O nascimento do Bebê e a implicação Paterna nos cuidados diários

Queridas mães, é com imensa alegria que escrevo esse texto para vocês. Gostaria de agradecer a Clarissa por essa oportunidade e por ter criado esse espaço maravilhoso de trocas, aprendizado, apoio e autoconhecimento. Meu nome é Tânia, sou psicóloga, psicanalista e mãe da Milena que fará 3 anos em agosto.

Escolhi falar desse tema por ser muito recorrente no meu consultório. O nascimento de um bebê trás muitos impactos no casal e em geral as mães reclamam muito da falta de envolvimento do companheiro nos cuidados com o bebê e de como elas se sentem sozinhas e sobrecarregadas.

Quando uma mulher engravida, além das mudanças biológicas e corporais, também ocorrem mudanças psicológicas que nos ajudam a nos apropriar desta nova função que é a maternidade. Psicologicamente falando, na gravidez passamos pela fase de transparência psíquica (Monique Bydlowski) que reativa a criança que fomos um dia. Com isso, ficamos mais abertas a lidar com os nossos conflitos infantis, principalmente ligados ao cuidado ou ao não cuidado que recebemos, em especial, de nossas mães. Ficamos preocupadas em como seremos como mães, em não reproduzir certos comportamentos familiares que nos fizeram sofrer. A natureza é sabia, primeiro precisamos cuidar de nós mesmas para depois conseguir cuidar do outro. Tudo isso é importante para conseguirmos entrar na fase de preocupação materna primária (Winnicott) que ocorre no final da gestação e nos primeiros meses de vida do bebê. Nesta fase o bebê é o centro de tudo, nossa mente e corpo ficam quase que totalmente voltados para ele. Desenvolvemos um estado de sintonia fina com o bebê que nos propicia atende-lo prontamente nas suas necessidades. Tudo isso ocorre na mulher de uma maneira visceral, muito intensa. Nós somos convocadas com uma força enorme a exercer esse papel. É a grande minoria das mulheres que movidas por grandes conflitos internos não elaborados, grandes privações afetivas e sociais ou mesmo patologias psiquiátricas não aceitam esse chamado. Com o homem as coisas ocorrem um pouco diferente. Eles não vivem a paternidade no próprio corpo, a intensidade do momento é bem diferente e por isso, muitas vezes essa construção é mais demorada e em alguns casos não acontece. 

Como podemos ajudar nesta construção fortalecendo a união familiar?

Na decisão de ter um filho:  

Podemos começar todo esse processo desde a ideia inicial de ter um filho. O marido está implicado nesta decisão? Ele também tem esse desejo? No meu caso, demorou um tempo para que eu e meu marido estivéssemos certos que queríamos ter um filho. Foram muitas conversas que aos poucos foram amadurecendo esse desejo em nós. Imaginávamos como seria e isso alimentava o nosso desejo, mesmo sabendo que seria tudo diferente do que pensávamos e que teríamos que mudar nossa vida, nossa rotina para acolher um bebê.

E quando o bebê não foi planejado? Nesse caso, o casal terá que lidar com isso, mas em grande parte destes casos percebemos que alguma parte desta mulher e deste homem quis ter um filho, mesmo que de forma pouco consciente, pois permitiram que a gravidez ocorresse. Tive um cliente jovem ainda terminando a faculdade, na qual a namorada ficou gravida. No primeiro momento foi um impacto enorme, chorou, achou que sua vida havia acabado. Depois, passou a curtir a gravidez e depois que o filho nasceu criou um vinculo muito forte, fazia de tudo e foi se tornando um pai amoroso, presente e participativo.

Na gestação:

A gestação também é um momento importante para incluirmos o marido nas consultas médicas, ultrassons, preparativos para a chegada do bebê. É importante deixar o marido interagir com o bebê dentro da barriga e estimular isso. Em nossa cultura, em geral, as pessoas e especialmente as mães conversam com os bebês e falam por eles, uma vez que ainda não conseguem falar. Isso é fundamental tanto para o bebê ser incluído no mundo simbólico quanto para os próprios pais, pois oferece uma concretude para existência desse bebê. Ele existe e já faz parte da família. Para o pai que não vive a gravidez corporalmente é muito importante para ir dando forma a sua paternidade. São falas simples como: Olha o papai chegou, eu escutei a voz dele e já estou querendo falar oi. Vem cá papai falar comigo. Sabemos que a partir da vigésima semana de gestação, o bebê já escuta bem os sons e que tem preferência pelos sons graves, como a voz do pai. Muitas vezes, eles reagem se mexendo. Intuitivamente percebemos isso e incluímos o pai nesse processo. Durante a gestação algumas mulheres também optam em fazer cursos sobre cuidados com o bebê, amamentação, etc. Seria fantástico se os pais participassem juntos, mas quando isto não for possível, é bacana que possamos passar o que aprendemos a eles.

No parto:

No parto, a inclusão do pai também é muito importante independentemente do tipo de parto que irá acontecer. O pai sempre terá um papel importante tanto de apoio emocional para a mãe quanto para acolher o bebê nesse primeiro momento de sua vida.

Na volta para casa da maternidade:

Agora vem a parte mais difícil: a volta para casa da maternidade. Entre 70 e 90% das mulheres passam pelo fenômeno denominado Baby Blues. Ocorre entre o terceiro e quarto dia após o nascimento do bebê. A mulher entra num estado de muita fragilidade e sensibilidade. É muito comum que a mulher chore por uma mistura de sentimentos e hormônios. É um estado de reconhecimento mútuo do bebê e da mãe. Psicologicamente falando, há nesse momento uma reatualização dos lutos e das separações não simbolizadas ao longo da vida da mulher. Especialmente nessa fase, a presença amorosa do parceiro é muito reconfortante, assim como a presença acolhedora da mãe da mãe. As parturientes precisam ser cuidadas e acolhidas. Ter a informação que a parturiente pode passar por essa fase é interessante, para que ela e a família possam reconhece-la e se assustar menos com o turbilhão de sentimentos que podem surgir, facilitando o cuidado materno nesse momento. Passar por esse fenômeno é normal e não necessita de ajuda especializada, diferente dos quadros de depressão pós-parto e psicose pós-parto que muitas vezes impedem que a mãe exerça o cuidado com o bebê.

No dia a dia com o bebê:

Passadas as primeiras grandes emoções, entramos no dia a dia com o bebê. Aquele pequeno ser que necessita da gente para absolutamente tudo, 24 horas por dia. Em geral é nessa fase que iniciam os maiores conflitos no casal. O principal motivo é que as mulheres se sentem cansadas e sobrecarregadas e os homens se sentem cobrados e criticados. É claro que todo o histórico anterior terá um impacto positivo ou negativo nessa fase. Os homens que já vinham participando desde o início terão uma tendência a serem mais participativos nos cuidados com o bebê, mas mesmo assim, pode não ser da forma que a mulher espera. Então, como podemos fazer para essa fase ficar mais leve?

Quando o bebê nasce, nós mães somos as pessoas mais intimas e importantes na vida dele. Ele já nos conhece como ninguém. Esteve dentro de nós, escutou as batidas do nosso coração, nossa voz, sentiu muitos dos nossos sentimentos e depois que nasce ainda sente que ele e a mãe são uma pessoa só. E nós mães por toda natureza na qual já me referi acima somos as pessoas mais aptas a nos conectar com ele para que possamos atender as suas necessidades tanto físicas quanto emocionais e psicológicas. Dessa maneira, também somos nós a introduzir uma terceira pessoa a esta relação. Já ouvi de algumas mães: Mas Tânia, isto é muito pesado. Como assim também somos responsáveis por introduzir o pai na relação com os filhos? Claro que não somos 100% responsáveis, eles também têm a parcela deles, mas o que eu quero dizer é que podemos facilitar ou dificultar essa relação. Por exemplo: se acharmos que o pai não sabe cuidar do bebê, que é desajeitado, que não leva jeito para trocar a fralda e se temos receio de que o pai dê um banho, teremos a tendência de fazer tudo sozinha.  Para camuflar isso, as vezes sem perceber, usamos o pai apenas para: preparar o banho, trazer as coisas que a gente está precisando, etc. Se o pai fica apenas como auxiliar, trazendo coisas, preparando outras, ele perde o mais importante que é a relação, a conexão com o filho. É muito comum fazermos isso sem perceber. Se conseguirmos dosar isto melhor, possibilitamos um contato mais agradável e não transformamos o pai num auxiliar.

Facilitamos o contato e a conexão do pai com o bebê e a união familiar quando em primeiro lugar somos claras, pedimos o que queremos sem a expectativa de que o outro vai adivinhar que precisamos de ajuda. Quando temos essa expectativa invariavelmente iremos nos frustrar e ficar com raiva. Podemos deixar que o pai exerça tarefas diretamente com o bebê e aceitar que ele vai fazer do jeito dele. Podemos ensinar sim alguma coisa desde que seja sem críticas. Devemos evitar a frase: pode deixar, você não sabe fazer nada mesmo ou olha o que você está fazendo, não é assim… Estas falas são muito comuns e afastam o pai da relação. Eles já têm que lidar com o sentimento de exclusão próprios da ocasião, pois é a mãe a pessoa mais importante para o bebê e o bebê também para a mãe. A nossa atitude é de fundamental importância para a harmonia e conexão familiar. Nós mães muitas vezes não falamos pelo bebê uma vez que ele ainda não sabe falar? Então podemos fazer assim: Papai eu prefiro que troque a minha fralda assim. Gosto de ficar no colo de frente para eu olhar para todo mundo. Oba papai chegou, estou com saudade do colinho dele. Papai me coloca para arrotar agora, eu já acabei de mamar. É claro que não vamos falar o tempo todo pelo bebê com o pai, e quando falarmos diretamente com ele podemos falar com tranquilidade, com clareza e também com carinho, para que todos sintam o quanto são importantes naquela família. Escuto frequentemente, os pais se queixando de que as mulheres não falam o que querem e depois cobram como se tivesse falado. É importante lembrar que o que é obvio para nós, pode não ser obvio para o outro. O casal deverá suportar ficar em segundo plano nesse momento, priorizando o bebê, mas mãe e pai podem se unir ainda mais em prol do maior projeto de suas vidas que é criar um filho. Nesta fase ter uma rede de apoio também é muito importante, ter avós que ajudem, algum familiar ou mesmo uma funcionária de confiança, faz com que a rotina inicial fique mais leve para todos. E na medida que o bebê for crescendo as vezes é possível fazer um passeio com o marido e deixa-lo aos cuidados da vovó. E se o seu filho já não é mais um bebê e você continua com os mesmos problemas, também é possível aplicar o que estou explicando aqui. Deixe os dois sozinhos brincando, permita e incentive que o pai leve na pracinha sozinho que eles desenvolvam as atividades deles.  A grande maioria dos pais responde positivamente a estas iniciativas.

Espero que tenham gostado do texto e que ele possa ajudar de alguma forma. Pretendo escrever nos próximos meses sobre o surgimento do psiquismo e o desenvolvimento emocional desde o feto até a criança e como podemos ajudar para um desenvolvimento emocional saudável. Deixe sua dúvida, seu comentário que terei prazer em conversar com você.

 

Este Texto foi escrito por:  Tânia Oliveira de Almeida Grassano, Psicóloga formada pela UFMG. CRP-04/19643

Psicanalista: Membro efetivo e docente na Sociedade Brasileira de Psicanalise de Minas Gerais – SBPMG.

Realiza atendimento em psicoterapia individual de crianças, adolescentes e adultos. Atua também com psicoterapia pais-bebê.

Os atendimentos são realizados em BH, próximo à praça da Liberdade.

Contatos: (31) 30725974 / taniaoliveiraalmeida@yahoo.com.br

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