Maternidade e Educação pela lógica da escassez

No artigo anterior A Maternidade e As Projeções comentei sobre uma ferramenta que, INFELIZMENTE, ainda vejo sendo muito utilizada para “educar”. Trata-se da comparação, julgamento e da vergonha! No passado, nós fomos educados sob os ditames destes parâmetros, mas isso não precisa se repetir! Afinal, quem aqui não se lembra de ser comparada com a amiguinha, com a prima ou seja lá quem for e ser desmerecida ao final?

Vale ressaltar, que estou fazendo um mergulho ainda mais profundo a respeito do tema merecimento em meu blog Conexão Profunda. Inclusive, já analisei esta questão sob a ótica da maternidade no artigo Merecimento e Maternidade. Contudo, sinto que este é um assunto profundamente enraizado em nossa cultura social e tem inúmeras interligações. Vamos analisar algumas delas!

Necessidade Básica: ser amada(o)

Todos nós, para além das necessidades físicas básicas, temos as necessidade emocionais! Ou seja, todos PRECISAMOS nos sentirmos amados, aprovados, reconhecidos! Aliás, imagino que seja esta a emoção do toque em recém nascidos como destaca a reportagem Contato físico pode melhorar o desenvolvimento cerebral de bebês:

“Para os recém-nascidos, o contato pele a pele com os pais e cuidadores pode ajudar a moldar como seus cérebros respondem ao toque, um sentido necessário para conexões sociais e emocionais, sugere um novo estudo do Nationwide Children’s Hospital in Columbus, nos Estados Unidos, também publicado na revista Current Biology”. Disponível em:https://veja.abril.com.br/saude/contato-fisico-pode-melhorar-o-desenvolvimento-cerebral-de-bebes/

Assim, estudos mostram como o toque, a voz, o carinho e a atenção podem contribuir para o desenvolvimento físico de bebês. Para além disso, já sabemos como todo este envolvimento emocional interfere no comportamento e na capacidade relacional de uma criança!

Quantas vezes a solução de um problemas com criança NÃO passa por um brinquedo novo, uma festa, uma viagem… MAS passa por um olho no olho, brincar junto, conversar? Esta necessidade é humana de sermos olhados, reconhecidos, considerados! Atualmente, percebo isso de forma muito frequente em minha filha: ela quer muito brincar comigo, quer que eu VEJA cada conquista, cada ideia criativa que ela teve! Confesso que às vezes chega a ser sufocante porque NÓS estamos desconectados desta necessidade básica de amor!

Infelizmente, acredito que a maioria de nós estão buscando algum tipo de anestésicos (trabalho, comida, dinheiro, internet) para amenizar a dor de não nos sentirmos amados! Deixo o convite para assistirem a sensacional animação de 8 minutos Alike. Gentilmente, nossos filhos nos convidam para olhar para isso novamente! Minha filha sempre repete com as mãozinhas no meu rosto: “Olha me!”

Amor é atenção e interesse genuíno!

Geralmente, adultos complicam muito as coisas! Tudo o que as crianças querem é atenção e interesse genuíno! Isto não se encontra no shopping, no currículo da babá ou na melhor metodologia educacional! A atenção e interesse que nossos filhos querem e, de fato, PRECISAM é a dos pais! Vale a pena assistir este vídeo de 2minutos que ressalta isso com a lógica dos adultos: Quem você convidaria para jantar?

A forma como exercitamos o amor com nossos filhos será sua grande referência de amor na vida! Ou seja, a forma como exercitamos o amor com nossos filhos será a forma como eles exercitarão o amor consigo mesmos e com o mundo!

Sim, eu sei que é um processo desgastante, especialmente se não estivermos atentas nos abastecendo e nutrindo também!

Controle Social: medo

Uma das coisas que mais me chamou a atenção logo durante a gravidez foi o medo. De forma geral, eu percebia as pessoas com muito medo e isso era estimulado diretamente ou indiretamente em mim! Na verdade, costumo chamar este processo de terrorismo contra grávidas! Afinal, por que alguém em sã consciência precisa enaltecer para uma gestante que serão cortadas 7 camadas de pele numa cesárea? Ou pior, comentar dos inúmeros casos de morte no parto ou de aborto espontâneo que ela ouviu falar?!

Nossa sociedade vive apavorada e as pessoas já perderam completamente o senso, o respeito e o amor para decidir o que dizer e o que calar! Infelizmente, se apareceu no Jornal Nacional é verdade e se ela leu no WhatsApp é notícia! Assim, o medo impera sob a forma de ignorância e de controle social! Lamentavelmente ainda escuto mães falando do “homem do saco” para seus filhos e coisas do gênero e penso: “Meus Deus, até quando?!

Será mesmo que precisamos educar pelo medo, pela comparação, ameaça e julgamento? Será que o caminho não pode ser pelo amor, aceitação e valorização de cada ser em sua singularidade?

Comparação e Julgamento

A comparação e o julgamento são grandes artifícios de controle em nossa sociedade! Isto ocorre porque tememos ficar para trás, tememos a competição e ninguém quer ser considerado um fracasso. Estes são os pilares da sociedade do consumo em que vivemos: competição, comparação e medo!

Certa vez, me perguntaram qual seria a coisa mais desejada por qualquer pessoa! A primeira resposta que me ocorreu foi o dinheiro! Afinal, ele parece justificar tantas escolhas e modos de vida! Entretanto, a pessoa que me fez a pergunta me disse que era sentir-se amado(a)! Sinceramente, eu nunca havia parado para refletir sobre isso, mas fez todo sentido do mundo! Todos queremos e precisamos de amor! A questão é que algumas pessoas pensam que dinheiro, fama ou poder serão os atrativos do amor, do reconhecimento e respeito!

Infelizmente, vejo muitos pais transferindo esta lógica da escassez para o Universo infantil! E isto se manifesta através do quarto do bebê, do enxoval, da escola, da festa de aniversário, dos brinquedos etc. Deste modo, as pessoas parecem querer assegurar que seus filhos terão um lugar privilegiado na hora da comparação! Ao invés disso, que tal pensar na importância da Essência? Que tal respeitar o ritmo de desenvolvimento e as singularidades que nossos pequenos trazem ao mundo? Ao invés de olhar a grama verde do vizinho para se colocar por baixo ou pisar no jardim morto do “adversário”, que tal parar de comparar?! Que tal olhar para dentro e com profundidade?

Vergonha e Mecanismos de Defesa

O livro A Coragem de ser Imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é! conquistou lugar seleto na minha cabeceira! Já avancei as páginas, mas amo tanto que volto a relê-las e cada vez tenho um insight mais importante e profundo no meu processo!

Neste livro a autora Brené Brown menciona suas pesquisas com a vergonha e explicita muitos mecanismos que usamos para nos defender de algo que nos incomoda tanto!

“Vergonha é o sentimento intensamente doloroso ou a experiência de acreditar que somos defeituosos e, portanto, indignos de amor e aceitação”. (Brené Brown: 2016, p.52)

Fato é que vergonha é um sentimento universal e primitivo, por isso nossa tentativa é fugir ao máximo dela! E, segundo a autora, quanto menos falamos de nossa vergonha, mais ela cresce e parece ser apenas nossa!

Muitas vezes, ansiosamente, queremos proteger nossos filhos de experiências de vergonha. Isto porque sabemos como ela é desconfortável e dolorosa! Neste momento, buscamos ensinar ferramentas para que nossos filhos se protejam deste “monstro”. Isto pode acontecer através de dinheiro: “olha, mostra como seu brinquedo é mais legal que o dele!” Ou, através dos pais que vociferam conquistas de seus filhos como se te convidassem para um duelo: “Olha, fala pra tia que você já não usa fralda!”. Enfim, acredito que todos nós conhecemos muito bem este caminho da comparação, julgamento e a tentativa de esquiva da vergonha!

Vamos Construir uma Nova Consciência?

O grande intuito deste artigo é exercitar a tomada de consciência de ações, muito automáticas, que já foram introjetadas em nosso cotidiano como “naturais!” Ou seja, parece que olhar para fora, comparar, julgar e perpetuar a lógica da escassez é a única forma de viver! Mas não é! Esta era uma lógica de sobrevivência, muito utilizada por nossos antepassados, e gratidão por nos trazer até aqui. Entretanto, agora, com mais consciência, podemos assumir as rédeas em nossas mãos e mudar o curso desta realidade!

Que tal construirmos uma cultura da suficiência? Onde somos o melhor que podemos e isso é suficiente, é o bastante! Podemos nos arriscar a viver com ousadia porque não precisamos ter medo da vida, da escassez ou da falta de amor! Que tal se nossos filhos se sentissem tão amados que soubessem como se amar e assim também amar aos outros? Que tal uma lógica baseada no auto-cuidado, na gratidão e na suficiência, usando com sabedoria todos os recursos que temos e desenvolvemos?

Nesta sociedade da suficiência, sabemos o nosso valor e ele está muito além do que fazemos! Somos seres únicos e, por isso não precisamos provar nada para ninguém! Só precisamos desfrutar da vida com sabedoria e plenitude, aprendendo com cada passo. Assim, sem medo de errar, sem medo de sermos autênticos, sem necessidade de pertencer a nada que não seja a nós mesmos, honrando nossa Essência! Este é o verdadeiro compromisso! Leia também Pertencimento: você se pertence ou anda se perdendo por aí?

Os pilares desta nova consciência, para mim, são o merecimento, a suficiência e a plenitude! Se você gostou deste texto, deixo o convite para acompanhar esta jornada de busca por uma nova consciência no site Conexão Profunda!

Gratidão pela leitura! Namastê!

SOBRE A AUTORA

Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda  e siga no instagram gm_conexaoprofunda

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