Somos Muitas…

O Julgamento

Era uma tarde de sexta feira, sai um pouco mais cedo do trabalho, precisava comprar umas roupas para o inverno que acabara de chegar. Entrei em uma loja, experimentei as peças, decidi o que levaria e fui para o caixa. Percebi que ia demorar, pois duas vendedoras estavam trocando a fita da máquina do cartão, olhei para o relógio, meu tempo era cronometrado, ainda precisava pegar minha filha na escola, mas já que não tinha outro jeito comecei então a prestar atenção na conversa das duas moças. Uma delas estava contando que viveu dos 5 aos 13 anos em um colégio interno junto com a irmã, contou ainda que só iam para casa nos finais de semana há cada 15 dias, fiquei alguns segundos em silêncio e um pouco chocada, olhei para ela com mais atenção, como que procurando alguma coisa, algum traço, ainda que no olhar, que refletisse tamanho abandono.

Não resisti e me intrometi na conversa, perguntei se ela não sentia falta de casa, ela disse que no início sim, que havia sido muito sofrido e solitário, mas que depois se acostumou. Acho que ela percebeu o meu olhar atônito e falou resignada que foi o melhor colégio em que já havia estudado, que os professores eram muito bons e que haviam feito muitos amigos.

A outra vendedora falou algo do tipo: “nunca faria isso com minha filha” e percebi que era exatamente aquilo que eu estava pensando, a moça porém defendeu prontamente sua mãe, dizendo que ela não teve outra escolha, ela era sozinha com duas filhas e essa foi a única maneira de conciliar a maternidade com o seu trabalho, que era o único sustento da família. Mas ainda assim, na intimidade dos meus pensamentos eu julguei ferozmente aquela mãe, só conseguia pensar no abandono que aquela moça havia sofrido em tão terna idade. Perguntei como era a relação com a mãe atualmente, ela me respondeu que não tinham uma relação muito próxima e com sinceridade me contou que se tornou uma pessoa muito carente de afeto, mas que ao mesmo tempo tinha uma enorme dificuldade em criar vínculos com as pessoas, inclusive com a própria mãe.

A empatia

Sai da loja levando minha sacola, meus pensamentos e um monte de sentimentos desordenados, de indignação principalmente, fui andando apressada em direção ao metrô, o coração apertado e um nó na garganta eu só conseguia pensar na moça da loja e em sua irmã, duas crianças pequenas abandonadas em um colégio interno….

Mas aos poucos minha consciência foi me chamando a razão e comecei a tentar exercitar a verdadeira  empatia, fui tentando me colocar no lugar daquela mãe de uma maneira muito verdadeira, fui tentando imaginar que caminhos a teriam levado até a porta daquele colégio e quanta dor e culpa aquela decisão deve ter custado até hoje.

Comecei a visualizar uma mulher diferente da megera do meu primeiro pensamento, comecei a vê-la como uma mulher sozinha, perdida e exausta. Provavelmente devia estar sendo cobrada ao extremo no trabalho, mas ia aceitando, consumindo  seu tempo e correspondendo de forma impecável, quem sabe ela tinha em vista uma promoção que poderia melhorar a vida e o futuro de suas meninas. Pensei na possível amargura que a devorava por dentro, pelo fato de ter sido abandonada pelo pai de suas filhas, ou talvez tenha sido uma morte precoce e inesperada que tenha levado para sempre o amor de sua vida, de todo modo imaginei a saudade que ela devia sentir da época que sua família estava inteira, senti sua solidão no silêncio de uma casa vazia e arrumada, pensei em todas as noites quando ela finalmente desabava em sua cama fria, possivelmente era somente ali que se permitia chorar… Como fui injusta com aquela mulher, poderia ter sido eu, poderia ter sido comigo em um outro tempo, em um outro cenário, em outras circunstâncias.

 

A minha culpa

Quando dei por mim já estava na estação que deveria descer, fui caminhando pela rua ainda emersa em meus pensamentos. Chegando perto da escola da minha filha, fui dragada para um passado não muito distante dali, comecei a reviver então os meus caminhos, aqueles que me levaram até a porta daquela escola pela primeira vez, carregando nos braços uma bebê com ainda 6 meses e meio.

Lembro da sensação de que o tempo havia passado rápido de mais, os meses da minha licença teimavam em começar e terminar em uma velocidade que eu não fui capaz de acompanhar, quando dei por mim estava sentada na secretaria matriculando minha filha. Dias depois, prestes a voltar ao trabalho o coração estava estrangulado e cheio de culpa, não sabia se havíamos nos preparado para aquele dia!

Queria dizer para minha filha, de algum modo que ela entendesse, que não havia outro jeito, eu simplesmente precisava voltar ao trabalho, não somente por amar minha profissão, mas nossa realidade financeira naquele momento não me permitia outra opção! Queria explicar que entendia que era cedo demais para nós duas e que não era uma troca, nem abandono, nem falta de amor ou vontade. Queria poder parar o tempo ou começar tudo de novo, ir de volta para o momento em que entramos em casa pela primeira vez com nosso pacotinho nos braços, completamente confusos e arrebatados de amor.

No primeiro dia em que ela ficou na escola sem mim, após o período de adaptação, a saudade que eu senti foi devastadora e irracional, só haviam alguns minutos que eu a havia deixado lá, tentava me convencer de que o que eu sentia não fazia sentido, mas o meu corpo me falava a verdade, do meu peito vazava leite, nos meus braços um imenso vazio e no meu colo só ausência.

Rezei baixinho para que ela não estivesse sentindo minha falta do mesmo jeito que eu estava sentindo a dela, pedi a Deus que fizesse florescer amor pelas suas novas tias e que ela cativasse seus corações, para que em seu novo e precoce caminho ela continuasse cercada de amor, mesmo quando inevitavelmente estivesse longe dos meus olhos…

Já de volta ao presente, na porta da escola, escutei a vozinha da minha pequena dizendo: “é a mamãe é a minha mamãe ” ela veio correndo e pulou no meu pescoço, como sempre faz todos os dias.  Esse é sem duvida o melhor momento do meu dia, depois de mais de nove horas longe dela, chega finalmente o momento do nosso abraço, meu corpo todo se prepara, meu espírito se entrelaça com o dela e eu sou preenchida pela felicidade mais verdadeira e pura que já pude experimentar. 

Somos muitas, Somos tantas….

No caminho de volta para casa, pensei novamente na moça da loja e em como deviam ser os reencontros após os 15 dias longe da mãe, desejei de coração que esses momentos tenham sido mágicos, como o meu acabara de ser, senti uma enorme gratidão por poder passar todas as noites com a minha filha, por poder compartilhar a cama e dormir de mãos dadas com ela, sentindo seu cheirinho e seu calor, me emocionei e algumas lágrimas começaram a cair pelo meu rosto. Mas logo em seguida senti medo de ser julgada pelas minhas decisões, assim como eu tinha acabado de fazer com uma outra mãe. Ainda no caminho de casa, uma mulher passou por mim na rua, reparou minhas lágrimas e disse: “foi só um dia difícil, eu sei bem como é, estou indo buscar o meu na escola” apesar daquele não ser exatamente o motivo pelo qual eu estava chorando, me senti acolhida por aquele comentário, senti que eu não estava sozinha, somos muitas, somos tantas, estamos em todos os lugares, pelos quatro cantos do mundo…

Quando cheguei em casa chorei ainda mais, já nem sabia mais por que eu estava chorando, se era por mim mesma e o peso da minha escolha, se era pela minha filha que desde de pequenina tem que ficar tanto tempo longe casa, se era pela moça da loja e a ferida emocional que o abandono causou a criança que ela foi um dia, se era pela mãe dela e todo esse tempo convivendo com a solidão e a culpa.  Acho que na verdade chorei por todas nós que decidimos seguir com as nossas carreiras apesar de tudo. Chorei também por aquelas que decidiram desistir de suas profissões, ainda que por um tempo, decidiram renunciar aos seus sonhos e aos seus projetos. Sinto tanto por ainda termos que fazer escolhas tão difíceis, por ainda ser tão difícil sustentar essas escolhas e sinto mais ainda por saber que independente de quais sejam, seremos sempre duramente julgadas.

Antes de dormir fiz uma prece, pedi por um mundo como mais empatia e respeito,  onde nós voltássemos a acreditar que não fomos feitas para julgarmos ou competirmos entre nós, pedi que nos lembrássemos da nossa essência e de quão natural e poderoso é quando estamos juntas, nos apoiando e aprendendo com nossas diferenças, que nos lembrássemos o quão potente somos quando colaboramos para o crescimento e a mudança que queremos ver mundo. Pedi desculpas aquela mãe pelo meu pré-julgamento e pedi que ainda houvesse tempo de cura, de perdão e de amor para todas nós…

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa, mãe da Ive de 2 anos e 4 meses  e participei da turma 5 do Zum Zum de Mães.

@viviancpessoa

 

2 Comments

  • Lilian Pessoa disse:

    E mais uma vez.. Você consegue colocar em palavras e em perfeita harmonia tantos sentimentos tao comuns a todas nós..
    Fui as lágrimas me colocando no lugar daquela mae.. e lembrando exatamente da mesma situaçao que a sua, quando deixei mei filho na creche a primeira vez.
    Ainda hoje existem dias que eu so queria ficar em casa com ele agarradinha.. Imagino o que sentia aquela mae que so via as filhas a cada 15 dias? O sofrimento, dor, saudade e culpa.
    Texto maravilhoso que nos faz refletir mais e julgar menos.
    Mais uma vez, parabéns Mana.. orgulho define.
    Bjs te amo

  • Mayara disse:

    Lindo texto, D. Vivian! Obrigada por ensinar o amor e a amar com palavras e com exemplo, atitude. “O que você faz fala mais alto”, não é mesmo? 🙂 Beijocas!

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