Neste ponto já temos uma questão que sempre me intrigou: ser como penso que sou ou como os outros esperam que eu seja?!
O papel da mulher, por muito tempo, foi considerado o de casar, ter filhos e cuidar da casa. Esta era a imagem das mulheres de antigamente, da minha avó, da minha mãe… As mulheres da minha família adotaram um padrão tradicional de comportamento. Ou seja, foram o que se esperava delas! Entretanto, sinto na fala da minha mãe, tia e várias outras mulheres, uma certa revolta, uma raiva mal reprimida deste destino! Parece mais uma sina do que um destino escolhido por elas.
Desta forma, isso era tudo o que minha mãe não desejava para mim! Lembro bem das frases: “você precisa estudar para ser uma mulher independente, autônoma com seu próprio dinheiro, senhora do seu destino!”
Por muito tempo eu fiquei perseguindo este objetivo: ser a mulher que minha mãe esperava que eu fosse! Eu sentia que ela havia feito sacrifícios, havia abdicado de sua própria vida para que eu pudesse ser melhor e mais feliz que ela, de alguma forma!
Por algum tempo busquei na carreira acadêmica esta realização. Mas fui sentindo uma profunda solidão e desconexão com outras coisas que eu desejava. Então comecei a dar aulas, me aproximei afetivamente de pessoas, de crianças e a vida foi me levando por outros caminhos. A mulher independente e poderosa, que minha mãe sonhava, foi se transformando numa pessoa mais voltada para o autoconhecimento, autodesenvolvimento.
Eu fui me desligando aos poucos desta identidade que designaram para mim e fui construindo minha própria identidade feminina.
Há muitas cobranças para que a mulher tenha filhos, para que seja desta ou daquela forma! Mas eu decidi me abrir à possibilidade de gerar um filho de forma muito espontânea, intuitiva, quase inocente! Eu cismava que teria dificuldades para engravidar, e fiquei pasma quando soube da gravidez com 8 semanas! Só acreditei com o ultrasson!
Durante a gestação parece que as pessoas esperavam que eu estivesse num comercial de margarina… Eu tinha que estar sorridente, calma, sentindo coisas boas para não passar nada de ruim para a bebê! E como se faz isso? Eu SENTIA MUITA coisa! Dificuldades de adaptação, medo do futuro, desconforto com o presente… Sem contar meu cenário profissional que andava caótico por algumas questões à parte!
Ali percebi “na pele” que a vida tinha uma engrenagem que eu desconhecia e que girava independente da minha vontade ou estado de espírito! Meu corpo tinha novas necessidades e aceitar isso foi um processo que foi ganhando consistência. Quando consegui me adaptar, a gestação já estava acabando e era hora de pensar na chegada da bebê, algo que eu nem conseguia pensar!
Pasmem, mas eu nunca tinha sequer ouvido falar em puerpério, nem baby blues! Eu tinha em minha memória a famosa e temida “depressão pós-parto”. Lembro das mulheres da minha família mencionando o assunto bastante preocupadas. Então, tudo o que eu temia era a depressão! Como dar vazão à imensa tristeza que eu sentia e não ser taxada de deprimida?! Por que eu estava tão triste se tinha a coisinha mais preciosa do mundo nos meus braços?
Ali descobri que meu mundo estava estilhaçado! Eu não conseguia entender meu corpo, minha mente, meus sentimentos… Estava TUDO absolutamente fora do lugar! Era como se um furacão tivesse passado por mim e eu não reconhecesse nada nem por dentro nem por fora! Nestes momentos, o único lugar que eu encontrava algum conforto era embaixo do chuveiro. Mas logo eu escutava um choro e precisava reassumir o papel que esperavam de mim: a mãe amorosa!
Eu senti que me perdi de mim, do mundo, das pessoas… Estava tudo estranho e havia muita responsabilidade sobre meus ombros, muitas expectativas, muita cobrança! Talvez, na verdade, com certeza a maior cobrança do mundo era a minha!
Lembro do pavor que eu tinha de ir na consulta com a pediatra! Ela fazia umas caras, eu me sentia a pessoa mais desajeitada do mundo para trocar minha bebê na frente dela! Tudo o que eu esperava era um ok, uma validação, mas era uma pediatra de convênio bem econômica com as palavras! Outro capítulo à parte é o lance da amamentação, este vale um post exclusivo! Mas eu lembro do pânico que tinha de que a bebê quisesse mamar quando eu estivesse em público.
Escrevi um post no meu blog Conexão Profunda com este título, porque ele sintetiza o que descobri na minha maternidade. Certamente iniciei uma jornada de profunda consciência da minha capacidade e intensidade para sentir! Depois de um período de estranhamento de mim mesma e daquele serzinho tão puro em meus braços, fui me apropriando de minha capacidade de SENTIR!
Acredito que àquela tristeza imensa que eu senti no puerpério foi a tristeza que eu senti durante toda a minha vida. Nossa cultura não nos educou para sentir, mas para esconder, fingir que… A maternidade que eu vivo não me permite usar máscaras! Ela me exige muita coragem para olhar minhas feridas de perto!
Quando conseguimos silenciar as milhares de vozes à nossa volta, conseguimos dar espaço para escutar nossa voz interna. Temos uma Sabedoria Interna, que é aguçada com a maternidade! No entanto, estamos tão preocupadas em corresponder à identidade que esperam de nós ou àquela que a gente mesmo fantasia, que não conseguimos abrir espaço. É preciso silêncio e conexão profunda para acessar essa Sabedoria!
Não é exagero dizer que vivemos um certo luto no puerpério! Estamos enterrando uma mulher e a partir destas cinzas uma nova mulher está sendo gerada! Vejo muitas mulheres desesperadas para voltar a ser quem eram antes da maternidade: seja com o corpo, cabelo, pele, trabalho… Tenho a sensação de que a vontade é dizer: Tive filho, MAS sou a mesma de antes! Não, não somos! E nunca mais seremos! Demorei muito para aceitar isso, mas quando aceitei foi libertador!
Os filhos nos permitem um contato com a impermanência das coisas, algo que vivemos negando! Nós não somos, nós estamos! Viver agarrada à uma identidade é uma forma de perder a experiência mágica de fluir com a vida! O que pode ser mais mágico e poderoso que o desenvolvimento de um novo ser humano? Na observação de cada fase, cada conquista, vejo a magia da vida, o poder de Deus, Universo ou seja lá o nome que você queira dar… Trazer um novo ser humano ao mundo é uma imensa responsabilidade, mas também uma oportunidade para reavaliar o que realmente é importante em nossa vida!
Acredito que seja válido lembrar das coisas que sempre gostei de fazer para me sentir bem: tomar chá, andar à cavalo, tomar banho de mar e cachoeira, fazer trilha… Isso me coloca em conexão profunda comigo mesma porque faz parte da minha Essência! Mas é preciso lembrar que minha maternidade me trouxe novos cenários, novas prioridades e um talento especial de amar, que jamais acessei em outros tempos.
Como a Fênix renasce das cinzas: convido a todas à se apropriarem de Sua Essência (a identidade que sempre tiveram de si mesmas) e integrarem com a mãe que estão hoje!
Estamos sempre fazendo o melhor que podemos com as condições que temos! Ame a mulher que você está agora! Assuma sua responsabilidade sobre esta mulher!
Certamente você nota muitas coisas que quer mudar… Mas que tal começar reconhecendo o que você gosta nesta mulher que você vê no espelho? Olhe para si mesma com mais carinho, compaixão e compreensão! Dê a si mesma o colo que precisa, o apoio e o conselho que deseja! Silencie as vozes externas e mande seu crítico julgador interno ficar calado, dê espaço interno para sua voz amorosa!
Assuma a sua responsabilidade por suas escolhas! E saiba que é a partir delas que todo o resto vai se desenvolvendo! Aos poucos, mas de maneira firme e consistente vá tomando mais e mais consciência!
Independente de qualquer identidade ou papel que definam para você, o importante é que VOCÊ protagonize sua própria vida! Não permita que os outros digam quem você deve ser, ESCOLHA tornar-se a pessoa que você acredita que veio para ser!
Para inspirar deixo para reflexão um trecho do livro Mulheres Visíveis, Mães invisíveis de Laura Gutman:
“Vivemos em uma época especial talvez porque – em plena crise de identidade social – cabe às mulheres segurar as rédeas do pensamento global, dos movimentos espirituais e da ação criativa. Somos nós que teremos de assumir a recente revalorização da energia feminina integrada. Espero que sejamos capazes de abandonar o autoritarismo desgastado e as ideias preconcebidas do passado e consigamos pular no vazio, mesmo sem saber o que nos espera do outro lado.
Abandonar os preconceitos, parar de repetir as mesmas frases que temos ouvido exaustivamente, nos atrever a pensar em liberdade – cada uma a sua maneira e com o compromisso emocional de procurar a si mesma de acordo com a realidade interior – é, exatamente, o que nos permitirá chegar a conclusões, a acertos, a propostas e a desafios diferentes. E assim, talvez, elevar o pensamento em prol das relações amorosas, esperando conquistar um maior conforto nos intercâmbios pessoais”. (p.9)
Que saibamos aproveitar este espaço para nos inspirar, apropriar de nossas conquistas e estar mais cientes sobre nossos desafios! Gratidão pela leitura! Namastê!
Este texto foi escrito por Gisele Mendonça, cientista social, mestre em sociologia, participante do Zum Zum de Mães e, principalmente, MÃE! Tem um blog chamado Conexão Profunda, visite www.conexaoprofunda.com.br e curta a página no facebook Conexão Profunda