar profundamente.
  • Conte para seu filho como você está se sentindo, quais são as suas angustias, etc. Se sentir vontade de chorar, chore…
  • Fique bem presente e conectada!

Este três passos básicos se bem aplicados, com compromisso e responsabilidade, podem trazer um crescimento profundo em sua vida além de te entregar uma grande oportunidade de LIBERAR seu filho de questões familiares complexas e abençoar o caminho da criança para que ela possa seguir de forma autêntica, LIVRE, sendo quem ele realmente É! 

7 Comments

  • Mariana disse:

    Nossa, Clarissa, você não imagina como este artigo caiu como uma luva para mim hoje (e como, como uma luva de pelica, me deu um tapa bem dado na cara. Sem violência. Só para acordar). Esta semana tenho lidado com o comportamento desafiador da minha filha e seu sono nervoso, agitado. Pensei comigo “é uma fase, preciso ter paciência”, mas esse pensamento pressupõe que esse comportamento está vindo completamente DELA. Lendo seu artigo, estou começando a entender que talvez não venha dela, pelo menos não do jeito que eu estava pensando. Estou começando a me questionar: o que EU tenho a ver com a virada de comportamento dela? E percebo que o comportamento dela tem muito a ver sim com o jeito que eu estou me sentindo e agindo.
    Muito obrigada pelo artigo! De imensa valia! Gratidão!

  • admin disse:

    Que maravilha Mariana, este processo de indagação é muito importante e pode te colocar em contato com aspectos desconhecidos do seu Ser! Siga atenta se observando e observando sua filha e lembre-se de comunicar com responsabilidade! Bjo gde querida

  • Renata disse:

    Amei o texto! Achei bem dentro da Constelação Familiar. Já fiz algumas mas achei a sua abordagem muito mais direta e exemplificativa… Sensacional, delicado, abrindo a mente de que somos co-criadores de tudo que vivemos e que está a nossa volta, foi direto ao ponto: responsabilidade e não culpa. Muitas vezes, por engano, carregamos pela vida algo que não nos pertence….. Parabéns!

  • admin disse:

    Gratidão Renata por seu comentário tão amoroso!!! Também sinto que é por ai… E que a cada instante estejamos atentas para assumir com amor nossa responsabilidade e liberarmos a nós mesmas e nossos filhos de padrões mentais errôneos e feridas emocionais!!! <3 Bjo, Clarissa

  • Vanessa Buzzi disse:

    Clarissa,
    Acabei de assistir ao 3o video do workshop… e como todas já comentaram sobre essa narrativa acima, é realmente espetacular quando a gente se abre para entender que não ha culpa nos pequenos e que nós fazemos parte DEMAIS do problema!
    Mas vem o acalento de se ver com a solução ao nosso alcance também.
    Estou querendo muito participar da terceira turma do Zum zum… como faço?
    Bjo, obrigada e parabens pelo lindo trabalho!!!

  • Josiane Antônia da Silva disse:

    Acabei de ler sobre o assunto.
    Clarissa muito obrigada!!!
    Nossa que maravilha de conteudo, bastante relevante, nos ajuda encontrar consigo mesmo .
    Pois tantas vez com a correria diaria, não nos damos conta da necessidade individual de quietar nossa mente para refletir e poder sentir e observar nosso filho. Ufffa e uma especie de piloto automatico sabe.
    Adorei também os comentarios , foi muito aproveitador.
    Também quero participar da turma do Zum zum de pais?
    Beijos …com carinho Josiane.

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