O silêncio e o Ritmo 

Quando nascem os nossos filhos somos arrebatados por esse amor gigante avassalador, chega a assustar. Não foi diferente comigo, quando minha filha chegou segui o clichê,  jurei solene e ingênua que seria a melhor mãe do mundo. A busca pela perfeição, pelo acertar sempre e pelo infalível me acompanhou por um tempo, no entanto só me fez sofrer, só me fez frustrar e o caminho ficou mais pesado e solitário.

Em alguns momentos minha mente ficava barulhenta, eram tantas vozes internas me dizendo o que fazer e como fazer, vozes desde os meus ancestrais até às dos meus vizinhos bem intencionados, elas se misturavam com a minha própria voz em uma grande confusão mental e às vezes eu me sentia sem rumo e desanimada. Até que assumi esse processo, percebi que precisava de silêncio interno, ah mas o silêncio e eu não éramos lá muito íntimos, ele me causava até desconforto, não sabia lidar com ele, para mim o barulho era uma defesa, uma distração para não ver o que eu não queria ou o que eu não estava pronta para ver, foi preciso coragem e vontade. Hoje já estamos nos entendendo melhor, sigo tentando,  ainda é algo difícil para mim, mas quando consigo silenciar sou capaz de ver o que é meu com clareza, consigo acessar minhas próprias verdades, as que precisam ser ouvidas e comunicadas de fato.

Eu vivia em uma correria sem fim, sempre fui agitada e estava ficando cada vez mais acelerada em relação à vida… Depois de saber um pouco sobre o ritmo da infância, comecei a observar minha filha, no meu silêncio recém conquistado eu a observava nas minúcias, no seu comportamento curioso e observador, nas suas experimentações despretensiosas, nos seus olhos atentos às pequenas novidades, na maneira que ela se entregava ao sono e em toda sua fisiologia em si. Notei que ela estava dançando em plena harmonia com a música vinda da Terra, da natureza. Quanto a mim, percebi que em algum lugar do caminho eu havia perdido a capacidade de ouvir essa música, eu estava fora do compasso, dançando fora do ritmo, sabe quando em uma festa tem alguém dançando freneticamente uma música lenta? Então, foi exatamente assim que me percebi em relação ao mundo e em relação à minha filha. Minha pequena sempre me mostrando com precisão o que preciso olhar dentro de  mim. Hoje em dia quanto estou conectada a ela, à natureza e ao momento presente, dançamos juntas em um suave balanço, meu jeito apressado ainda me atrapalha um pouco, mas ainda assim tem sido incrível ouvir essa música de novo, relembrando aos poucos os movimentos harmônicos dessa dança primordial.

A Consciência 

Agora vejo que não é sobre ser a melhor mãe do mundo, não é sobre perfeição, é sobre ter consciência! Consciência do meu papel, consciência de que estou fazendo o melhor que posso com as informações que tenho, consciência do que ainda preciso melhorar, mas sendo gentil comigo mesma, consciência de quais são as minhas conquistas, onde já tenho meus méritos, mas sem soberba. Não existe mágica que transforme do dia para noite a nossa realidade, o caminho começa com comunicação para além das palavras, com sentimento, com vinculo para além dos cordões e das amarras, com verdade. O segredo para mim é sentir a alegria de contemplar a beleza do percurso e não esperar a felicidade somente na linha de chegada, entendendo que os tropeços são parte do aprendizado, isso tornou o meu caminho mais leve.

Tenho ouvido por ai que as crianças de hoje em dia são diferentes, claro que são diferentes, o mundo não é mais como era antigamente, estamos testemunhando e protagonizando mudanças intensas e rápidas como nunca vimos antes, é o alvorecer de uma nova era, acredito que nossos filhos viverão em um mundo diferente do que conhecemos, não dá para esperar que as crianças de hoje sejam como as crianças de outrora. Acho mais importante do que nunca ajudarmos a manter acesa essa chama que eles trazem, essa essência divina, esse propósito, conservando essa clareza e espontaneidade que os acompanha na infância, essa verdade sobre quem eles são para além das nossas expectativas. Mas isso requer uma mudança de olhar em relação à infância, requer educação e limites baseados na empatia e respeito, requer uma responsabilização e uma preparação nossa como pais e como parte da sociedade em que vivemos. Quando um de nós desperta, mais uma luz se acende no mundo, quando um de nós cresce, todos nós  crescemos juntos. E você? Se sente pronta(o) para fazer parte desse caminho?

Esse texto foi escrito por: Vivian Pessoa Mãe da Ive de 3 anos, Geóloga, Participante da turma 5 do Zum Zum de mães, Educadora Parental pela Positive Discipline Association.

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vivian.pessoa@globo.com

 

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