A batalha, O duelo, A vitória

Ele acabou de dormir. Depois de longas duas horas de tentativa, ele cedeu ao sono e adormeceu em menos de um minuto. E eu? Vivi duas longas horas tentando lidar com os mais diversos sentimentos, tentando domar e fazer as pazes com a minha própria criança interior. Nesse exato momento sinto-me um fracasso, na verdade um misto de frustração com fracasso e talvez um pouco de vergonha e culpa. A cabeça pesada por uma gripe que me pegou e também pelo choro derramado, vivido, sentido, extravasado… aliás, as lágrimas ainda molham meu rosto.

Sinto como se fosse agora, o aperto no peito e na garganta, a fila que as lágrimas faze(ia)m na tentativa de não se derramarem. Inútil, elas desce(ia)m como uma enxurrada, sem aviso prévio, simplesmente escorre(ia)m sem que eu consiga(uisse) contê-las. A memória das vozes que ecoam pelas minhas células, me faz ouvir claramente: “mas já está chorando?!” ou “é muito difícil conversar com você, você sempre chora” ou ainda “deixa pra lá, conversaremos quando você conseguir parar de chorar“.

Pois é, sempre fui chorona, manteiga derretida como dizem por aí sobre pessoas sensíveis, ou simplesmente uma pessoa muito sensível (recentemente descobri através da Ariana Schlösser que existem estudos sobre esse estado aflorado de sensibilidade e me confortei em saber). Certa vez, também, na minha primeira leitura de mapa astral me senti contemplada pela história de Alcione, tenho olhos de Alcione e choro limpa (entendedores, entenderão). E foi assim, depois de me tornar mãe, fui/estou (constantemente) descobrindo um pouco mais sobre mim, sobre essa essência que ainda guarda memórias celulares de uma certa inadequação e, junto com essa sensação, o grande desafio de ouvir, acolher e respeitar o choro do meu filho…

Quanta contradição, não é mesmo? Como é possível eu me sentir desafiada em acolher o choro do meu filho sendo que o que eu mais preciso é que também acolham o meu choro?! Bingo! Mais uma vez aquela história de não poder oferecer aquilo que não recebemos”, e por isso é um desafio!

Mas voltando às duas longas horas que vivi – antes do meu filho, de dois anos e cinco meses, adormecer no horário previsto para a soneca da tarde dele –  tive um verdadeiro duelo interno. Lutava contra todas as vozes que me diziam “esse menino está te afrontando”, “esse menino te deve obediência”, “onde já se viu, bater em você?!”, “não é possível que esse menino não vai dormir”, “você tem que dar limite pra ele”, etc etc etc… E eu poderia continuar listando todas as vozes que ecoavam dentro da minha cabeça flutuante de uma pessoa gripada. Por outro lado, eu ouvia também ecoar “você é a adulta da relação, ele é apenas uma criança tentando fugir do sono”, “respira fundo”, “recita o ho’oponopono”, “extravasa a raiva sem assustar”, “respira fundo outra vez”, “caminha rápido”, “pula”, “pára”, “respira”… E por aí vai o cabo de guerra entre, as dores da minha criança interior e a minha adulta consciente e auto responsável. Numa dessas me vi bufando, soltando fumaça pelo nariz e segurando-o com força para ele não me chutar (olha a minha raiva manifestada pelo comportamento dele aqui 🤦), perguntei se ele precisava ficar sozinho, ele disse que sim e eu agradeci internamente antes que eu pudesse perder o duelo para a minha criança interior ferida. Fui ao banheiro enquanto ele permaneceu no quarto me chamando. Respirei fundo, joguei uma água no rosto e quando me senti mais calma saí do banheiro e me deparei com a seguinte cena: silêncio, ele na cama e todo o papel higiênico de um rolo espalhado na cama enquanto ele fazia bolinhas. Eu quis surtar, confesso, mas me lembrei “é apenas papel higiênico”, “você é a adulta da relação”. Então, deixei ele brincar, tentei fazer um combinado, ele aceitou, eu o ajudei, mas eu olhei no relógio e me dei conta do tempo que estávamos ali e isso me deixou louca por dentro (explico: a soneca tardia, o pai não estaria de noite conosco, eu teria que lidar com qualquer imprevisto sozinha – ou seja ansiedade por antecipação). Ele dizia estar com fome (mas tem feito isso há algumas semanas sempre que o assunto é dormir, então já fico desconfiada), ofereci o que tinha na mochila, ele disse que sim mas não quis comer, chamou pelo pai, tentou abrir a porta e eu fechei trazendo-o de de volta pra cama sem nenhum pingo de delicadeza, tentou outra vez e eu fui perdendo o controle da adulta consciente e auto responsável…

Respirei fundo. Peguei ele no colo e disse “agora vamos descansar“, consegui aos poucos acalmar (aqui vale dizer que eu já tinha tentado de tudo um pouco, ele não quis ouvir as histórias que eu tinha pra contar, não deu ouvidos às minhas explicações lúdicas sobre os sentimentos, enfim, ele simplesmente se recusava a dormir). Ele pediu pra mamar, sentei e ofertei, nesse meio tempo… o pai abriu a porta com um prato cheio de manga, ele sentou e comeu quase tudo (Alerta! culpa materna de ter desconfiado), pediu pra mamar, mamou, fechou os olhos, pediu pra deitar e adormeceu. Fim da história. Só que não…

E não, essa história não é um pedido de ajuda de “como fazer o meu filho dormir”, ela está mais para um desabafo, ela é, na realidade, o retrato da minha busca incessante de maternar de maneira afetuosa, consciente e auto responsável, é um lembrete para eu eu acolher minha criança interior desamparada e inadequada, é um chamado para reforçar o quanto é urgente dar espaço para os sentimentos que nos causam desconforto existirem, virem mas também (e pelamor da Deusa) partirem. Essa experiência-relato me ajuda a entrar em contato com as minhas próprias sombras e iluminá-las, me faz real, me aproxima de cada mãe e mulher que busca a auto responsabilidade como caminho de expansão da consciência, me possibilita diminuir as distâncias que ainda existem entre minha versão adulta e minha versão criança e assim criar um vínculo amoroso, reelaborar as memórias de dor, integrar e me libertar.

As lágrimas se foram, abriram espaço para uma respiração ritmada e consciente. Sinto-me aliviada e as sensações de fracasso, frustração, culpa e vergonha deram lugar para uma sensação de pertencimento, resiliência, auto avaliação e auto cuidado. Sei que esse não foi o primeiro e muito menos o último desafiodessa longa jornada materna, mas nessa batalha, me sinto vitoriosa por me permitir rasgar-me e olhar com consciência e auto responsabilidade para aquilo que à olho nú, nossos olhos não vêem.

Este Texto foi escrito por: Iara Schmidt (participante do ZumZum 6)
Iara é mineira, e como boa sagitariana é uma viajante nata e buscadora de si. Mãe de um aquarianinho nascido em fevereiro de 2016 – fonte do puro amor e inspiração infinita – realizou da gestação ao puerpério ritos de passagem que transformaram – e continuam transformando – sua essência.

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