As Forças Transformadoras do Puerpério

 Sobre as Dores

        Meu primeiro puerpério foi doído. Foi maravilhoso, lindo, lindo! Mas doeu demais. Lembro de me sentir tão frágil, de chorar intermináveis lágrimas com meu bebê no colo.Lembro de gente me tirando ele dos braços, dizendo que ele chorava de calor (e eu sabia que não era de calor). Lembro de ficar paralisada, sem reação, fragilizada….enquanto me tiravam ele do colo sem minha autorização, pra tentarem resolver um choro que só eu podia resolver.

       Lembro de um dia estar amamentando e chorando baixinho no quarto, pra família lá fora não escutar. Chorava em silêncio, até que olhei para o meu bebezinho. Ele tinha feito dois meses. Me olhava quietinho, os olhinhos vidrados em mim…. até que uma lágrima escorreu desses olhinhos, o rosto dele imóvel. Nessa hora, senti a primeira força do puerpério. Basta! Levantei decidida. Chamei meu marido: “- vamos embora agora”. Peguei a malinha do bebê e fui arrumando minhas coisas. Ele não perguntou nada, tamanha era a minha certeza. Levantou-se e pois se arrumar as coisas.

        Meu marido é um homem maravilhoso, mas lembro de nunca ter sentido tamanha solidão.

Quem está cuidando de você?

Uma vez uma tia avó me telefonoupara dar os parabéns pelo bebê. E aquele papo básico de resposta pronta: Como está o bebê? Tá dormindo? Mama bem? Etc, etc…  Eu já estava até acostumada a perguntarem só do bebê, até que ela me disse: ” – E você, filha? Quem é que está cuidando de você?” Silêncio. Meus olhos encheram d’água. Eu não sabia que precisava de cuidados. Como assim? Sou eu quem cuida… Desliguei o telefone e chorei loucamente. Eu precisava de cuidados! Eu precisava desesperadamente de cuidados. Mas não havia ninguém disponível….

       É uma dor que pega a gente desprevenida. Lembro de não saber porque doía, mas que todas as esferas do meu ser ardiam como feridas se abrindo, cada hora em um lugar. “Seu filho bebê anjo! Todo bonzinho! Dorme a noite toda. Não entendo porque você está tão mal….você deveria agradecer por esse bebê.” E você se sente toda errada porque tem um bebê anjo no colo e sente vontade de chorar o tempo todo. Não é que eu não agradecia…. agradecia TODOS os dias. E por isso mesmo estava perdida nesse sentimento. Eu tinha no colo o bebê que havia pedido a Deus, um companheiro que me amava, um canto nosso…. Eu não tinha o direito de me sentir assim. Ao menos era o que eu pensava. E me culpava por minha própria dor.
       Chorava sozinha. Meu marido dormindo na sala, vendo tv noites e noites. Ele trabalhava demais. Mas eu tinha raiva porque precisava de um abraço. Eu só queria um abraço. Eu só queria um colo nas vezes em que sentava na cama o mais longe possível da janela, com medo de fazer uma bobagem. E o abraço não vinha. “Como ele pode dormir? Como ele pode ficar fazendo graça com bebê se eu estou assim? Como ele pode fingir que nada acontece comigo? Como ele pode não me abraçar se sabe que estou chorando no quarto por horas?” Esses sentimentos todos eram insuportáveis e acabei me desconectando deles. Era a única coisa que eu podia fazer. E com isso, também me afastei um pouco do meu marido. Sempre fomos um casal cheio de amor. Mas as certezas se apagavam em meu coração.

A força transformadora da verdade…

       Depois de uns 4 anos, engravidei de novo. Amei estar grávida, ambos queríamos muito um outro bebê. Mas estávamos num momento ruim de casal, brigando o tempo todo. Fiquei pensando por muitos dias que não queria passar nada daquela solidão de novo. E de alguma forma, eu o culpava por isso. Como poderia fazer para ele não me abandonar de novo? Não podia força-lo. Cada um tem seus próprios sentimentos e se ele não quisesse me acolher, não haveria nada que eu pudesse fazer. Fiquei remoendo isso um bom tempo, até que o medo ficou insuportável. Tomei coragem e falei com ele. Foi muito difícil, mas fui ganhando força com minha própria verdade. E contei tudo. E disse que nunca mais queria passar por aquilo de novo. Se eu passasse por aquilo de novo, não sei se conseguiria ficar conectada a ele. Eu não queria fazer nenhum tipo de chantagem emocional, na verdade estava apavorada.

       Mas cresci aprendendo que a gente não deve se expor tanto num relacionamento. Aprendi que quando a gente se põe frágil, o mundo passa por cima, os homens não te valorizam, as pessoas se cansam de você. Então fiquei esperando que ele revidasse. Ou pior, muito pior, que ele me rejeitasse. Mas ele nem se defendeu. Ficou quieto, bem quieto. Depois de alguns segundos, me disse: “eu só fico triste que você não confiou em mim para falar isso antes e ficou sentindo isso o tempo todo. Não vai ser igual dessa vez, mas fala! Você precisa falar as coisas.” E me abraçou.

       Curioso como a gente, às vezes, imagina que os outros têm obrigação de saber o que se passa conosco. Ou que são responsáveis pelo que a gente sente. Algo dentro de mim o culpava pela minha dor. Foi muito bom perceber a força que tem você simplesmente falar o que sente. Ao tomar coragem de falar, me senti forte para aceitar que ele me rejeitasse. E ele se sentiu agradecido por eu abrir esse canal. Ele teve espaço pra contar como foi com ele. Eu estava tão imersa em minha dor que não consegui vislumbrar a dor dele. A verdade é que nem eu sabia bem o que estava sentindo, e ao colocar pra fora, fui ganhando clareza. Percebi que essa solidão já estava transformada. E percebi o quanto pra ele também foi solidão e dor. O quanto a criança dele também gritou em silêncio e eu não ouvi.

       Quantas vezes me calei, me enchendo de raiva porque ele dormia na sala enquanto eu chorava. E dentro da cabecinha da minha criança ferida, eu estava sendo ignorada. De novo, meus sentimentos não eram importantes. Mas ele não sabia que eu estava chorando, ele não sabia de quase nada! Eu não falava. E ele estava no processo dele mesmo, trabalhando exaustivamente, e batalhando pra vencer sua própria dor. Apagava em frente a tv para manter sua própria sanidade. Cantarolava após uma discussão para se acalmar e poder manter um clima bom na casa, e não pra afrontar meus sentimentos..

O primeiro puerpério doeu absurdamente e eu agradeço por essa dor. E agradeço por ter tido coragem. Eu tive um bebê anjo, que quase não chorava e dormia das 7 às 7. Eu sempre sabia o que fazer para acalmar e fortalecer esse bebê. Hoje eu tenho um bebê bem mais desafiador, tudo está bem mais difícil no dia a dia. Muitas vezes me sinto perdida, não sabendo o que é melhor para esse bebê. Mas não me sinto só com minhas dores. Pude dividi-las com quem mais importava, e juntos achamos caminhos para lidar com isso. Por muitas vezes, ainda tenho que deixar bem claro que eu não quero uma solução. Não quero um conselho. Não quero uma opinião. Tenho que deixar claro que eu só quero um abraço. Um abraço que dure mais de 20 segundos. Um abraço para eu poder me soltar ali. Ou um colo, um ninho, um travesseiro nos braços dele.

         Por que isso ainda não é óbvio para ele e meu erro foi achar que era, ou que ele deveria adivinhar. Gostaria muito que ele sempre adivinhasse e hoje ele percebe muito mais quando as coisas começam a sair dos eixos dentro de mim. Mas a verdade é que quem está dentro da gente é só a gente mesmo e só a gente pode botar para fora. Demorei 5 anos para descobrir isso, começar a curar meu relacionamento e essa criança ferida que gritou tanto. Então, agradeço de novo por essas dores. Elas me devolveram o amor por meu companheiro, um amor muito mais inteiro.
         Como as dores do puerpério são transformadoras! Às vezes acho que nada nesse mundo tem tanto poder quanto as dores de um puerpério. Ainda que ele dure 5 anos…

Este texto foi escrito Chantal Tambara, mãe de dois, dentista e participante da turma 6 do Zum Zum de Mães.

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